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Entenda porque o SUS funciona da maneira como funciona e porque a privatização dos serviços de saúde no Brasil é uma questão de dignidade e respeito aos pacientes.

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Eis o que as pessoas não entendem sobre os postos de saúde: é impossível atender uma demanda infinita, que é o que você tem quando os serviços de saúde são “de graça”. Como você atende a uma demanda que é infinita e, por definição, impossível de suprir? A única maneira de fazê-lo é diminuir a demanda artificialmente, distribuindo-a ao longo do tempo por meio de agendamento, filas, senhas, burocracia, etc. Se fosse permitido às pessoas acudir aos postos de saúde e hospitais no exato instante em que necessitam de atenção médica, o sistema inteiro de saúde pública entraria em colapso, tal como o sistema bancário entraria em colapso no caso de uma “corrida aos bancos”. Uma demana infinita só pode ser suprida se a atenção médica for distribuída ao longo de uma linha de tempo igualmente infinita. É assim que o sistema pode atender a todo mundo… bem, pelo menos a todo mundo que sobrevive à espera.

Agendar consultas para daqui 7 meses, “fichas” que limitam o número de atendimentos diários, médicos que não receitam os remédios que o paciente necessita. Tudo isto funciona como um “freio”, um mecanismo de defesa para impedir que o sistema entre em colapso da noite para o dia. O sistema público de saúde sempre funcionará assim porque essa é a única maneira possível dele “funcionar”. O nosso sistema de saúde é como um paciente terminal submetido à distanásia. Só está vivo por causa deste monte de aparelhos: se não houvesse fila, não houvesse senha, não houvesse burocracia, o estoque de medicamentos esgotaria no primeiro dia e os médicos e enfermeiros teriam de trabalhar as 24h do dia para ainda assim não conseguir atender a população. Então não culpe o postinho que só dá “10 fichas” para atendimento no dia, o hospital que não interna o paciente a menos que ele esteja morrendo, o médico que não receita os remédios necessários. O sistema público de saúde está fadado a funcionar assim para sempre: os seus funcionários só seguem as regras que permitem ao sistema sobreviver.

Mas como se resolve o problema? Pedir “mais recursos para a saúde” não resolve porque nenhuma quantidade de recursos é suficiente para atender a uma demanda que é infinita e impossível de suprir em tempo hábil por definição. Um ligeiro aumento na qualidade do atendimento em um mês poderia significar um aumento exponencial da demanda no mês seguinte, reestabelecendo ao sistema o seu estado de equilíbrio. O que necessitamos é uma reforma completa do sistema de saúde, tirar do Estado o papel de administrador de hospitais e permitir o florescimento do setor privado, desde médicos autônomos a grandes complexos hospitalares. Só então a demanda, agora melhor distribuída entre os agentes de um sistema de saúde economicamente sustentável, poderá ser atendida em tempo hábil, de maneira digna e ética.