Tags

, , , , , , ,

Esta é a primeira parte da nossa série de artigos sobre o expansionismo soviético nos países Bálticos e Finlândia. Neste artigo, cobriremos os antecedentes históricos destes conflitos e os movimentos diplomáticos que os antecederam.

I. Precedentes: Primeira Guerra Mundial, Guerra Civil Russa e independência balto-finlandesa.

O Império Russo adquiriu a área do Báltico durante o século XVIII, como um conjunto de ducados autônomos que na prática eram administrados pela nobreza alemã. No norte, a Finlândia esteve sob controle russo desde princípios do século XIX. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), os alemães ocuparam e governaram militarmente os países Bálticos e parte da Europa oriental (em conjunto denominados Ober Ost).

Apesar dos países Bálticos terem declarado sua independência durante a Primeira Guerra Mundial, esta foi muito limitada pelas autoridades militares alemãs. A Revolução Russa acabaria facilitando o processo de independência: em consequência do vácuo de poder no Império Russo, a Finlândia proclamou sua independência em dezembro de 1917, a qual foi reconhecida em 1918 pelo governo revolucionário. Após o armistício da Primeira Guerra Mundial, as derrotadas tropas alemãs tiveram de se retirar do Leste, ao mesmo tempo em que a monarquia russa se desintegrava pela Guerra Civil Russa. Esta situação criou a oportunidade para que os países Bálticos estabelecessem seus próprios governos independentes de facto e construíssem seus exércitos nacionais, que logo seriam empregados contra agressões vindas do novo governo revolucionário russo.

04-Pre-During-Post-WW1

Mapa e cronologia dos precedentes da Segunda Guerra Mundial nos países Bálticos e Finlândia. Fonte: elaboração própria.

 

Entre 1918 e 1919, a então República Socialista Federativa Soviética da Rússia organizou uma ofensiva para reincorporar à Rússia os territórios da Ober Ost, incluindo os países Báltico. O confronto entre revolucionários bolcheviques, as tropas leais aos recém-libertos governos da região e irredentistas germanófilos e czaristas deixou mais de 50.000 mortos na região. Neste ínterim, duas repúblicas socialistas soviéticas foram estabelecidas na Lituânia (1918-1919) e na Letônia (1918-1920), ambas com vida curta. A falha da ofensiva bolchevique e das agressões alemãs, que buscavam (re)integrar os territórios do Báltico à Rússia e à Alemanha, respectivamente, resultou na independência de todos os países Bálticos, reconhecidas internacionalmente entre 1921 e 1922.

Para garantir a sua independência, os países da região cooperaram política, diplomática e militarmente nas décadas seguintes.

II. Concertação nazi-soviética: o Pacto Ribbentrop-Molotov
O período de turbulência política que derrubou as monarquias russa e alemã deu aos países Bálticos e à Finlândia o tempo necessário para estabelecer governos e exércitos nacionais. Nos anos 20 a situação aparentemente esfriara: os países Bálticos firmaram diversos acordos comerciais e diplomáticos com a União Soviética e a Alemanha; a União Soviética adotou a política de “Socialismo em Um Só País”, abandonando o expansionismo militar da década anterior; e a Alemanha buscava firmar acordos e tratados com a União Soviética para estabilizar as fronteiras.

Com a crise de 1929 o panorama mudou radicalmente: a oposição ao capitalismo crescia paralelamente à recusa ao comunismo. Uma “terceira via” parecia uma luz no fim do túnel: o nacional-socialismo. Na década de 30, seus líderes carismáticos e populistas se consolidaram: Hitler na Alemanha, Franco na Espanha, Mussolini na Itália. Guerras civis eclodiam na Europa, a Itália se aventurava militarmente na África e a Alemanha se remilitarizava à toda velocidade. Em 1934, os países Bálticos formaram uma iniciativa diplomática para alinhar suas políticas externas, a Entente do Báltico, a qual se mostrou incapaz de resistir às agressões alemãs e soviéticas que logo assolariam a região.

A radicalização política, a remilitarização e a ascensão do fascismo na Europa Ocidental deram à Stalin a desculpa ideal para criar uma “zona de segurança” para a União Soviética. Ameaçados de intervenção soviética caso cooperassem com os fascistas, os países Bálticos passaram a ser pressionados de ambos os lados. Desde 1938 logrando vitórias diplomáticas, a Alemanha nazista obteve da Lituânia a cidade de Klaipeda, seu principal porto marítimo. Apesar de não ter cumprido imediatamente sua ameaça, a União Soviética reforçou suas posições militares nas fronteiras com os países Bálticos e a Finlândia entre 1937 e 1938.

Em junho de 1939, Estônia e Letônia firmaram tratados de não-agressão com a Alemanha. Esta rápida aproximação dos países Bálticos com a Alemanha desagradou à União Soviética, que passou a exigir cada vez mais que os países Bálticos lhe fossem entregues pela via diplomática.

Pacto nazi-soviético

No mês de agosto de 1939, a União Soviética conduziu separadamente negociações diplomáticas com as potencias ocidentais (Inglaterra e França) e a Alemanha nazista. As negociações soviéticas com a Inglaterra e a França sobre a Polônia chegaram a um impasse: os polacos se recusavam a permitir a entrada do Exército Vermelho em seu território em caso de agressão alemã. Temiam que uma vez dentro do país, os soviéticos não mais se retirariam daí, o que de fato aconteceu no fim da Segunda Guerra.

A União Soviética preferiu alinhar-se com a Alemanha e assinou um protocolo secreto, o “Pacto Ribbentrop-Molotov”, que dividia a Europa em “esferas de influência”: Finlândia, Estônia, Letônia e o leste da Polônia estariam sob a influência da União Soviética; o oeste da Polônia (incluindo o Corredor Polonês) e a Lituânia estariam sob a esfera de influência da Alemanha. Este pacto selou o futuro da Europa, ao garantir a Hitler todas as condições necessárias para dar início à sua tão desejada expansão para o Leste.

III. “Tratados de Assistência Mútua”no Báltico.
No dia 1º de setembro de 1939, a Alemanha nazista invadiu a Polônia. Dezesseis dias depois, a União Soviética seguiu o plano estabelecido no Pacto Ribbentrop-Molotov e também invadiu a Polônia. As duas potências invasoras comemoraram o seu triunfo com um desfile militar conjunto no dia 22 de setembro na cidade de Brest-Litovsk. A questão da Polônia já estava resolvida.

Polen, Siegesparade, Guderian, Kriwoschein

Desfile militar nazi-soviético em Brest-Litovsk, 22 de setembro de 1939. Fonte: Bundesarchiv.

Faltava agora resolver a questão dos países Bálticos e da Finlândia. Para consolidar a sua “esfera de influência” no Báltico e na Finlândia, a União Soviética buscou firmar tratados de “assistência mútua” com os países da região. E “assistência mútua”, na concepção soviética, significava algo bem claro: o direito de estabelecer bases militares terrestres e navais nestes países. O diplomata encargado desta política foi o mesmo concertador do pacto nazi-soviético, o comissário de assuntos exteriores Vyacheslav Molotov. Ainda que os tratados não implicassem a perda de território, a presença de forças militares estrangeiras nos países Bálticos e na Finlândia colocava em risco a sua soberania frente aos soviéticos.

A esta altura já era tarde demais para recorrer à Alemanha: os nazistas respeitariam as cláusulas secretas do Pacto Molotov-Ribbentrop e não apoiariam os países Bálticos e a Finlândia. A remota possibilidade de um apoio alemão implicaria em um resultado igualmente desastroso: o conflito armado entre soviéticos e alemães ocorrendo em pleno território nacional seria uma repetição dos episódios vividos durante a Guerra Civil russa. Os países Bálticos se viam esmagados entre duas superpotências militares.

O primeiro país a ceder à pressão soviética foi a Estônia, que assinou o Tratado de Assistência Mútua com a União Soviética em 28 de setembro de 1939. Seguiu a Letônia em 3 de outubro e logo a Lituânia no dia 10 do mesmo mês. “Convidada” a participar, as negociações com a Finlândia duraram semanas e não deram no resultado esperado pelos soviéticos. Aceitando ou não o tratado, as consequências foram destruidoras para estes países nos meses que se seguiram.