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por Anselmo Heidrich[ii]

 

 

A dita geografia moderna nem sempre foi um “puxadinho marxista”. Enquanto cátedra acadêmica, a partir do século XIX na Alemanha, foi filha do casamento entre história e naturalismo. A geografia deve muito a estudiosos como Karl Ritter e Alexander Von Humboldt, cujos esforços para integrar os campos de conhecimento em que eram especialistas levou a sua afirmação acadêmica. Mais tarde, na virada do século, Friedrich Ratzel enfatizaria a visão que mais tarde chamaríamos de determinismo físico ou geográfico, na qual a natureza mais do que influenciava, mas exercia forte influência no desenvolvimento das sociedades. Embora haja controvérsias sobre qual seria o grau desta influência ou causalidade, seus próprios textos não deixam dúvidas de que enxergava como algo muito além do que costumamos admitir hoje em dia. Prova disto está nesta passagem em que comenta a obra de Montesquieu, o qual:

“(…) afirma, sem muita demonstração, que os climas quentes exercem uma ação depressora e os frios uma ação fortalecedora, e disso deduz que nos primeiros as mulheres se encontram em um nível inferior, os homens são menos corajosos, o povo é mais facilmente excitável, enquanto nos climas frios ocorre o contrário; e isto ele afirma tendo por base observações incompletas, entre as quais recolhemos frases como esta: ‘para excitar a sensibilidade de um moscovita seria necessário arrancar sua pele’. Ele atribui o pouco progresso das legislações orientais à indolência produzida pelo clima e às escassas necessidades a brandura daquelas populações que, sempre por efeito do clima, tomam bebidas excitantes; e, do mesmo modo, explica a proibição do vinho imposta por Maomé. A mais importante entre todas estas considerações é a constatação, renovada mais tarde com maior profundidade por H. Th. Buckle, de que nos países quentes medra o despotismo e nos países frios a liberdade; desse conceito, Montesquieu faz derivar o fundamento natural da escravidão nas regiões tropicais. Os capítulos relativos ao solo começam pela fertilidade, que é o que para ele diferencia as populações da planície daquelas da montanha. Os povos insulares estão, para Montesquieu, mais inclinados à liberdade que os continentais. Entre uma abordagem desse tipo e a de Ritter ou do próprio Herder a distância é grande. Pode-se dizer que, precisamente nessa matéria, nem Montesquieu nem Voltaire formularam ideias que já não tivessem sido expressas pelos antigos e, além disso, não chegaram a criar conceitos melhores que aqueles já conhecidos. Seu mérito, que permanecerá para sempre, foi o de terem promovido o rápido desenvolvimento daqueles conceitos e aplicarem-nos adequadamente, além de terem exercido enorme influencia sobre seus próprios contemporâneos” (Moraes, 1990, p. 36. Grifos meus).

Desta visão, determinista, irá derivar um conceito fundamental em Ratzel, o Espaço Vital – lebensraum – para o qual, uma população e sociedade crescentes demandam a expansão territorial de seu estado. Não precisa ser muito perspicaz para perceber onde isto irá parar, já que estamos falando das primeiras décadas do século XX…[1] A visão de que a natureza mais do que influenciava, mas determinava a vida das pessoas, assim como a necessidade de conquista e expansão territorial para o nascente estado alemão ganhou corpo.

Em contraposição, o francês Paul Vidal de La Blache confrontou este determinismo físico com seu possibilismo: a natureza apresenta condicionantes que abrem possibilidades cabendo aos seres humanos escolher e aproveitar as melhores oportunidades. Vejamos esta inspiradora passagem de seu Princípios de Geografia Humana:

“Uma nova economia da natureza teve tempo para substituir a antiga. O desaparecimento da floresta cedeu lugar ao mato e a mudança das condições de luminosidade desalojou algumas espécies que eram retidas em seu interior, incluindo a temível mosca tsé-tsé, diversa de outras espécies. Em outras regiões são arbustos como os maquis ou o cerrado que sucederam à floresta tendo outras consequências, transformando tanto o ambiente como as condições econômicas. Vislumbramos um novo campo de opções quase ilimitadas para experimentação. Ao estudarmos a ação do Homem sobre a Terra e seu estigma impresso sobre as áreas de ocupação com séculos de idade, a Geografia Humana tem uma dupla finalidade. Não só fazer um balanço das alterações, com ou sem a participação humana, cuja singular redução de espécies ocorre desde o Plioceno. E também desenvolver um conhecimento mais aproximado de toda biosfera, pois examinando as alterações ora em curso se torna possível prever sua evolução. A respeito, o presente e o futuro das ações do Homem, agora um ‘mestre das distâncias’, armado com tudo que a ciência coloca a seu serviço, excede em muito as ações que nossos distantes antepassados puderam exercer. Felicitemo-nos porque a empresa de colonização que nos trouxe a glória permitiu que a imposição de quadros rígidos da Natureza desse margem para obras de restauração ou transformação que estão em poder do Homem” (La Blache, p. 14-15. Tradução e grifos meus)[2].

O que se observa entre os textos de Ratzel e La Blache é que, apesar das diferentes perspectivas e noções de causalidade de transformação e adaptação humanas ao ambiente, ainda há espaço para relativizações e dúvidas concernentes à extensão de seus enunciados científicos. Como quase toda escola, seja acadêmica, religiosa etc., a radicalização se dará com seus sucessores e seguidores. A sutileza e beleza intuitiva dos textos tem relação com uma época onde a ciência (social) procurava se firmar, com mais humildade do que costumamos ver hoje em dia. Mas ambas correntes geográficas, seja a determinista ou a possibilista apresentam um traço comum bastante significativo e, costumeiramente ignorado… Fosse pela fala do alemão ou do francês, eles serviam a seus respectivos estados. E mesmo que não fosse este o motivo deliberado desses estudos, eles acabavam sendo aproveitados com tal finalidade. Não havia como ensejaria um pensamento de boa estirpe liberal, estudos com ênfase no crescimento econômico via trocas internacionais, inter-regionais e em nível escalar mais próximo. O agente máximo de organização e atuação social, ainda é o estado. E por “estado”, leia-se o conceito de estado-nação, por mais idealizada que seja a nação.

determinismo v. possibilismo

Com exceção do último item, que dá impressão de ser uma posição explícita, as características de cada corrente de pensamento geográfica estão bem didáticas.

Fonte da imagem: slideplayer.com.br

Quando se fala em compromisso com a nação é mais do que um ato voluntário. Tratava-se de uma determinação, uma metáfora biológica para uma época em que se substituem explicações oriundas do divino pelo natural. A propósito, vejamos este comentário sobre Ratzel, um dos mais importantes autores e primeiro em sistematizar o conhecimento que viria a ser conhecido como Geografia Política:

“Sua formação inicial não foi a de geógrafo, tendo feito o curso de zoologia em Heidelberg, onde sofreu a influência direta de Haeckel e, através deste, do darwinismo, chegando a publicar alguns artigos de forte conteúdo naturalista-evolucionista.

Ao mesmo tempo, como intelectual preocupado com os destinos da Alemanha, participava de uma série de atividades acadêmicas voltadas para a questão nacional (como a Liga Pangermanista). Após o retorno de sua viagem aos EUA, que muito o impressionou e cuja influência será notória em seus estudos (em 1880 escreveria Os Estados Unidos da América do Norte), Ratzel alterna estudos sistemáticos de geografia geral (como a sua famosa Antropogeografia, de 1882) com vários pequenos estudos sobre problemas geográfico-políticos, culminando com a sua obra maior (Geografia Política, de 1897).

Preocupava-o essencialmente o que avaliara como a ‘unificação malconcluída’ da Alemanha, desde o processo que se iniciara sob o comando de Bismarck, de fato, malgrado a centralização via constituição de um Estado forte, mas que não resultara de um processo revolucionário clássico, tal qual ocorrera na vizinha França, a Alemanha, apresentava-se, até o início deste século, extremamente fragmentada, tanto socialmente como do ponto de vista de sua organização político-territorial.

Como se verá adiante, essa situação repercutirá em muitas das análises de Ratzel sobre o papel que caberia ao Estado nesse processo. Além do mais, assim como a maioria dos geógrafos e ‘homens de Estado’ do país, tinha plena consciência do atraso político e da situação de ‘inferioridade’ da Alemanha em relação às demais potências europeias, em especial à Inglaterra e à França, principalmente na questão das colônias de além-mar.

Um outro problema que marcou profundamente não apenas as concepções gerais de Ratzel e dos geógrafos, mas da maioria dos intelectuais alemães, foi a dos ‘povos alemães’ fora da Alemanha, concentrados principalmente na Europa de Centro e de Leste” (Costa, 1992, p. 29-30).

Mesmo que não houvesse uma defesa explícita do imperialismo, não é difícil imaginar como a argumentação em prol do estado-nação, sobretudo tendo premissas naturalizantes ou biologicistas não pudesse derivar nisso. Esta moda, paradigma, se preferirem não duraria indefinidamente. Com a estabilização das relações internacionais, o que justamente veio a reboque do ignorado comércio e capitalismo mundiais, uma geografia pragmática haveria de nascer.

(Continua…)

 

Referências:

COSTA, Wanderley Messias da. Geografia Política e Geopolítica : discursos sobre o território e o poder. São Paulo : HUCITEC : EDUSP, 1992.

ENCYCLOPEDIA BRITANNICA. Friedrich Ratzel: german geographer. Disponível em: <http://global.britannica.com/biography/Friedrich-Ratzel>. Acesso em: 16 jun. 16.

LA BLACHE, Paul Vidal de. Principes de Géographie Humaine. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/>. Acesso em: 16 jun. 16.

MORAES, Antonio C. R. (org.). Ratzel. São Paulo : Editora Ática, 1990.

WIKIPEDIA. Paul Vidal de La Blache. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_Vidal_de_La_Blache#Obras>. Acesso em: 16 jun. 16.

 

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http://inter-ceptor.blogspot.com/
Fas est et ab hoste doceri – Ovídio

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[1] Pode se argumentar que a influência que o Nazismo teve das ideias de Ratzel foi uma “má interpretação” ou deturpação, como queiram, mas o fato é que há um nexo teórico, mesmo que isto não seja suficiente para atribuir à Friedrich Ratzel a pecha de nazista. Influenciar ideologicamente um corpo social não implica em assumir as teorias derivadas por outros interpretes, nem tampouco ter responsabilidade sobre suas ações. Fosse assim, toda ação violenta em nome de uma religião necessitaria ter sua causalidade comprovada em um livro sagrado, o que não é verossímil, pois a cultura, inclusive do campo acadêmico para a esfera política e comportamento de massa é muito dinâmica, para não dizer flexível mesmo.

[2] A referência a esta obra foi extraída do site brasileiro, Domínio Público (<http://www.dominiopublico.gov.br/>), cuja data de edição não é fornecida. Na página brasileira do Wikipedia (<https://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_Vidal_de_La_Blache#Obras>. Acesso em: 20 mai. 16), a publicação da obra consta sendo de 1922, com edições póstumas.

[i] Leia a primeira parte deste artigo aqui.

[ii] Professor de geografia licenciado pela UFRGS em 1987 e mestre em geografia humana pela USP em 2008. Co-autor do livro Não Culpe o Capitalismo.