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Via Negativa: Melhora pela subtração

Charlatões só dão conselhos “positivos”. Eles somente recomendam aquilo que você deve fazer, não o contrário, porque eles não tem conhecimento prático e empírico sobre aquilo que aconselham. Eles não podem dizer o que você não deve fazer porque eles não sabem o que não funciona. Somente quem tem conhecimento e experiência em primeira mão de uma determinada atividade sabe o que não funciona, o que não se deve fazer, o que é contraindicado. Pessoas que tem know-how e um interesse sincero no nosso desenvolvimento podem dar o feedback quando estamos errando. O poder de educar e de liderar reside sobretudo na capacidade de reconhecer e corrigir erros, incluindo os próprios.

A verdade é que podemos melhorar muito nossa vida não fazendo coisas. Se a iatrogenia é o mau não intencional causado por uma ação bem intencionada, também há o bem não intencional causado por uma omissão. Ele não tem nome, mas podemos percebê-lo em diversas áreas da nossa vida. Entretanto, é difícil prever quais benefícios podem vir da não intervenção e é isso que torna a defesa da não intervenção uma tarefa árdua. Os prejuízos evitados e os benefícios potenciais da não intervenção são desconhecidos, enquanto a intervenção produz benefícios diretamente reconhecíveis, ainda que seus efeitos sejam superficiais ou efêmeros. [9]

A Via Negativa consiste em melhorar por meio da subtração de coisas que causam dano. Abandonar hábitos nocivos, livrar-se de dívidas, cortar gastos, trabalhar menos horas são algumas de suas aplicações. Por exemplo, você pode melhorar muito mais a sua saúde não fumando e não comendo porcaria do que tomando mais remédios ou aumentando a carga de exercícios físicos. A Via Negativa pode ser aplicada em praticamente todas as áreas da nossa vida: você se torna um melhor cônjuge não traindo, um homem honesto não roubando e um melhor jogador não perdendo.

A Via Negativa está embutida em diversos regramentos morais [10]. Dela extraímos nosso segundo princípio:

II. Princípio da subtração: não perpetuar o mal. Aplicar o princípio anterior a toda política que já esteja em vigor para revogar más políticas que estejam causando danos ou provocando injustiças. Isto inclui, mas não se limita a: derrubar barreiras comerciais protecionistas, eliminar subsídios, diminuir ou extinguir impostos, reconsiderar proibições em vigor e reavaliar os salários do setor público. Cessada a causa, cessa o efeito.

Cisnes Negros e perus

Um dos conceitos fundamentais desenvolvidos por Nassim Taleb, e aquele que o tornou famoso, é o de “Cisne Negro”. Segundo o autor, os três atributos que definem um Cisne Negro são:

  1. É um outlier [11], pois está fora do universo de expectativas reais, já que nada no passado poderia indicar a sua possibilidade.
  2. Seu impacto é extremo.
  3. Apesar do seu status de outlier, a natureza humana nos leva a explicar a sua ocorrência após o fato, tornando-o “explicável” e “previsível”.

A terceira característica dos Cisnes Negros é amplamente explorada por formadores de opinião como jornalistas, políticos, economistas, “intelectuais de esquerda” e outros charlatões cuja especialidade é prever retroativamente o passado. Resumindo, os Cisnes Negros são eventos extremamente raros e improváveis, e cujos efeitos são imprevisíveis e devastadores. A falácia narrativa, nossa tendência de explicar catástrofes retrospectivamente e de forma simplista, torna as pessoas ainda mais vulneráveis a estes eventos.

Imagine um peru sendo criado em uma granja. Quanto mais se aproxima o Natal, melhor o granjeiro o aquece e alimenta. Nenhuma evidência indica que o granjeiro quer o mal dos perus, afinal, e o peru dorme tranquilamente sem a menor noção do risco que a sua vida corre quanto mais se aproxima a noite da ceia. A sua sensação de segurança é máxima justamente quando o seu risco é máximo. Mas a ausência de evidência não é evidência de ausência: na véspera de Natal, um “outlier” da análise de risco feita pelo nosso amigo peru lhe trará desastrosas consequências. A mesma situação se compara com cidades que, pelo fato de nunca terem registrado terremotos, não se preparam para o evento de um. Ao mesmo tempo que a sensação de segurança da população é máxima, a sua vulnerabilidade a um terremoto também é. Quando vem o terremoto, não importam os registros sísmicos passados, a falsa “evidência de ausência”, e sim o dano que ele causa e que poderia ter sido evitado.

O que propõe Taleb é que nos preparemos para eventos improváveis ou mesmo imprevisíveis, mas cujos efeitos seriam devastadores. Tenha seguro de vida e plano de saúde, mesmo que viva em um lugar seguro e tenha um estilo de vida saudável. Tenha uma reserva de dinheiro para o evento de ficar desempregado por 3 meses mesmo que você tenha um emprego estável em uma grande empresa ou no setor público, tenha peças de reposição adicionais para o seu carro e comida não perecível de reserva. Enfim, não seja um peru.

Mas como aplicamos estas políticas preventivas em políticas públicas?


NOTAS:

[9] Se você deixa a economia operar livremente, você não pode prever os benefícios que virão dela. A maioria dos produtos e serviços oferecidos no mundo ocidental hoje em dia eram simplesmente inimagináveis décadas atrás. Por outro lado, em uma economia estatizada se pode prever os benefícios, limitados, mas muitas vezes não se pode calcular os prejuízos nem mesmo no momento em que eles estão ocorrendo. Uma economia estatizada, basicamente, é como pilotar um avião com os olhos vendados.

[10] Nos Dez Mandamentos: não matar, não roubar, não cobiçar a mulher do próximo. Na Regra de Ouro: não fazer para os outros o que não gostaria que fizessem para você. Na Austeridade: não gastar mais do que ganha. Na Frugalidade: não acumular mais do que necessita. Na Temperança: não comer mais do que o necessário para se saciar. No juramento de Hipócrates: antes de tudo, não causar dano. E assim por diante.

[11] Em estatística, um outlier, valor aberrante ou valor atípico é uma observação que apresenta um grande afastamento das demais observações de uma série. Um outlier é útil para denunciar erros experimentais ou teóricos, sempre e quando não adotemos a falácia narrativa da “exceção que confirma a regra”.


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