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O fim de ano é uma época ideal para perdoarmos e perdoar, esquecermos certas coisas ou reorganizar nossos pensamentos e sentimentos para começar um novo ano bem. Uma forma de raciocínio antiprogressista por excelência esta, a de imaginar que encerramos um ciclo para começar outro e que isso de alguma forma tem a ver com as pessoas mais do que com rotações e translações planetárias. Mas enfim, o artigo de hoje não é sobre progressistas ou reacionários, é sobre chatos. Mais especificamente, o chato antinatalino.

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O final do ano traz problemas para um ateu. O primeiro deles é que está repleto de símbolos, mitos e valores religiosos muitos dos quais ele não partilha, mas a maior parte da sociedade sim, e em especial todos os seus parentes reunidos para a ceia. O segundo deles é que ao fazer uma retrospectiva do ano que finda chegamos à conclusão de que temos muito a agradecer, mas não sabemos a quem: atribuir todas as benesses a nós mesmos seria arrogante, especialmente porque não queremos listar cada coisa que fizemos mas sim expressar nossa satisfação com o balanço geral e positivo de nossas vidas. O terceiro problema é que desejamos coisas boas para o próximo ano mas também não sabemos a que entidade impessoal e terceira dirigir o “pedido”: ao destino? Ao acaso? À vida? Não importa a quem tenhamos pedido ou agradecido, não deve ter soado muito mais nem muito menos brega do que quem agradeceu a um deus, ao cosmo ou a forças da natureza, sei lá.

Lidar com estas questões exige no mínimo descontração. Quem tem excesso de auto-piedade ou leva muito a sério a si mesmo, não sobrevive ao Natal sem desfazer algumas amizades, discutir com familiares, destruir a própria reputação, etc. Este, o chato antinatalino, é aquele que nem no final de ano sossega: é justo quando estamos preocupados em celebrar com a família, redimir-nos dos erros e preparar-nos para iniciar um novo ano como pessoas melhores que o chato antinatalino faz questão de passar tempo empunhando suas bandeiras como que gritando “Hey, olha aqui, eu ainda sou socialista depois dos 20 e não vou mudar!” Ninguém se importa, cara. E daí que você é comunista, ateu, feminista ou vegano radical? Ninguém dá a mínima pra isso quando está com a cabeça lá na reunião familiar mais importante do ano. Ninguém jamais me pergunta sobre minha crença ou não em Jesus Cristo no Natal, ou se eu acho a data muito comercial. O que minha vó quer saber é se eu tenho namorada (e quantas), e se o doce é pavê ou pacumê.

O chato antinatalino vem em diversos sabores, mas um dos mais comuns é “O destruidor de Mitos”. O destruidor de mitos normalmente é um neoateu que quer “desmascarar” Jesus e o Natal como invenções pagãs, plágios de outras religiões ou história da carochinha pura e simples, no melhor estilo Zeitgeist, confundindo Religião com Mitologia. Incorrendo em erros crassos e sem jamais pensar no motivo pelo qual mitos existem e são mantidos, ele não sabe que o mito tem valor pelas verdades em sua mensagem, não pelos detalhes literários. Ele não se importa de mandar tudo – mito e mensagem – pras cucunhas sem colocar nada no lugar, muito menos uma mensagem. Fica a dúvida se a ATEA mantém estatísticas que apontem um aumento de desconversões no final de ano decorrente da pregação dos chatos antinatalinos. Se for o caso me interesso seriamente por estes dados.

Deixando de lado a parte religiosa, há muito o que se aproveitar nas celebrações de fim de ano, especialmente na mais cristã das celebrações que é o Natal. O fato de que esta é uma importante celebração familiar independe de sua crença em Cristo, o fato de que nesta época as pessoas estão mais propensas à reconciliação, ao perdão, à caridade, etc. Esta reaproximação a determinados valores em uma determinada época não é sinal de hipocrisia. É o reagrupamento familiar mesmo que nos força sermos menos egoístas. É o clima de recomeço que dá a vontade de saldar a nossa conta e perdoar a dívida alheia, é a oportunidade que temos de trocar ninharias e mesquinharias por bons sentimentos e boa disposição, tão necessários ao ano vindouro.

Então relaxe, aproveite o Natal. Ceie com a família, abrace seus avós enquanto ainda há tempo, troque presentes. Poste um cartãozinho no Facebook e não se martirize porque foi convidado à festa.