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O primeiro princípio político é um princípio “importado” da ética médica e que faz muita falta na área política. Veremos como, a partir dos conceitos desenvolvidos por Taleb, chegamos à conclusão de que o excesso de intervenção pode ser considerado uma violação do princípio da não-maleficiência.

ética médica

Antifragilidade vs. Resiliência

Coisas frágeis são aquelas que se buscam estabilidade e evitam riscos. Usando um exemplo do livro, uma xícara de porcelana é frágil porque ela não se beneficia de estar sobre uma superfície instável, e menos ainda de uma queda. Ela quebra.

Coisas que não sofrem danos, que saem intactas dos impactos aplicados sobre elas, são “resilientes”. Uma xícara de titânio, por exemplo.

Coisas “antifrágeis” são aquelas que se beneficiam de impactos, riscos e instabilidade. Um exemplo de antifragilidade é o gel desenvolvido pela empresa D3O, uma substância que endurece conforme o impacto aplicado sobre ela. Quanto maior o impacto sobre ela, mais resistente ela se torna. Nosso sistema imunológico também é um exemplo de antifragilidade, pois se torna mais forte a cada ameaça superada. Antifrágil é aquilo que se torna mais forte frente às adversidades. [1]

A proposta de Taleb é tornar nossos sistemas financeiros, sociais e políticos antifrágeis, ou pelo menos mais robustos. Mas como podemos fazer isso? Algumas pistas serão dadas nas seções seguintes.

Fragilidade Sistêmica

Para que um sistema se torne antifrágil, suas partes precisam ser frágeis. Voltando ao exemplo do sistema imunológico, para que o sistema se torne mais forte, ele precisa ser atacado e que algumas células morram no processo. Não significa que devemos sacrificar os indivíduos pelo bem do “sistema” (a sociedade). Precisamos que eles sejam frágeis.

Fragilidade significa que as partes de um todo (pessoas em uma sociedade, empresas em uma economia, jogadores em um time de futebol) precisam estar expostos a riscos e às consequências dos seus atos. Para isto elas precisam de liberdade para agir.

Para construir uma economia robusta, as empresas precisam ser frágeis. [2] O motivo pelo qual países capitalistas se desenvolvem mais do que os socialistas não é a eficiência ou a otimização gerada pelo capitalismo: a razão por trás do desenvolvimento ocidental está no fato de que as suas empresas têm mais oportunidades e assumem mais riscos. Este ambiente permite que as empresas falhem em uma velocidade muito maior e aprendam empiricamente a oferecer melhores produtos, melhores serviços e tecnologias mais avançadas [3].

O protecionismo é uma violação clara da definição acima, de um ambiente onde a oportunidade e risco, liberdade e responsabilidade, andam de mãos dadas. A máxima “proteção desprotege” não serve somente às mães, mas também a um governo saudável. A proteção, ao mesmo tempo que torna algumas empresas resilientes à concorrência, torna todo um sistema econômico e a população que depende dele mais frágeis. E esta ação, bem-intencionada mas com resultados catastróficos, tem um nome.

Iatrogenia

Iatrogenia, no contexto médico, é o nome dado à intervenção médica que em vez de resultar em benefícios para o paciente causa danos a ele ou o expõe a riscos desnecessários. É diferente da negligência, ou de uma ação mal-intencionada e proposital: a iatrogenia é o mal causado com a boa e legítima intenção de curar. O mal vai desde submeter o paciente a um procedimento cirúrgico desnecessário a interná-lo em um hospital onde as chances de ele contrair outras doenças aumenta exponencialmente o seu risco de morrer.

A iatrogenia – o mal causado por quem tem a intenção de curar – está tão ou mais presente na Política do que na área da saúde, e tem sua origem em duas coisas:

  1. a) O conflito de interesses das partes envolvidas, problema conhecido também como “problema do principal-agente” ou “dilema da agência”. [4] Significa que um agente tem a opção e a oportunidade de agir em interesse próprio em prejuízo de quem deveria representar.
  2. b) Há incentivos morais e financeiros para as ações, mas não para as omissões. [5] Omissões, mesmo aquelas que evitam grandes riscos ou consequências catastróficas, não costumam ser reconhecidas como “boas ações”, ao contrário de ações iatrogênicas no longo prazo, mas com efeitos benéficos superficiais no curto prazo.

Pela própria natureza da sua profissão, os políticos têm uma mentalidade muito intervencionista. Eles são eleitos para “fazer alguma coisa”, não para “deixar de fazer alguma coisa”. Consequentemente, são os responsáveis pelas maiores “catástrofes iatrogênicas” da História.

Diante da possibilidade de causar danos irreversíveis (como na política e na medicina), é um dever moral que a decisão seja tomada com informação e consentimento da parte interessada, o que raramente acontece devido ao já mencionado problema da agência. Na impossibilidade de contar com o consentimento informado dos demais, o único caminho é a abstenção. Elaboramos então o nosso primeiro princípio político:

  1. Não-maleficiência: não causar o malAvaliar toda e qualquer nova política, antes da sua adoção, buscando por potenciais danos colaterais, efeitos adversos ou consequências indesejadas que não tenham sido previstas. Em caso afirmativo, não implementar a política. Dentro do possível barrar toda e qualquer nova política que implique aumento de impostos, restrições, regulações, proibições ou subsídios. Enfim, toda aquela política que tente construir a resiliência individual ao custo da fragilização de todo o sistema.

NOTAS:

[1] Um exemplo na área da saúde é o crescimento pós-traumático.

[2] Motivo pelo qual economias estatizadas, como as socialistas, são as mais frágeis e vulneráveis a crises e escassez crônica. Privando empresas de riscos, o socialismo impede a destruição criativa e suas economia estanca, passando a viver de importação ou imitação do que é produzido no exterior.

[3] Em inglês esta propriedade é chamada de “Fail-fast”. Os erros que cometemos fornecem informação sobre o mundo ou sobre nós mesmos, gerando feedback imediato que nos permite melhorar. Melhorias rápidas e significativas exigem que muitos erros sejam cometidos rápida e sucessivamente, desde que não sejam erros fatais que comprometam o sistema inteiro. Uma citação de Thomas Edison ilustra bem este princípio: “Eu não errei dez mil vezes tentando inventar a lâmpada elétrica. Eu descobri dez mil maneiras pelas quais ela não deveria ser feita”.

[4] O problema da agência é disseminado na política: há uma sensação generalizada da desconexão entre os interesses da classe política e do seu público eleitor. O político moderno não busca representar um setor da população, ele busca que um setor da população se identifique com ele e suas propostas, impondo as suas ideias à força em caso de dissidência.

[5] Os médicos tem um incentivo financeiro e moral para intervir na sua saúde, mas nenhum incentivo financeiro ou moral para não intervir. Muitas cirurgias potencialmente mortais são realizadas todos os anos em pacientes que poderiam dispensá-las, adotando formas alternativas de tratamento. Há casos de pacientes que, recusando cirurgias de alto risco na coluna, terminaram curados sem intervenção médica alguma.

A capacidade auto-curativa do nosso próprio corpo é frequentemente subestimada e definitivamente há espaço para uma política de “não-intervenção” na área da saúde e da medicina.


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