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Esse artigo foi publicado originalmente no site Viagem Lenta e pode ser lido aqui.

O socialismo disfarçado de capitalismo no Sudeste Asiático

Comiserados comunistas no Vietnã

Quais os motivos da dominância da mente socialista? Infância cultural, baixo IDP, auto-engano ou ineficiência dos discursos liberais? Ou uma combinação de todos esses? Socialismo e emoção no Sudeste Asiático.

 

Minha passagem aos três países da península da Indochina reforçou na minha mente uma das muitas ideias e características relacionadas ao socialismo e aos seus defensores: a impossibilidade de aceitar que durante todo o tempo eles estiveram (e estão) equivocados em sua visão de sociedade ideal, cuja viabilidade em tempos atuais é facilmente desconstruída apenas pela observação histórica e um mínimo de bom senso na observação do mundo atual.

Comecemos a análise pelos nomes oficiais dos países da península da Indochina: República Socialista do Vietnã, República Popular do Camboja e República Democrática Popular do Laos, denominações claramente socialistas/comunistas. Os governos, ostentam o orgulho de sua “revolução” na década de 70 e 80, exibem em inúmeros locais fotos dos seus líderes (o culto à personalidade já característico do sistema) e das bandeirinhas vermelhas da foice e do martelo, símbolo arcaico e ridículo de um sistema que já foi responsável pela morte de milhões e milhões de pessoas direta e indiretamente ao redor do mundo, e que, incrivelmente, ainda atrai seguidores, muitos deles por aqui… Como Millor Fernandes disse uma vez, “uma ideologia quando fica velhinha vem morar no Brasil” – e nos nossos vizinhos da América do Sul. Arrebatados desde o período escolar, infelizmente a grande maioria de seus discípulos desconhece o real significado e as consequências históricas desses movimentos, como a gradual perda de liberdade de cada indivíduo.

O socialismo disfarçado de capitalismo no Sudeste Asiático

Propagandas de empresa de telefonia celular no Laos

Esses governos porém, assim como o chinês, perceberam algo rapidamente: que o socialismo é impraticável economicamente – como bem observou Mises quase um século atrás, e apenas aprofunda a miséria na sociedade.  Foram muito mais ágeis, portanto, que Cuba (que só agora começa a admitir seu fracasso como país após a Revolução de 1959) e da Coréia do Norte, que sempre dependeu de ajuda externa para alimentar sua população. Possivelmente receberam o incentivo na década de 80 da pressão da população no leste europeu, e em certa medida da então URSS, que despertaram antes do próprio governo. Uma outra influência poderosa foi o despertar do vizinho chinês no final da década de 70, quando Deng Xiaoping aprovou os primeiros experimentos capitalistas na China. O fato é que na mesma década, os estados asíaticos alteraram sua rota, uma vez que sua própria existência poderia estar ameaçada.

O resultado hoje é que, na antiga Indochina, o capitalismo está por toda a parte. Na publicidade da telefonia celular no ponto de ônibus, na propaganda de cerveja, na lixeira das ruas, na importação de carros de luxo, nas lojas que vendem os últimos modelos de computadores e tablets e nas hábeis negociações de produtos dos inúmeros vendedores pelas ruas. A consequência dessa mudança de visão é notória: o crescimento dos países acelerou-se após as reformas de viés capitalista, com grandes melhorias correspondentes no IDH. Como exemplo, em 1986, o 6º Congresso do Partido Comunista do Vietnã aprovou várias diretrizes com profundas mudanças na sua economia, que foram ampliadas com mais intensidade nos anos seguintes, em um plano que ficou conhecido como “Doi Moi” ou “Renovação”. Essas medidas guiaram-se totalmente em prol a uma maior liberalização so sistema, direcionando-o para uma economia de mercado e abandonando na prática tudo o que o marxismo-socialismo preconiza. Curiosamente no entanto, o artigo 4º da constituição de 1992 prega que:

“O Partido Comunista do Vietnã, vanguarda da classe trabalhadora, fiel representante da classe operária, do povo trabalhador e da nação inteira, iluminado pela doutrina marxista-leninista e pelo pensamento de Ho Chi Minh, é a força diretriz do Estado e da sociedade”

 

Temos duas alternativas para entender tais declarações. Ou eles não conhecem nada da doutrina marxista-leninista ou são fanfarrões ao extremo, assim como muitos dos veículos de comunicação comunistas/socialistas de vários países, que aplaudem as reformas no Vietnã, como se fossem realizações baseadas na sua ideologia, afrontando totalmente o reconhecimento que foram justamente as mudanças capitalistas que fizeram com que o crescimento do país acontecesse. Vejam o que diz o jornal oficial cubano Granma, um dos sites esquerdistas na rede e de um encontro do Partido Comunista do Brasil. A leitura desses textos desnuda sua comicidade e avança para uma dramaticidade quando refletimos na lavagem cerebral que produzem em seus seguidores. Vale dar uma olhada.

O socialismo disfarçado de capitalismo no Sudeste Asiático

Invasão capitalista tupiniquim no Vietnã

Mas o assunto desse artigo é… por que esses governos continuam a se autodenominarem socialistas? Para os governos em si, uma simples tese mostra-se razoável: governos só se mantém através do exercício do poder aceito pela maioria da população. Assim, admitir um erro dessa natureza leva à sua desmoralização e enfraquecimento. Ocultar erros e apresentar-se como uma entidade onisciente e onipotente é uma das estratégias do Estado para manter-se no poder e ocultar a fraude de sua administração aos seus súditos. Admitir o capitalismo propiciaria uma fissura capaz de modificar a estrutura de poder e o seu domínio pelo Partido Comunista. Assim, a legitimidade do Estado deve ser construída e mantida através de uma ideologia, mesmo que afronte as mínimas verdades inseridas dentro de um conhecimento básico de economia.

Mas… e as pessoas? O que leva pessoas a não admitir os erros teóricos de uma utopia, sua impossibilidade de implantação e as nefastas consequências de todas essas tentativas? Mesmo as tentativas de disfarces hoje usadas, através dos governos sociais-democratas, não mostram um resultado econômico nada razoável, apesar de terem resolvido parcialmente o problema das liberdades individuais antes não existentes. A psicologia deveria interessar-se nisso, pois há muito a ser explorado para procurar um melhor entendimento desse tipo de comportamento.

O socialismo disfarçado de capitalismo no Sudeste Asiático

Centro “capitalista” de compras noturnas no Camboja

Uma das explicações possíveis para isso é o conceito de Infância Cultural, construído pelo professor Milton José de Almeida(1), uma metáfora para diversos estados sociais e psicológicos. Nesses estados, as pessoas alienam-se da realidade totalmente, através de três caminhos, uma vez que:

1) Rejeitam a realidade e evitam demandar esforços de entendimento, sensibilidade ou atenção como em filmes ou textos considerados difíceis e complexos;

2) Sentem insegurança e medo ante objetos da cultura que não se apresentem já legitimados e autorizados pelos produtores de opinião ou pelo mercado (e aqui a nossa fraca imprensa tem papel fundamental na manutenção dessa ideologia);

3) Vivenciam dificuldades em ter uma visão pessoal, levando à busca de juízos de autoridade ou a defender-se em conceitos opacos como: “de esquerda”, elitista, popular, reacionário, conservador, progressista, etc, que produzem no usuário a sensação de segurança intelectual.

Em geral, uma discussão com alguém militante de “esquerda” leva o mesmo a usar frequentemente acusações “espantalho”, “ad hominem” ou “ad populum”. Veja uma lista completa das táticas defensivas nessa excelente lista (2). Posteriormente, escrevi muitos textos sobre tal mentalidade e discursos, e um deles mostra como esses pensamentos pode levar à Idiocracia, uma sociedade de medíocres.

Outra possível explicação é o desejo de manter-se longe do poder e das decisões. Isso gera um aumento de um índice denominado IDP (Índice de distância do poder), conceito facilmente pesquisado na web. Em países de IDP alto, a cultura da hierarquia é forte e as pessoas são menos propensas a pensar por elas mesmas e resolver os problemas individualmente. Um Estado que mantém a hierarquia e a dependência como condição primária para sua existência e estabilidade, promove um IDP alto e evita um grau de liberdade maior de pensamento. E isso ocorre muitas vezes conscientemente, isso é, as pessoas simplesmente decidem que não querem pensar no assunto, e permanecem em um estado tal como as pessoas deliberadamente dopadas da realidade através do consumo do “soma” da obra de Aldous Huxley (veja o artigo Admirável Mundo Novo: até quando uma ficção?). Livro excelente, escrito na década de 30 do século passado e sugestão de leitura. Não sem dúvidas, estou confiante de que estamos acordando desse sono ideológico profundo aqui na América Latina.

Outra forma de procurar entender tais atitudes é não admitir uma falha em algo em que você fez uma grande aposta sentimental. Abandonar essa esperança de algo que poderia ser bom, abandonar o próprio discurso, seja público ou entre pessoas próximas leva à uma dor lascinante, uma vez que sua identidade está amalgamada com essa ideologia, que deu sentido à sua trajetória de vida. Repudiar de forma repentina e convincente tal engano é correr o risco de sabotar toda sua estrutura mental e expor verdades que podem levar o indivíduo a um estado de depressão ou desorientação mental completa. Auto-enganos são cometidos constantemente em nossas vidas, mas na maioria dos casos, limitam-se ao nosso ambiente individual, particular. O auto-engano socialista, ao contrário, é um auto-engano coletivo, um caldeirão recheado de auto-enganos individuais que propagam os delírios da esquerda aos quatro cantos do mundo. Para aprofundamento, vale a leitura do livro de Eduardo Gianetti.

Um quarto e último ponto é um contra-argumento, ou seja, a incapacidade das pessoas que defendem ideias opostas serem eficientes em seus discursos. O discurso socialista, progressista, ou simplesmente de “esquerda”, é muito poderoso e competente. Baseado no coletivismo e na associação de todos os males do mundo com teorias contrárias às suas doutrinas (opa, esse liberalismo…!), prega suas propostas através da emoção, nunca através da lógica. No fundo, precisamos melhorar muito nossa competência em mostrar que toda a crise econômica que o mundo mergulhou no final da década passada – assim como toda a estrutura e simbiose empresas-Estado, não é função dos capitalistas malvados, e sim dos governos.

O socialismo disfarçado de capitalismo no Sudeste Asiático

Grandes marcas capitalistas de consumo junto ao foice e ao martelo

Somos incompetentes em elucidar que os capitalistas “malvados” não são os responsáveis pelo aumento de preços, que por sua vez não é inflação, e sim a consequência da inflação. A causa principal da inflação é o descontrole fiscal do governo. Somos incompetentes em esclarecer que o conjunto de serviços ruins e caros que temos não é função do desejo de lucro de empresários insensíveis, e sim do nosso mercado fechado, que impede a entrada da livre concorrência. Com livre concorrência, somos incompetentes em provar que o desejo do lucro é nosso aliado, pois os empresários vão disputar os consumidores entre si livremente, sem pensar em fazer lobbies no governo. Para lucrarem mais e sobreviverem, serão mais eficientes em nos oferecer um produto melhor e mais barato.

E o pior, muitos que tendem a pensar de forma oposta ao pensamento coletivista são inibidos e desencorajados por essa fanática cruzada compostas por falsos intelectuais e militantes que se auto apregoam paladinos do bem, que não se permitem ao diálogo e recusam-se a aceitar outra forma de pensamento ao qual foram doutrinadas. A tática mais usada, como comentei acima, é a apelação da emoção – falsamente colocada, para criar no oponente um sentimento de culpa, contaminando jornalistas, pensadores e outros formadores de opinião.

Sinto uma mudança no ar desse pensamento, e a internet, até então livre, tem sido essencial na disseminação desses conceitos que para muitos, até ontem, seriam arduamente assimilados. Espero que essa fresta de luz brilhe cada vez mais forte para os que insistem em acreditar nessa ideologia das trevas.

Sobre liberdade, política e Estado, visite no site Viagem Lenta essa página.

(1) Ver nota na página 21