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O fascismo parecia morto em 1975. Comentei sobre seu ciclo de vida no artigo “Tudo que você deveria saber sobre o fascismo mas não quer” e prometi voltar para falar sobre o neofascismo ou “pós-fascismo”. Cumprirei parte da promessa hoje.

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1. O mundo pós-fascista
Com o fim da Segunda Guerra mundial, o fascismo resistiu como via política somente na Argentina (Perón), na Espanha (Franco) e Portugal (Salazar). Fascistas que não tiveram a mesma sorte, como os da Itália, tiveram de renovar-se para continuar atuando politicamente. Desta revisão do fascismo “ortodoxo” vieram os partidos pós-fascistas que continuaram atuando na política italiana (Fiamma Tricolore, Fronte Nazionale, Movimento Sociale Italiano) e francesa (Front National). Em paralelo, movimentos mais radicais e que não se adaptaram ao novo cenário político continuaram existindo como “grupos de ódio” com atuação mais criminal que política (Ordine Nuovo na Itália, Ordre Nouveau na França) [3]. Estes grupos estão para os partidos neofascistas como os militantes Black Blocs estão para os partidos de extrema-esquerda: são milícias extra-oficiais prontas para atacar os alvos do partido, mas sem vincular seu nome ao dele. Durante o entreguerras, esta tática de violência política era amplamente empregada por comunistas, anarquistas e nacional-sindicalistas (“nazifascistas”).

Mas um terceiro grupo é mais interessante para nós. Lembrem-se que o fascismo, sendo mescla de componentes nacionalistas e socialistas, surgiu como resposta ao subdesenvolvimento de certas regiões da Europa e da crise do liberalismo e do socialismo marxista [1]. O fascismo tem a pretensão de ser a síntese entre o capitalismo de Estado e o socialismo de Estado, de acabar com a luta de classes para edificar uma luta nacional e desafiar as potências internacionais e seu sistema econômico e financeiro [1]. O fascismo é a semente, portanto, do que chamamos hoje “terceiro-mundismo”[2] e lançou as bases da teoria da dependência desenvolvida entre os anos 50 e 70. Na América Latina, na Ásia e na África, serão estas idéias a reavivar o espírito nacionalista e impulsionar povos em sua luta contra o colonialismo e posteriormente contra a globalização.

2. A reintegração do fascismo à esquerda marxista
A absorção das idéias nacionalistas por parte da esquerda pós-guerra refletiu a política soviética de aumentar sua esfera de influência financiando qualquer inimigo potencial dos EUA e da Europa Ocidental. A partir dos anos 50 e 60, a URSS não tentaria mais exportar a revolução comunista exatamente nos moldes soviéticos: trataria de apoiar versões “nacionalizadas” do marxismo-leninismo no exterior, na esperança de ampliar o espectro de nações aliadas pelo mundo. Quando isto não era possível, qualquer governo nacionalista pró-soviético bastava[7]. Ela fez isso sobretudo na Ásia (Vietnã, Coréia, Camboja, Laos) e na África (Etiópia, Eritréia, Angola, Moçambique), mais próximas do alcance do seu apoio militar. O apoio a movimentos paralelos na América Latina aproveitou o sucesso da Revolução Cubana: a URSS apoiou os sandinistas, os senderistas, os tupamaros e as guerrilhas no Brasil, bem como o governo de Allende e, provavelmente, o curto governo de João Goulart que ia pelo mesmo caminho.

Um fato curioso é adesão da esquerda marxista ao anti-semitismo na década de 1950 [4], devido a uma reação de Stalin ao não-alinhamento de Israel com a URSS; a partir de então a URSS investiria pesado no nacionalismo árabe[4]. Este anti-semitismo se agravou na década de 1960[3] devido à cooperação da URSS com Estados árabes em conflito com Israel. O suporte euro-americano a Israel teve peso significativo na decisão da esquerda em optar pelo anti-semitismo [4].

A conflação entre idéias fascistas e socialistas é mais clara no Brasil, onde os descendentes políticos de Getúlio Vargas (João Goulart e Leonel Brizola) eram claramente radicais de esquerda, tão nacionalistas quanto socialistas[5]. A nossa estrutura sindical hoje descende diretamente do fascismo, nunca foi reformada, e continua servindo de ferramenta política para os socialistas de diversos partidos [6]. A rígida estrutura de sindicato como braço do Estado e do partido no governo é um ponto em comum entre a Itália fascista, a URSS, e os “socialistas do século XXI”: Cuba, Venezuela, Argentina e, de certo modo, Brasil.

3. O Socialismo Nacional do Século XXI
Mas porque isso aconteceu? Por que os socialistas abriram mão da sua ortodoxia internacionalista e do planejamento totalmente estatal? Em primeiro lugar, porque o sentimento de nacionalidade provou ser um forte obstáculo para a “exportação” do bolchevismo: identidade étnica, nacional e religiosa simplesmente impulsionava os trabalhadores para os sindicatos nacionalistas. Absorvendo as idéias nacionalistas, estava eliminado o obstáculo: transformava-se o inimigo em aliado, e foi o que a URSS fez definitivamente desde o fim da Segunda Guerra [7]. O segundo ponto só foi totalmente abandonado após a falência do modelo soviético em 1989, quando então o mundo respirou novos ares de liberdade sócio-econômica. Não podendo se render ao laissez-faire nem defender um modelo falido, os herdeiros do socialismo agora órfãos e espalhados pela América Latina e África tiveram de adaptar a política e o discurso para acomodar o “empresariado” nacional em um modelo que aparentasse vantagens protecionistas para empresários, segurança social para trabalhadores e desenvolvimento nacional para todos. Qual outra doutrina oferece um sindicalismo governista, um forte mecanismo de repressão e censura, um judiciário dependente do executivo, milícias partidárias e regalias para grandes industriais “politicamente engajados” com o partido, além do próprio fascismo? Os “boliburgueses” do setor petroleiro na Venezuela e da construção civil no Brasil estão aí para não me deixar mentir.

Não se espantem, pois, de encontrar as semelhanças mais profundas entre o atual governo da Venezuela e o da Itália fascista, ou entre o atual governo argentino e seu predecessor peronista. O socialismo nacionalista do século XX e o socialismo do século XXI se parecem não só na imagem e propaganda, não só na violência e aparelhamento de sindicatos e tribunais, mas também na sua agenda política em tudo que diz respeito à economia, aos direitos políticos e às liberdades individuais. Quando o socialista latino-americano xinga o opositor liberal ou conservador de fascista está tentando desmoralizar a oposição acusando-a daquilo que ele é mas não admite, jurando fidelidade àquilo que ele deixou de ser há muito tempo.


Fontes:
[1] Benito Mussolini – The Doctrine of Fascism (1932).
[2] David Ramsay Seele – The Mystery of Fascism (2003).
[3] Jewish Virtual Library – Neo-fascism.
[4] David Cesarani – The Jews and The Left / The Left and The Jews (2004).
[5] Jorge Ferreira – Nasce um líder das esquerdas in Revista de História.
[6] Arion Sayão Romita – A Matriz Ideológica da CLT
[7] Alvin Z. Rubinstein – Moscow’s Third World Strategy