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Artigo de Fernando Henriques publicado na Feedback Maganize:

Um bom conservador é aquele que sabe lançar bons olhares sobre a História e, como diz a Bíblia, “reter o que é bom”. O resultado disso, nos dias atuais, é um posicionamento à direita bem comum, sóbrio e interessante.

 

Não são raros os meus amigos direitistas que não são nem conservadores nem liberais (aspecto econômico, por favor), mas “liberais-conservadores”. Assim se declaram, e tem este direito, pois é facílimo entender o motivo do termo. Um liberal-conservador, para não gastar muito teclado, é alguém que presa pela manutenção dos bons costumes e no campo econômico defende o sistema conhecido mais eficiente, livre mercado. Mas para João Luiz Mauad, Administrador de Empresas e diretor do Instituto Liberal, este ser “liberal-conservador” não existe, ou pelo menos não deveria chamar-se assim.

 

Em texto para o blog do IL, Mauad defende que o termo é um oximoro, tal qual outro termo cunhado pelo doido do Breno Altman, “liberal-fascista”. Para provar seu ponto de vista, que é bem seu mesmo, ele utiliza ensaio de Friedrich von Hayek, no qual o economista austríaco define sua visão sobre conservadores, liberais e socialistas. Fazendo questão de distinguir e de maneira alguma misturar a posição política entre eles.

 

O argumento principal é a visão do papel do Estado que cada um tem. Para Mauad, mal escorado em Hayek, um conservador não pode ser um liberal porque vê no Estado uma ferramenta para impor seus valores (sic).

 

E são eles, conservadores, o foco do texto, que parece preparado para ser um ataque. Uma impugnação, como se o autor detivesse o poder de dizer que é ou não liberal. Só que o problema disto tudo é exatamente o entendimento do termo “liberal”. Mauad trata o entendimento de Hayek no ensaio como absoluto, como se o economista e filósofo tivesse “inventado” o Liberalismo e só seu entendimento do termo “liberal” valesse. Entendo que, quando alguém se declara “liberal”, no Brasil, fala de sua visão econômica. Entendem assim também os bons e maus cientistas políticos do país, em raro consenso. Nada além disso. Pois deriva do Liberalismo, doutrina econômica “criada” e defendida por Adam Smith em As Riquezas das Nações, onde o inglês aponta a liberdade de mercado como a única via geradora de riqueza. Smith tem em várias “cases” históricas seu ponto de vista comprovado. Assim, quem defende o Liberalismo, chamado depois de Marx de Capitalismo, é um “liberal”. Bem simples.

 

As visões destes liberais a respeito daquilo que entendemos como costumes, não desfazem sua visão de como deve andar a economia de um país. Acontece que, depois principalmente de Murray Rothbard e Ayn Rand, as ideias liberais ganharam novos tons, migraram para outras áreas da política e se constituíram como uma filosofia própria e independente. Deixando de ser Liberalismo, sistema político-econômico, e passando a ser Libertarianismo, filosofia política. Ok.

 

Para estes que aplicam uma visão liberal em todos as vias políticas, não somente na economia, existe um termo que migrou dos EUA e estabeleceu-se muito bem por aqui, libertário. Tal termo é usado exatamente para diferenciar aqueles somente defensores do Liberalismo, político (John Locke) e econômico (Adam Smith) – que depois da invenção do tal Liberalismo Social convém chamar de clássico –, destes novos defensores que abrangeram a visão liberal, se assim posso dizer. Existem, então, e isso é claríssimo, liberais – ou liberais clássicos, para ficar mais fácil ainda — e libertários. Nenhum problema.

 

Tanto que é que o Libertarianismo é um movimento completamente distinto culturalmente do Liberalismo, mais uma vez, clássico. Tem uma aura mais jovem, repare. Possui uma agenda. O Liberalismo Clássico, ante o Libertarianismo, é conservador.

 

Nada demais então, sendo o Liberalismo, não o Libertarianismo, uma visão estritamente econômica, que um conservador declare-se “liberal-conservador” por defender o livre comércio, etc.

 

Mas porque Mauad vem como uma dessas, então? Eliminando a possibilidade dele ser um “attention whore” (Jamais!), diria que desconsidera propositalmente a diferença entre os chamados “liberais clássicos” e os “libertários” somente para garantir um entendimento único de liberalismo, apesar das diversas ramificações deste, associando exclusivamente a ele esta visão mais “moderna”, de Murray Rothbard para cá. A ideia, suponho, é que esta visão libertária se estabeleça e siga como principal corrente do Liberalismo.

 

Sobre o termo “liberal”, existe ainda uma confusão linguística oriunda dos EUA. “Liberal”, para os americanos, identifica os liberais-sociais, que não são liberais coisa alguma. São intervencionistas. A apropriação do termo se deu depois do Crash de 29, com o New Deal. Só que aqui no Brasil não há confusão alguma quanto ao termo “liberal”, em raro consenso, como citei, identifica os defensores do livre mercado. Os próprios libertários se definem como uma ala mais radical do liberalismo. Ou seja, corroboram com a diferença entre os termos “liberal” e “libertário”. Nos EUA a distinção pode até ser confusa, visto o sequestro do termo pela esquerda, mas aqui não.

 

Agora, imaginando outro fim para seu texto, Mauad, não sei porquê, não queria declarar-se um libertário – já é um senhor, afinal. Então gastou esse tanto de letras para se dizer liberal e não ser mau entendido, mas o que realmente disse foi: Sou libertário e não entendo nada de conservadorismo.

 

Ora, dizer que conservador é aquele que faz “uso dos poderes de polícia do estado para impor aos demais os seus valores” é exatamente dizer que não entende do assunto.

 

As vezes, me parece que mesmo na coluna da direita ninguém gosta dos conservadores senão os próprios conservadores. Fazendo de tudo para descolar-se deles. Do contrário, estes gostam dos chamados liberais e libertários, desde que não anarquistas, e apreciam sua companhia. Viva aos sãos, adeptos da “política da prudência”!

 

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.