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A falácia do coeficiente de Gini

O índice, ou o coeficiente de Gini, é na verdade um indicador confiável para qual finalidade?

 

Restam poucas defesas a esse lamentável (des)governo que possuímos. Mas mesmo assim, ainda existem entusiastas, que procuram de alguma forma alegar possíveis avanços. Na falta de boas notícias, principalmente em dados objetivos que medem a eficiência e a eficácia dessa administração, um entusiasta progressista me apresenta, em um debate dentro de uma comunidade virtual,  um link onde o coeficiente de Gini do Brasil estava melhorando (apesar de estarmos discutindo crescimento econômico…) e assim, o Brasil estaria mais justo, com uma melhor distribuição de riqueza.

A própria contribuição da distribuição de riqueza no progresso de um país já é algo controverso, e eu, particularmente, não vejo esse assunto como primordial para tais objetivos. Não vou me alongar nesse assunto uma vez que já foi discutido mais profundamente na postagem sobre os conceitos imorais na transferência de riqueza. Para retomar o assunto, transcrevo aqui uma descrição do texto:

(…) a imposição de uma igualdade de renda demanda a supressão da desigualdade das pessoas. Mas as pessoas são naturalmente desiguais, possuem metas desiguais, possuem motivações desiguais. (…) O que precisa estar garantido, é a igualdade de direitos entre todos os seres humanos, que deve estar acima de tudo e independe de quaisquer classificações como cor de pele, preferências sexuais e afins. A real demanda é garantir as condições necessárias, como oportunidades de educação básica de qualidade a todos, de forma que suas próprias motivações internas, viabilizadas por suas capacidades intrínsecas, construam seu futuro (…)

Na ocasião, eu foquei o aspecto moral da redistribuição de renda. Mas o debate posterior, com o iluminado progressista sobre o coeficiente de Gini, lembrou-me que uma segunda forma de análise, mais pragmática, gera mais uma prova cabal de que uma melhora nesse indicador não leva necessariamente à uma sociedade mais justa.

O coeficiente (ou índice) de Gini não avalia a qualidade de vida dos mais pobres, pois é um indicador de desigualdade e não de pobreza.

A curva de Lorenz e o coeficiente de Gini

O indicador de Gini é calculado através de uma razão de áreas do gráfico de Lorenzo, que é uma expressão geométrica para demonstrar como a renda na população relaciona-se com o seu número em termos percentuais. Assim, no eixo das abscissas, são dispostos os percentuais acumulados da população em ordem de renda crescente. Já no eixo das ordenadas, são colocadas as rendas, também em percentuais acumulados. A reta traçada a 45º mostra a situação de “igualdade perfeita”, ou seja, os mesmos percentuais de pessoas possuiriam os mesmos percentuais de renda. A curva real está a uma certa distância dessa situação, e a aproximação de ambas mostra o quão de igualdade de renda existe no território considerado.

O coeficiente de Gini mede essa distância e varia de 0 a 1, sendo o “0” a situação de igualdade perfeita e “1” a total desigualdade em renda. Existem várias tabelas desse ranking na Internet, mas na Wikipédia os dados parecem um pouco mais atuais. Tendo em mente que quanto menor o valor, melhor é a distribuição de renda, vejamos alguns dados interessantes:

País

Coeficiente (índice) de Gini

EUA

41,1

Israel

Reino Unido

39,2

38,0

Nova Zelândia

 Itália

Canadá / Suiça

36,2

36,0

33,7

França

32,7

Austrália

30,5

Paquistão

30,0

Etiópia

Iraque

29,8

29,5

Afeganistão

27,8

Percebam que nessa seleção, os países que possuem um pior coeficiente de Gini são países bem mais ricos, onde as pessoas mais pobres vivem muito melhor. Sim, os dados foram selecionados e é claro que os exemplos poderiam ser expostos mostrando uma situação inversa. Mas o que quero demonstrar é que, qualquer índice estatístico, se aplicado na tabela inteira, não mostrará relação entre melhor igualdade de renda, medida pelo coeficiente de Gini, com uma melhor condição de vida, mesmo das pessoas mais carentes. É impossível demonstrar isso matematicamente.

Parte-se agora por entender se a igualdade de renda é o indicador de fato, a ser perseguido. Ora, qual é a vantagem de uma pessoa pobre morar no Afeganistão e confortar-se com a situação de que todos são tão pobres como ele? Será que ele não preferiria morar no Canadá, na Inglaterra ou na Nova Zelândia em uma condição de vida infinitamente melhor, mesmo existindo muitas pessoas mais ricas? No fundo, o que move as pessoas envolvidas com a esquerda política, com o progressismo, a clamar por igualdade é puramente a inveja, e não o provimento prático para promover uma melhor condição de vida para as pessoas mais necessitadas.

A economia não é um jogo de soma zero, onde que, para alguns ganharem, outros devem perder. É possível termos uma sociedade com muitas pessoas ricas meritoriamente e muitas pessoas comparativamente mais pobres, mas com um padrão de vida muito superior às pessoas mais pobres em eventuais bastiões da igualdade de renda.

O problema não é a desigualdade de renda, o problema é a pobreza em si! Ideais socialistas, defendidos por ampla maioria da população, apenas repartem de forma igualitária a pobreza, mas nunca criam riquezas. Quando focaremos corretamente o problema?

Esse artigo foi originalmente publicado no site Viagem Lenta.