A gestão do PSDB entre 1994 e 2002 e as razões da direita para escolher os social-democratas nessas eleições

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Aécio

Até onde sei, FHC e seu partido, o PSDB, governaram o Brasil em uma época complicada economicamente. O país já vinha quebrado com uma hiperinflação que perdurava desde a época da ditadura e com diversas empresas públicas prestando maus serviços, gerando déficits ou não lucrando o esperado. De quebra, aquele Brasil ainda viria a sofrer com os reflexos de crises internacionais que afetariam principalmente os países emergentes. Ou seja, a economia tupiniquim não vivia dias muito tranquilos.

É claro que existiam muitos outros problemas que afligiam os brasileiros. E é claro que, para o cidadão comum, economia não é algo muito interessante. O que ele quer é ver resultados práticos em sua vida. Práticos e rápidos. Mas é preciso dizer que a economia, essa coisa abstrata, difícil e chata, é um dos principais pilares para resolver os problemas de um país (senão o principal, já que tem outros pilares, como a formação do caráter de um filho, por exemplo, que cabem ao cidadão e não ao Estado). Somente quando acertamos os principais problemas da economia de um país, temos condição de começar a resolver outros problemas.

Pois bem, foi isso o que FHC e o PSDB se esforçaram para fazer em seu governo: dar um jeito na economia. E os resultados foram positivos. O plano real estabilizou a moeda, acabando com a hiperinflação e as privatizações de algumas empresas problemáticas fizeram com que os serviços melhorassem bastante, os lucros aumentassem (gerando mais receita para o governo sem onerar o cidadão) e o crescimento das mesmas, à longo prazo, gerasse mais empregos. O serviço de telefonia é o exemplo que mais se destaca, pois era realmente muito ruim e caro. Hoje qualquer um pode ter um celular.

O governo da época também procurou facilitar a entrada de empresas estrangeiras no país como uma forma de estimular a concorrência e diminuir preços de alguns produtos. Criou ainda a lei de responsabilidade fiscal, a fim de limitar um pouco a má gestão do orçamento público em estados e municípios.

Não podemos dizer que foi um governo perfeito e que todos os problemas econômicos foram sanados. Entretanto, as medidas econômicas tomadas deram ao Brasil a estabilidade necessária para começar a pensar na resolução de outros problemas. E nisso o PSDB, como um legítimo representante da social-democracia, também procurou fazer, ao criar programas sociais como o Bolsa Escola, o Vale Gás e o FIES.

O panorama, portanto, que o PT encontra no Brasil quando assume a gerência do país é o de uma economia centenas de vezes melhor do que quando o PSDB assumiu e com vários programas sociais que poderiam continuados (e, de fato, foram. O Bolsa Escola, o Vale Gás e outros programas acabaram sendo reunidos no Bolsa Família pelo PT, que, vale lembrar, não concordava com a existência deles, chamando-os de esmola). Em outras palavras, o PT entra com a faca e o queijo na mão, já não necessitando focar tanto na questão econômica, mas podendo pensar na resolução de outros problemas.

Do meu ponto de vista, a gestão do PSDB foi positiva. Em primeiro lugar, porque os problemas econômicos do Brasil eram bem graves e o contexto não ajudava nem um pouco. Ainda assim, a gestão os atacou com eficiência. Em segundo lugar, porque nenhum governo é capaz sanar todos os problemas de um país enorme como o Brasil em apenas oito anos de gestão. Pensar que o governo FHC conseguiria, além de resolver problemas econômicos graves, resolver completamente os problemas de saúde, educação, segurança pública, miséria, infraestrutura e etc. do Brasil em oito anos é exigir o impossível. Não estamos falando de um país com o tamanho de uma Suíça.

Assim, não vejo sentido em julgar o governo do PSDB como um governo que deveria ter feito mais e sim como um governo que preparou um bom terreno para o governo que o sucedeu. Não vejo sentido em ver a gestão de FHC como uma gestão que falhou em resolver outros problemas além da economia e sim como uma gestão que deixou as coisas mais arrumadas para o governo seguinte. Isso não significa dizer que a gestão foi perfeita, que não tomou decisões ruins e que foi isenta de erros, mas é apenas reconhecer que ela fez muito pelo Brasil em uma época complicada e que o saldo final foi positivo.

Quaisquer que sejam as comparações entre os governos PT e PSDB, portanto, precisam levar em conta elementos básicos como o contexto nacional e internacional em que cada gestão assumiu o Brasil, os problemas prioritários que precisavam ser resolvidos em cada época e os resultados conquistados em relação um ao outro e em relação ao seu contexto. Esse tipo de comparação é mais complexa, demanda mais tempo e paciência, porém é mais justa.

Das análises que tenho feito, tenho chegado à conclusão de que o governo PSDB foi superior ao do PT e que, assumindo em um contexto econômico mais tranquilo em comparação ao de outrora, tem boas chances de atuar bem em muitas das áreas às quais, naquela época, não era possível fazer grandes coisas e/ou não foram dadas tanta atenção.

Não obstante, deve-se ter em mente que isso não quer dizer que uma nova gestão do PSDB irá acabar com os problemas na saúde, educação, segurança pública e etc. Primeiro, porque, como já dito, não se muda grandes problemas em alguns poucos anos. Segundo, porque, o PSDB não é um partido de direita. Ele é de esquerda moderada. Oscila entre esquerda e centro. Como um legítimo representante da social-democracia, sabe o valor do capitalismo, mas não abre mão dos cacoetes esquerdistas de querer domar a economia como um cavalo adestrado e de enxergar o Estado como uma mãezona que deve educar seus filhos. O primeiro cacoete inviabiliza o surgimento de novas ideias que integrem a iniciativa privada às resoluções de problemas sociais. Um governo assim, por mais que abra algumas concessões ao livre mercado para que a economia cresça e respire, sempre continuará crendo que pode abraçar o mundo e resolver a maioria das coisas através da ação direta do Estado, o que sempre acaba gerando má administração, corrupção e autoritarismo.

O segundo cacoete inviabiliza a criação de leis penais mais rígidas, melhores sistemas de fiscalização e o respeito às leis. Um governo assim, dificilmente conseguirá combater com eficiência a corrupção (seja nos altos ou nos baixos escalões), o sentimento de impunidade, o desrespeito à autoridade, a reincidência de crimes que poderiam ser evitados e etc.

Num país de dimensões continentais como o Brasil, com um péssimo passado econômico, um horroroso histórico de corrupção e uma sucessão de governos autoritários, isso tudo desde que passou a existir como país independente, é praticamente impossível que um governo social-democrata consiga transformá-lo em uma Suécia, por exemplo, que o que é hoje justamente porque tem uma história oposta a do Brasil em tudo o que acabei de falar.

Meu voto nesse segundo turno (como foi no primeiro) vai para o Aécio Neves, do PSDB, não porque eu pense que ele dará jeito em tudo (nem se ele fosse de direita eu acharia isso, aliás), mas porque a social-democracia está mais próxima daquilo que eu acho que seria o melhor para o Brasil. Meu voto vai para o Aécio porque não acredito em governos de esquerda e, na falta de um candidato e um partido de direita, o melhor é votar em social-democratas.

Há quem diga que esse tipo de voto é voto pelas elites, que não ser de esquerda é ser contra o pobre. Mas não é verdade. Ser de direita é simplesmente entender que dá para sentar e pensar em maneiras mais eficientes de cuidar do país e dos pobres sem precisar fazer do Estado uma mãezona. Para quem gosta de programas sociais, não é sequer necessário abandoná-los. Convido-o a pensar, por exemplo, em um governo que em vez de gastar rios de dinheiro com escolas públicas, transferisse aos poucos os alunos para bons colégios privados, financiando a mensalidade de cada um e dando aos pais a oportunidade de transferir o aluno de colégio se achar necessário? É difícil? Há possíveis problemas? Pode ser, pode ser. Mas como eu falei, é necessário pensar. Sentar e pensar.

No mais, qualquer pessoa sensata sabe que se um país estimula a iniciativa privada e a concorrência, os produtos tendem a ficar mais baratos e melhores, mais empresas tendem a surgir e, com isso, mais empregos. Isso, à longo prazo, é o melhor tipo de programa social existente.

Qualquer pessoa sensata sabe também que violência e corrupção só podem ser controladas com leis rígidas, que imponham respeito ao criminoso, ou que, no mínimo, o mantenha impossibilitado de cometê-lo novamente contra o cidadão honesto. A taxa de cinquenta mil assassinatos anuais no Brasil só irá diminuir se o sujeito que matar uma vez não puder matar de novo. E para isso é necessário haver leis rígidas.

Ser de direita é simplesmente tentar melhorar as coisas sem depositar confiança em esperanças utópicas como um governo repleto de homens de ótimo caráter e perfeita noção de administração. É tentar melhorar as coisas reconhecendo que ninguém é perfeito, que alguns são corruptos, que outros são maus gestores e que é preciso criar mecanismos inteligentes para limitar ao máximo os prejuízos que a imperfeição humana causa a nós mesmos.

Aqui ficam expostas, portanto, as minhas razões para votar no candidato e no partido social-democrata. Em suma, eles são os que, atualmente, mais se aproximam do que julgo ser bom para o Brasil. Mas também há motivos para simplesmente não votar no PT, tais como o fato de este ser um partido de origem/orientação marxista (ideologia que só causou genocídios, miséria e perseguição nos países onde tentou ser implantada), de ter ajudado a criar no início dos anos 90 (e fazer parte até hoje) do Foro de São Paulo – uma organização que reúne vários partidos de esquerda da América Latina, juntamente com organizações terroristas e narcotraficantes como as FARC -, de não apresentar qualquer preocupação com os 50 mil mortos assassinados no Brasil anualmente, de defender terroristas islâmicos, de aparelhar empresas estatais, de ser a favor de um Estado altamente interventor e eteceteras.

Além de tudo isso, há o fator democracia. Não é bom para a democracia que um partido fique eternamente no poder. É perigoso. Está na hora de mudar. Entrando, porém, o PSDB na gestão brasileira, certamente não cessarei de fazer minhas críticas, tampouco considerarei ideal que social-democratas estejam no poder. Esta é a minha posição.

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Autor: Davi Caldas

"Grita na rua a Sabedoria, nas praças, levanta a voz; do alto dos muros clama, à entrada das portas e nas cidades profere as suas palavras: 'Até quando, ó néscios, amareis a necedade? E vós, escarnecedores, desejareis o escárnio? E vós, loucos, aborrecereis o conhecimento? Atentai para a minha repreensão; eis que derramarei copiosamente o meu espírito e vos farei saber as minhas palavras. 'Mas porque clamei, e vós recusastes; porque estendi a mão, e não houve quem atendesse; antes, rejeitastes todo o meu conselho e não quisestes a minha repreensão; também eu me rirei na vossa desventura, e, em vindo o vosso terror, eu zombarei, em vindo o vosso terror como a tempestade, em vindo a vossa perdição como o redemoinho, quando vos chegar o aperto e a angústia. 'Então, me invocarão, mas eu não responderei; procurar-me-ão, porém não me hão de achar. Porquanto aborreceram o conhecimento e não preferiram o temor do Senhor; não quiseram o meu conselho e desprezaram toda a minha repreensão. Portanto, comerão do fruto do seu procedimento e dos seus próprios conselhos se fartarão. 'Os néscios são mortos por seu desvio, e aos loucos a sua impressão de bem- estar os leva à perdição. Mas o que me der ouvidos habitará seguro, tranquilo e sem temor do mal'" (Provérbios 1:20-33).

10 comentários em “A gestão do PSDB entre 1994 e 2002 e as razões da direita para escolher os social-democratas nessas eleições”

  1. Educação básica primordialmente privada??? Hahahahah não é o que o mundo demonstra ser o melhor. EUA, Finlândia, Coréia do Sul, Canadá, todos priorizam a educação básica pública. Por que? Porque a educação não pode ficar destinada ou influenciada pelo mercado, a educação é acima de mercados, de lucro, é a formação do homem e de sua consciência. Limitar a educação básica como primordialmente privada é limitar a capacidade de abordagem livre de qualquer ciência e consciência nas escolas, deixando os mesmos sempre dependentes de interesses de mercado. Estava concordando com o seu texto, mas a partir desse tópico eu abandonei a leitura, rsrs.

    1. Não. Em todos estes países que você mencionou, além da educação pública, existe uma educação privada fortíssima, além da prática do homeschooling. A educação não está acima dos mercados: ela é um serviço como qualquer outro, e seu valor pode ser medido monetariamente como qualquer outro.

      E, convenhamos, é burrice demais achar que a educação privada te submete “aos interesses do mercado” (ou seja, da sociedade, que é do que o mercado é feito) mas a educação estatal não te submete “aos interesses do Estado” (ou seja, interesses políticos, partidários e ideológicos). A diferença essencial entre Estado e mercado é que o mercado está aí para servir, e o Estado está aí para mandar. Enquanto o mercado vai premiar aqueles que produzem e desenvolvem coisas úteis e benéficas para a sociedade, o Estado só vai premiar quem lhe for obediente.

  2. Educação está acima do Mercado pois Educação não é mercadoria e sim um direito social e humano básico!
    Davi, com todo respeito e como um social-democrata eu afirmo á você que o PSDB não é social-democrata! O PSDB é no máximo liberal-social…
    Quem atualmente vem adotando uma política social-democrata é justamente o PT (que por isso é criticado por setores mais a esquerda que desejam um socialismo real).
    No espectro político podemos afirmar que o PT é de centro-esquerda, o PSOL é esquerda e alguns partidos menores como o PCO e PSTU sejam extrema esquerda!(o PSB pode ser talvez esquerda moderada).
    O PSDB não é um partido de esquerda, pode ser no máximo um partido de centro…
    Se você der a oportunidade podemos discutir em alguma ocasião sobre a Social-Democracia!

  3. Prezado Felipe, obrigado pelo comentário. Vamos lá. Você diz:

    Educação está acima do Mercado pois Educação não é mercadoria e sim um direito social e humano básico!

    E a comida, Felipe? É mercadoria? Não vejo nada mais importante do que comida. Se educação não pode ser considerado mercadoria, mas direito básico, quanto mais comida, não é mesmo? E então? Você defende que o Estado passe a produzir comida e oferecê-la “de graça”?

    Se você der a oportunidade podemos discutir em alguma ocasião sobre a Social-Democracia!

    Quando quiser. Manda brasa! ;D

    Att.,

    Davi Caldas.

    1. Davi, eu não pretendo entrar em uma disputa, mas darei uma resposta:
      Qualquer pessoa com bom senso irá entender que nos dias de hoje qualquer indivíduo necessita ter ao menos educação básica para a sobrevivência no mundo atual!
      Alimentação é algo essencial e não, eu não acho que o Estado deva cuidar de tudo nem fornecer alimentos de graça – O melhor que o Estado pode fazer nesse sentido é não cobrar impostos sobre itens essenciais de consumo em áreas de alimentação, higiene pessoal, etc.
      Vivemos atualmente uma apologia da ideia de mercado e eu não acho que educação, saúde, meio ambiente, relações pessoais e direitos humanos devem estar sob a lógica do mercado!
      As melhores universidades do Brasil, as únicas universidades brasileiras a figurarem nos rankings internacionais são públicas. Deixo claro que por visões pessoais e políticas sou a favor da educação pública, universal e gratuita; porém para mim é irrelevante se a educação será pública ou privada… O que realmente importa Davi é que haja uma educação de qualidade!
      O modelo de educação pública tem suas contradições – Mas o modelo privado também. Muitas das melhores universidades do mundo são privadas (Harvard por exemplo) mas não estão sob a lógica mercantilista! São instituições sérias, que buscam a qualidade antes da quantidade. Muito diferente do que ocorre no Brasil, com nossas milhares de faculdades privadas (uniesquinas) que só estão interessadas no dinheiro dos alunos, oferecendo uma educação de péssima qualidade, literalmente vendendo diplomas! Algumas instituições proíbem os professores de reprovar alunos, faculdades de Direito que aprovam alunos tão mau formados que não passam no exame da OAB (aliás, muitas faculdades de Direito estão formando decoradores de códigos jurídicos ao invés de advogados bem formados cultural e academicamente prontos para exercer a função), tecnicismo barato e puro!
      Gostaria de enfatizar que é incorreta essa visão maniqueísta de que o Estado é mal (inclusive também a visão da esquerda que o Mercado é mau), o Estado e o Mercado tem suas respectivas funções e qualquer sociedade civilizada daqui para frente necessitará de ambos! O que deve ser combatido não é o Estado, mas sim o seu mau uso, assim como o Mercado! Ambos estão ai para atender e servir aos interesses das pessoas… O Estado deve servir ao povo e o Mercado também! O Mercado deve ser livre e justo e o Estado deve ser democrático e legítimo!
      Não estou me opondo a educação privada, mas sim a uma educação mercantil, que valoriza o lucro em detrimento da qualidade (é claro que existem instituições sérias particulares como PUC, Mackenzie, entre outras – Convém informar porém que a grande maioria das faculdades brasileiras privadas estão por ai formando uma multidão de profissionais de baixa qualidade).
      Espero que mesmo não concordando compreenda meu ponto de vista! Abraço!

      1. Felipe,

        Deixe-me fazer algumas análises.

        Em primeiro lugar, você menciona que há milhares de faculdades privadas brasileiras que não estão interessadas em dar um ensino de qualidade, mas em lucrar (“ótica mercantilista”). Com essa observação, você pretende mostrar que o ensino privado tem suas contradições.

        Que o ensino privado não é perfeito, não tenho dúvidas. Nada nesse mundo o é. E que no Brasil, as faculdades privadas são ruins, isso é inquestionável. Agora, discordo de que a razão dessa falta de qualidade seja a “ótica mercantilista”. Essa ótica nada mais é do que um efeito de outros problemas, que não estão ligados simplesmente à economia. Fatores como a cultura, a literatura, a história, as relações familiares, a consciência moral, os hábitos, as práticas, as tradições e a espiritualidade de uma sociedade são essenciais para a formação de um povo e sua visão em relação à educação, às prioridades da vida e aos valores humanos. Isso, afora fatores como a localização geográfica, o tamanho físico e as fronteiras que apresentam o local em que reside determinada sociedade.

        Apenas uma análise que englobe todos esses fatores, além do econômico, dá conta de explicar porque a educação brasileira é uma bosta e como isso é responsável pela geração de uma “ótica mercantilista”, que nada mais é do que um exagero da visão mercadológica, concomitante a deficiências ou problemas justamente na cultura, na consciência moral, na construção histórica do povo e etc.

        O que quero dizer com tudo isso é que nosso problema não se reduz à economia e, muito menos, à economia privada, na qual estariam os “malvados capitalistas”, “culpados” de grande parte de nossos problemas. Nosso país tem cultivado cada vez mais a miséria intelectual e o baixo padrão moral, o que inevitavelmente conduz à formação de um povo que não tem apreço pela educação de qualidade. E o capitalismo por si só, não estando amparado por nada além da fria e pura lógica do mercado, apenas dá ao povo aquilo que ele mesmo planta. Planta-se incultura, colhe-se uma educação pífia. Planta-se imoralidade, colhe-se insensibilidade para as coisas mais elevadas.

        Mas para não ficar só nas questões extraeconômicas, devo dizer que a estrutura das escolas públicas de ensino fundamental e médio também tem contribuído muito para nossa miséria intelectual. Eu, pessoalmente, creio que escolas particulares tendem a oferecer um ensino melhor. Entretanto, creio que escolas públicas poderiam ter um desempenho mais satisfatório se suas estruturas fossem reformuladas. Ações como a redução de alunos por sala de aula (de 50 para 20, por exemplo), a punição rigorosa de alunos rebeldes que agridem verbal ou fisicamente o professor (levando-os à expulsão do colégio e até algum tipo de prisão), a devolução da moral e da voz do professor dentro e fora da sala de aula, aumentos salariais (o que seria possível com a redução do número de alunos por sala, o incentivo ao desenvolvimento de mais colégios privados e o aumento de bolsas do governo em colégios particulares), o fim da estabilidade do emprego público (que contribui para gerar ineficiência), a instituição de provas de admissão de alunos em um maior número de colégios públicos e etc.

        São ações que não resolveriam o problema educacional, mais ajudariam a tornar o ensino público mais eficiente e menos permissivo em relação à absurdidades como a permanência de professores que não dão aula e alunos que não estudam e ainda agridem seus colegas e o professor. O resto, amigo, vem de casa, da família, das vilas, dos bairros, da sociedade.

        Embora ideólogos como Karl Marx tenham tentado deslegitimar todos os fatores que formam uma sociedade, pretendendo enxergar tudo por um viés econômico e almejando transformar o mundo mudando a economia, a história continua demonstrando que um povo sem fortes bases culturais, morais e espirituais (não apenas no sentido religioso da palavra) que se mantiveram durante séculos, não é capaz de resolver seus problemas e se desenvolver satisfatoriamente. A economia é importante, mas não faz nada sozinha.

        Em segundo lugar, com relação ao que você diz de as melhores universidades do Brasil serem às públicas, realmente, elas costumam a ter um ensino mais forte que as privadas aqui (o que não significa que sejam boas, pois o nível brasileiro geral de educação é péssimo).

        Por “ensino mais forte”, quero dizer que na faculdade pública é mais difícil passar nas matérias do que na faculdade privada. Isso ocorre, em primeiro lugar, porque lá estão os alunos e os professores mais esforçados, inteligentes e preparados. Por quê? Porque maioria das pessoas quer estar em uma faculdade pública, os alunos porque irão estudar “de graça” e os professores porque terão estabilidade no emprego. Assim, muitos disputam as vagas e os que entram são justamente os que tinham melhores condições de entrar. Isso, evidentemente, gera uma tendência a que o nível de esforço e inteligência seja maior na universidade.

        Essa lógica também serve para os colégios públicos que exigem provas para a admissão de alunos, como a Faetec e o Colégio Dom Pedro II. Uma vez que tanto professores como alunos são selecionados por meio de provas rigorosas, o nível da instituição tende a ser melhor que o de colégios públicos em que qualquer aluno pode entrar.

        É claro que existe sempre também uma tendência a que professores públicos não se preocupem em fazer um bom trabalho, já que possuem estabilidade no emprego (aliás, isso é o que mais acontece nas empresas públicas de outros ramos). Mas o nível razoável dos alunos, a facilidade de se dar aula em um ambiente assim, o desinteresse do professor em simplificar o conteúdo da matéria e o descaso em relação a quem corre o risco de não passar na disciplina são pontos que acabam culminando em uma maior dificuldade de o estudante ser aprovado, levando-o a estudar mais. Isso contrabalanceia o fato de existirem professores acomodados à estabilidade.

        Agora, é importante ressaltar outra vez que a educação no Brasil é ruim no geral, o que inclui a as faculdades públicas. E a tendência tem sido a piora. Os motivos são a queda do nível dos estudantes e professores que se integram às mesmas (pois eles são frutos de um ensino ruim já em sua base e de uma sociedade cada vez mais inculta e imoral) e do concomitante crescimento de professores doutrinadores políticos, isto é, “professores” que em vez de darem aulas sobre suas disciplinas e manterem-se neutros, gastam seus tempos incutindo marxismo, socialismo, humanismo, niilismo, feminismo, hedonismo, ateísmo, freudismo, marcusismo, iluminismo e etc. na cabeça de seus pupilos.

        Tais “professores” não passam a disciplina toda, o que passam distorcem para caber em suas ideologias, e formam, em vez de pensadores, robôs com uma ideologia pronta, uma série de frases de efeito e senso comum, e uma ignorância imensa sobre os mais importantes assuntos do seu curso e do conhecimento em si. E esse tipo de doutrinação tem sido jogada para dentro das escolas de ensino fundamental e médio também, tornando a situação ainda mais caótica.

        Em suma, nossas universidades públicas vão de mal a pior. Embora ainda tenham resultados mais satisfatórios que as privadas, isso não é razão para demonizar o ensino privado e exaltar o público, crendo que o caminho ideal é criar e investir mais e universidades públicas. Como eu disse, o que precisa ser feito é (1) reestruturar o setor público de educação e (2) conscientizar a sociedade de que o problema maior da educação não é de ordem econômica. A sociedade precisa voltar a civilizar-se. Estamos tornando-nos bárbaros em todos os sentidos.

  4. Davi faz mais de um ano que você me respondeu, eu, porém só vi agora e gostaria de comentar…
    Eu discordo do seu argumento de que a razão do ensino superior privado brasileiro ser majoritariamente de baixa-qualidade está ligada a fatores mais morais do que históricos, políticos e, sobretudo econômicos!
    Não é simplesmente um “exagero de visão mercadológica”, mesmo porque a visão mercadológica é a própria essência da existência dessas “instituições”.
    Ao contrário dos outros países da América o Brasil não possuiu universidades no período colonial (Portugal não permitia universidades nas colônias) e durante o Império foram criadas escolas profissionais e faculdades com foco formativo, nossas universidades só aparecem no século XX. O Brasil até os anos 70 possuía uma demanda muito grande represada no que diz respeito ao acesso ao ensino superior: as universidades católicas e protestantes e as laicas tradicionais eram e ainda são pequenas e caras enquanto as universidades públicas não poderiam ser expandidas em vista dos ajustes fiscais e crises do final do regime militar. Isso abriu espaço para empresários que perceberam o potencial de enriquecimento do setor: enxugaram o currículo, contrataram especialistas recém-formados, investiram forte na aparência física e publicidade e passaram a imensa maioria de alunos mal-formados e despreparados do ensino básico que buscavam ascensão social através do diploma.
    As universidades públicas são melhores não somente devido ao vestibular concorrido, a dificuldade de passar nas matérias e ao fato de serem gratuitas… Ocorre que ao contrário de muitos setores, a educação quando está condicionada a busca do lucro tende a perder qualidade… Qual o interesse dessas empresas de educação em formar bem alguém? Nenhum! O que elas querem é que o aluno pague em dia suas mensalidades, para isso vão aceitar semianalfabetos, não contratarão mestres e doutores (custa mais caro), passarão o mínimo possível para determinada área, não permitirão que os professores reprovem muitos alunos e submeterão docentes a regimes mais pesados de trabalho repetitivo ou seja serão eficientes no sentido empresarial: cortarão os custos e maximizarão os lucros!
    Também discordo que as públicas tenham somente ensino mais forte, elas investem em pesquisa! O que não acontece no setor privado estrito de ensino superior! Os professores são qualificados e bem remunerados, existe infra-instrutura adequada, etc. Qual o interesse dessas empresas de ensino manter professores pesquisadores em regime de dedicação integral? Não é muito mais barato professor pago hora-aula?
    Também discordo do seu argumento de que as universidades de destaque no Brasil são ruins… Temos as melhores instituições da América Latina e do mundo ibérico (a USP fica sempre em primeiro), entre os BRICS estamos entre as 10 melhores… Mas claro que precisamos melhorar, quando nos comparamos com EUA, Canadá, Europa Ocidental, Japão e até mesmo alguns Tigres Asiáticos ficamos muito atrás!
    Minha intenção não é causar intrigas nem te desrespeitar, mas se defendemos o livre-trânsito de ideias e liberdade de expressão isso inclui o direito de discordar, obrigado!

    1. Felipe,

      Pode discordar o quanto quiser, desde que respeitosamente. Vou fazer alguns breves comentários.

      Primeiro: o Brasil não possui uma única universidade dentre as 100 melhores do mundo. Para um país do tamanho do Brasil, isso é ridículo. Adivinha de onde são as melhores universidades do mundo? A maioria esmagadora é dos EUA. E a maioria é formada por instituições privadas. Dá uma pesquisada só.

      Segundo: as universidades públicas brasileiras tem mais nome do que qualidade. Eu estudo em uma. Na UERJ. Há cinco anos. Ela é super conceituada. Mas o ensino lá é uma bosta. Não aprendi quase nada lá nesses cinco anos. A maior parte do que sei aprendi lendo e estudando sozinho. A estrutura de lá é ruim. Os serviços vivem sem pagamento. O lixo se acumula. Tenho amigos em outras universidades públicas. Eles dizem a mesma coisa.

      Terceiro: não dá para resolver o problema das universidades aqui no Brasil sem que se resolva o problema das escolas e também da educação familiar. Nossa educação básica e nossa educação familiar estão formando analfabetos funcionais, desordeiros, tarados, vagabundos, idiotas e alienados. Com um nível desse, não se espera que as faculdades sejam muito melhores.

      Quarto: numa sociedade com boa educação básica e familiar e economia desenvolvida, as instituições privadas tem um nome a zelar. Se não demonstrarem ser boas instituições, não são escolhidas pelos clientes.

      Att.,

      Davi Caldas.

      1. Já eu estudo na USP e estou satisfeito com a minha universidade, que oferece bibliotecas, laboratórios, centros de pesquisa e toda uma infraestrutura necessária para a minha boa formação… Meus professores são excelentes, porém não dão uma aula cursinho – Quem estuda são os alunos, a única coisa que o professor nos ensina é a ter autonomia!
        As universidades brasileiras apesar de todos os seus problemas estão sim entre as melhores do mundo, temos as primeiras da América Latina e do mundo ibérico e estamos entre as primeiras dos BRICS (claro que muito precisa melhorar ainda); não se trata porém de tamanho de país: a Rússia possui menos universidades top class que a Suíça! O que nos deixa menos “competitivos” (não gosto dessa palavra) é o fato de quase não usarmos o inglês na universidade, que é a língua internacional da ciência (isso é um dos motivos para o destaque de instituições americanas e inglesas, ao contrário das francesas e alemãs).
        Por fim, de onde as pessoas tiram que a maior parte das melhores universidades do mundo segundo os rankings são privadas?
        Segundo o respeitado ranking QS:
        1- MIT – Estados Unidos – Privado;
        2- Harvard – Estados Unidos – Privada;
        3- Cambridge – Reino Unido – Pública;
        4- Stanford – Estados Unidos – Privada;
        5- Caltech – Estados Unidos – Privado;
        6- Oxford – Reino Unido – Pública;
        7- UCL – Reino Unido – Pública;
        8- Imperial College London – Reino Unido – Pública;
        9- ETH – Suíça – Público;
        10- University of Chicago – Privada;
        Das 10 primeiras 5 são privadas e as outras 5 são públicas; se olharmos as 50 melhores veremos que 34 são instituições públicas e somente 16 são privadas, podemos fazer o mesmo exercício com o THE ou o Shangai e os resultados serão semelhantes!
        Outro detalhe a ser percebido é que praticamente todas as privadas ranqueadas são americanas… O único lugar do mundo em que se desenvolveu universidades privadas top foi os Estados Unidos, na Europa praticamente 95% das instituições superiores são públicas e em grande parte gratuitas!
        Se formos olhar de perto o modelo americano veremos que essas instituições como Harvard são privadas no sentido de não serem estatais, porém, não pertencem a empresários como a maioria das privadas brasileiras (que são de péssima qualidade) – São sim pertencentes a fundações de origem antiga (muitas vieram de igrejas) e recebem recursos governamentais, em Stanford por exemplo somente 11% do orçamento vem de mensalidades(surgiu recentemente nos EUA uma “universidade” nos moldes lucrativos das privadas brasileiras – Phoenix University – Tem sido muito combatida) Agora para reproduzir o modelo americano no Brasil precisaríamos fazer muitas alterações nas leis e nos costumes: por exemplo, teríamos de taxar em mais de 40% das heranças para quando o herdeiro buscasse o abatimento total do imposto referido ele doasse algo para universidades! Por esse motivo vejo o padrão de ensino superior alemão como mais adequado ao Brasil que o padrão americano, por exemplo.

        Eu discordo que o aluno deva ser tratado como cliente… Não é uma relação de negócios, estamos falando de conhecimento, o estudante é acima de tudo um cidadão!
        Mais cedo ou mais tarde em vista da polarização política e da definição de rumos do país as universidades serão uma pauta… Nós da esquerda vamos defender as universidades públicas, suas pesquisas e gratuidade, além da sua expansão e aumento de receitas e qualidade (junto com a educação básica e técnica) a todo o custo!
        Muito Obrigado!

      2. Prezado Felipe,

        Reconheço meu erro. Vi a informação de que a maior parte das melhores universidades do mundo era privada e não pesquisei à fundo para saber se era mesmo. Peço perdão. Seja como for, boa parte o é. Mas eu não quero focar nisso, até porque não acredito que o segredo para uma boa educação seja acabar com as universidades públicas. Quero, em vez disso, voltar ao início dessa discussão. Ela se iniciou porque afirmei razões para votar no PSDB nas eleições de 2014. Minha defesa foi claramente pragmática. Votei no Aécio não por achá-lo um bom candidato ou por eu ser psdebista (porque eu não sou), mas meramente por não ter um candidato conservador para votar. De quando escrevi esse texto até hoje, apenas uma coisa mudou na minha opinião. Hoje vejo que o PSDB, conquanto tenha feito boas reformas econômicas (embora tímidas), foi um completo desastre na educação. E não por ineficiência, mas de propósito. E isso continuou com o PT. Na verdade, pra ser mais exato, o Brasil sempre teve problemas na educação. Acabou ganhando novos (e piores) lá para meados da década de 1980.

        Nossos governos de esquerda retiraram a autoridade do professor dentro de sala de aula, retiraram a autonomia das escolas públicas, centralizaram a educação nas mãos do MEC e das secretarias municipais e estaduais, e vem mantendo uma gestão financeira não apenas centralizadora como sem transparência e participação dos mais interessados pelo assunto: a própria unidade escolar. Isso faz dos ensinos fundamental e médio um lixo. E não se resolve os problemas das universidades (sejam elas públicas ou privadas) sem antes resolver esses problemas nas escolas).

        Ademais, uma economia saudável é essencial para melhorar a educação. Sem uma economia saudável, não há melhora na qualidade dos empregos e nos salários, o que prende a população à outras preocupações que não a educação de qualidade e os distancia do conhecimento, das artes, dos cursos de aperfeiçoamento e etc.

        Na minha visão, o Brasil precisa de duas coisas urgentes para começar a mudar sua situação educacional: disciplina e um Estado mais limitado. Assim, a educação estará realmente nas mãos da sociedade e os alunos, desde pequenos, terão mais respeito pelo professor, limites e interesse pelos estudos. Como ocorre em países como Japão, Coreia do Sul, Singapura e etc.

        Bom, estou me repetindo. Acho que já deixei clara a minha visão.

        Att.,

        Davi Caldas.

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