Por que não sou liberal

 

Olavo de Carvalho
Jornal do Brasil, 08 de março de 2007

Há muitos motivos para você ser contra o socialismo, mas entre eles há dois que são conflitantes entre si: você tem de escolher. Ou você gosta da liberdade de mercado porque ela promove o Estado de direito, ou gosta do Estado de direito porque ele promove a liberdade de mercado. No primeiro caso, você é um “conservador”; no segundo, é um “liberal”.

Durante algum tempo, você não sente a diferença. Quando a direita é ainda incipiente, nebulosa e sem forma, liberais e conservadores permanecem numa gostosa promiscuidade, fundidos na ojeriza comum ao estatismo esquerdista. Tão logo a luta contra o esquerdismo exige uma definição doutrinal mais precisa, a diferença aparece: ou você fundamenta o Estado de direito numa concepção tradicional da dignidade humana, ou você o reinventa segundo o modelo do mercado, onde o direito às preferências arbitrárias só é limitado por um contrato de compra e venda livremente negociado entre as partes. Nos dois casos você quer a liberdade, mas no primeiro o fundamento dela é “material”, isto é, definido por valores e princípios explícitos, no segundo é “formal”, isto é, definido por uma equação contratual cujo conteúdo está aberto à escolha dos interessados.

Se você é um conservador, você acha que um cidadão não tem o direito de contratar outro para matá-lo (muito menos para matar um terceiro), porque a vida é um dom sagrado que não pode ser negociado. Mas, para o liberal, nada existe de mais sagrado que o direito de comprar e vender – a própria vida inclusive: se você acha que sua vida está um saco e quer contratar um profissional para dar cabo dela, nem o Estado nem a Igreja têm o direito de dar nisso o menor palpite. Já se quem está enchendo o saco é o seu bebê anencéfalo, a sua avó senil ou o seu tio esquizofrênico, eles não têm capacidade contratante, mas você tem: caso tenha também o dinheiro para pagar uma injeção letal e o enfermeiro para aplicá-la, nada poderá impedir que os três chatos sejam retirados do mercado mediante os serviços desse profissional. Curiosamente, não conheço um só liberal que atine com a identidade essencial de contratar um enfermeiro para dar uma injeção nos desgraçados, um pistoleiro para lhes estourar os miolos ou uma motoniveladora para reduzi-los ao estado bidimensional. Quando dizem que consideram a primeira alternativa mais “humana”, não percebem que estão apelando a um argumento conservador e limitando abominavelmente a liberdade de mercado.

O conservadorismo é a arte de expandir e fortalecer a aplicação dos princípios morais e humanitários tradicionais por meio dos recursos formidáveis criados pela economia de mercado. O liberalismo é a firme decisão de submeter tudo aos critérios do mercado, inclusive os valores morais e humanitários. O conservadorismo é a civilização judaico-cristã elevada à potência da grande economia capitalista consolidada em Estado de direito. O liberalismo é um momento do processo revolucionário que, por meio do capitalismo, acaba dissolvendo no mercado a herança da civilização judaico-cristã e o Estado de direito.

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Autor: Guilherme Frederico

Produtor rural e agro empresário.

3 comentários em “Por que não sou liberal”

  1. Não sei onde postar, então vai aqui mesmo.

    Prega-se aqui a redução estatal por não se confiar na administração do próprio homem e assim um poder administrativo na mão de tão poucos não é boa coisa. Porém contra o livre mercado vejo surgir um grande corporativismo monopolista ou oligarquico. Estes tem em suas mãos poderes quasiestatais e podem tão bem definir a economia e os investimentos de um país de acordo com a própria vontade. E conseguiu-se destruir(e continuando…) a “moral burguesa”, o sentimento de colaboração e justiça que ergueram nações capitalistas. Aliado ao “anonimato” de poder-se esconder atrás de pessoas juridicas e lutar pelo maior lucro a curto prazo custe o que custar, vejo os monopólios como estados privados. Porém colocando os lucros como única moral a ser seguida na vida, consegue estragos tal grandes quanto “estados estatais” fazendo besteira. Para mim fica difícil um verdadeiro liberalismo onde todos podem exercer e exigir um comércio e uma relação de trabalho justos tendo que competir com grandes monópolios com braços leviatânicos por toda parte. Um socialismo onde quem define a verdade são as megacorporações, onde os funcionários pouco sabem no que seu trabalho influencia no complexo organismo da empresa.
    Gostaria de saber qual a opinião dos autores do blog sobre este assunto e, se acham que é necessário resolver, quais as soluções que propoêm?

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