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ALEXANDRE BORGES*

A principal revista de São Paulo está mais uma vez no clima das novelas da Globo e dos filmes de Hollywood e isso não é um elogio. A matéria de capa desta semana foi desenhada para alimentar um tipo de narrativa preconceituosa e ideológica que quer vender a idéia de que quem tem dinheiro na cidade é idiota, fútil, perdulário e alienado, um pessoal que merece, no limite, ter seus bens confiscados pelos herdeiros mentais de Robespierre.

Como já disse o comentarista político americano Bill Whittle, tirar via cultura pop a legitimidade da acumulação privada de patrimônio é fundamental para que a alta carga tributária seja moralmente justificável e socialmente aceita, é preciso convencer o público que toda riqueza é imerecida. Há idiotas em todas as faixas de renda, mas gente de valor com dinheiro ou gente idiota sem dinheiro não rendem sociologia de botequim nem sensacionalismo vulgar pra vender revista.

A capa da Veja SP de hoje, que parece encomendada pelo blogueiro Leonardo Sakamoto, o pai da tese de que “ostentação deveria ser crime previsto no código penal”, é sobre “os sultões dos camarotes“, pessoas que “chegam a torrar 50 000 reais em uma só balada.” É uma maneira de contar a história. Outra seria: “que usam livremente patrimônio privado”, mas não espere esse tipo de texto na imprensa atual.

O personagem principal da matéria, o empresário Alexander de Almeida, pelo que diz o texto, ganhou seu dinheiro honestamente e, até a última vez que eu chequei, ele tem todo direito de gastar como bem entender. Quem conhece os meandros de Brasília, por exemplo, sabe que 50 mil numa noite, para alguns dos moradores mais proeminentes da cidade, é trocado. E não necessariamente o dinheiro gasto é deles.

Essa semana a cidade de São Paulo foi surpreendida com o aumento recorde de IPTU (até 20% para residências e 35% para pontos comerciais, num país com inflação prevista em torno de 6%), mas a Veja SP acha que a notícia mais importante da semana é que tem gente que gasta muito com lazer, o que ajuda a passar a idéia de que esse pessoal que “torra” pequenas fortunas em futilidades tem mais é que ter parte do patrimônio tungado pelo governo.

Depois de ler essa reportagem, fica mais fácil justificar moralmente a idéia de que o estado pegue parte do patrimônio de Alexander de Almeida para “ajudar quem precisa”. Como os jornalistas, em geral, nutrem uma simpatia indisfarçável pelo partido da sra. Marta Teresa Smith de Vasconcellos Suplicy, é preciso criar uma Maria Antonieta imaginária e colar sua caricatura em quem trabalha e produz.

De novo: parem de discutir economia, há uma guerra cultural em curso e é esse o foco. Enquanto think tanks, analistas e comentaristas liberais desperdiçam tempo e energia defendendo a economia de mercado, a edição paulista da principal revista do país está retratando ricos da cidade como a corte de Luís XVI. Não subestime o poder de influência de uma Veja SP, com 750 mil leitores por edição, 85% deles na classe A/B, que estão sendo constrangidos publicamente pela matéria.

A economia de livre mercado gera tanta riqueza que parte dela, inevitavelmente, vai parar nas mãos de pessoas que gastam 50 mil numa noitada e não há nada de errado nisso. Se você acredita que a liberdade econômica é a maior invenção humana para geração de riquezas, não vai se incomodar com a maneira com que o dinheiro dos outros é gasto, desde que dentro da lei. Se você acha que deve avaliar quem pode ou não ter dinheiro e como ele é gasto, não perca tempo: corra para as bancas e alimente seu ódio. O governo e os Black Blocs precisam de você.

*DIRETOR DO INSTITUTO LIBERAL