Etica e moral

As atitudes em tempo atuais revelam uma alteração moral e a promoção de uma nova ética, onde a responsabilidade pessoal não se faz mais presente.

 

É evidente, ano a ano, um retrocesso na concepção de ética da maioria das pessoas, que, por consequência, termina por refletir-se em seus comportamentos morais. E uma de suas revelações mais funestas é a negação pelas pessoas da própria responsabilidade nos resultados de suas próprias ações. Ao invés disso, tornou-se lugar comum a culpabilização de um fato, agente ou determinado contexto externo, para as supostas consequências de seu próprio ato individual. Ou ainda, ampliando-se essa conduta para defender suas teorias sociais, onde o obscuro ser chamado de “sociedade” carrega dentro de si, como Jesus, a culpa pelos pecados dos outros.

Esse tipo cada vez mais comum de atitude se multiplicou assustadoramente no Brasil recente, e as decisões que levam às essas ações são construídas com base em um mundo totalmente desabituado à realidade, concebendo uma verdade fundamentada puramente em suas conveniências pessoais e atribuindo constantemente o insólito aos pensamentos e atos dos outros, nunca aos seus próprios.

O brasileiro em particular vem sendo exposto a esse estado de lamúria já há tempos, mas nas últimas décadas, com o ardil da influência gramsciana e o seu apogeu, chegamos ao topo. Ou melhor, ao fundo do poço. A apoteose ocorre agora, nesse governo que somente é responsável pelos bons resultados, nunca pelos maus. Onde toda a culpa dos problemas está entre aqueles que o evidenciam.

As evidências ficaram muito mais claras quando iniciou-se a destruição da Petrobrás e de outras empresas estatais e a acusação pelo governo de que a oposição queria “destruir” tais empresas. Seguiu caminho no bárbaro estelionato eleitoral, quando a culpa da marolinha econômica era simplesmente do cenário externo. Perpassa todas as lógicas possíveis, atribuindo ao “interesse social” a afronta à lei constitucional da responsabilidade fiscal, mesmo quando essa isenção de responsabilidade mescla-se com a desonestidade, uma vez que ao menos metade do rombo fiscal deveu-se à mamatas no BNDES.

É o clímax do discurso aético que domina o debate no país, propagado por todos os seguidores dessa nova ordem ideológica, onde quaisquer consequências negativas de nossos atos tenham suas causas atribuídas a terceiros.

Essa nova forma de raciocínio ultrapassa as fronteiras do mundo real. O pensamento dominante inventou um ente, o “modelo capitalista”, para atribuir a culpabilidade de invasões e depredações ao patrimônio. Atribuiu uma relação direta à “desigualdade social” e aos casos de roubos e violências físicas, muito embora a recente história do Brasil contradiz tal tese. Conferiu à falta de “discernimento entre o certo e o errado” a atenuação dos encargos dos assassinatos cometidos pelos jovens. Quer dizer, atribui-se a uma abstração que paira acima de tudo e todos, as responsabilidades que deveriam ser dos indivíduos de carne e osso. Já faz ao menos 25 anos que estamos aplicando toda essa teoria sociológica permissiva, construtivista e relacional e quais são os resultados? Houve melhoria da educação? Violência? Consumo de drogas? Corrupção?

Tais atitudes tornaram-se no Brasil uma ferramenta inconsciente para a adaptação à ideologia que hoje nos reina, onde tal cumplicidade tolera regalias morais que não seriam permitidas sob condições lógicas e racionais, que perseveram na verdade e na realidade dos fatos. O ódio ao contraditório, a criação de maniqueísmos, de espantalhos, de acusações ad hominem criam uma atmosfera onde a razão não tem vez. Sobretudo se puder ser provada. São atitudes claramente percebidas nos discursos de seres altivos e superiores que clamam em alto e bom som “eu não leio e não discuto matérias da revista Veja”. O que dizer de tal pessoa, que abandona sua razão para sujeitar-se ao pensamento mainstream evidenciando somente o seu desejo de ser aceito pelo grupo ideológico dominante?

Estamos caminhando, passo a passo, para uma Idiocracia, a apoteose de uma sociedade medíocre.

Esse estado de espírito versa, entretanto, quando falamos de responsabilidades, de deveres. O cenário inverte-se totalmente quando o assunto são direitos. Em relação a estes, não existe essa história de coletivo ou social. Os direitos, todos querem para si, individualmente. Privativamente. Uma boa definição que li um dia, dizia algo assim: “o brasileiro é um saci existencial, que equilibra-se alegremente sobre a perna dos direitos, mas sem nunca colocar o pé dos deveres no chão.”

E assim prossegue o debate “intelectual” no país, promovendo enormes distorções morais e fortalecendo os donos do poder. Que as crises atuais e vindouras nos tragam ao menos, o estopim para mudar tal cenário.