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por Anselmo Heidrich[i]

 

A maioria dos novos revolucionários são essencialmente ao que parece, “liberais brancos”, prontos a lamentar os supostos males da sociedade e a mostrar seus corações sangrando como emblemas ou antigas gravatas escolares – e mais rapidamente ainda fugir do trabalho duro que o diagnóstico e a ação exigem. Um pequeno grupo de radicais marxistas, procura ferver a sopa dos lamentos dos liberais. Em nenhum grupo há qualquer engajamento profundo no sentido de produzir mudança construtiva através de meios democráticos. (…) Se qualquer deles fizer a “Nova Geografia” dos anos 70, eu estou fora.[1]

B.J.L. Berry apud R.J. Johnston, Geografia e Geógrafos.

 

Quando adolescente me impressionavam dois campos do conhecimento, a natureza e a sociedade. Vez que outra tinha sérias dúvidas sobre qual faculdade cursar, a biologia ou a sociologia. Justamente por isto, eu optei pela geografia que, para aqueles que a conhecem minimamente, sabem que se trata de uma área de intersecção. Esta mescla de conteúdos é o campo propício para estudos envolvendo impactos ambientais causados por atividades produtivas, adaptação das sociedades às condições físicas do meio etc. E se formos observar com maior detalhe, a geografia se assemelha à medicina na sua estruturação interna… Quando acometidos com alguma patologia, nós consultamos um clínico geral para depois procurarmos um especialista. Exatamente assim é o trabalho de um geógrafo (naqueles países onde se faz valer este título) que, dependendo do trabalho a ser feito se requer um estudo mais aprofundado, seja em algum ramo da geografia física ou geografia humana (“cultural”, como também é chamada nos países de língua inglesa). Imagine se tiveres que escolher a melhor localização para uma distribuidora de alimentos ou uma planta fabril que tenha melhor dispersão de poluentes: podemos contatar um geógrafo com conhecimentos específicos em climatologia ou, no primeiro caso, alguém que conheça modelos de localização industrial, geografia econômica etc. Enfim, se trata de um belo e útil campo do conhecimento, mas qual não foi minha surpresa ao descobrir que isto era não só mal visto, como justamente o foco de uma crítica pesada na época que cursei minha faculdade, lá por meados dos anos 80. A razão disto é que a geografia, assim como muitas ciências e saberes disciplinares são acometidos por modas, mas não necessariamente o que Thomas Kuhn chamava de paradigmas científicos. A diferença é que, ao invés de ter sido um modelo de pesquisa e pressupostos, crenças e valores partilhados por um longo período, o marxismo na Geografia se caracterizou por um “voo de galinha”, justamente por ser curto, efêmero e fraco. Suas motivações foram mais políticas, de oposição a uma determinada conjuntura ou sistema político-econômico que de metodologia científica propriamente dita. Embora marxistas gostem de acentuar sua base metodológica – o materialismo histórico e dialético –, a grande maioria trata de enfatizar temas específicos em seus estudos (a “desigualdade”, a “exploração” etc.) sem saber exatamente o que é dialética ou entender a necessidade (admitida pelo próprio Marx) de desenvolvimento das “forças produtivas” (tecnologia) para sua posterior evolução social. Atualmente novas tendências, típicas modas ou tendências de longo prazo (como os estudos ambientais) competem com a deturpação marxista da geografia. Só que a malfadada “geografia crítica”, como os geógrafos marxistas gostavam de denominar sua corrente, era a moda dominante na academia quando tive o desprazer de estar cursando minha faculdade. E ela não vinha como uma “visão alternativa”, mas com todas suas mazelas obscurantistas como bônus que poluem e infectam a cabeça de um estudante, a começar pelo desprezo por tudo que poderia ser embutido dentro do rótulo de tradicional, isto é, tudo que a geografia tinha produzido até então. Mas como? Diria alguém, um saber que tem ligações com a natureza, o meio ambiente, clima, solos, vertentes, relevo etc. pode ter influência de uma já combalida Filosofia da História? Pois é, vocês não podem esquecer que a geografia tem sua seção humana e lá pelos anos 60, nos EUA, os acadêmicos daquele país foram seduzidos por um discurso que era, dada a conjuntura, bastante conveniente à contracultura e oposição ao establishment. Mas, por mais que se critique a ordem econômica e ideológica do momento, ela ainda era democrática, ao contrário do marxismo que, como sabemos, cerceia internamente a liberdade de pensamento antes de se configurar em uma ordem institucionalizada através da cristalização de conceitos tidos como inquestionáveis. Também não esqueçamos que os vícios de linguagem que, o marxista tão bem expressa através de clichês servem como explicações automáticas… Tive colegas de curso que aliavam esta pretensão de saber a sua preguiça crônica de estudar ao dizer “que não havia mais diferenciação territorial”, “estava tudo igualado, uniformizado pelo capital” etc. Frases grotescas, até mesmo para um estudioso marxista soam como uma mistura de sermão religioso e marketing de refrigerante de tão vulgares e generalizantes, nesta periferia intelectual em que se transformaram os cursos de humanidades no Brasil.

O marxismo é sedutor? Sim, muito, mas isto não quer dizer verdadeiro. Uma filosofia que apresente pressupostos nobres, de compaixão pelo outro, mas que ao mesmo tempo não veja a filantropia como um modo de ajudar o próximo, mas combine uma lógica produtiva com redenção coletiva não só é contraditória, como suspeita de portar algum tipo de vírus intelectual. Sobretudo, se considerarmos a mente juvenil ávida por soluções rápidas e totalizantes, que tornam a universidade um celeiro ideal para raposas disseminadoras de ideologias comprometidas com a submissão intelectual e a desinformação e a deturpação como métodos.[2]

Totalidade… Repare bem nesta palavra, que é uma categoria central para o método marxista, cuja capacidade de sedução reside na pretensão de enxergar a todos os problemas da vida social sob um método unívoco capaz de hierarquizá-los e apontar o processo causal (que, aliás, também é apenas um). Veja que se fôssemos realmente capazes de tal façanha, também teríamos o dom da predição. Quer coisa mais maravilhosa? Um método que não só explica tudo até aqui, como também é capaz de dizer tudo que tenderá ocorrer a partir de certo ponto na linha de tempo da história de toda humanidade. Qualquer semelhança com gurus do apocalipse (mas, em versão progressista-evolutiva), não é mera coincidência. Por inferência lógica, se pudermos atuar na raiz dos problemas (daí o apreço que os marxistas têm por serem chamados de radicais), as soluções se dariam automaticamente como um processo natural, após um momento de ruptura que, nada mais é senão a revolução.

Esquema de Fenneman

A síntese geográfica foi deturpada pelo conceito marxista de totalidade.

 

Se vocês repararam, as categorias marxistas de análise aqui elencadas como totalidade, processo natural, ruptura e revolução se encaixam em aspectos que atribuímos à Geografia e sua prima, a História.[3] Como eu já disse, os vários campos do saber que integram a síntese geográfica procuram abranger as indústrias, a produção agrícola, as cidades, os transportes, a demografia, a inter-relação dos estados nação (geopolítica) e, de outro lado, a geomorfologia, a hidrografia, a climatologia, a biogeografia etc. Portanto, uma filosofia que diga que tudo isso pode dar um bom mix caberá como uma luva às pretensões científicas de mostrar que a geografia é uma “ciência de respeito”. Afinal algo que ressentia muito os geógrafos era este aspecto de “colcha de retalhos” que fazia a geografia não parecer uma ciência una, mas sim um agregado de várias ciências.

A esta altura da prosa alguém poderia perguntar então, mas por que a medicina não tem este problema? Ora! Médicos não estão preocupados, em primeiro lugar, em serem reconhecidos no meio acadêmico, se não forem eficazes em sua lida. Pode até ser que um ou outro indivíduo deseje muito tal status, mas não será muito difícil atingi-lo sem a comprovada eficiência em suas áreas de atuação. Se não estão preocupados, em primeiro lugar, em salvar vidas, perde-las pode acabar com suas carreiras. Por outro lado, se amanhã ou depois, algum médico for reconhecido por inovar em determinado campo ou subcampo médico, isto é um bônus a sua profissão. Já para profissionais que atuam na área do planejamento (ambiental, urbano, regional etc.) como os geógrafos, a academia, em países como o Brasil, tem sido a porta de entrada para a atuação no mercado. Deveria ser o contrário e isto até está mudando, graças ao capitalismo e as tecnologias de sensoriamento remoto, mas deixemos isto para outro artigo… Enfim, vocês conseguem imaginar a cabeça de um estudante com a competição profissional com temas como, p.ex., o substrato rochoso quando confrontado com um geólogo? Que não conhece tanto sobre biomas quanto um biólogo? Que não sabe prever as intempéries com relativa precisão quanto um meteorologista? Ou, em outro campo, que não sabe analisar a produção industrial como um economista? Que não conhece detalhes agroecológicos como um agrônomo? Que não tem conhecimento técnico sobre urbanismo e infraestrutura como arquitetos e engenheiros? Fica difícil, né? Acontece que a particularidade da geografia foi (e é), justamente, não saber profundamente de seções do conhecimento, mas conhecer a integração desses elementos na análise territorial seja esta, local, regional ou global. Parece simples, mas numa época de valorização das especialidades, o marxismo ofereceu aos professores e alunos ressentidos com a competição uma resposta negacionista, isto é, “nada disso que está aí fazendo sucesso no mercado vale, porque estes saberes fazem parte da lógica do Capital, que é essencialmente espoliadora, destrutiva etc.” Qualquer semelhança com estelionatários ou a redenção espiritual via dízimo não seria mera coincidência.

(Continua…)

 

Referências:

CRISTALDO, Janer. “A universidade é um galinheiro onde raposas velhas vão caçar.” Disponível em: <http://cristaldo.blogspot.com.br/2014/04/a-universidade-e-um-galinheiro-onde.html>. Acesso em: 13 de abril de 2016.

EPL. “Carta aberta aos estudantes.” Estudantes Pela Liberdade – Grupo Henry Maksoud. Disponível em: <https://www.facebook.com/notes/grupo-henry-maksoud/carta-aberta-aos-estudantes/1079085762153344>. Acesso em: 15 jun. 16.

JOHNSTON, R.J. Geografia e Geógrafos : a geografia humana anglo-americana desde 1945. São Paulo : DIFEL, 1986.

 

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http://inter-ceptor.blogspot.com/
Fas est et ab hoste doceri – Ovídio

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[1] Sempre é bom lembrar que por “liberais brancos”, o autor, ainda que nascido no Reino Unido está se referindo aos liberais nos costumes ou na moral que, no contexto especificamente americano significaria algo como a esquerda atual. Para nós no Brasil, que herdamos a tradição linguística europeia, este sentido é raro e o termo liberal, normalmente apresenta sua conotação original da economia, em prol do livre-mercado.

[2] Em “A Universidade É Um Galinheiro Onde As Raposas Velhas Vão Caçar”, Janer Cristaldo pega uma raposa no pulo, isto é, o que Frei Betto disse em seu campo de caça, a Universidade:

“Ao falar de fracasso do socialismo na Europa e fracasso do capitalismo no ocidente, o frei exclui a Europa do Ocidente. Onde ficará então o Ocidente? Na Sibéria? Na Mongólia? É espantoso que um público universitário ouça uma sandice destas sem vaiar o palestrante. Se bem que quase nenhum universitário hoje, seja professor ou aluno, saiba dizer o que ocorreu em 9 de novembro de 1989.
Concluindo: o orgânico não precisa ser organizado. Não é permissível comparar um sistema artificial, distanciado do real, nascido de uma teoria utópica, com uma economia que surge espontaneamente, decorre da própria natureza humana e hoje é almejada por todos os países que um dia foram comunistas. Capitalismo não tem profeta, não tem livro nem é imposto, manu militari, por Estados ditatoriais. Há teorias sobre o capitaliso? Há. São teorias que tentam explicá-lo, não teorias que surgem do nada para criar um modelo de organização social.

La universidad es un acuário, donde las nenas ván pescar – dizem os espanhóis. Chez nous, é um galinheiro onde raposas velhas vão caçar” (http://cristaldo.blogspot.com.br/2014/04/a-universidade-e-um-galinheiro-onde.html. Acesso em 13 abr. 16).

[3] Dia 7 de abril passado, um grupo de estudantes e membros do Estudantes Pela Liberdade (EPL) em divulgação de seu segundo seminário na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) foram hostilizados por dois professores, um de forma irônica e outro de forma acintosa. Para quem teve acesso ao vídeo divulgado de forma restrita na internet pode constatar no vocabulário deste segundo caso as categorias utilizadas e cujas premissas remetem ao puro marxismo, “analisamos o liberalismo sim, mas de forma histórica”. Para quem já está habituado aos cacoetes intelectuais desses professores sabe que por “forma histórica” se entende somente o que eles consideram como “história”. Outras visões simplesmente não existem e são amplamente hostilizadas ou alvo de chacota, para que seja autoatribuído ao autor desse escárnio uma pretensa superioridade, já que nunca a obtém em um debate ao vivo e civilizado. Aqui segue o link da carta aberta dos estudantes pelo incidente ocorrido: https://www.facebook.com/notes/grupo-henry-maksoud/carta-aberta-aos-estudantes/1079085762153344. Eu até tolero (embora não concorde com nada do que dizem) marxistas como forma de vida pensante, mas covardes me causam asco. E para quem viu o que ocorreu, entende o que quero dizer. Os professores em questão usaram do recurso vil (que tanto contestam em seus inimigos no poder) da autoridade conferida a eles para ensinar, no intuito de somente calar e subjugar o espírito livre de quem ousa discordar de suas estultícias.

[i] Professor de geografia licenciado pela UFRGS em 1987 e mestre em geografia humana pela USP em 2008. Co-autor do livro Não Culpe o Capitalismo.