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Estratégia Barbell: Intervenção onde Interessa

Investidores costumam adotar uma estratégia chamada de “estratégia Barbell”. Esta estratégia consiste em investir a maior parte do seu dinheiro em investimentos mais conservadores, seguros, e cujos ganhos são mínimos porém certos. A outra parte é investida em ações de alto risco, sem retorno garantido, mas cujos ganhos potenciais são enormes. Há 10 ou 20 anos, seria como investir 90% do seu dinheiro na Poupança da Caixa e os outros 10% em uma startup como Facebook ou Google. Quem fez isso nas décadas de 90 e 2000, certamente está milionário hoje. [17]

barbell stratey

A estratégia Barbell é a aplicação da “Regra 80/20” dentro do contexto dos investimentos. A “Regra 80/20” determina que 80% das consequências vem de 20% das causas. Nas empresas com grandes contratos, 80% da receita vem de 20% dos clientes; num programa de computador, 80% dos bugs vem de 20% do código; numa família de 10 pessoas, 80% dos problemas vem de 20% dos integrantes (a sogra e o cunhado); e assim por diante. Nos investimentos que aplicam a estratégia Barbell, o investidor espera que 80% a 90% dos ganhos virão de 10% a 20% dos investimentos. Segundo Taleb, a “Regra 80/20” e a estratégia Barbell podem ser aplicados para tornar a sociedade mais resistente a Cisnes Negros.

A aplicação desta estratégia em políticas públicas deve ter como fim evitar tragédias sociais, econômicas, ambientais, etc. Estamos falando de uma exceção à regra da não-intervenção, a parte “conservadora” do investimento. Neste caso a intervenção tem o fim claro de evitar impactos extremos sobre a sociedade, e deve ser aplicada mesmo que não haja nenhum benefício no caso da tragédia não acontecer. Na política, a estratégia Barbell não tem o objetivo de gerar ganhos do ponto de vista econômico, mas evitar catástrofes que comprometeriam de modo crítico o bem-estar da população. Alguns exemplos de sua aplicação vão a seguir:

  • Segurança pública – Proibir a posse/porte de armas somente aos cidadãos que tenham histórico de crime violento.
  • Saúde pública – Financiar ou subsidiar somente cirurgias, tratamentos e medicamentos relacionados a problemas de saúde com altas taxas de mortalidade ou transmissão.
  • Habitação – Construir habitações populares com o único propósito de relocar pessoas residentes em áreas de alto risco ambiental.

Dos conceitos de Cisne Negro e Estratégia Barbell formulamos o terceiro e último princípio de atuação política exposto no livro Antifrágil de Nassim Taleb:

III. Prevenção: evitar o mal. Buscar possíveis falhas ou omissões que impliquem em riscos e vulnerabilidades sistêmicas e saná-las antes de que os riscos se convertam em danos, sempre levando em consideração a não-linearidade entre probabilidade e risco (“Regra 80/20”), para que a intervenção seja eficiente e oportuna.

Conclusão e Resumo

As três regras que podemos aprender da leitura do livro são as seguintes:

  1. Não causar o mal.
  2. Não perpetuar o mal.
  3. Evitar o mal.

As regras estão em ordem de importância e de execução. Considerando esta hierarquia, todas as regras devem ser aplicadas. A não aplicação de uma das regras, ou a sua aplicação sem consideração pela hierarquia de importância e precedência resulta nos seguintes erros, muito comuns na política:

  • Sob o mandamento da regra 1, não agir quando se deve agir (2 e 3). Falhar em intervir preventivamente ou em realizar as reformas quando necessário.Ex.:
    Em nome da não-intervenção, impedir o estabelecimento de novas leis para impedir a ocupação habitacional de zonas de risco geológico (falha da regra 3).Em nome da não-intervenção, permitir que os governos municipais continuem protegendo cartéis e monopólios privados no setor de transporte coletivo (falha da regra 2).
  • Sob o mandamento da regra 2, falhar em avaliar o mal menor na aplicação das outras regras (1 e 3). Ao fazer uma reforma, causar um novo mal paralelo ao já existente, gerando um círculo vicioso. Falhar em adotar medidas preventivas por focar exclusivamente nos males já em curso.Ex.:
    Buscando remover habitantes das zonas de risco para reassentá-los em zonas habitáveis, utilizar a força e causar conflitos entre a população local e a polícia, resultando em mortos e feridos (falha da regra 1).Na saúde pública, aumentar a atenção aos pacientes com doenças respiratórias, mas na política ambiental falhar em adotar medidas para reduzir a poluição do ar (falha da regra 3).
  • Sob o mandamento da regra 3, falhar em aplicar as outras regras (1 e 3). Tentar impedir o mal sem avaliar o potencial dano iatrogênico da intervenção, resultando em uma intervenção nociva que agrava os males em curso ou cria novos males. Tentar impedir o mal sem antes cessar os males atuais, permitindo que os mesmos se perpetuem e sigam crescendo, resultando em uma intervenção ineficiente.Ex.:
    Buscando evitar uma futura escassez de água, estatizar todo o serviço de purificação e distribuição de água, causando escassez atual (falha da regra 1).Forçar os bancos públicos a adotar políticas mais rígidas para as futuras análises de crédito, mas continuar cobrindo suas perdas por inadimplência de empréstimos contraídos no passado (falha da regra 2).

Com base na interpretação do seu livro, chegamos então à conclusão de que o autor não defende uma política de completa não-intervenção. Uma política “talebiana” se basearia no princípio da não-maleficiência para evitar intervenções nocivas, no princípio da via negativa para realizar reformas regressivas, e na estratégia Barbell para realizar intervenções críticas para o bem-estar da sociedade.

O resultado desejado seria um ambiente econômico dinâmico e de rápido crescimento, cheio de riscos e oportunidades, antifrágil; e uma sociedade menos vulnerável e mais protegida contra catástrofes naturais ou antropogênicas, resiliente.


NOTAS:

[17] Acertar em qual empresa apostar seria um “Cisne Negro positivo”, pois:

  1. Devido ao risco, o sucesso do seu investimento era imprevisível ou improvável.
  2. O impacto do investimento sobre o seu dinheiro será extremamente positivo, já que os ganhos eram impossíveis de estimar. Provavelmente, o investimento mínimo que você fez trará muito mais benefício que os 90% investidos nas opções seguras.
  3. Estaremos tentados a cair na falácia narrativa de acreditar que o investidor pôde “prever” o sucesso da empresa, quando na verdade ele simplesmente estava fazendo um uso racional do risco, um “chute inteligente”.

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