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Quem é liberal e “convive” no ambiente virtual com libertários e conservadores frequentemente se depara com simplificações do espectro político em “mais Estado x menos Estado”. Há os que são da opinião que quanto mais Estado propõe, mais à esquerda está uma ideologia e portanto o anarco-capitalismo seria a extrema-direita e o bolchevismo seria a extrema-esquerda, o conservadorismo estando mais à esquerda. Há os que invertem a relação: quanto mais Estado, mais à direita, o socialismo de Estado portanto sendo uma forma de extrema-direita e o anarco-capitalismo uma extrema-esquerda, com o trabalhismo mais à direita. Uma breve análise da conclusão de ambas as proposições denuncia seu absurdo.

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Minha opinião é distinta: em ambos os lados do espectro há ideologias mais ou menos estatistas. Há, portanto, os dois extremos (anarquismo e totalitarismo) em ambos os lados. Pensemos num diagrama simplificado, quadrilátero, de dois eixos: um para o tamanho do Estado, outro para a posição no espectro político (esquerda, direita).

Na base do diagrama, teríamos os anarquistas em geral. Estes se agrupariam, conforme alguns de seus princípios basilares, em um dos lados do espectro, alguns deles ficando entre um extremo e outro. No canto inferior esquerdo estaria, por exemplo, o anarco-comunismo. Mais ao centro-esquerda, o anarco-fascismo. Centro-direita: anarco-individualismo. Extrema-direita: anarco-tradicionalismo. E não saímos das vertentes libertárias ainda. Acima delas viriam as vertentes “minoritárias” defensoras de um Estado mínimo (ou estruturas análogas). Logo acima, os defensores do “Estado necessário”, que eu chamo ordinários por dois motivos – o primeiro por serem defensores da ordem, o segundo por serem o tipo mais comum -: à esquerda, os social-democratas; à direita, os conservadores republicanos. Acima deles vem os autoritários, defensores de um Estado forte: à esquerda, os marxistas; no centro-esquerdo, os trabalhistas, no centro-direito os positivistas, no direito os conservadores continentais. Por fim, os totalitários defensores de um Estado todo-poderoso: à esquerda, bolchevistas (estalinistas e afins), no centro-esquerdo os nacional-socialistas, no direito os “neoabsolutistas”.

São estas as diferentes graduações de Estado em que podemos agrupar ideologias, de esquerda ou de direita:

Libertários ou anarquistas – advogam o Fim do Estado.
Minoritários ou minarquistas – defendem o Estado Mínimo, limitado, controlado por mecanismos legais.
Ordinários ou estatistas – afirmam lutar por um Estado Necessário, meio-termo entre um Estado “fraco” liberal e um Estado policial.
Autoritários – defendem um Estado Forte, autoritário e interventor.
Totalitários – buscam o Estado Total, totalmente “orgânico” e integrado à sociedade mesmo nos seus âmbitos mais íntimos e pessoais.

Lembrando que quando nos referimos a “mais Estado” ou “menos Estado” precisamos levar em consideração o seguinte: o Estado pode ser pensado como uma estrutura tridimensional com largura, altura e profundidade.

Sua largura é sua dimensão territorial e sua zona de influência: pode ser expandida por acordos diplomáticos ou intervenções militares no exterior. Os que querem expandir esta dimensão tendem a uma política externa mais agressiva e buscam a unidade dentro do território nacional e os que querem reduzir esta dimensão buscam políticas externas de não-intervenção e mais descentralização (federalismo) do poder dentro do território nacional. Seus dois extremos são o imperialista e o isolacionista: um quer a expansão, o outro, isolamento.

A altura é a dimensão temporal, a continuidade do Estado ao longo tempo. Quem a quer expandir busca políticas mais conservadoras, de reformas mais modestas e paulatinas, sempre pautadas em precedentes; quem quer interrompê-la busca dar início a outros Estados mediante novas constituintes, separação ou independência. Seus dois extremos são o imobilista e o progressista: um quer a manutenção do status quo, o outro, vê toda mudança como progresso.

A última dimensão e mais importante para nós nesta questão “mais Estado x menos Estado” diz respeito à profundidade da intervenção do Estado na vida dos seus súditos. Quem busca ampliar esta dimensão tenderá a criar mais leis, mais regulamentações, mais estatutos, mais agências de controle, fiscalização, censura, subsídio, etc. Pelo contrário, quem busca a diminuição desta dimensão tenderá a advogar pela eliminação de burocracias, leis, regulamentos, empresas estatais (especialmente monopólios, corporações e agências fiscalizadoras). Os dois extremos são o individualista e o estatista: um acha que o Estado não tem autoridade para decidir nada, e o outro acha que ele tem o dever de interferir em tudo.

Não pode, portanto, haver um imperialista em matéria de política externa que é contra o intervencionismo em política interna, como Tocqueville apoiou a colonização da Argélia? Ou o contrário, um isolacionista que favorece um Estado altamente interventor, como o Butão que há 15 anos atrás proibia televisão e internet? E, adicionando a segunda dimensão, um imperialista que é também um reformador como Mussolini ou Napoleão, ou o contrário, um expansionista averso a reformas que quer exportar um modelo nacional X para nações Y e Z como foi prática comum na colonização da América? É impossível um tradicionalista arraigado que despreza a intervenção estatal, como os Amish? Ora, se esquerda e direita é um esquema simples demais para explicar o espectro político como poderíamos reduzir a questão do Estado à mesma bipolaridade “mais Estado vs. menos Estado”? Não importa, também, em que sentido se dá a expansão ou retração do Estado?