Texto originalmente publicado no blog “Mundo Analista“. Para ler o original, clique aqui.

JornalismoDe vez em sempre surge, na minha faculdade de jornalismo, uma enorme discussão em sala sobre como a grande mídia é tendenciosa e manipula o espectador. Então, todos passam minutos preciosos da aula demonizando grandes meios de comunicação, sejam eles impressos, audiovisuais ou digitais. Discussão infrutífera, em minha opinião. Deixemos de utopia e vamos analisar as coisas como elas são: todas as pessoas desejam defender um posicionamento, quer por princípio, quer por conveniência. Instituições midiáticas são feitas por pessoas. Logo, instituições midiáticas irão defender um posicionamento. Nesse jogo de defesas, quem irá vencer? Obviamente, quem tiver mais poder.

Demonizar as mais poderosas instituições é inútil, porque estamos lidando com uma inerência humana. Se a instituição “A” está no controle, e nós a derrubamos, a “B”, a “C”, ou a “D” vão tomar o lugar dela. Trata-se de uma constante.

O que deveria ser discutido não é “Como é terrível as poderosas instituições midiáticas manipularem as pessoas!”, mas sim, “Como é terrível que um número tão grande de pessoas se deixe manipular!”. Este é o ponto. Você passa um tempo no Facebook, por exemplo, e percebe como é grande o número de pessoas que compartilham notícias falsas pensando que são reais. Algumas delas são de sites humorísticos, especializados em criar notícias falsas. Não para enganar, mas para fazer rir. E mesmo assim tem gente que acredita. Este é apenas um dos vários exemplos que eu poderia oferecer de como as pessoas se deixam manipular.

Não adianta gastar tempo demonizando instituição “A” ou “B” e achando que podemos criar um mundo bom e cor de rosa, no qual todas as instituições midiáticas serão neutras, totalmente isentas, com compromisso total com a verdade. É preciso ser realista e entender que certas coisas no mundo não podem ser mudadas, apenas amenizadas. E você não ameniza a manipulação sobre as pessoas tentando destruir “A”, ou “B”. Porque se você destrói estes, sobe “C” e “D” ao poder. Ou sobe você mesmo. E você muito provavelmente fará o mesmo que “A” fazia antes: defenderá sua ideia.

O que ameniza o problema das pessoas serem manipuladas é a instrução. É você instruir as pessoas a pesquisarem, a terem apreço pela leitura, a buscarem em várias fontes, a darem atenção a opiniões divergentes, a refletirem por alguns dias, semanas ou meses, antes de se posicionar sobre algum assunto. É criar nelas uma cultura de independência. O cidadão não depende mais de um canal, ou site ou jornal para saber algo. Ele se serve de todos, faz uma análise coerente e aceita o que faz sentido.

Discutir o poder de grandes instituições midiáticas quando a maioria do povo não lê mais que um livro por ano é, no mínimo, ingênuo. Isso quando não hipócrita, já que boa parte desses críticos acaba aceitando estágios nas grandes instituições que tanto demonizam.

Eu discordo frontalmente destes. Como jornalista, estou muito mais preocupado em ensinar as pessoas a apurarem a notícia veiculada por si próprios do que a lutar para derrubar “A” ou “B”. Como jornalista, eu costumo a dizer aos meus amigos: “Jornalista não presta”, “Jornalista é uma raça desgraçada” e “Não existe neutralidade. O próprio ato de escrever, de escolher as palavras, as frases, a hierarquia das notícias, a hierarquia dos fatos de um evento, o tamanho do texto, o enfoque e etc. já são parciais, subjetivas. Daí, para essa subjetividade distorcer um fato, é um pulo. Um pulo que quase todos dão. E eu não devo me excluir disso”.

Mas, infelizmente, o jornalismo e outras áreas de humanas (como história, filosofia, sociologia, antropologia e etc.) estão hoje repletas de pessoas que desligaram seus pés da realidade. Elas já não conseguem pensar em como agir da melhor forma possível neste mundo cruel. Em vez disso, preferem criar teorias de como as coisas deveriam ser. Em seguida teorizam sobre porque as coisas não são como deveriam ser. Daí criam teorias sobre como alcançar o mundo teoricamente perfeito que almejam. Finalmente, quando a teoria falha, eles criam uma teoria sobre porque a sua teoria de solução falhou. E no meio dessas teorias, sobre teorias e mais teorias, não há espaço para muita coisa tangível, concreta, exata. Ficamos perdidos em teorizações e abstrações, assassinado nossos sensos de proporção, de plausibilidade, de objetividade, de administração e de contabilidade.

Talvez por isso os estudantes de exatas costumem a ser mais realistas. Pra eles, a conta no final precisa fechar, e as teorias precisam ser comprovadas por números exatos. É com o mundo real que lidamos. Isso não quer dizer que os estudantes de exatas sejam mais inteligentes ou que os de humanas sejam alienados. Se, por um lado, o matemático ser mais realista e objetivo, por outro lado é tendência ele não ter muita consciência social. Humanas e exatas se complementam. Aliás, como diria o pastor com quem estudei o livro de Apocalipse: “O conhecimento é um só. Os homens é que o subdividiram”. Nunca esqueci esta frase. E, certamente isso explica porque os primeiros filósofos eram também matemáticos, biólogos e historiadores.

Contudo, infiltrou-se em humanas e em jornalismo uma cultura de querer mudar o mundo em vez de entendê-lo primeiro. Com a garagem aberta para a abstração, os textos, diálogos, palestras e aulas se tornaram um emaranhado de prolixidade subjetiva. Cada um entende a sua maneira e movido por paixões da juventude sai por aí querendo fazer mais pelo mundo do que pelo seu próximo, criando classes inimigas e odiando tradições. Envelhece este revolucionário sem ver o mundo perfeito que tanto buscou. Então, faz uso de seus últimos anos criando mais teorias, que serão seguidas por mais uma geração de sonhadores.

Enquanto muitos de meus colegas jornalistas se agarram nestas utopias, tento fazer minha parte ensinando a quem queira aprender, como se sobrevive neste mundo cruel; e aprendendo a lidar comigo mesmo primeiro. Porque este mesmo que vos escreve é um poço de vícios e falhas, tal como meus colegas revolucionários. Não dou conta de arrumar meu quarto, às vezes. Tenho dificuldades de dizer “não” para guloseimas. Minto, brigo, reclamo, cometo injustiças. Orgulho-me, rio do que não devo e, por vezes, sou insensível. Como posso eu, então, ousar tornar este mundo perfeito? Como posso ousar estar acima de todas as pessoas e instituições? Achar que eu e meus colegas igualmente humanos somos paladinos da justiça e de nós sairá a salvação do mundo?

Como jornalista, acostumado a fatos, vejo um mundo que é imperfeito a milhares de anos. E eu mesmo faço parte dessa imperfeição. Reconhecer isto não é fraqueza, fatalismo ou pessimismo. Reconhecer isso é colocar os pés na realidade, reativar o senso das proporções, incluir-me na lama que é a humanidade e passar a enxergar o indivíduo humano, com todos os seus vícios e virtudes. Isso é ser factual.

O jornalista, como alguém que tem (pelo menos em teoria), compromisso com a verdade, deve encarar a verdade sobre si mesmo e a humanidade. Deve entender e reconhecer que nós, humanos, não somos tão grandes, poderosos e perfectíveis como julgamos ser; como dizemos que somos.

Não se trata de deixar tudo como está, imóvel, sem alterações, ignorando injustiças, crueldades e violações da dignidade humana. Trata-se de deixar a nossa soberba de lado, compreender nossos limites e trabalhar dentro deles da melhor maneira possível.

Certa vez um homem encontrou um menino na praia jogando estrelas do mar de volta ao oceano. Na orla da praia havia literalmente milhares de estrelas trazidas pelas ondas. A cada momento o mar trazia mais delas. E elas morriam na orla. O homem aproximou-se do menino e comentou: “É inútil o que você está fazendo. Não irá conseguir jogar todas elas de volta ao mar. Não vai fazer diferença”. O menino pegou uma estrela, jogou-a no mar e olhou para o homem, dizendo: “Para essa estrela, fez diferença”. O homem entendeu a mensagem e começou a ajudar o menino.

Salvar o mundo não é algo que nos compete. Imaginar que somos bons o suficiente para mudar milênios de história é ignorar nossas próprias imperfeições e nosso senso de realidade. Mas podemos dar o melhor de nós, focalizando os indivíduos e ajudando-os. Se eu instruo dez pessoas, eu não mudei o mundo, eu não derrubei a instituição midiática “A” ou “B”, mas eu livrei dez indivíduos de se deixarem manipular. Se cada um desses conseguir instruir mais dez pessoas, teremos mais cem pessoas instruídas. Não conseguiremos instruir a todos. Até porque nem todos querem ser instruídos. Mas esses pequenos gestos são de grande importância. E é isso que se espera de um jornalista.