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Por Erwin Robertson. Esta é uma resenha do livro “The birth of fascist ideology” (o nascimento da ideologia fascista) de Zeev Sternhell, Mario Sznajder e Maia Asheri. Foi publicada originalmente na revista Ciudad de los Césares, nº 48, em março de 1998.

LEIA ANTES DE PROSSEGUIR: Esta resenha foi escrita e publicada por Erwin Robertson, um historiador chileno pró-fascista em uma revista de igual alinhamento ideológico e, portanto, NÃO REPRESENTA a opinião do blog Direitas Já! e de seus articulistas.

O autor do livro objeto da resenha, Zeev Sternhell, judeu polaco nacionalizado israelense, é uma das maiores autoridades acadêmicas sobre o fascismo e portanto publicamos este material para que seja de conhecimento público o que é o fascismo, como ele surgiu e qual é a sua relação histórica e ideológica com a esquerda política.

zeev sternhell birth of fascist ideology

Que Mussolini foi membro do partido socialista é um fato conhecido. Fato problemático, em especial para uma das interpretações dominantes do fascismo; a saber, que este foi a reação alentada ou dirigida pelo grande capital contra o avanço do proletariado. Em tal evento, aquele fato e sua evolução consecutiva deviam ser entendidos como oportunismo, incoerência ou, no melhor dos casos, como uma questão de conversão que não deixa marcas no passado de um homem. A obra de Zeev Sternhell – professor na Universidade Hebraica de Jerusalém – e seus colaboradores colocou toda esta matéria sob outro ângulo. Em sua interpretação, a compreensão histórica do fascismo não pode dissociar esta ideologia de suas origens de esquerda.

Desde o princípio, toda uma plêiade de historiadores e filósofos abordou já há tempo o problema do fascismo: cada um segundo suas orientações espirituais particulares, com seus próprios pontos de vista e seus preconceitos pessoais, mas não sem altura: Ernst Nolte, Renzo de Felice, James A. Gregor, Stanley Payne, Giorgio Locchi e “last but not least”, o jovem pesquisador hispano-sueco Erik Norling, entre outros. Não que a “vulgaris opinio” aludida acima goze hoje de autoridade intelectual. Mas Sternhell vem a aportar a valorização de fontes até aqui descuidadas e, com elas, a nova interpretação que é objeto deste comentário. Estudioso em particular do nacionalismo francês (são suas as obras “Maurice Barrés et le nationalisme français”, “La droite revolutionarie” e “Ni droite ni gauche, L’ideologie fasciste en France”), o professor israelita não se preocupa com os critérios do politicamente correto. É notável ler sobre o tema páginas em que está ausente a edificação moral, nas quais não se há estimado oportuno advertir ao leitor que está adentrando terrenos perigosos; nos quais não há, em suma, demonização ou pressa de meter polemicamente à esquerda uma vizinhança incômoda.

O que é, então, o fascismo na interpretação de Sternhell? Nem anomalia na história contemporânea, nem “infecção” (Croce), nem resultado da crise de 1914-1918, nem reflexo ou reação contra o marxismo (Nolte). O fascismo é um fenômeno político e cultural que goza de plena autonomia intelectual (p.19); ou seja, que pode ser estudado em si mesmo, não como produto de outra coisa ou epifenômeno. Por certo, e logo de início, para Sternhell é preciso distinguir o fascismo do nacional-socialismo (Sternhell diz “nazismo”, acomodando-se ao uso contra o qual, no entanto, se rebela honestamente um Nolte). Com todos os aspectos que um e outro tem em comum, a pedra de toque está no determinismo biológico: um marxista pode converter-se ao nacional-socialismo, mas não um judeu (por outro lado, existiram fascistas judeus). O racismo não é um elemento essencial do fascismo, ainda que contribua à ideologia fascista. E algumas páginas mais adiante o autor aponta que um dos elementos constitutivos do fascismo é o nacionalismo tribal; isto é, um nacionalismo baseado no sentido de pertencimento, a “terra e os mortos” de Barrés, o “sangue e solo” do nacional-socialismo. Este sentido organicista é compartilhado com os nacionalismos de finais do século XIX, germânicos e latinos, Maurras e Corradini, Vacher de Lapouge e Treitschke. O próprio Sternhell debilita assim a distinção que acaba de fazer (reparemos, de passagem, na delicadeza do adjetivo “tribal”: seria pouco oportuno de nossa parte lembrar que uma tradução de “tribal” é “gentil”, de “gentio”?)

O fascismo então é uma síntese deste nacionalismo “tribal” ou “orgânico” e de uma revisão anti-marxista do marxismo. Sternhell se estende explicando que a finais do século XIX as previsões de Marx não se haviam cumprido: o capitalismo não parece cair, nem o empobrecimento é o sinal característico da população, enquanto o proletariado se integra política e culturalmente nas sociedades capitalistas ocidentais. Daí a aparição do “revisionismo”. Seguindo o exemplo do SPD, o partido social-democrata alemão, o conjunto do socialismo ocidental se faz reformista; isto é, sem renunciar aos princípios teóricos do marxismo, aceita os valores do liberalismo político, e em consequência, tacitamente, a ordem vigente. Mas uma minoria de marxistas irá recusar o compromisso e irá querer permanecer fiel à ortodoxia – cada um a seu modo; são os Rudolf Hilferding e os Otto Bauer, os Rosa Luxemburgo e os Karl Liebknecht, os Lenin e os Trotsky, todos da Europa Oriental.

Ao mesmo tempo, na França e logo na Itália surgem aqueles que, de dentro do marxismo, empreenderão sua revisão em sentido não materialista nem racionalista, sem discutir a propriedade privada ou a economia de mercado, mas conservando o objetivo da derrubada violenta da ordem burguesa: são os sorelianos, os discípulos de Georges Sorel, o teórico do sindicalismo revolucionário e autor das célebres “Reflexões sobre a violência”.

As diferenças entre os dois setores revolucionários são grandes. Os primeiros, quase todos membros da “intelligentsia” judaica, destaca Sternhell, mantém o determinismo econômico de Marx, a ideia da necessidade histórica, o racionalismo e o materialismo, enquanto os sorelianos começam por uma crítica à economia marxiana que chega a esvaziar o marxismo de grande parte do seu conteúdo, reduzindo-o fundamentalmente a uma teoria da ação. Os primeiros pensam em termos de uma revolução internacional, têm “um horror a esse nacionalismo tribal que florece ao longo da Europa, tanto no campo subdesenvolvido do leste como nos grandes centros industriais do oeste… Não se ajoelham jamais ante a coletividade nacional e sua torrão, seu fervor religioso, suas tradições, sua cultura popular, seus cemitérios, seus mitos, suas glórias e animosidades” (p.48). Os segundos, comprovando que o proletariado já não é uma força revolucionária, o substituirão pela Nação como mito em uma luta contra a decadência burguesa e assim confluirão finalmente no movimento nacionalista.

Tal é a tese fundamental de Sternhell. No desenvolvimento de “O nascimento da ideologia fascista”, o capítulo I está dedicado à análise da obra de Sorel: talvez não propriamente um filósofo nem autor de um corpus ideológico fechado, sua verdadeira originalidade, assinala Sternhell, reside em ter constituído uma espécie de “lago vivente”, receptor e fonte de ideias na gestação das novas sínteses ideológicas do século XX. Nietzsche, Bergson e William James o marcaram sem dúvida mais profundamente que Marx, com ânimo de julgar o que considerava um sistema inacabado.

O autor de “Reflexões sobre a violência”, de “As ilusões do progresso”, de “Materiais de uma teoria do proletariado”, etc., se sublevava contra o marxismo vulgar (que enfatiza o determinismo econômico) e sustentava que o socialismo era uma “questão moral”, no sentido de uma “transvaloração de todos os valores”. A luta de classes era para ele questão principal e, por extensão, saber mobilizar o proletariado na guerra contra a ordem burguesa.

Em um contexto social em que os operários mostram um alto grau de militância sindical (1906, o ano de edição de “Reflexões sobre a violência”, marca também na França o recorde de greves que frequentemente supõem enfrentamentos sangrentos com as forças da ordem), mas também onde uma economia em crescimento permite à classe dirigente fazer concessões que reduzem a combatividade operária, não bastam a análise econômica nem a previsão do curso racional dos acontecimentos.

Sorel descobre então a noção do “mito social”, esta imagem que põe em jogo sentimentos e instintos coletivos, capaz de suscitar energias sempre novas na luta cujos resultados não chegam a divisar-se. Como o mito do apocalipse para os primeiros cristãos, o mito da greve geral revolucionária será para o proletariado esta imagem mobilizadora e fonte de energias. Com fervor análogo ao das ordens religiosas do passado, com um sentimento parecido ao do amor à glória dos exércitos napoleônicos, os sindicatos revolucionários, armados do mito, se lançarão à luta contra a ordem burguesa.

Assim, à mentalidade racionalista, que o socialismo reformista compartilha com a burguesia liberal, Sorel opõe a mentalidade mítica, até mesmo religiosa. Sua crítica ao racionalismo que remonta a Descartes e Sócrates e, contra os valores democráticos e pacificistas, reivindica os valores guerreiros e heróicos. De boa vontade reivindica também o pessimismo dos gregos e dos primeiros cristãos, porque só o pessimismo suscita as grandes forças históricas, as grandes virtudes humanas: heroísmo, ascetismo, espírito de sacrifício.

Sorel vê na violência um valor moral, um meio de regenerar a civilização, já que a luta, a guerra por causas altruístas, permite ao homem alcançar o sublime. A violência não é a brutalidade nem a ferocidade, não é o terrorismo; Sorel não sente nenhum respeito pela Revolução Francesa e seus “provedores de guilhotinas”. É, em suma e no fundo, contra a decadência da civilização que Sorel dirige seu combate; decadência na qual a burguesia arrasta atrás de si o proletariado. E não será surpreendente encontrar aos discípulos de Sorel reunidos com os nacionalistas de Charles Maurras no “Círculo Proudhon”, que leva o nome do grande socialista francês anterior a Marx. Tampouco será estranho que em seus últimos anos Sorel lance seu alegado “Pro Lenin”, desejando ver a humilhação das “democracias burguesas”, ao mesmo tempo que reconhecia que os fascistas italianos invocavam suas próprias idéias sobre a violência.

A síntese Nacional e Social

Estes discípulos são também estudados por Sternhell (capítulo II). São os “revisionistas revolucionários”, a “nouvelle école” que tentou tornar operacional uma síntese nacional e social, não sem tropeços e desilusões. Ali está Edouard Berth, que junto a Georges Valois, militante maurrasiano (futuro fundador do primeiro movimento fascista francês, morto em um campo de concentração alemão), deu vida ao “Círculo Proudhon”, órgão de colaboração entre sindicalistas revolucionários e nacionalistas radicais nos anos anteriores a 1914.

Aventada esta experiência pela guerra européia, Berth passará pelo comunismo antes de voltar ao sorelismo. Está também Hubert Lagardelle, editor da revista “Mouvement Socialiste”, homem de luta no interior do partido socialista, onde se esforçou por fazer triunfar as teses do sindicalismo revolucionário (pelo contrário, em 1902 triunfaram as teses de Jaurés, que apresentam o socialismo como complemento da Declaração dos Direitos do Homem). Ante a colaboração sorelista-nacionalista, Lagardelle se recolhe a posições mais convencionais; mas no pós-guerra o encontraremos na redação da revista “Plans”, expressão de certo fascismo “técnico” e vanguardista – nela colaborarão nada menos que Marinetti e Le Corbusier – e, durante a guerra, terminará sua carreira como titular do ministério do trabalho do regime de Vichy.

Trejetórias em aparência confusas mas que revelam a busca sincera do “novo”. Da Alemanha vem a eles o reforço do socialista Robert Michels, quem, à espera de construir sua obra prima “Os partidos políticos”, anuncia o fracasso do SPD, o partido de Engels, Kautsky, Bernstein e Rosa Luxemburgo. Michels observará também que só o egoísmo econômico de classe não basta para alcançar fins revolucionários; daí a discussão sobre se o socialismo pode ser independente do proletariado.

O ideal sindical não implica forçosamente a abdicação nacional, nem o ideal nacionalista comporta necessariamente um programa de paz social (julgado conformista), explica por sua vez Berth, quem espera um despertar conjunto dos sentimentos guerreiros e revolucionários, nacionais e operários, o fim da “era dourada”. Em fim, a “nova escola” desenvolve as ideias de Sorel, por exemplo, na fundamental distinção entre capitalismo industrial e capitalismo financeiro. Resume Sternhell sua contribuição: “… a esta revolta nacional e social contra a ordem democrática e liberal que eclode na França (antes de 1914, é bom lembrar) não falta nenhum dos atributos clássicos do fascismo mais extremo, nem sequer o anti-semitismo” (p.231). Nem a concepção de um Estado autoritário e guerreiro.

No entanto, no geral, os revisionistas revolucionários franceses foram teóricos, sem experiência real com movimentos de massa. De outro modo ocorre com o sindicalismo revolucionário na Itália (capítulos III e IV da obra de Sternhell). Ali Arturo Labriola encabeça desde 1902 a ala radical do partido socialista; com Enrico Leone e Paolo Orano levam adiante a luta contra o reformismo, o qual acusam de apoiar-se exclusivamente nos operários industriais do norte, em desfeita ao sul camponês, e pelo triunfo de sua tese de que a revolução socialista só seria possível por meio de sindicatos de combate.

De Sorel tomam essencialmente o imperativo ético e o mito da greve geral revolucionária. A experiência da greve geral de 1904, das greves camponesas de 1907 e 1908, inflamam os dirigentes sindicalistas revolucionários, entre os quais a nova geração de Michele Bianchi, Alceste de Ambris e Filippo Corridoni. À margem do Partido Socialista Italiano e de sua central sindical a CGL – ancorados em posições reformistas, os radicais formam a USI (União Sindical Italiana), que chegará a contar com 100.000 membros em 1913.

Por sua vez, os sindicalistas revolucionários animam jornais e revistas. Labriola e Leone empreendem a revisão da teoria econômica marxiana, especialmente a teoria do valor, seguindo ao economista austríaco Böhm-Bawerk; daí, diz Sznajder, o aspecto mais original da contribuição italiana à teoria do sindicalismo revolucionário. Aí se encontra também a noção de “produtores” (potencialmente todos os produtores), contraposta à classe “parasitária” dos que não contribuem ao processo de produção. Por fim a tradição antimilitarista e internacionalista, cara à toda a esquerda européia, não será mais unanimemente compartilhada pelos sindicatos revolucionários. Em 1911, a guerra da Itália contra o Império Otomano pela posse da Líbia produzirá uma crise no sindicalismo revolucionário: alguns dirigentes (Leone, De Ambris, Corridoni), fiéis à tradição socialista, se opõem energicamente a esta empresa – por mais que lhes desagrade estar junto aos socialistas reformistas; outros (Labriola, Olivetti, Orano) estão pela guerra, tanto por razões morais (a guerra é uma escola de heroísmo) como por razões econômicas (a nova colônia contribuirá para a elevação do proletariado italiano), e assim coincidem com os nacionalistas de Enrico Corradini, a quem já se haviam aproximado pela crítica ao liberalismo político.

Mas em agosto de 1914 ainda aqueles que – no seio do sindicalismo revolucionário – haviam militado contra a guerra da Líbia, estão a favor da intervenção no conflito europeu ao lado da França e contra a Alemanha e a Áustria; o combate contra o feudalismo e o militarismo alemão se agrega à possibilidade de completar graças à guerra a integração nacional italiana e de forjar uma nova elite proletária que substituirá a burguesia no poder. Em outubro de 1914, um manifesto do recém fundado Fascio Revolucionário de Ação Internacionalista, assinado pelos principais dirigentes sindicalistas revolucionários, proclama: “… Não é possível ir mais além dos limites das revoluções nacionais sem primeiro passar pela etapa da própria revolução nacional… Ali onde cada povo não vive no quadro de suas próprias fronteiras, formadas pela língua e pela raça, ali onde a questão nacional não foi resolvida, o clima histórico necessário ao desenvolvimento normal do movimento de classe não pode existir…” Nação, Guerra e Revolução… já não serão mais idéias contraditórias.

Até o final da guerra o sindicalismo revolucionário deve ser considerado já um nacional-sindicalismo, enquanto a Nação figura para eles em primeiro plano. Seja como for, os nacional-sindicalistas aceitam que a guerra há de trazer transformações internas: desde 1917 De Ambris lançou a consigna “Terra dos Camponeses”; e em seguida elabora um programa de “expropriação parcial” tanto no setor agrícola quanto no setor industrial, que se dirige ex proposito contra o capital especulativo e em benefício dos camponeses e operários que deram seu sangue pela Itália. Se trata também de manter e estimular a produção.

O “produtivismo” é um dos fatores que leva os sindicalistas revolucionários a opor-se à revolução bolchevique, que julgam destrutiva e caótica. Frente à ocupação de fábricas do biennio rosso de 1920-1921, Labriola, que chegou a ser Ministro do Trabalho no governo do liberal Giolitti, apresenta um projeto que reconhece aos operários o direito de participar na gestão das empresas. Parlamento com representação corporativa, “classes orgânicas” que enquadrem a população, um Estado que seja responsável por assignar aos proprietários capazes de produzir o direito de usar os meios de produção, são, por outra parte, as bases do programa do “sindicalismo integral” que propõe Panunzio em 1919. Por fim, o sindicalismo revolucionário vibra com a aventura do comandante Gabriele D’Annunzio em Fiume (1920-1921). De Ambris participa na redação da “Carta de Carnaro”, este fascinante documento literário que é a constituição que o poeta e herói de guerra outorga à Regência de Fiume. É um projeto político que, coerente ao ideal do sindicalismo revolucionário, quer resolver de uma vez a questão nacional e a questão social.

Nestas lutas do imediato pós-guerra, os sindicalistas revolucionários coincidiram com os fascistas. Mas a tomada do poder pelo fascismo acarretára a dissolução do sindicalismo revolucionário. De Ambris e seu grupo passarão à oposição; o primeiro terminará exilando-se. Labriola também partirá para o exílio, e só na guerra da Etiópia se reconciliará com o regime. Por outro lado, Bianchi aparece em 1922 como um dos quadrumviri que organiza a Marcha sobre Roma, Panunzio se apresenta junto a Gentile como um dos intelectuais oficiais do fascismo, Orano (que era judeu), alcança altos postos no partido fascista, enquanto Michels, antigo membro do SPD, professor na Universidade de Perusa, se inscreve como afiliado no PNF (Partido Nacional Fascista).

A Encruzilhada Mussoliniana

Assinala Sternhell que sempre se tendeu a subestimar o papel central que Mussolini desempenhou entre todos os revolucionários italianos. O futuro Duce “aporta à dissidência esquerdista e nacionalista italiana o que sempre faltou a seus homólogos franceses: um chefe”. Um homem de ação, um líder carismático, mas ao mesmo tempo um intelectual capaz de lidar com intelectuais e ganhar o respeito de homens como Marinetti, o fundador do futurismo, Michels, o antigo militante do SPD alemão tornado um dos clássicos da ciência político, ou ainda Croce, representante oficial da cultura italiana sob o fascismo. E Mussolini é toda uma evolução intelectual, não o achado repentino de uma verdade, nem o oportunismo, nem sequer a conjuntura do pós-guerra.

Mussolini é antes de mais nada um militante socialista, mesmo como líder dos fascistas. Quando jovem se tem evidentemente por marxista, de um marxismo revisto por Leone e, sobretudo, por Sorel, em quem vê um antídoto contra a perversão social-democrata alemã do socialismo. Outra influência decisiva é Wilfredo Pareto e sua teoria de circulação das elites (por outro lado, Sternhell não destaca a influência de Nietzsche, a quem Mussolini leu prematuramente na Suíça). O jovem socialista se situa portanto na órbita do sindicalismo revolucionário, ainda quando discrepa das táticas: duvida da virtude das organizações econômicas por si e vê no Partido um instrumento revolucionário.

O jovem Mussolini é o líder indiscutível que se opõe à greve geral contra a intervenção na Líbia, pois crê que a tentativa burguesa de desencadear uma guerra pode gerar uma situação revolucionária. Em 1912 é o principal líder do partido socialista, impondo-se sobre os reformistas e fazendo-se com a direção do seu jornal oficial “Avanti!” o líder indiscutido de toda a esquerda revolucionária italiana, mas ao mesmo tempo o mais forte crítico da ortodoxia marxista.

Mussolini publica desde as páginas do “Avanti!” sua profunda decepção com a atitude da classe operária para “moldar a história” e valoriza a idéia de Nação: “Não há um evangelho socialista único ao qual todas as nações devam conformar-se sob pena de excomunhão”. A finais de 1913 Mussolini lança a revista “Utopia”, com a intenção de propôr uma “revisão revolucionária do socialismo”. Ali reúne a futuros comunistas como Bordiga, Tasca e Liebknecht; futuros fascistas como Panunzio, futuros dissidentes do fascismo como seu velho professor Labriola.

Em junho de 1914 Mussolini crê que é chegado o momento da insurreição, comprometendo-se na settimana rossa contra a opinião do congresso do Partido Socialista Italiano. Quando eclode a guerra européia, as dissidências são já tão palpáveis que Mussolini é desautorizado oficialmente pelo partido, e não hesita em romper com seus antigos companheiros para unir-se aos sindicalistas revolucionários na campanha a favor da entrada da Itália na guerra.

Sternhell assinal que o nacionalismo de Mussolini não é o nacionalismo clássico da direita. Ocorre que ante as novas realidades nacionais e sociais a análise marxista demonstrou-se falha, pois as classes operárias na Alemanha, França e Inglaterra marcham alegremente para a guerra. Mussolini não renuncia ao socialismo, mas o seu é um socialismo nacionalista, obra dos combatentes do front: “Os milhões de trabalhadores que regressarão aos sulcos dos campos depois de ter vivido nos campos das trincheiras darão lugar à síntese da antítese classe e nação”, escreve em 1917.

E não será a revolução bolchevique a levar Mussolini à direita, dado que o essencial do seu pensamento se forjou antes de 1917: idéias de hierarquia, de disciplina, de colaboração das classes como condição da produção… Os Fasci Italiani di Combattimento, fundados em março de 1919, recolhem todas as idéias do sindicalismo revolucionário e se situam inclusive à esquerda do partido socialista (defendem sufrágio universal para ambos os sexos, abolição do senado, constituição de uma Milícia Nacional, conselhos corporativos com funções legislativas, jornada laboral de 8 horas, confisco de espólios de guerra, etc). Mas com o biennio rosso as filas fascistas se transbordam com a afluência das classes médias, especialmente de jovens oficiais desmobilizados.

O Partido Nacional Fascista, organizado como tal em 1921, conhecerá um sucesso (eleitoral incluso) vetado aos primitivos “Fascis”. “Esta mutação não deixa de recordar-nos a dos partidos socialistas no início do século: a virada à direita constitui o preço habitual do sucesso” (p.400). Mussolini, homem de realidades que antepõe a prática à teoria, viu fracassar a ocupação “vermelha” de fábricas como a gesta nacionalista de Fiume, e decide levar a cabo a revolução possível. Assim, na perspectiva de Sternhell, a captura do poder pelo chefe fascista não é tanto o resultado de um golpe de Estado como de um processo; é a simpatia de uma ampla parte da massa política, dos meios intelectuais, dos centros de poder, o que permite a Mussolini instalar-se e sustentar-se no governo. Para Sternhell é sintomática a atitude do senador Croce que, ainda em junho de 1924, deu seu voto de confiança ao primeiro ministro quando o caso Mateotti pôs em crise o governo e Mussolini estava a ponto de ser deposto pelo rei, porque, pensava Croce, “havia de dar tempo ao fascismo para completar sua evolução rumo à normalização”.

A idéia de Estado, que parece ser característica só do fascismo é, entretanto, o último elemento que toma forma na ideologia fascista. Em todo caso assinala Sternhell que toda a ideologia fascista estava elaborada antes da tomada do poder: “A ação política de Mussolini não é o resultado de um pragmatismo grosseiro ou de um oportunismo vulgar mais do que foi a de Lenin.”(p.410)

O jurista Alfredo Rocco, proveniente das filas nacionalistas, “codificou” e traduziu em leis e instituições os princípios fascistas e nacionalistas (visão mítica e orgânica da nação, afirmação da primazia da coletividade sobre o indivíduo, recusa total e sem paliativos da democracia liberal). Mas é um Estado que, ao mesmo tempo, se quer reduzido somente a sua expressão jurídica e política; que quer renunciar a toda forma de gestão econômica ou de estatização, como anunciava Mussolini desde 1921. Não é, portanto, ou não ainda, o Estado totalitário.

O fascismo no poder, em suma, não se assemelha ao fascismo de 1919, menos ainda ao sindicalismo revolucionário de 1910. Mas, pergunta Sternhell: “o bolchevismo no poder reflete exatamente as idéias que, dez anos antes da tomada do Palácio de Inverno, animavam a Plekhanov, Trotsky ou Lenin?” Houve uma grande evolução, sem dúvida. E contudo – conclui o autor -, o regime mussoliniano dos anos 30 está muito mais próximo do sindicalismo revolucionário ou do “Círculo Proudhon” que o regime estalinista está dos fundamentos do marxismo.

O encanto secreto do Fascismo

Como conclusão, Sternhell lança um olhar sobre as relações entre o fascismo e as correntes estéticas de vanguarda no século XX. O futurismo, desde cedo (futuristas e fascistas lutaram juntos pelo “intervencionismo”, e Marinetti é um dos fundadores dos Fasci), mas também o vorticismo, lançado em Londres por Ezra Pound, que é em certo modo uma réplica ao futurismo, ainda que compartilhe com ele alguns traços essenciais. “Os dois atacam de frente a decadência, o academicismo, o esteticismo imóvel, o morno, a moleza geral… tem uma mesma voz de ordem: energia, e um mesmo objetivo: curar a Itália e a Inglaterra de sua languidez” (p.424). De Pound conhecemos de sobra sua opção política.

Sternhell destaca também o papel de Thomas Edward Hulme, antirromântico, antidemocrata em política, tradutor ao inglês de Sorel. “Revolucionário antidemocrata, absolutista em ética, que fala com desprezo do modernismo e do progresso e utiliza conceitos como da honra sem o menor toque de irrealidade”(p.429). Hulme é, portanto, para o autor, um representante desta rebelião cultural que brota por toda parte, antirracionalista, antiutilitarista, antihedonista, antiliberal, classicista e nacionalista e que precede a rebelião política.

As gerações dos anos 20 e 30, que já conhecem a experiência fascista, refazem o caminho do inconformismo. Assim um Henri de Man, em 1938 presidente do partido socialista belga, um dos grandes teóricos do socialismo na época, menor somente que Gramsci e Lukacs, reemprende sua própria revisão do marxismo e não será ilógico que, quando seu país capitule ante a Alemanha em 1940 convide os militantes socialistas belgas a aceitar a nova situação como um ponto de partida para construir uma nova ordem: “O caminho está livre para as duas causas que resumem as aspirações do povo: a paz europeia e a justiça social.” Não muito diferente é na França no caso de Doriot.

Como pôde surgir o fascismo na história européia e mundial? A explicação conjuntural não pode senão desembarcar em trivialidades. Deve-se compreender o fascismo primeiro como um fenômeno cultural. É, de início, uma rejeição à mentalidade liberal, democrática e marxista; rejeição da visão mecanicista e utilitarista da sociedade. Mas expressa também “a vontade de ver a instauração de uma civilização heróica sobre as ruínas de uma civilização baixa e materialista. O fascismo quer moldar um novo homem, ativista e dinâmico.” Apesar de apresentar esta vertente tradicionalista, este movimento contém em suas origens um caráter moderno muito pronunciado, e sua estética futurista foi o melhor cartel para a captura de intelectuais, de uma juventude que se sente submetida às baixezas da burguesia.

O elitismo, no sentido de que uma elite não é uma categoria social definida pelo lugar que ocupa no processo de produção, senão um estado de espírito, é outro componente maior desta força de atração. O mito, como chave de interpretação do mundo; o corporativismo, como ideal social que dá a amplas camadas da população o sentimento de que há novas oportunidades de crescimento e participação, constituem também parte do segredo do fascismo, porque o fascismo reduz os problemas econômicos e sociais a questões sobretudo de ordem psicológica. E, sobretudo, “servir à coletividade formando um corpo com ela, identificar os próprios interesses aos da pátria, comungar no mesmo culto os valores heróicos, com uma intensidade que toma o lugar do boletim de voto na urna”.

É por tudo isto que o estilo político desempenha um papel tão essencial no fascismo. O fascismo veio a provar que existe uma cultura não fundamentada nos privilégios do dinheiro ou do nascismento, senão sobre o espírito de grupo, de camaradagem, de comunidade orgânica, de “Bund”, como se dizia na Alemanha da época.

Estes valores presentes no fascismo tocam a sensibilidade de muitos europeus. É pouco conhecido que em 1933 Sigmund Freud saudava a Mussolini como um “herói da cultura”. Se fosse mesmo, porque Croce teria votado contra ele em 1924, porque Pirandello teria recusado o assento que o Duce lhe ofereceu na Academia Italiana? As realidades dos países europeus entre as duas guerras não são de uma mesma peça: a cultura italiana está representada por Marinetti, Gentili e por Pirandello não menos que por Croce, e por Croce senador não menos que por Croce antifascista, do mesmo modo que pela cultura alemã podem falar tanto Spengler, Heidegger ou Moeller van der Bruck como os irmãos Mann, e a cultura francesa é tanto Gide, Sartre o Camus como Drieu la Rochelle, Brasillach ou Céline…

Assim, “O nascismento da Ideologia Fascista” outorga a seu objeto uma dignidade que nem sempre se encontra nos variados estudos sobre o tema. Isto só pode ser saudável para a história das idéias. Façamos por nosso lado algumas observações. Primeiro, que, como é evidente, Sternhell trata na sua obra do fascismo latino, isto é, das correntes inconformistas surgidas na França e na Itália. Um tema de discussão é ver se o fascismo italiano e o nacional-socialismo alemão são coisas totalmente diferentes (esta é a tese de De Felice), ou se o nacional-socialismo é uma espécie dentro do fascismo genérico (tese de Payne e Nolte). Do nacional-socialismo se discutiu se foi “antimoderno” ou se apresentava traços de uma modernidade radical, dado que é inegável que o movimento desenvolveu um radicalismo antiburguês operativamente muito atrativo para os militantes comunistas.

O fascismo nasce à esquerda, a partir de uma revisão do marxismo. Este revisionismo se desenvolve e se constitui em uma corrente intelectual e política independente à qual concorrem outras tendências que cohabitam com o socialismo: Nietzsche, Bergson, James, e o nacionalismo integral. A respeito é interessante comparar as diferentes evoluções do marxismo que seguiu sendo tal e as diferentes ramificações “apóstatas”. O fascismo em uma revisão do marxismo descobriu que todos os partidos socialistas consideravam o marxismo uma herança a qual deviam permanecer fiéis. Entretanto, em sua evolução recente todos estes partidos renunciaram à herança de Marx, acomodando-se à economia neoliberal. Seguem apegados, desde sempre, à matriz iluminista, materialista e igualitária. Ao contrário, os fascistas, animados de outra cultura, mantiveram sempre o espírito revolucionário de ruptura com a ordem burguesa.

Sternhell insiste permanentemente no respeito dos sindicalistas revolucionários, dos socialistas nacionais e dos fascistas pela propriedade privada e pelo capitalismo. Não haveria que distinguir entre propriedade privada e capitalismo que, no fim das contas, historicamente não se identificam? Todos os fascismos sublinharam sempre a diferença entre a propriedade ligada ao homem e a propriedade ligado ao grande capital financeiro; entre o trabalho produtivo e a servidão ao interesse do dinheiro (G. Feder). Não parece adequado ignorar isto. Talvez Payne tenha sido o autor mais justo neste sentido.

Finalmente, é verdade que uma coisa é reconhecer o componente irracional da vida humana e outra fazer do antirracionalismo uma política. Sternhell, que durante toda sua obra se mantém distanciado de qualquer afeição moralizante, ao final nos adverte do perigo do irracionalismo: “Quando o antirracionalismo se converte em um instrumento político, um meio de mobilização das massas e uma máquina de guerra contra o liberalismo, e marxismo e a democracia; quando se associa a um intenso pessimismo cultural a par de um culto pronunciado pela violência, então o pensamento fascista fatalmente toma forma.”(p.451). A questão seria se só os valores políticos do iluminismo e do liberalismo são legítimos; se só o plano otimismo hedonista pode passar por perspectiva cultural, se as massas só devem ser mobilizadas em nome do esporte.

Aqui, obviamente, a ciência não pode dizer nada: estamos no campo da opção política.


Algumas obras citadas no artigo (em ordem de aparição):

Outras obras e documentos de interesse:

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