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Nesta segunda parte da série “Guerra Muito Fria”, abordaremos as agressões soviéticas aos Países Bálticos e à Finlândia. Como vimos no artigo anterior, logo após dividir a Polônia com o III Reich, a União Soviética submeteu os Países Bálticos por meio da assinatura de “Tratados de Assistência Mútua”. Porém, a Finlândia não aceitou assinar um tratado similar e a União Soviética invadiu o país para poder levar a cabo o estabelecido no Pacto Ribbentrop-Molotov.

I. Assalto à Finlândia: Guerra de Inverno
Para forjar um pretexto de guerra, a União Soviética recorreu ao mesmo expediente dos nazistas na Polônia: um ataque de bandeira falsa. Em 26 de novembro de 1939, uma unidade da NKVD – a polícia política soviética, contraparte da Gestapo alemã – bombardeou por terra o vilarejo russo de Mainila. O governo soviético então culpou os finlandeses pelo incidente, anulou o Tratado de Não-Agressão Fino-Soviético de 1932 e ordenou a invasão da Finlândia, que aconteceu em 30 de novembro de 1939. O ataque, considerado ilegal pela Liga das Nações, rendeu a expulsão da União Soviética desta entidade.

Nesta época os países Bálticos, ainda que não estivessem ocupados, já haviam assinado tratados de “assistência mútua” com os soviéticos, de modo que qualquer apoio vindo da sua antiga parceira Estônia era inviável para a Finlândia. O país não podia contar com ajuda internacional. Mesmo assim, recebeu apoio de voluntários suecos, dinamarqueses, noruegueses, estonianos, húngaros, italianos e fino-americanos, totalizando mais de 10.000 homens.

A expectativa soviética, apoiada pelo seu general Kliment Voroshilov, era de uma vitória total sobre a Finlândia em questão de semanas. Outros líderes militares mais prudentes e conscientes das dificuldades que a geografia acidentada da Finlândia impunha, recomendavam uma melhor preparação. Some-se a isso o fato de que os expurgos estalinistas ocorridos entre 1936 e 1938 haviam acabado com mais da metade dos oficiais qualificados das forças armadas soviéticas. Mesmo assim, Stalin preferiu atacar.

Tanques soviéticos destruídos

Tanques soviéticos destruídos em território finlandês. Provavelmente do modelo BT-7.

As forças soviéticas no início da invasão consistiam de 21 divisões, que somavam cerca de 450.000 homens. A Finlândia, para sua defesa, dispunha de não mais que 340.000 homens agrupados em 10 divisões, e carecia de equipamento fundamental para combater os soviéticos, tal como tanques, armamento anti-tanque, rádios de comunicação, peças e munição de artilharia e aviões. Os finlandeses, para evitar esgotar seus suprimentos, tiveram de capturar e utilizar equipamento soviético, desde munições a veículos blindados.

O inverno de 1939-1940 foi excepcionalmente gelado. A Carélia, nesta época, registrou um recorde de temperatura: -43º. O frio, a neve, as florestas e as longas horas de escuridão eram fatores favoráveis para os finlandeses, que usavam roupa camuflada para a neve e deslocavam-se rapidamente usando esquis durante suas operações de guerrilha. Os soviéticos, por outro lado, só camuflaram seu equipamento para a neve em janeiro de 1940. Apesar de disporem de roupas para o inverno, isto não se aplicava a todas as unidades, e muitos soldados soviéticos – as vezes 10% de toda a unidade -morriam congelados.

Finlandia - tropas esquiadoras

Tropas esquiadoras da Finlândia. Armadas, provavelmente, com rifles Mosin-Nagant M1891 de 7,62 mm.

As primeiras batalhas ocorreram no Istmo da Carélia, na chamada Linha Mannerheim (batizada em homenagem ao comandante-chefe das forças armadas finlandesas). Nesta linha de defesa, as tropas soviéticas superavam as finlandesas na proporção de 2 para 1. Adicionalmente, os finlandeses colocaram 21.000 homens para atrasar ou fustigar as forças soviéticas antes de que estas chegassem à Linha Mannerheim. A princípio, os tanques soviéticos foram um problema devido à falta de armamento anti-tanque e desconhecimento de táticas para combatê-los. Porém, os finlandeses logo aprenderam a lidar com eles de maneira simples: troncos e pés-de-cabra imobilizavam as rodas do veículo, e o coquetel molotov era uma alternativa barata e eficiente para destruí-los. Em 6 de dezembro, todas as forças finlandesas se haviam retirado para a Linha Mannerheim. Os soviéticos tentaram avançar sobre a Linha Mannerheim com uma, duas, três divisões ao mesmo tempo, mas eram repelidos uma e outra vez. Um ataque normalmente durava uma hora e deixava mil soldados soviéticos mortos e 27 tanques inutilizados.

Frustrado com os resultados do primeiro mês da invasão, Stalin substituiu Kliment Voroshilov por Semyon Timoshenko no comando da operação em 7 de janeiro. Foi neste período que o número de divisões soviéticas subiu de 10 para 25, e outros 600.000 soldados foram levados para o combate. Houve também uma mudança de tática, concentrando as forças em uma área de 16km de extensão na Linha Mannerheim. Os soviéticos passaram a bombardear incessantemente as fortificações, para exaurir as defesas da Linha antes de investir novamente. Os finlandeses foram forçados a uma exaustiva guerra de trincheiras e, com escassez de munição, evitavam disparar contra alvos menos ameaçadores. Depois de dez dias de intenso bombardeio, os soviéticos puderam penetrar a Linha na segunda batalha de Summa.

Guerra de Inverno - ninho de metralhadora

Soldados finlandeses operam uma metralhadora M/32-33 de 7.62 mm.

Neste momento final do conflito, os soviéticos contavam com 460.000 homens, 3.000 tanques e mais de 1.000 aviões no Istmo da Carélia, contra 150.000 homens finlandeses agrupados em 8 divisões. Uma a uma, as resistências finlandesas começavam a cair. Em 12 de fevereiro de 1940, os finlandeses negociaram um acordo de paz com os soviéticos, mediado pelos suecos, mas a negociação continuaria sob pressão militar soviética até o mês de março. A esperada intervenção franco-britânica não chegaria: Noruega e Suécia, então neutras, negaram o direito de passagem às tropas aliadas. O armistício foi assinado em Moscou, no dia 12 de março. Os finlandeses cederam os territórios das ilhas do Golfo da Finlândia, do Istmo da Carélia e da península de Rybachy e “emprestaram” o porto de Hanko aos soviéticos.

Apesar da vitória, a operação soviética na Finlândia foi considerada um fiasco. Ignorando o conselho de militares experientes como Grigory Zhukov, a União Soviética precisou de 3 meses e empregou 1 milhão de homens para fazer aquilo que Zhukov havia feito na Mongólia em dez dias com menos de 100 mil soldados. A defesa finlandesa foi encarniçada: ao final do conflito, que durou 3 meses e uma semana, as baixas soviéticas superavam numa proporção de 4 para 1 as baixas finlandesas.

II. Invasão, ocupação militar e sovietização do Báltico
Como vimos anteriormente, a União Soviética impôs aos Países Bálticos “Tratados de Assistência Mútua”, os quais punham em marcha a divisão que esta acordou com o III Reich no Pacto Molotov-Ribbentrop. Cada um destes tratados garantia à União Soviética o direito de estabelecer bases militares e estacionar ou transitar suas tropas no território destes países.

O primeiro país a ceder – em 15 de junho de 1940 – foi a Lituânia, que acedeu a que os soviéticos estabelecessem quatro bases militares em Alytus, Prienai, Gaiziunai e Naujoji Vilnia, somando mais de 18.000 tropas. Na época, as tropas lituanas não excediam as 22.500. Aeronaves soviéticas seriam estacionadas em Kirtimais (próxima a Vilnius) enquanto os soviéticos construíam suas bases aéreas em Alytus e Gaiziunai. O presidente Antanas Smetona propôs resistência armada, mas o governo e os militares lituanos recusaram a idéia. Smetona abdicou, exilou-se na Alemanha e logo na Suíça. Seu cargo foi ocupado por Antanas Merkys, o qual foi rapidamente substituído pelo diplomata soviético Vladimir Dekanozov. Dekanozov havia sido enviado para supervisionar o estabelecimento do Estado-fantoche da República Socialista Soviética Lituana e garantir a ocupação militar do país. Neste processo, foi ajudado pelos militantes do Partido Comunista Lituano.

Parada militar comemorando a anexação da Letônia à URSS

Parada militar celebrando a anexação da Letônia à União Soviética.

Em 16 de junho do mesmo ano, Letônia e Estônia também receberam ultimatos. Na Estônia, os soviéticos estabeleceram bases navais nas ilhas de Saare Maa e Hiiu Maa e na cidade portuária de Paldiski, além de aeródromos. Na Letônia, estabeleceram bases navais e aeródromos nas cidades de Liepaja e Ventspils, além de obter autorização para construir uma base de artilharia costeira no litoral do Estreito de Irbes, entre Ventspils e Pitrags. Andrey Vushinksy e Andrei Zhdanov foram os responsáveis pelo estabelecimento de Estados-fantoche na Letônia e na Estônia, respectivamente e, novamente, com apoio de militantes comunistas locais e outros grupos de extrema-esquerda. Em dois dias, todos os países Bálticos estavam militarmente ocupados.  Os presidentes depostos da Estônia (Konstantin Päts) e da Letônia (Kārlis Ulmanis) foram então presos e deportados para a Sibéria.

Em todos estes países, logo após ou mesmo durante a ocupação militar soviética, os comunistas locais organizaram eleições fraudulentas sob “supervisão” da União Soviética. O propósito destas eleições, nas quais os eleitores votaram por uma lista fechada e a oposição estava proibida de participar, era estabelecer “assembléias populares”, um governo interino e transicional rumo à integração à União Soviética. Uma vez estabelecidas estas assembléias, sua primeira reunião teve um único objetivo: aprovar a integração dos Países Bálticos à União Soviética. O governo soviético aceitou a “petição” dos três países em agosto, dando assim uma aparência de legalidade à ocupação militar do Báltico.

Juuniküüditamine - deportação de Junho 1941 - Estônia

Um dos poucos registros fotográficos da Deportação de Junho. Estônia, junho de 1941.

Uma vez estabelecida a hegemonia na região, a União Soviética deu início ao processo de sovietização destes países, e fortaleceu suas defesas militares na região, ampliando a Linha Molotov em direção ao norte. Unidades da NKVD, lideradas por Ivan Serov, encarceraram a mais de 15.000 “elementos hostis” e suas famílias. Prisões e deportações massivas se intensificaram: só no primeiro ano de ocupação soviética, de junho de 1940 a junho de 1941, o número de pessoas executadas, conscritas ou deportadas para campos de trabalho forçado é estimado em pelo menos 124.467: 59.732 na Estônia, 34.250 na Letônia e 30.485 na Lituânia. O número inclui mais de 90 presos políticos, entre ex-chefes de Estado, primeiros-ministros e ministros. Paulatinamente, toda a sociedade báltica passaria por um processo de sovietização: fim da propriedade privada, coletivização forçada de terras, censura e controle da imprensa, Estado policial, repressão de toda e qualquer liberdade religiosa e, claro, deportações massivas para campos de trabalho forçado. A logística das deportações massivas dos soviéticos só seria interrompida temporariamente porque o III Reich, rompendo o pacto nazi-soviético, atacou a União Soviética em 22 de junho de 1941.


 

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