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Enquanto os latinoamericanos demonstram a sua incontinência opiniática nas redes sociais quanto ao tema da crise migratória na Europa, quase ninguém parece notar um fenômeno parecido ocorrendo aqui mesmo.

balseros cubanos

Balseros cubanos tentam fugir do país usando balsas improvisadas. Mais de 18.000 pessoas já morreram tentando fazer a travessia em direção aos EUA.

Recentemente, o ditador Nicolás Maduro ordenou o fechamento da fronteira colombo-venezuelana. Sob a desculpa esfarrapada de impedir o contrabando de gasolina, a medida visava impedir que venezuelanos passassem ao outro lado da fronteira em busca de alimentos. Além disso, o governo bolivariano ordenou deportação imediata de quase quatrocentos colombianos que viviam na zona fronteiriça, que tiveram de fugir praticamente com a roupa do corpo e o que pudessem carregar nas mãos [1] enquanto suas casas eram destruídas. Este episódio emblemático é apenas uma amostra do que vivem milhares de latinoamericanos que, todos os anos, deixam o seu país de origem para fugir da miséria, da violência e da tirania.

Guerra, ditadura e miséria: principais causas

Vejamos mais a fundo a situação da Colômbia. O país vive um conflito armado há quase 60 anos ininterruptos, período este em que teve de conviver também com paramilitarismo e frequentes ataques terroristas. Só o conflito armado com paramilitares e terroristas de extrema-esquerda já deixou um saldo de quase 400 mil refugiados no exterior, dos quais 220 mil se refugiaram no Equador [2]. Há ainda os refugiados internos (desplazados), aqueles que migraram das zonas de conflito para outras regiões do país. Estimativas conservadoras apontam que há 4 milhões deles, enquanto outras podem chegar a quase 7 milhões [3]. Agora que o governo colombiano está chegando a um acordo de paz com as FARC, uma das principais preocupações para o pós-conflito é a restituição de terras e o reassentamento destes refugiados.

Já há décadas também milhares de cubanos arriscam as vidas no Mar do Caribe para fugir da ditadura, da violência e da pobreza do seu país e tentar uma vida melhor nos EUA e nos vizinhos centro e sul-americanos. Muitos deles tentam abandonar a ilha em balsas improvisadas, motivo pelo qual foram apelidados de balseros. Nos últimos anos, a Guarda Costeira dos EUA interceptou mais de 70.000 deles. Estima-se que um de cada quatro balseros morre na tentativa de chegar aos EUA, e que portanto mais de 18.000 pessoas tenham morrido nesta situação [4]. Este número não inclui aqueles que tentam desembarcar em outros países da região.

Desde o terremoto de 2010 no Haiti, os haitianos também tem migrado em massa, especialmente para a República Dominicana e o Brasil. A vizinha Rep. Dominicana abriga uma população de mais de 450 mil imigrantes haitianos [5]. No Brasil, a população de refugiados haitianos supera os 43 mil [6]. A maioria deles é do sexo masculino e busca no exterior uma oportunidade de trabalhar para manter a sua família no Haiti.

Nem todos migram por causa de desastres naturais e governamentais, entretanto. A simples falta de perspectiva pode levar os cidadãos de um país a flertar com a idéia de emigrar. De 2006 a 2014, mais de 2,5 milhões de mexicanos migraram para os Estados Unidos [7]. Apesar da maioria não entrar na condição de refugiado, muitos optam por entrar ilegalmente no país. Os motivos mais comuns são a busca de melhores condições de vida e mais oportunidades de trabalho.

Agora, voltando à Venezuela. Desde a ascensão do ditador Hugo Chávez ao poder e a conversão do país em uma ditadura socialista, também os seus cidadãos tomaram a mesma decisão dos cubanos: deixar o país [8]. Mais de 1,8 milhão de venezuelanos emigraram desde 1998 a 2013, em direção aos EUA, à Europa e países vizinhos como Colômbia e Panamá [9]. O fenômeno, batizado de “Diáspora bolivariana” pelo jornalista venezuelano Francisco Olivares, é provocado por uma série de fatores: falta de liberdade, poucas oportunidades profissionais, risco de perseguição política, aumento da criminalidade e a forte crise econômica do país.

Este fenômeno tende a aumentar

Com a declaração de uma nova ditadura socialista na Nicarágua, podemos prever que também os nicaragüenses deixarão em massa o seu país em busca de ares mais respiráveis nos vizinhos da região, nos EUA ou na Europa. As migrações massivas causadas por ditaduras, guerras civis, desastres naturais e crises econômicas nos países da América Latina e o Caribe compõem um fenômeno cujas dimensões ainda não foram medidos em sua totalidade.

Além de famílias divididas, o fenômeno gera perdas (ainda não calculadas e provavlmente incalculáveis) em termos de capital humano, mão-de-obra qualificada e investimento interno para todos os países da região.


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Referências e Fontes

Última consulta: 13 de agosto de 2016.
[1]. El Tiempo – Atropellos, humillaciones y maltrato denuncian colombianos en frontera.
[2]. El Tiempo – Especial Refugiados, Migración y Desplazamiento de Colombianos.
[3]. El Espectador – Colombia encabeza listado de países con mayor número de desplazados.
[4]. El Nuevo Herald – Balseros cubanos muertos, los desaparecidos.
[5]. Listín Diario – Determinan que en RD residen 524 mil 632 inmigrantes de los que el 87.3% son haitianos.
[6]. Folha de São Paulo – Brasil Concederá status de residente permanente a 44 mil haitianos.
[7]. Migration Policy Institute – Mexican Immigrants in the United States.
[8]. The Wall Street Journal – Venezuelan Diaspora Booms Under Chávez.
[9]. Diario La Nación – PGA Group estima que 1,8 millones de venezolanos han emigrado en 10 años.