Tags

, ,

(Foto: mmg.com.au)

Por Marcos Fava Neves, professor titular de planejamento estratégico e cadeias alimentares da FEA-RP/USP

Este conto teve uma inspiração interessante. Passando pelos canais da TV num sábado à tarde para achar algo que captasse minha atenção, eis que encontrei para rever, o filme A Praia, que tem Leonardo Di Caprio como ator principal.

Para quem não viu, o filme relata as experiências de uma comunidade sonhadora de um novo mundo, que vai para uma praia deserta na Tailândia, e tenta se organizar coletivamente. O filme tem um cenário maravilhoso, e uma interpretação soberba deste ator. Vale, sem dúvida assistir. Mas o que teria a ver este filme com nosso conto, nossa ideia?

Ao perceber no Brasil um crescente movimento ideológico contra a empresa, contra o lucro, da demonização do empresário, pois hoje quem quer produzir é quase que um criminoso ambiental, trabalhista, social e assim por diante, depois de escutar tanta bobagem destes micropartidos na propaganda eleitoral gratuita e também estar cansado de gente alienada, pendurada e que só reclama, vendo “A Praia”, tive uma ideia que pode até ser interessante.

A ideia seria a de criarmos, nos mesmos moldes do filme A Praia, uma fazenda experimental, servindo a diversos propósitos secundários, elencados ao final deste texto, mas com o propósito principal de mostrar a importância da agricultura e do trabalho no dia a dia de todas as pessoas, pois até que algo futurista aconteça, nossos organismos são “movidos à alimentos”.

Uma área abençoada em termos de solos, incidência de sol, regime hídrico, seria escolhida em fronteiras do Mato Grosso, Tocantins, Maranhão, enfim, numa destas bênçãos divinas recebidas pelos moradores do Brasil. Cercaríamos e colocaríamos em marcha o projeto.

Mas quem iria para a Fazenda? Para lá seriam levados para um estágio as pessoas críticas à agricultura, ao produtor rural, ao agronegócio e as que têm visão deturpada ou parcial sobre o setor.

Iriam desde os que pregam a socialização dos meios de produção, os que são ideologicamente contra a empresa, contra o lucro, contra a ordem e o progresso, os radicais de diversos setores, os invasores (ou “ocupadores”), os anti-produção, os que desejam transformar o Brasil numa mega-aldeia, ativistas, representantes de algumas ONG’s confinados no sempre refrigerado ambiente Brasília/cidades internacionais, filósofos de gabinete, alguns artistas globais do eixo Ipanema, Leblon, Butantã, Pompéia, que pensam que seu baby beef nasceu na cozinha do restaurante da Vieira Souto e seu chopinho foi gerado dentro da chopeira dos maravilhosos bares da Ataulfo de Paiva ou dos arredores de Pompéia.

Levaríamos também gente que acredita nos modelos da Coreia do Norte, Cuba e Venezuela, entre outros. Selecionaríamos parte dos 61 milhões de brasileiros em idade de trabalho, mas que não trabalham, não procuram trabalho e não estudam, entre eles os dependentes de bolsas governamentais que tem habilidade, capacidade e ofertas de trabalho e os usuários do auxílio desemprego que forçaram suas demissões.

Ou seja, a geração “nem-nem” também iria, os jovenzinhos ativistas ainda pendurados nas bolsas paternas e os outros não tão jovens, em idade de trabalho, mas que esticam até os 30, 40 anos sua permanência na universidade pública, normalmente em cursos sem demanda.

Para poupar um esforço inicial dos habitantes desta fazenda, já entregaríamos a área com todo o cipoal de licenças e burocracia necessárias para se trabalhar e produzir. Teríamos uma infra-estrutura coletiva de hospedagem na fazenda, com bons banheiros, porém, todos coletivos. Haveria telefones coletivos e uma sala de informática coletiva, com os softwares de domínio social.

Produtos de limpeza, cosméticos básicos, medicamentos genéricos e outros suprimentos importantes seriam fornecidos gratuitamente até que o fruto do trabalho e da produção na fazenda conseguisse comprá-los.

Um telão de TV central, apenas com os canais abertos, no refeitório seria permanentemente gratuito. Sem direito aos filmes de Hollywood, HBO e outros “lixos do império”. Nestes canais teríamos o noticiário do Brasil e a transmissão da TV de Cuba, da Venezuela, Coreia, e seriam reprisados todos os programas eleitorais dos micropartidos radicais, além de aulas de produção comunista gravadas e filmes da antiga DDR (Alemanha Oriental).

Via assembleias e conselhos populares, a FEB criaria suas próprias mídias e poderia adotar até o controle social da mídia, caso esta fosse a opção vitoriosa.

Como somos todos a favor do “Fome Zero”, a fazenda teria uma safra de cada produto adequadamente armazenada para o consumo. Ou seja, teríamos milho, soja, hortícolas, frutícolas, açúcar, carne, cana… Suficientes para uma rodada de consumo, portanto, para a segunda, teria que ser imediatamente plantado, cultivado e colhido, ou seja, trabalho pela frente aos habitantes da FEB à partir já do primeiro dia. Deixaríamos um rebanho bovino suficiente para um ciclo, bem como frangos, suínos e cordeiros e um lago com tilápias e equipamentos de pesca.

Para o plantio da safra seguinte, já deixaríamos no armazém as sementes padrão e as geneticamente modificadas. Deixaríamos mudas, fertilizantes, defensivos e máquinas/implementos, desde os mais rústicos usados nos anos 30 e 40, até as máquinas com GPS utilizadas hoje.

A biblioteca da FEB seria completa: para tudo teríamos livros explicando, desde como plantar, adubar, cultivar e colher, como manejar as máquinas, uso de defensivos, equipamentos de proteção, compostagem, doenças dos animais, enfim, em tudo teríamos o “como fazer”.

Na parte do processamento agroindustrial, forneceríamos também as pequenas agroindústrias processadoras já montadas. Um mini-frigorífico, uma mini usina de cana, mini processadora de frutas, laticínio, torrefadora de café, entre outras, todas com manuais de funcionamento.

Deixaríamos uma unidade de cogeração de energia, e um ano de suprimento gratuito de energia e diesel para as máquinas, até que a biomassa e o biodiesel fossem gerados. Galpões completos de armazenagem e estrutura para um supermercado estariam prontas para os habitantes da fazenda trabalharem.

A comunidade discutiria e escolheria quais insumos utilizaria. Se, por exemplo, as assembleias deliberarem que são contra usar os defensivos na produção da sua comida, se organizariam para a catação manual de lagartas e outras pragas e a captura de insetos, ratos com arapucas e outras engenhocas. Tudo é válido. Caso a assembleia opte pelo vegetarianismo, o rebanho poderia ser transformado em instrumento de adoração, como em outros países que conhecemos.

Uma vez pronta toda esta infraestrutura, algo que nem de perto se oferece ao produtor rural, chega o momento de levar esta ampla comunidade selecionada à FEB (Fazenda Experimental Bolivariana).

Na chegada à fazenda, estas pessoas deixariam na entrada seus pertences pessoais, desde celulares, notebooks, bolsas, automóveis, afinal se são contra o progresso tecnológico, a empresa, o lucro, a multinacional, contra o “império”, tem que ser coerentes no comportamento individual, o que frequentemente não observo nestes grupos. Não podemos ser intelectualmente contra, mas transgressores na prática do comportamento individual.

A comunidade teria que se organizar. Imagino que sairiam à frente os “movimentos sociais”, tentando botar ordem na casa, pois têm treinamento prévio, afinal, a comida vai acabar e precisam trabalhar para ter. Poderiam criar um sistema de governo, educacional e universitário com liberdade de conteúdo, bancos, partidos políticos, congressos, conselhões e verificar como pagarão estes políticos do grupo e seus assessores com o recurso de sua própria produção, pois assim são pagos no mundo real.

Deixaríamos uma gráfica para impressão de uma moeda e de uma constituição, se quiserem. Podem também criar Bolsas assistencialistas diversas, mas só depois que tiverem gerado renda para pagá-las. Afinal, para distribuir renda, alguém precisa gerar renda.

Diferentemente da situação real do produtor brasileiro, garantiríamos à FEB segurança total, sem os frequentes assaltos que acontecem nas fazendas ou invasões de outros “movimentos sociais” e daríamos uma carência de três anos, pelo menos, para aplicar a atual legislação trabalhista, ambiental e tributária. Entregaríamos com reserva legal já averbada e CAR preenchido. Não precisariam pagar impostos e nos ajudar a sustentar Brasília por pelo menos 3 anos, algo que os brasileiros comuns dedicam mais de quatro meses de trabalho por ano.

Como não há petróleo na FEB, seus habitantes estariam livres do loteamento de cargos, da corrupção e dos escândalos advindos de uma suposta petroleira que seria criada. Também é vetada a entrada de dólares, pois isto é algo que vêm do império, e desta forma não teríamos doleiros para trazer mais escândalos a FEB.

Forneceríamos o SUS e o “Mais Médicos”, e se a comunidade aceitar, casos mais graves envolvendo líderes e políticos que não quiserem o SUS, cederíamos o Sírio-Libanês, via crédito, mas para ser pago pela comunidade quando esta dispuser de renda.

Não sou contra deixarmos também estoques de cachaça e uma destilaria montada, afinal, não dá para exigir abstinência. Forneceremos também estoques e sementes de Cannabis Sativa e fósforos. Pode inclusive ser que esta cadeia produtiva seja a primeira a se organizar na comunidade pois é provavelmente onde os estoques planejados para um ano mais cedo darão os sinais visíveis de escassez.

À medida que os excedentes de produção advindos do trabalho e do esforço dos moradores da FEB fossem sendo gerados, estes poderiam ser vendidos para fora da FEB e daríamos outra facilidade: os mercados (compras) seriam por nós garantidos, com preços mínimos estipulados. Também ofereceríamos algo que os produtores hoje não têm: seguro sofisticado que proteja a produção e a renda da comunidade de intempéries climáticas.

O transporte dos produtos desde a FEB até os centros de consumo nós ofereceríamos, para evitar que passem pelo descalabro logístico que nossos produtores enfrentam, acabando com sua renda. Seguro contra os frequentes roubos de cargas, também ofereceríamos, afinal precisamos dar um impulso à FEB.

Garantiríamos o máximo esforço para utilizarmos o nosso porto em Cuba.

Com a renda criada pela venda da sua produção, fruto do seu trabalho, a comunidade poderia, aos poucos, comprar os bens de consumo essenciais para reposição (sabonete, shampoo e outros) e também os produtos supérfluos hoje existentes fora da FEB.

Poderiam importar desde carros Hyundai, BMW, motos Harley Davidson, máquinas de Nespresso, toda a parafernália da Apple, equipamentos de som Bang & Olufsen, comprar bolsas Louis Vuitton, cosméticos MAC, TV HBO por assinatura, entre outros sonhos, e inclusive materiais de construção para futuras casas individuais, que poderiam sim ser construídas em terrenos dentro da fazenda, caso vença na assembleia, a individualização das moradias.

Podemos sofisticar bem mais o nosso conto, mas parando por aqui para poupar o tempo dos trabalhadores, a missão da FEB seria esta: “ensinar a parar de reclamar e trabalhar para prosperar”.

Além dos habitantes da FEB descobrirem e reconhecerem que as coisas não caem do céu, e que tem gente suando forte para tentar produzir num país que a cada dia cria mais dificuldades, o estágio traria outros aprendizados à comunidade da FEB, evidências que carregariam ao resto das suas vidas:

Não existe distribuição de renda que se sustente, sem geração de renda;

Não existe consumo sem produção;

É difícil e custa ser contra o progresso tecnológico. Se você não gosta da tecnologia e das empresas que geram tecnologia, existem alternativas menos produtivas à disposição e podem ser usadas, mas dará mais trabalho e pode não ser suficiente;

Algumas coisas precisam de escala para serem produzidas eficientemente, então o romantismo da família, do simples, não funciona.

Para que um sistema destes (FEB) funcione coletivamente, é preciso que todos tenham ampla propensão ao trabalho, o que não se observa em todos os seres humanos. Este é o principal motivo do fracasso de modelos coletivos que não incentivam o trabalho, a produtividade individual e a meritocracia.

Quem não trabalha, ou tem labor-fobia, está sendo sustentado por quem trabalha e se aproveita do mais produtivo. Vai ficar evidente para todos na comunidade literalmente quem “não vale o feijão que come”;

Produtos são plantados, cultivados e colhidos, com muito esforço por quem fez, com muito risco. Precisamos respeitar e valorizar quem produz e agradecer, pois parte do que podemos consumir no país vem da renda da exportação gerada por estes empreendedores. Simplificando, nosso I-Phone 6 foi pago com… exportações de açúcar.

Vamos implementar a FEB e aguardar cinco anos para ver se funciona. Tenho cá um pouquinho de dúvidas se os perfis que iriam para lá têm em seu DNA a filosofia de “agarrar no batente”, necessária quando não se tem outros fazendo por você, ou com a presença de um estado assistencialista, contaminado pela política da “vitimização e da coitadização” dos seus habitantes. Mas não podemos cometer o equívoco de um pré-julgamento. Vamos aguardar e observar este laboratório a céu aberto. Acho que teremos olheiros do mundo todo observando a FEB.

Se após cinco anos a FEB der certo, minha hipótese é que a comunidade se organizou em um modelo capitalista. O sistema capitalista, com todos os seus problemas, é o melhor que a sociedade mundial dispõe, basta olhar os 20 países melhor ranqueados nos indicadores de desenvolvimento humano (IDH).

É no que acredito, um sistema que promova forte inclusão social, pelo trabalho, esforço e geração criativa de oportunidades. Se FEB der certo e for sustentável no médio prazo num modelo comunista, eu tenho que calar a minha boca e jogar fora boa parte das coisas que escrevi. Voltar a estudar, porém, outras obras.

Estou terminando o conto e esqueci de abordar o assunto fugas ou abandonos. Fugas da FEB serão aceitas após uma entrevista onde fique provado que a pessoa aprendeu valores ligados ao trabalho, à geração da sua própria renda, à noção de responsabilidade e de colaboração ativa com a comunidade e o fim do pensamento de que… é vítima, um coitado, um excluído.

A ultima pergunta, que abriria a porteira da fazenda e traria o “febiano” de volta ao mundo externo, avaliaria se o entulho intelectual, ou a alucinação bolivariana ficou para trás, enterrado na fazenda, da mesma forma como o grande sonho da comunidade de Leonardo Di Caprio em A Praia, fracassou e ficou… na praia tailandesa.