O nazismo e o fascismo eram movimentos conservadores políticos?

Texto de Davi Caldas (colaborador do “Direitas Já!”), também publicado em seu blog “Mundo Analista“. Para ler o original, clique aqui.
Ronald Reagan, presidente dos EUA entre os anos de 1981 e 1989. Um dos maiores expoentes do conservadorismo politico moderno.

Normalmente livros e professores de história nos dizem que nazistas e fascistas eram conservadores e, portanto, de direita. E ai do aluno que tentar dizer algo contra esta concepção! Será taxado de revisionista, falsificador da história e etc. Mas será que é isso mesmo? Será que os dois movimentos realmente foram conservadores e isso é tão evidente que não pode ser questionado? Para responder a essa pergunta é necessário primeiro saber o que é conservadorismo.

1) Definindo Conservadorismo

Não existe um só conservadorismo. Esse é o primeiro fato que devemos ter em mente. Podemos falar em pelo menos três tipos de conservadorismos diferentes um do outro: o conservadorismo político, o conservadorismo moral e o conservadorismo religioso. Vamos observar cada um deles.

1.1) Conservadorismo Político

O primeiro tipo de conservadorismo diz respeito apenas à política. Ele se define por ser uma posição cética a mudanças abruptas e irrefletidas na sociedade, bem como a projetos que intencionam uma completa remodelação na estrutura social tradicional à qual estamos acostumados. Por quê? Existem três motivos básicos. O primeiro é a experiência. Para o conservador, o passado tem muito a nos ensinar, pois é por meio da observação do que já passou que podemos saber o que provavelmente dá certo e o que provavelmente dá errado em termos de vida social. Também é por meio da observação do que já passou que podemos entender como as coisas costumam a ser. Por exemplo, o conservador sabe que o ser humano, no geral, não costuma a ser confiável. Ele sabe disso porque tem sido assim há milênios e continua sendo assim hoje.

O conservador também sabe que existe um senso moral básico na humanidade porque, da mesma maneira, tem sido assim há milênios e continua ser. Não importa se ele vai acreditar que tal senso moral provém de Deus, ou existe por si só, ou é fruto da evolução; o fato é que a experiência mostra que este senso existe. E por aí vai.

O segundo motivo seria o medo dos excessos. O conservador entende que mudanças abruptas e irrefletidas podem gerar excessos sociais e políticos, tais como vandalismos, conflitos freqüentes, desordens urbanas, desrespeito às autoridades, desrespeito às leis, excesso de poder, autoritarismo e genocídios (excessos que podem ser cometidos tanto pelos governantes, quanto pela população). Por mudanças abruptas podemos entender modificações profundas feitas sem um processo de transição. Por mudanças irrefletidas podemos entender modificações que não se baseiam no que o passado nos ensinou, mas tão-somente em especulações e idealismos.

Por fim, o terceiro motivo são os pilares sociais. Para o conservador, a sociedade foi sendo erigida sobre certos pilares. Esses pilares, evidentemente, não podem ser destruídos, do contrário a sociedade entra em colapso. Podemos citar como pilares sociais a moral geral, o direito a vida, o Estado, as leis, a subordinação do ser humano às leis, a hierarquia, as forças armadas, o direito à propriedade privada, a cultura local, as crenças religiosas, a família e etc.

O conservador entende que esses fatores desempenham papel fundamental no funcionamento da sociedade tal como conhecemos. Por esse motivo são considerados pilares. Sua destruição não nos dá qualquer garantia de que poderemos ter uma sociedade melhor (ou mesmo que poderemos ter uma sociedade). Na realidade, o conhecimento experiencial de que o ser humano não perfeito (tampouco perfectível), parece indicar que tais fatores protegem os homens uns dos outros, de modo que, se forem atacados, farão levarão a espécie humana ao completo estado de caos.

É por causa desses três motivos básicos que o conservador político se opõe a políticas de viés revolucionário, socialista, progressista ou qualquer outro que apresente uma postura idealista. Elas são consideradas políticas mirabolantes e perigosas, porque idealizam um paraíso na terra (ou algo próximo a isso) e sustentam que o homem é capaz de alcançar este paraíso através da destruição e recriação da sociedade, fazendo uso do Estado como ferramenta para tal.

Em prol da reconstrução da sociedade, o governo idealista torna-se destruidor da experiência humana, dos pilares da sociedade e dos valores humanos mais básicos, passando por cima do que aprendemos com as gerações anteriores e o passado. Torna-se também coletivista e classista, obrigando o indivíduo a subordinar toda a sua vida a construção dessa sociedade ideal e criando uma série de inimigos que precisam ser destruídos (burgueses, religiosos, conservadores, judeus, negros, estrangeiros…), a fim de que a nova sociedade possa se consolidar. Neste ponto, o Estado se transforma em um Deus que controla o destino de todos os indivíduos.

Os revolucionários anti-religiosos da Revolução Francesa e os revolucionários maoístas chineses da metade do século XX são bons exemplos de idealistas que enchem os conservadores de horror. Em ambos os casos, tais revolucionários pretendiam moldar uma nova sociedade, destruindo o que conhecemos e impondo um novo sistema de crenças unificado. O resultado foi desastroso e só confirmou a importância, para os conservadores, de se conservar a sociedade que conhecemos.

É preciso enfatizar que o próprio conservadorismo político pode ser dividido em dois subtipos: o conservadorismo absolutista e o conservadorismo pós-absolutista (que podemos chamar de conservadorismo moderno). Em essência não há diferença entre eles. Ambos se tratam de uma posição cuidadosa em relação a mudanças sociais, que procura conservar o que julga ser mais garantido do ponto de vista da experiência. No entanto, o conservadorismo absolutista acreditava que o regime que melhor servia para os seus propósitos conservadores era a monarquia absolutista. O conservadorismo moderno quebrou com essa concepção.

Em princípio, a posição absolutista não apresentava argumentos muito fortes a seu favor. O poder absoluto do rei era justificado com base em uma suposta vontade divina de que as coisas fossem daquela forma. Com a chegada do iluminismo, alguns pensadores absolutistas foram desenvolvendo argumentos mais fortes. Thomas Hobbes, por exemplo, em sua obra Leviatã, entendia que o absolutismo tornava o Estado mais forte no que tange à manutenção da ordem e, consequentemente, da paz. Como para ele a única função do Estado era garantir minimamente o direito do cidadão à vida, então se fazia necessário a mão forte de um rei absoluto.

Curiosamente, os argumentos que Hobbes oferece ao longo de sua obra para defender a necessidade de um rei absoluto levam em conta um forte ceticismo em relação à bondade do ser humano, o que, certamente pode ser utilizado contra o próprio absolutismo. De fato, muitos autores iluministas que foram surgindo durante esta época fizeram exatamente isso: sustentaram que o poder deveria ser limitado para se evitar o despotismo.

É exatamente aí que surgem os conservadores modernos. Sem deixarem de ser conservadores, eles percebem, com base na experiência, que a monarquia absolutista levava ao abuso de poder. Percebem também que, embora o absolutismo já durasse muitas gerações, ele não se tratava do único regime que já existira, tendo existido outros que funcionaram de melhor maneira. Isso tornava a decisão de romper com este regime, um tanto refletida e, portanto, de acordo com o princípio conservador.

Essa ampla e prudente reflexão dos conservadores modernos sobre os perigos de se concentrar muito poder nas mãos de governantes criou um forte ceticismo em relação a Estados intervencionistas, centralizados e com muitas funções. Reconhecia-se que um Estado assim levaria facilmente ao abuso de poder. Deste modo, a defesa de um Estado mínimo e descentralizado logo se tornou uma das principais marcas do conservadorismo político moderno. Quando, por exemplo, a constituição americana foi formulada, grande cuidado houve para que o Estado não tivesse possibilidades de se tornar despótico.

É importante ressaltar que houve um choque entre esses dois subtipos de conservadorismo e que, inevitavelmente, os conservadores modernos foram taxados de revolucionários pelos conservadores absolutistas. Evidentemente, ambos ficaram em lados opostos na guerra política. É por este motivo que conservadores modernos, que eram partidários do liberalismo econômico, ficaram ao lado de revolucionários radicais e socialistas a princípio.

O posterior declínio do absolutismo inaugurou um novo contexto político, no qual os recém-criados termos políticos, “direita” e “esquerda”, passariam a ser usados para expressar a oposição entre os conservadores modernos (adeptos do liberalismo econômico – o “capitalismo”) e os idealistas revolucionários.

O conservadorismo absolutista não desapareceu de todo. Mesmo com a total destruição do absolutismo como forma de governo, resquícios de seu pensamento foram atravessando as décadas, se misturando a outras ideologias e mantendo viva uma posição que já não podemos nem chamar de conservadora, mas sim retrógrada. E, por assim ser, sequer encontra muita definição no espectro moderno. São reminiscências de outro contexto político, em que nem faria sentido falar em direita e esquerda.

Mas voltando ao conservadorismo pós-absolutista, ou moderno, algumas leituras são indispensáveis para que se tenha um panorama geral desta posição política. Iniciar com Edmund Burke é aconselhável. Em sua obra “Reflexões sobre a Revolução em França”, o político e pensador britânico expõe suas críticas à Revolução Francesa, que baseada em um idealismo cego e destruidor, gerou um banho de sangue. Sua defesa da prudência política é brilhante. Ao mesmo tempo, deixa claro o seu incondicional apoio ao sistema parlamentarista de governo, em lugar do despotismo monárquico. Em Burke achamos o equilíbrio entre liberdade política e ordem social que faltou à França.

Partindo de Burke, as considerações do francês Alexis de Tocqueville também são imprescindíveis, seguindo Smith, Jefferson, Lincoln e Hume, e avançando para Böhm-Bawerk, Voegelin, Ruy Barbosa, Churchill, Mises, Hayek, Kirk, F. F. Bunckley, Olavo de Carvalho, Reagan e Thatcher. Todos estes foram expoentes do moderno conservadorismo político. A leitura deles nos oferece um padrão de pensamento contínuo que é seguido desde a fase de declínio do absolutismo até os dias de hoje. Não houve grandes mudanças no interior do conservadorismo moderno de lá para cá.

1.2) Conservadorismo Moral

O segundo tipo de conservadorismo é o moral. Este é totalmente distinto do político. Embora muitos conservadores políticos sejam também conservadores morais, não é necessário ser ambos. O conservadorismo moral diz respeito à conservação da moral judaico-cristã. O adepto desta posição não apenas acredita em um conjunto de valores morais gerais, como o conservador político, mas também crê em um conjunto de valores morais mais específicos, que se encontram dentro da tradição judaico-cristã.

Desta forma, conservador moral vai condenar o aborto, a eutanásia, a venda e o consumo de drogas, a livre venda de órgãos, o consumo excessivo de álcool (ou até mesmo o consumo de álcool), o fumo, o jogo de azar, o divórcio, o homossexualismo, o casamento gay, a adoção de crianças por casais homossexuais, a bigamia, a poligamia, o poliamor, a pedofilia, a bestialidade, a pornografia, os palavrões, os filmes, desenhos e jogos violentos, o topless, o nudismo, a promiscuidade, a boemia e etc.

Como afirmei e o leitor pode constatar, há valores mais gerais, que são cridos pela grande maioria das pessoas, e valores mais específicos. Assim, é perfeitamente possível concordar com muitas posições do conservadorismo moral e ainda assim não ser um conservador moral.

Aqui, mais uma vez, podemos e devemos dividir o conservadorismo moral em dois subtipos (pelo menos): o moral passivo e o moral ativo. O passivo seria aquele em que o conservador apenas tem uma opinião moral conservadora, mas não acha que a maioria dos valores em que acredita deve se tornar lei. Eu, por exemplo, sou um cristão conservador moral e acredito que fumar e beber são hábitos moralmente degradáveis, contudo, não defendo a proibição da venda de álcool e cigarros. Cada um que escolha o que acha melhor para si (desde que não afete diretamente a liberdade do outro).

Já o conservadorismo moral ativo seria aquele em que o conservador acredita que a maioria dos valores morais que sustenta precisa estar na lei. Não obstante, outras subdivisões ainda podem ser feitas, já que um conservador poderia ser extremamente ativo ou extremamente passivo ou mesmo moderado. Eu acredito que a maioria dos cristãos seja composta por conservadores morais moderados.

Distinguir o conservadorismo político do conservadorismo moral é de suma importância para estabelecer a posição política de uma pessoa. Porque as aquelas posições morais que são mais específicas e individuais pouco importam para definir uma pessoa no espectro (ao contrário das posições mais gerais, como a do aborto, por exemplo, que lida com a questão do direito a vida).

1.3) Conservadorismo Religioso

Por fim, há o conservadorismo religioso. Este é o que menos tem a ver com política. Ele se refere tão somente à defesa da religião tradicional tal como ela é, sem abrir concessões a sincretismos e secularismos. O conservador religioso deseja apenas que sua religião seja respeitada e, dentro dela, procura incentivar que seus adeptos a sigam sem distorções.

Normalmente a esquerda associa este último conservador ao conservadorismo político e à direita, dizendo que conservadores religiosos pretendem impor sua religião a toda a sociedade. Há três mentiras aqui. Em primeiro lugar, não é necessário ser um conservador religioso para ser um conservador político e um direitista. E o oposto é verdadeiro. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Em segundo lugar, ser um conservador religioso não é ser um fanático. É simplesmente não querer ver sua religião mutilada por outras crenças. Finalmente, a imposição religiosa, sobretudo, através do Estado, não é algo que agrada ao conservador político moderno. Afinal, o conservador morre de medo de um Estado que se intrometa na vida individual. E um governo que tivesse o direito de impor uma religião, poderia impor qualquer outra coisa, destruindo assim o individualismo.

2) O que importa para a política

Uma vez entendido que existem tipos de conservadorismo diferentes e que eles não devem ser mesclados em uma coisa só, devemos agora separar o que realmente é importante para a política e o que não é. A resposta me parece ser bem óbvia. Se nós queremos saber a posição política de uma pessoa, o que realmente importa é o seu conservadorismo político. Podemos citar alguns exemplos.

O filósofo e escritor brasileiro Luiz Felipe Pondé é conhecido por suas posições abertamente direita. Ele se define politicamente como um “liberal conservate” e explica o termo: “Conservador na política e liberal em todo o resto”. Fato incontestável. Pondé é um extremo pessimista antropológico, antimarxista, antissocialista, antiprogressista, admirador de Burke, capitalista, opositor a idealismos de “mundo melhor”, defensor da meritocracia e do livre mercado, opositor do assistencialismo e respeitador da religião tradicional. Sem dúvida, um conservador político.

Não obstante, Pondé não tem nenhuma religião, não acha errado a prática homossexual (tampouco o casamento legal e a adoção de filhos), nem o divórcio, o sexo antes do casamento e etc. Embora apresente um profundo respeito pelas religiões e pela moral judaico-cristã, ele não acredita em grande parte de seus dogmas, tampouco os defende como políticas públicas. Assim, Pondé é um conservador político, mas não um conservador moral ou religioso.

Não foi o caso do Woodrow Wilson, presidente dos EUA entre os anos de 1912 e 1920. Wilson, embora fosse um cristão tradicional e um conservador moral, também era um progressista político. Ele entendia que o Estado deveria ser mais presente, mais forte e mais centralizador, pois aperfeiçoaria a política e tornaria o Estado muito mais útil aos interesses gerais. Durante sua presidência, tomou muitas medidas autoritárias, desfigurando aos poucos a idéia de um Estado pequeno e descentralizado, e criando no Partido Democrata uma linha mais intervencionista, que depois seria retomada por Franklin Roosevelt, tornando-se marca registrada dos democratas americanos.

Talvez o leitor discorde dessa visão de conservadorismo, alegando que a moral é parte importante do conservadorismo político e que, por isso, o mesmo é indissociável do conservadorismo moral. De fato, a moral é parte importante do conservadorismo político, mas apenas a moral geral. O fato, por exemplo, de um conservador defender o casamento gay não implica o abandono de valores atemporais básicos como o direito a vida e o individualismo, tampouco implica o menosprezo da experiência passada e dos pilares da sociedade. A essência do conservadorismo político permanece de pé.

É válido ressaltar que alguns conservadores políticos defendem determinadas posições do conservadorismo moral, nem tanto pela moral, mas porque acreditam que tais posições, se não defendidas, podem destruir a sociedade. Por exemplo, Olavo de Carvalho é contrário a legalização do casamento gay porque isso abriria precedente para os mais diversos tipos de uniões civis, desde casamentos poliafetivos, até casamentos entre pessoas e animais. E isso, segundo ele, certamente causaria um caos jurídico e social. Deste modo, a preocupação de Olavo de Carvalho se encontra dentro do campo do conservadorismo político. Ele teme a desestruturação da sociedade.

No entanto, um conservador que não creia na probabilidade desse caos jurídico, não poderia ser chamado de falso conservador só por isso. Ele continua conservador, mas abre concessão à legalização do casamento gay por não ver nesta concessão riscos à ordem social. Se os visse, certamente seria contrário à concessão. É aqui que reside a diferença entre esse conservador e um revolucionário. O revolucionário não está nem aí para os pilares da sociedade ou a sua ordem. Pelo contrário, ele quer destruir tudo, porque acredita com todas as forças que dá para fazer uma nova sociedade e que ela irá funcionar de maneira perfeita, tal como na música “Imagine”, de John Lennon. Não é o caso do conservador político, ainda que ele seja favorável ao casamento gay.

Outra crítica que o leitor poderia levantar é que com tais definições, até mesmo libertários e anarcocapitalistas seriam considerados conservadores. Mas não é bem assim. Libertários e anarcocapitalistas se distinguem de conservadores porque levam a confiança no livre mercado e no ideal de liberdade até as últimas conseqüências, o que acaba implicando a defesa de projetos e reformas muito radicais. Um conservador político, por exemplo, jamais iria defender uma sociedade sem Estado (como defendem os anarcocapitalitas), mesmo que tal sociedade fosse regida pelas leis do mercado. O seu pessimismo em relação a capacidade humana e o seu respeito pela antiguidade do Estado, faz ter desconfiança de tal projeto e achá-lo sem grandes garantias.

Além do mais, o conservador político certamente estaria mais disposto a aceitar alguns pontos do conservadorismo moral (mesmo que não fosse um conservador moral ou religioso) a permitir que em nome do livre mercado, valores sociais importantes fossem destruídos. Por exemplo, um libertário pode defender a livre venda de órgãos e o livre aborto em nome da liberdade, ao passo que, o conservador político pode ser contrário a isso por temer o desenvolvimento de uma banalização da vida individual, sentimento que é base para sistemas coletivistas de governo.

Enfim, o conservador político é basicamente alguém que só toma decisões muito bem refletidas e baseadas na experiência, ao passo que, libertários e anarcocapitalistas tomam decisões baseadas no anseio de uma sociedade totalmente livre. É por isso que pessoas como Mill, Popper e Rothbarth, embora tenham sido expoentes do liberalismo econômico e da direita, dificilmente poderiam ser chamados de conservadores. Havia um pouco de euforia e idealismo que lhes afastava da posição conservadora.

3) A análise dos movimentos Nazifascistas

Agora que sabemos o que é conservadorismo político estamos em boa posição para analisar se os movimentos fascistas e nazistas eram conservadores políticos e, por conseqüência, direitistas. Podemos começar perguntando: como esses movimentos viam a sociedade que conhecemos? Para eles, a sociedade que conhecemos era uma estrutura antropológica complexa, baseada em pilares que passaram pelos testes do tempo e da experiência, devendo assim ser conservada? Ou será que, para eles, a visão nazifascista da sociedade que conhecemos era a de um sistema cultural, político e econômico infectado por fatores externos à natureza geral do ser humano, que poderia e deveria ser totalmente destruída e reformulada?

Certamente, a visão nazifascista de sociedade era a segunda. Nazistas e fascistas não estavam interessados em conservar a sociedade que conhecemos. Havia em sua ideologia um elemento redentor. Eles acreditavam, tal como Rousseau, Robespierre e Marx, que em algum ponto da história humana, o homem corrompeu suas relações com o próximo, criando uma sociedade corrupta. O problema estava na sociedade e não no ser humano. Esta sociedade precisava ser destruída, para dar lugar a outra, reformulada, justa, ideal.

O fascismo italiano propunha como solução a intervenção estatal em todas as áreas da sociedade, a fim de reformulá-la. O Estado seria o redentor. Ele resolveria os conflitos entre patrões e empregados, abraçaria os pobres, dinamizaria a economia e uniria todas as classes sob um só sentimento de irmandade nacional. O nacionalismo deveria servir não apenas de ferramenta para a resolução de diferenças entre classes, mas como o motor para a transformação do próprio mundo. Afinal, se a suposição de que a raça italiana era superior estava certa, então o nacionalismo italiano teria poder para colocar todo o mundo nos eixos.

Sem grandes diferenças, o nacional-socialismo alemão propunha como solução, em primeiro lugar, o extermínio das raças consideradas inferiores, sobretudo, a raça dos judeus (que pretendiam, conforme Hitler, impor seu domínio ao mundo). Este seria o primeiro passo no processo de destruição desta sociedade e sua reformulação. O Estado, evidentemente, seria a ferramenta humana utilizada nesse processo. Destruídas as raças inferiores, o homem ariano, biologicamente superior, estaria livre para consertar todos os problemas sociais causados pelos “desviantes biológicos”, continuando o trabalho iniciado pelo Estado.

Aqui, mais uma vez, o Estado é responsável por resolver os conflitos entre patrões e empregados, abraçar os pobres, dinamizar a economia e unir as classes sob um só sentimento de irmandade nacional (e racial), bem como o de chamar a atenção das classes para um objetivo supremo: a construção de uma nova sociedade (no caso do nazismo, o Terceiro Reich).

A isenção da natureza humana como a única culpada pelo mal, a transformação do Estado em um redentor, o ímpeto de destruir a sociedade que nós conhecemos há milênios e a idealização de uma nova sociedade, justa e perfeita, são marcas típicas de revolucionários, progressistas e socialistas. São marcas típicas da esquerda. Não há nada de conservador nestas visões.

Um segundo questionamento que podemos fazer é sobre a visão que fascistas e nazistas tinham sobre alguns pilares sociais e direitos inalienáveis. De maneira geral, eles pretendiam conservá-los ou não? A história confirma que não. O nazifascismo, para começar, não valorizava o individualismo. O indivíduo deveria servir aos propósitos do Estado, que era o detentor do “bem comum” e do “objetivo supremo”. Ora, se o bem era comum e o objetivo era supremo, então qualquer que quisesse outro bem para si e almejasse outro objetivo em detrimento do supremo, era um inimigo da sociedade. É óbvio também que o nazifascismo não valorizava o direito à vida. Tal “direito” se submetia à vontade do Estado.

Alguns esquerdistas têm sustentado que nazistas e fascistas eram conservadores porque eram contrários à prática homossexual. Mas há vários erros aqui. Em primeiro lugar, ser contrário à prática homossexual é uma posição do conservadorismo moral e não do conservadorismo político. Como já vimos, um conservador político pode ser bem liberal em nesses aspectos morais mais específicos e pessoais.

Em segundo lugar, ser contrário à prática homossexual não é o mesmo que ser hostil ao homossexual ou querer que o Estado o condene por sua prática. Na verdade, é ridículo pensar que um conservador político seria favorável a um Estado que condena pessoas por escolhas tão pessoais como esta. Mesmo que um conservador possa ser particularmente muito preconceituoso contra homossexuais e insensível a ponto de desejar seu extermínio, ele sabe que se der ao Estado poder para punir homossexuais, estará dando ao mesmo Estado poder para se meter na vida de qualquer indivíduo, o que, obviamente, ele não vai querer (a não ser que abandone o conservadorismo).

Em terceiro lugar, sabemos que o nazifascismo fazia dos homossexuais mais uma classe inimiga. Essa visão classista de sociedade, na qual sempre há uma classe boa lutando contra uma ou mais classes ruins, não faz parte da concepção conservadora de mundo. Para o conservador, a sociedade não pode ser vista pela ótica das classes, mas pela ótica dos indivíduos. A noção de indivíduo é tão forte no conservadorismo que muitos esquerdistas chamam o pensamento conservador de “egoísta”.

Um terceiro questionamento que podemos fazer é: o nacionalismo nazifascista é uma característica do conservadorismo político moderno, como costumam alegar os esquerdistas? A resposta é não. O nacionalismo se origina na Revolução Francesa como uma ideologia revolucionária de oposição ao feudalismo e ao domínio cultural da Igreja Católica. Esta ideologia entendia que o sistema de feudos e a extensão da ICAR criavam um grande império cultural que destruía diversas culturas e impediam que as pessoas de um mesmo país mantivessem laços mais próximos e se unissem em prol de interesses em comum.

Em resumo, o nacionalismo surgiu como uma ideologia anti-imperialista, que buscava na “identidade nacional” um novo elo social. Nas palavras do filósofo Olavo de Carvalho, o conceito de identidade nacional se constituiu, para os nacionalistas, um “sentimento quase animista de união solidária fundada na unidade de raça, de língua, de cultura, de território. A síntese das três foi resumida no lema: Liberdade-Igualdade-Fraternidade”.

Embora, posteriormente alguns daqueles antigos conservadores absolutistas tenham agregado às suas crenças o sentimento nacionalista (com os devidos reparos), a ideologia não deixou de ser revolucionária. Ela foi agregada pela grande maioria dos revolucionários que lutou pelas independências nacionais e coloniais na América Latina e, mais tarde, incorporou uma nova postura anti-capitalista: o inimigo não era mais o imperialismo cultural católico, sustentado pelo regime feudal, mas sim o imperialismo cultural, político e econômico dos países capitalistas, principalmente, a Inglaterra e os EUA. Em oposição a este imperialismo, tais revolucionários nacionalistas costumam supervalorizar sua cultura, em detrimento de tudo o que vem de fora, e a defenderem uma economia fechada, a fim de proteger a nação das garras do capitalismo global ou de nações vizinhas não confiáveis.

No início do século XX, esta ideologia entrou em um grande confronto com o marxismo ortodoxo, que era internacionalista e, como é comum nas rixas entre revolucionários, cada qual acusava um ao outro de não ser revolucionário. Entretanto, com a crise do marxismo ortodoxo, em vista das dificuldades práticas que essa teoria apresenta, muitos internacionalistas se renderam a um nacionalismo velado. Stálin, por exemplo, defendeu a tese do “socialismo em um país só”. A sua ideia era primeiro aprofundar a experiência socialista na URSS e transformar a nação em uma grande potência global, a fim de fazer frente aos países capitalistas.

No Brasil, durante a ditadura, diversos simpatizantes do marxismo também se mostraram influenciados pelo nacionalismo. Defendiam fortemente a cultura nacional, almejavam uma economia mais fechada para estrangeiros e relacionavam capitalismo, imperialismo americano e direita. Atualmente, países que ainda conservam um regime comunista, como Cuba e Coréia do Norte, são nacionalistas em muitos aspectos.

Enfim, a idéia de que nacionalismo é uma posição conservadora e inerente à direita é, no mínimo, contestável. É certo que formas de nacionalismo podem surgir entre regimes mais alinhados à direita e, de fato, muitos direitistas acabaram por se tornar ardorosos nacionalistas. Contudo, tanto a história quanto a estrutura classista e coletivista do nacionalismo testificam que tal visão tem DNA revolucionário e não conservador. O nacionalismo é um desvio do conservadorismo pleno.

Aliás, devemos nos lembrar que existe uma diferença entre nacionalismo e patriotismo. Historicamente, o segundo tem sido definido como um sentimento de amor e respeito à pátria. Não implica, necessariamente, em menosprezar outras nações, ser xenófobo e enxergar o mundo de modo classista e coletivista. Já o nacionalismo se baseia mais no ódio às outras nações e no conflito do que no amor a pátria. Para um conservador político puro, isso é estranho, visto que odiar classes não faz sentido para quem é individualista. Assim, quanto mais nacionalista um conservador se tornar, mais estará deturpando as idéias básicas do conservadorismo.

Feitas essas observações, no mínimo, devemos reconhecer que o nacionalismo nazifascista não prova que este era um movimento conservador e de direita. Ora, levando ainda em conta as demais idéias revolucionárias do nazifascismo e o modo como o nacionalismo deste movimento estava intimamente ligado aos seus ideais de reconstrução do mundo, torna-se inevitável concluir que seu nacionalismo não era fruto de algum tipo patriotismo conservador extremado, mas fruto da mentalidade idealista e revolucionária.

Aqui há algo notável e que devemos ter sempre em mente. A esquerda, por se basear em idealismo e revolução, acaba gerando uma miríade de projetos diferentes de remodelação da sociedade. É por esse motivo muitas vezes um movimento de esquerda pode ser frontalmente contrário ao outro, criando a ilusão de que um representa a direita e outro, a esquerda, quando, na realidade, temos apenas uma cisão entre revolucionários com projetos diferentes. Este parece ser o caso de nazismo, fascismo e comunismo.

Um quarto questionamento que podemos fazer é quanto a temas como elitismo, justiça social, igualdade econômica e classes pobres. O nazifascismo é freqüentemente associado ao conservadorismo e a direita por ser elitista e contrário a justiça e igualdade social, em oposição aos regimes de esquerda, como o comunismo, que seriam a favor do direito dos pobres e etc. Há muito que se dizer aqui. Em primeiro lugar, do ponto de vista da prática, nenhum governo de esquerda cumpriu o que prometeu em relação à justiça e igualdade social e ao fim do elitismo. Sobretudo os regimes comunistas, que criaram uma classe de burocratas com poder absoluto, generalizaram a pobreza, causaram fome, mataram inocentes, pisaram na democracia, proibiram greves de operários e etc. Então, colocar os regimes de esquerda do lado dos pobres e o nazifascismo como elitista e injusto é apenas um truque retórico.

Em segundo lugar, se por um lado podemos citar algumas reformas sociais feitas por regimes de esquerda (como o comunismo) em seus países, por outro lado, também podemos citar algumas reformas sociais feitas por nazistas e fascistas. Foi o fascismo, por exemplo, que criou a Carteira de Trabalho (“Carta de Lavouro”). E o nazismo pagava férias assalariadas. Então, parece haver um padrão comum entre regimes de esquerda e o nazifascismo: não cumpriram o que prometeram no que tange a elitismo, justiça e igualdade social, mas fizeram algumas reformas sociais.

Em terceiro lugar, do ponto de vista teórico, tanto os regimes de esquerda como o nazismo e o fascismo almejavam justiça e igualdade social. O fato de o nazifascismo falar abertamente que o poder deveria estar nas mãos de poucos, enquanto outros regimes de esquerda, como o comunismo, falarem de “povo no poder”, a concepção de poder dos líderes de cada um desses regimes era exatamente a mesma. Eles se achavam representantes do povo e entendiam que para suas reformas serem feitas era inevitável que o poder estivesse centralizado. A diferença do nazifascismo para os demais regimes é que o primeiro não distorcia o entendimento de democracia, mas sim se opunha a ela de modo direto, enquanto os demais idealizavam a existência de uma democracia dentro de um Estado centralizador e totalitário. Ou seja, para o regime comunista, por exemplo, sua ditadura era democrática e o povo estava no poder. Trata-se de uma distorção.

Por fim, é questionável dizer que o conservadorismo é elitista e contrário aos pobres porque se opõe a projetos de plena igualdade social. Afinal, esses projetos nunca alcançaram seus objetivos, como já vimos. Então, não faz sentido dizer que quem se opõe a eles é elitista. Pelo contrário, na visão do conservador, tais projetos não têm capacidade alguma de gerar tal igualdade e, por isso, sempre acabam sendo usados justamente por líderes e governos elitistas (como no comunismo).

Diante dessas observações, concluímos que a posição do nazifascismo sobre temas como elitismo, justiça e igualdade social era bem semelhante a de outros regimes de esquerda (sobretudo o comunismo), tanto na teoria, como na prática; uma posição que poderia ser resumida na crença de que “quando o partido assumir o poder, tudo será diferente”.

Até aqui, tudo o que analisamos indica que os movimentos nazistas e fascistas não eram conservadores, mas sim idealistas e revolucionários. Mas ainda há alguns pontos que precisamos analisar. Um deles é a posição nazifascista favorável à família e a religião. São posições tradicionalmente conservadoras. O que dizer disso? Vamos por partes.

Com relação à defesa da família, devemos entender o contexto dessa defesa. Sabemos que os marxistas da época não eram muito simpáticos à família. Cria-se que a família, tal como a conhecemos, era uma criação burguesa (ou, no mínimo, estava grandemente infectada pelos valores da burguesia). Como a burguesia era uma classe inimiga para os marxistas, então a família acabava recebendo certa oposição.

Entretanto, para nazistas e fascistas, a burguesia não era uma classe inimiga. O nazifascismo acreditava que burguesia e proletariado poderiam laborar juntos, sob a orientação do Estado, na construção da sociedade renovada e no engrandecimento da nação. Bastava o Estado estar na equação, interferindo em conflitos e explorando o que de melhor havia das duas classes. Deste modo, lutar contra a família não fazia muito sentido. Era desnecessário. Como também a defesa da família em duas nações que eram cristãs (Itália e Alemanha) era uma ótima propaganda contra comunistas, a posição foi enfatizada. Isso parece ser muito mais uma expressão de estratégia do que uma defesa conservadora da família.

O mesmo pode se dizer com relação à religião. Como o nazifascismo não via a religião como criação burguesa e nem a burguesia como um inimigo a ser destruído, mas como um servo do Estado, lutar contra a religião era desnecessário. Mais que isso, lutar contra a religião era contraproducente, já que os religiosos eram maioria. Aliás, a defesa da religião era ainda mais pragmática do que a defesa da família. Tanto que era plano dos regimes instituir uma religião estatal, uma estatolatria, que elevasse o Estado, o regime e o líder do regime à posições divinas. Hitler, por exemplo, chegou a ordenar que as músicas natalinas na Alemanha passassem a exaltar o regime e ele. A idéia era claramente infectar a religião tradicional com as ideologias do governo até ao ponto de desfigurá-la totalmente, transformando-se em uma religião política. Certamente isso não é uma expressão de conservadorismo político, mas nos lembra muito, sem dúvida, a posição dos revolucionários franceses, que almejavam criar uma religião secular na França e colocá-la no lugar do cristianismo.

Há um último questionamento. A visão de economia do nazifascismo expressava conservadorismo e ideais de direita? Marxistas geralmente dizem que sim porque os regimes nazifascistas não queriam destruir o capitalismo e a burguesia. Como podemos ver, a pressuposição aqui é que para ser de esquerda é necessário querer destruir a burguesia e o capitalismo. Evidentemente isso está longe de ser verdade. Nem toda a doutrina de esquerda é comunista. Na verdade, a maioria dos regimes de esquerda não pretendeu destruir o capitalismo, mas controlá-lo através do Estado, a fim de “fazer justiça social”. Isso é fato, sobretudo hoje, no contexto pós-comunismo soviético.

Muito embora as esquerdas preservem, em geral, um espírito anticapitalista, isso não implica em querer destruí-lo. Quando se tem um inimigo, pode-se optar por dois modos diferentes de combate: ou (1) matá-lo, ou (2) torná-lo um escravo. Um regime anticapitalista não precisa optar pela primeira opção, como fez o comunismo. A segunda opção é perfeitamente viável, pois o Estado estará no controle de seu inimigo e poderá extrair dele benefícios. Assim, para um regime ser de esquerda e até revolucionário, não é preciso ser comunista, querendo destruir a burguesia e o capitalismo. Basta querer escravizar a economia capitalista.

Ora, como o leitor já deve saber, tornar o sistema capitalista um escravo do Estado significa criar um governo extremamente intervencionista. Ou seja, por mais que a burguesia não seja destruída e a propriedade privada continue existindo, tudo está sob um forte controle do Estado, que pode guiar todos os setores da forma como melhor julgar, de acordo com seus propósitos de mundo melhor. Esse tipo de visão econômica, que era a base dos regimes nazifascistas, de forma alguma faz parte do conservadorismo político. Embora certamente nem todo o conservador seja defensor do laissez-faire e totalmente contrário ao intervencionismo, o extremo intervencionismo econômico, sobretudo aquele que é abertamente orientado para um projeto de remodelação da sociedade, é uma característica de movimentos de esquerda.

A leitura de “O Caminho da Servidão”, de Friedrich Hayek, é imprescindível para entendermos os motivos pelos quais um genuíno conservador político rechaça essa visão econômica de que o capitalismo deve ser escravo do Estado. Com propriedade, o economista liberal mostra como que esse intervencionismo leva, invariavelmente, à perda de liberdades individuais e a regimes totalitários. Ora, isso é básico para qualquer conservador político moderno. Além do mais, o conservador (e o direitista, em geral) não acredita nessa idéia de que o governo vai conseguir criar um paraíso através de uma forte intervenção. Isso é idéia de progressista. Por isso, as economias nazistas e fascistas não podem ser consideradas expressões de conservadorismo e da direita em hipótese nenhuma. São economias progressistas e idealistas. São expressões da esquerda.

Considerações Finais

Não há como fazer uma análise completa dos movimentos nazistas e fascistas em uma dúzia de páginas. Contudo, os pontos básicos que vimos neste texto nos são mais que suficientes para compreender que estes movimentos estavam bem distantes do conservadorismo político moderno e da direita. Talvez, em uma análise mais extensa, possam ser encontrados alguns poucos elementos tradicionalmente da direita nesses movimentos. Mas certamente não são muitos, tampouco justificam que o nazifascismo seja posto, no espectro político, ao lado de governos conservadores como o de Margaret Thatcher e o de Ronald Reagan, e, no campo das idéias, ao lado de Friedrich Hayek, Ludwig von Mises, Eric Voegelin, Böhm-Bawerk, Alexis de Tocqueville, Edmund Burke, David Hume e Adam Smith.

A verdade é que os fatores determinantes para que a história aceitasse a idéia de nazifascismo como um movimento conservador e direitista foram: (1) o conflito interno esquerdista entre o nazifascismo e o comunismo, que criava uma falsa aparência de polarização “esquerda x direita”; (2) a hegemonia dos ideais comunistas dentro da esquerda, que acabou ofuscando por um bom tempo todos os movimentos da esquerda que não eram comunistas e tornando esquerdismo sinônimo de comunismo; (3) o fato de que a URSS ganhou a segunda guerra mundial contra o nazifascismo, abrindo assim o caminho para demonizar os movimentos derrotados, associá-los ao capitalismo e exaltar o comunismo como o regime que venceu os “capitalistas nazifascistas” (aqui, mais uma vez, a polarização cria uma falsa aparência de “esquerda x direita”).

A influência desses fatores na historiografia é tão clara que qualquer livro ou site que critica a idéia de que o nazifascismo era de esquerda, apela para o “argumento” de que o nazifascismo não defendia a destruição da burguesia e do capitalismo, como se ser de esquerda se limitasse a ser comunista (hegemonia). Em outras palavras, a maioria dos historiadores interpreta a história do ponto de vista da propaganda comunista. Não obstante, do ponto de vista do que realmente é conservadorismo e direita, colocar o nazifascismo como um movimento conservador político e de direita é negligenciar toda uma literatura conservadora de mais de duzentos anos e ignorar toda influência dos ideais revolucionários sobre o nazifascismo. Ora, se isso é considerado correto do ponto de vista historiográfico, não sei mais o que é bom senso e honestidade intelectual.

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Sugestões de Leitura

Livros

  1. Burke, Edmund. Reflexões sobre a Revolução em França.
  2. Hayek, Friedrich. O Caminho da Servidão.
  3. Kirk, Russell. The Conservative Mind: From Burke to Santayana.
  4. Pereira, João Coutinho; Pondé, Felipe Luiz; Rosenfield, Denis. Por que virei à direita: Três intelectuais explicam sua opção pelo conservadorismo
  5. Tocqueville, Alexis de. O antigo Regime e a Revolução.
  6. Tocqueville, Alexis de. A Democracia na América.
  7. Goldbert, Jonah. Fascismo de Esquerda.
  8. Mises, Ludwig. As Seis Lições.
  9. Voegelin, Eric. As Religiões Políticas.
  10. Johnson, Paul. Tempos Modernos.
  11. Gray, John. Cachorros de Palha.
  12. Gray, John. A Missa Negra.
  13. Overy, Richard. Os Ditadores – A Rússia de Stalin e a Alemanha de Hitler.
  14. Gellately, Robert. Lênin, Stálin e Hitler: A Era da Catástrofe Social.
  15. Gregor, Antony James. Marxism, Fascism and Totalitarianism: Chapters in the Intellectual History of Radicalism.

Artigos

  1. Confusões clássicas sobre direita e esquerda
  2. Que é fascismo?
  3. A Mentalidade Revolucionária
  4. Ainda a Mentalidade Revolucionária
  5. Lindeza de Estupidez
  6. A tentação Totalitária
  7. Do mito ao fetiche
  8. Um texto fundamental de Pondé para facilitar a compreensão da essência deste blog: “Do mito ao fetiche”
  9. Quando o fascismo era de esquerda
  10. Tudo o que você deveria saber sobre o fascismo, mas não quer
  11. O Antimarxismo de Hitler prova que ele era de direita?
  12. Será o nazismo de extrema-direita? Not so fast, Junior
  13. O sucesso como a maior das semelhanças entre o nazismo e o comunismo do século XX
  14. Como a dinâmica social resolve o problema da rotulagem equivocada de nazismo e fascismo como regimes de direita
  15. Entra em cena o ceticismo plítico para resolver de vez o problema da falsa rotulagem de nazismo e fascismo como regimes de direita
  16. Mussolini, Hitler e Wilson. Wilson?
  17. Socialismo no Terceiro Reich
  18. As raízes socialistas de Benito Mussolini
  19. As raízes do Estado intervencionista moderno
  20. Nazismo e suas raízes marxistas
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Autor: Davi Caldas

"Grita na rua a Sabedoria, nas praças, levanta a voz; do alto dos muros clama, à entrada das portas e nas cidades profere as suas palavras: 'Até quando, ó néscios, amareis a necedade? E vós, escarnecedores, desejareis o escárnio? E vós, loucos, aborrecereis o conhecimento? Atentai para a minha repreensão; eis que derramarei copiosamente o meu espírito e vos farei saber as minhas palavras. 'Mas porque clamei, e vós recusastes; porque estendi a mão, e não houve quem atendesse; antes, rejeitastes todo o meu conselho e não quisestes a minha repreensão; também eu me rirei na vossa desventura, e, em vindo o vosso terror, eu zombarei, em vindo o vosso terror como a tempestade, em vindo a vossa perdição como o redemoinho, quando vos chegar o aperto e a angústia. 'Então, me invocarão, mas eu não responderei; procurar-me-ão, porém não me hão de achar. Porquanto aborreceram o conhecimento e não preferiram o temor do Senhor; não quiseram o meu conselho e desprezaram toda a minha repreensão. Portanto, comerão do fruto do seu procedimento e dos seus próprios conselhos se fartarão. 'Os néscios são mortos por seu desvio, e aos loucos a sua impressão de bem- estar os leva à perdição. Mas o que me der ouvidos habitará seguro, tranquilo e sem temor do mal'" (Provérbios 1:20-33).

14 comentários em “O nazismo e o fascismo eram movimentos conservadores políticos?”

  1. Excelente Davi,

    Outra distorção que vejo sendo feita quanto ao conservadorismo remete aos regimes teocráticos Islâmicos.

    Tratam eles como conservadores, porem somente são conservadores no sentido de conversar tudo que não presta, como ataques terroristas, estado totalitário, imposição religiosa, etc.

    Tudo que regimes socialistas aprovam, tanto é que tem sempre o apoio da Venezuela e afins.

  2. Melhor texto que eu já li sobre o assunto, rechaça todos argumentos que a esquerda usa para tentar jogar no colo dos conservadores (direita) a bomba nazifascista que eles criaram.
    Parabéns!

  3. Texto muito bem emoldurando e de uma certa forma quantitativo em sua extensão verborrágica, entretanto o interlocutor do post ” editou” o seu próprio materialismo histórico acerca do tema; se de fato os regimes nazifascistas tinham viés de um estado centralizador e intervencionista, em contrapartida o ufanismo nacionalista parte de um pressuposto direitista sim. Além do más o interlocutor não esclareceu a oríundidade do nazismo/ fascismo, como se deram suas respectivas ascensões, quais eram os cenários de Itália e Alemanha predecessores ao nazifascismo?. Ora chega a ser deplorável que o autor deste escrito não tenha atentado a elucidar a quem estivesse lendo ao fato que na Itália por exemplo a esquerda vinha em uma ascensão ideológica sobre tudo em panfletos e publicações periódicas em detrimento ao fato que facções políticas de direita disputavam o poder no país mediterrâneo, foi neste contexto que o nome de Gramsci tornou-se conspícuo( Gramsci dissertava sobre uma hegemonia cultural de esquerda em levante aos costumes e poderes conservadores vigentes na Itália á época). Quanto a escalada ao poder os fascistas tinham apoio incondicional das forças armadas ( que eram majoritariamente compostas por conservadores, ou seja, DE DIREITA) e sindicatos trabalhistas (ai sim DE ESQUERDA), mas antes que pense que explanarei presumindo que o fascismo italiano era um totalitarismo centrista, lhe digito…. NÃO.Observem a frase de ninguém menos que Benito Mussolini; ” O fascismo será um movimento que atingirá o atraso da direita e a destrutividade da esquerda”, vejam que com esta frase do mais emblemático líder ítalo-fascista exprime que as políticas de direita tais como ultranacionalismo, defesa das tradições e hierarquias sociais devem só não serem mantidas,mas alavancadas ante a uma morosidade por parte da própria direita em o fazê-lo, agregando-se a isto um mecanismo de proteção anti socialista que nas palavras do próprio ditador eram práticas solapadoras de sistema. A práxis fascista consistia no populismo nacional agregando todas as classes em prol de suas causas, entretanto este agregamento não insidia em desfazer as classes ( para quem leu Karl Marx sabe que a extinção de classes sociais era o maior pilar do determinismo ideológico marxista, por ai se pode notar que jamais o fascismo italiano poderia ser de esquerda). quando Mussolini assumiu o poder combateu não só o socialismo como também sobrepujou o liberalismo que é de direita, assim o fascismo italiano pode ser resumido como um regime totalitário centralizador, anti comunista e anti liberalismo em detrimento as causas e motivações ultranacionalistas que lhe são inerentes, não podendo ser nem liberal pois combatia essa politica o que poderia enfraquecer o poder do líder totalitário fascista tampouco socialista pois não apresenta quase nada do escopo marxista a não ser o apelo agregador populista, mas sim assentado sobre os pilares do conservadorismo o qual lhe deu respaldo e apoio ao poder. Um anexo do wikipédia da maiores detalhes.http://pt.wikipedia.org/wiki/Fascismo
    A respeito do nazismo nosso “bloguer” nem sequer teve o lisura de salutar o fato que após a queda monárquica germânica o país entrou em um estado de disputa pelo poder sendo que novamente a esquerda do país tinha uma alta produção cultural e a direita por sua vez tinha tinha ampla aceitação por parte da sociedade, direita esta representada pelo partido popular social alemão, partido este enquanto no poder implementava suas politicas liberais a frente da então República de Weimar, e mesmo sendo um governo provisório e temendo a escalada socialista no pais outorgou junto ao exército ( este que o concedeu o poder mesmo sem um pleito) a investida de Hitler aos comunistas tendo assim seu inimigo abatido, com a ascensão do Führer o governo de coalizão entre o partido social alemão e nazista com uma manobra politica Hitler ele persuadiu os grandes empresários e latifundiários a pressionarem o governo vigente a nomearem Hitler como chanceler, o führer estava cada vez mais próximo de seu intento, foi quando um comunista extremista numa tentativa de terrorismo foi condenado por um incêndio que teria causado, isso foi o estopim para que Hitler convencesse setores da sociedade á atentarem sobre o perigo de uma ameaça comunista com isso o resultado foi a promulgação da Lei de concessão, emenda esta que permitia a Hitler aprovar leis sem o consentimento do presidente, podendo assim Hitler proibiu tanto comunista quanto sociais democratas a participarem da vida politica do pais extirpando todos os partidos legais excetuando-se o partido nazista, bens foram confiscados(sobretudo dos sociais democratas), e com o unipartidarismo o Terceiro Reich se instaurou.Bem com essa breve apresentação do cenário alemão apresentado o que teria se degringolado na Alemanha de Hitler? Ora com plenos poderes em mãos o führer caçou direitos políticos e civis tanto de “destros quanto canhotos” foram amortizados, perseguições a opositores e principalmente a judeus, gays e comunistas ( ora o führer foi o mais assíduo combatente da Internacional Comunista 3 criado por Vladmir Lênin, o que esfacela qualquer possibilidade de ligação consensual entre nazismo e comunismo, mas ao que parece o colaborador deste blog ou desconhece tal fato, ou o suprimiu para que seu “conto histórico” não se tornasse incongruente), afora isto Hitler temia o pensamento secularista um dos pilares do marxismo, pois para Hitler a descrença e o ateísmo eram perniciosos a sua manutenção no poder( lembrando que é o pensamento conservador e sobretudo da filosofia escolástica todo um ideário entre a harmonia moral,cívico proselitista) Só para citar em meio ao segunda guerra Stálin que tinha um pacto de não agressão com Hitler o desconsiderou forjando uma aliança com Winston Churchill ( primeiro ministro britânico)e Franklin Roosevelt ( presidente estadunidense) aliando-se as forças aliadas, mais informações aqui… http://pt.wikipedia.org/wiki/Alemanha_Nazi
    Vejo como chega a ser triste de tão cômico que é a lamúria de conservadores que se disfarçam de liberais para atribuir a esquerda todas as mazelas que houveram no decorrer da história, sendo a direita responsável única e direta pelo atraso científico e tecnológico durante a idade média graças á Igreja Estado e sua continuação até meados do seculo XX quando caíram as últimas monarquias absolutistas, fora que a direita protagonizou sozinha a primeira guerra mundial entre outros fatos adiante, é claro que a esquerda e seu comunismo/ socialismo também não estão isentos de catástrofes politicas como os extermínios de opositores e até aliados, campos de concentração, confiscos de terras, manipulação de informações, falta de liberdades etc.., mas ficar com reducionismo não agrega nada ao debate, sou sim de esquerda, sou sim um marxista, porém não abraço este marxismo fossilizado que conservadores vociferam, para isto a escola de Frankfurt foi desenvolvida, para revisionar o socialismo, não sou um otimista do regime castrista, é vergonhoso o que se passa na Coréia do Norte, e mesmo com os avanços que ocorreram na China á muita coisa a ser melhorada e revista por lá, sobre tudo a liberdade de expressão, enfim quando se têm a premissa de escrever um texto com embasamento histórico antes de mais nada é necessário se ter honestidade intelectual, aspecto ético do qual faltou ao responsável por este lastimável texto desinformativo.

    PS: O autor do texto mencionou uma série de nomes da filosofia para endossar as bases do ideário de direita, com um porém, ele faz menção a David Hume um dos grandes nomes do iluminismo e da filosofia empirista, que contribui para o desenvolvimento do conjunto secularista ( conjuto ético do qual se desprende da moral cristã, desenvolvendo uma moral aplicada mais a esfera jurídica e prescindindo de dogmas religiosos) conjunto este que serviu de base junto ao positivismo hegeliano,e o levante da revolução francesa para o pensamento que Marx desenvolveu do século XIX.

    1. Prezado Francisco Robson,

      Você cometeu alguns erros graves em sua análise de meu texto.

      Primeiro Erro Grave: Tornou sinônimos as palavras “socialismo”, “marxismo”, “comunismo” e “esquerda”. Vamos ver isso com calma em alguns trechos:

      A práxis fascista consistia no populismo nacional agregando todas as classes em prol de suas causas, entretanto este agregamento não insidia em desfazer as classes ( para quem leu Karl Marx sabe que a extinção de classes sociais era o maior pilar do determinismo ideológico marxista, por ai se pode notar que jamais o fascismo italiano poderia ser de esquerda).

      Seu raciocínio aqui foi o seguinte:

      (1) O pilar do determinismo ideológico marxista é a extinção das classes;
      (2) O fascismo não pregava a extinção de classes;
      (3) Logo, o fascismo não poderia ser de esquerda.

      Mas repare que a conclusão (3) só segue as premissas (1) e (2) se houver uma premissa oculta nesse pensamento, a saber: “marxismo é a mesma coisa que esquerda”. O problema é que essa premissa oculta está errada. Para ser de esquerda não é preciso ser marxista, comunista ou socialista. Assim, à priori, o fato do fascismo não ser a mesma coisa que socialismo marxista, não significa que ele não possa ser de esquerda. Uma vez que eu não afirmei que o fascismo era a mesma coisa que o socialismo marxista, você está criticando um espantalho. Vejamos outro trecho seu:

      quando Mussolini assumiu o poder combateu não só o socialismo como também sobrepujou o liberalismo que é de direita, assim o fascismo italiano pode ser resumido como um regime totalitário centralizador, anti comunista e anti liberalismo em detrimento as causas e motivações ultranacionalistas que lhe são inerentes, não podendo ser nem liberal pois combatia essa politica o que poderia enfraquecer o poder do líder totalitário fascista tampouco socialista pois não apresenta quase nada do escopo marxista

      Aqui você comete nova confusão, tentando vender a ideia de que só existe um tipo de socialismo: o socialismo marxista. Sua conclusão é que, sendo o fascismo anticomunista, ele não pode ser socialista. Entretanto, mais uma vez, sua premissa está errada. Existem vários tipos de socialismo, não apenas o marxista. Eles podem até ser semelhantes uns aos outros, mas não são a mesma coisa. Então, à priori, o fascismo poderia sim ser de esquerda e socialista, mesmo não sendo marxista.

      Ora com plenos poderes em mãos o führer caçou direitos políticos e civis tanto de “destros quanto canhotos” foram amortizados, perseguições a opositores e principalmente a judeus, gays e comunistas ( ora o führer foi o mais assíduo combatente da Internacional Comunista 3 criado por Vladmir Lênin, o que esfacela qualquer possibilidade de ligação consensual entre nazismo e comunismo, mas ao que parece o colaborador deste blog ou desconhece tal fato, ou o suprimiu para que seu “conto histórico” não se tornasse incongruente)

      Mais uma vez você me acusa de algo que sequer passou pela minha cabeça, quanto mais escrevi. Me acusa de ter feito uma ligação consensual entre nazismo e comunismo e que tentei esconder suas desavenças para meu “’conto histórico’ não se tornasse incongruente”. Ah, pelo amor de Deus! Tudo o que falei no texto foi que: (1) o nazismo não pode ser considerado um movimento conservador político e de direita e (2) que ele tem características revolucionárias, progressistas e socialistas. Em nenhum momento afirmei que o nazismo é a mesma coisa que o socialismo marxista ou que comunismo e nazismo tinham alguma “ligação consensual” (pelo menos não no sentido que você coloca em seu comentário, um sentido de “serem amiguinhos”).

      Você não precisa me dizer o óbvio. Comunismo e nazismo eram movimentos diferentes e que rivalizavam um com o outro. Qualquer idiota sabe disso. Agora, que ambos tentavam, a sua maneira, remodelar a sociedade, solapar o liberalismo, centralizar toda a vida individual nas mãos do Estado e substituir a religião tradicional por uma religião política, isso é evidente. E que tais atos constituem a visão de mundo revolucionária e progressista, também é uma obviedade. Esta foi a única comparação que fiz entre os dois movimentos.

      Segundo Erro Grave: argumentou que o fato de que muitos conservadores terem apoiado os movimentos nazista e fascista em seu início, prova que eles não poderiam ser de esquerda. Fez isso nesses trechos:

      Quanto a escalada ao poder os fascistas tinham apoio incondicional das forças armadas ( que eram majoritariamente compostas por conservadores, ou seja, DE DIREITA)

      Ora, eu vou votar no Aécio, que é social-democrata. Mas eu não sou social-democrata, sou um conservador em política e um liberal em economia. Vou votar nele por falta de coisa melhor. Agora veja: o fato de Aécio receber apoio de conservadores políticos e liberais em economia não faz dele um conservador político e liberal em economia. Ele continua sendo um social-democrata. Tentar puxar o fascismo para a direita com base na posição política de seus apoiadores é algo extremamente imbecil.

      a direita por sua vez tinha tinha ampla aceitação por parte da sociedade, direita esta representada pelo partido popular social alemão, partido este enquanto no poder implementava suas politicas liberais a frente da então República de Weimar, e mesmo sendo um governo provisório e temendo a escalada socialista no pais outorgou junto ao exército ( este que o concedeu o poder mesmo sem um pleito) a investida de Hitler aos comunistas tendo assim seu inimigo abatido, com a ascensão do Führer o governo de coalizão entre o partido social alemão e nazista com uma manobra politica Hitler ele persuadiu os grandes empresários e latifundiários a pressionarem o governo vigente a nomearem Hitler como chanceler,

      Aqui, outra vez, você gasta linhas com o único objetivo de poder dizer que conservadores apoiaram Hitler em sua subida ao poder. Ora, sabemos que Hitler era um exímio estrategista político e que sabia seduzir tanto esquerdistas como direitistas. Aliás, o ponto forte dos movimentos nazifascistas era esse: fazer parecer conservador para o direitista e revolucionário para o esquerdista. Uma leitura em Mein Kampf oferece uma visão bem clara sobre isso. Ali Hitler fala sobre essa estratégia. Então, não é de se estranhar que ele tenha conseguido apoio de conservadores. Mas isso é absolutamente irrelevante para definir se o nazismo era um movimento de direita ou não. Isso se define através de um estudo sobre as ideias do movimento e o seu modo de governar.

      Terceiro Erro Grave: cometeu um anacronismo horroroso. Em um trecho você diz:

      sendo a direita responsável única e direta pelo atraso científico e tecnológico durante a idade média graças á Igreja Estado e sua continuação até meados do seculo XX quando caíram as últimas monarquias absolutistas

      Direita na idade média?!?! Você está analisando a idade média com conceitos e contextos que se iniciaram no séc. XVIII. O que é isso, meu querido? Assim fica difícil conversar. Mesmo que você tenha se expressado mal e sua ideia era apenas associar a direita ao pensamento religioso da idade média, isso está completamente errado. Não existe apenas a direita religiosa, e o conservadorismo político não é a mesma coisa que o conservadorismo religioso católico. Expliquei isso em meu texto.

      Quarto Erro Grave: associação forçada entre o posicionamento de direita e a religião. Você diz:

      O autor do texto mencionou uma série de nomes da filosofia para endossar as bases do ideário de direita, com um porém, ele faz menção a David Hume um dos grandes nomes do iluminismo e da filosofia empirista, que contribui para o desenvolvimento do conjunto secularista ( conjuto ético do qual se desprende da moral cristã, desenvolvendo uma moral aplicada mais a esfera jurídica e prescindindo de dogmas religiosos) conjunto este que serviu de base junto ao positivismo hegeliano,e o levante da revolução francesa para o pensamento que Marx desenvolveu do século XIX.

      A direita se define não por ser religiosa, mas por ter uma visão política de mundo mais conservadora, temendo grandes projetos de remodelação da sociedade, sendo cética em relação ao ser humano e apoiando melhorias na sociedade dentro e através daquilo que já conhecemos bem através da experiência. Outros pontos, como a visão dos benefícios de uma economia mais liberal, sem grande intervenção do Estado, um governo descentralizado, poucos impostos e etc. evoluem dessa base conservadora em política. Para tanto, não é preciso ser religioso. Aliás, um dos melhores blogs de direita que conheço é redigido por um ateu: Luciano Ayan. E este blog, “Direitas Já!”, tem um ateu e um agnóstico entre os articulistas.

      Bom, isso é tudo.

      Atenciosamente,

      Davi Caldas (o autor desse texto).

      1. Meu caro interlocutor, agradeço-lhe por replicar minhas explanações, contudo é perceptível que não se fez por entender tudo aquilo que expus em minha resposta a sua postagem. Primeiro, não ratifiquei em minha resposta que haja, ou melhor havia uma única corrente de esquerda ativa durante o período nazifascista, eu mesmo escrevi que não sou adepto desse marxismo fossilizado, á época como citei além de Marx e Engels haviam outras correntes filosóficas que foram postas ao espectro que conhecemos como esquerda que se diferenciavam do radicalismo proposto por Marx, podendo aqui serem citados pensadores como Proudhon que defendia uma sociedade sem a necessidade de um estado formal legislador (ou seja anarquista), contudo se utiliza de uma premissa esboçada por Marx acerca do fim da propriedade privada, dai partisse da ideia que de fato Proudhon foi um pensador de esquerda contudo não comunista ( vide exemplo de suas discussões com o próprio Marx em que divergem, chegando ao ponto de Marx redigir um livro resposta a uma das obras do próprio Proudhon), mensurei o nome de Antônio Gramsci que contribui para um avanço heterogêneo do esquerdismo no que tange suas conjecturas, assim como pós segunda guerra o pensamento de esquerda foi se pluralizando indo de Jacques Deride, Jean Paul Sartre e Eric Hobsbawm, a escola de frankfurt e mais recentemente Slavoj Zizek entre outros, portanto meu caro não sou eu que estou “criticando um espantalho”. Quanto ao desvencilhamento do que foi o fascismo em sua “correlação” com idéias de esquerda posso lhe citar o fato de Mussolini ter sido sim um militante de esquerda, que posteriormente viera a seccionar com o mesmo ( ora em nosso Pais temos exemplos contemporâneos dessa guinada ideológica pessoal, casos como o filósofo Olavo de Carvalho e o músico Lobão entre outros), e você não expôs com tenacidade a refutação acerca desta “ocultação de premissas” das quais tergiversa , senão se de fato o fascismo de Mussolini carregava consigo algumas marcas daquilo que se entenda de esquerda, o que além de unir as classes em torno de um ideal político revolucionário poderíamos associar entre fascismo/ esquerda?. Não há como desassociar movimentos de esquerda sem a influência do pensador alemão, que seja em maior ou menor grau TODO ESQUERDISTA É MARXISTA, pois essa corrente filosófica politica parte dele, seria o mesmo de se considerar cristão e não reconhecer no próprio Cristo como parte integrante da santíssima trindade.
        Segundo; quando disserta alegando que lhe acuso de associar nazismo com esquerda, você mesmo ratifica que o nazismo continha características do socialismo, portanto me utilizo da indagação que lhe fiz incisos acima referentes a essas características. Para concluir esse segundo ponto, não aceitar o fato de que Hitler tinha o apoio dos blocos conservadores da República de Weimar é desnortear a própria história,como você mesmo explanou que votaria no Aécio Neves neste pleito por entender que ele é a melhor opção elegível em detrimento a continuação do PT no poder, mesmo você admitindo que ele (Aécio) não é o paradigma de representante político do qual você entende como ideal, tendo isso como analogia não poderíamos supor o mesmo da maioria dos conservadores germânicos á época quanto ao risco de um regime socialista, , e sendo Hitler “a melhor opção” vigente no momento para que interferisse tal escalada socialista?.Contudo reitero que ser de direita a priori jamais deve ser denominado conservador. pois assim como a esquerda possui várias correntes , a direita também as possui indo de social- democratas , liberalistas, neoliberalistas e até mesmo anarco-capitalistas etc…, desse modo acredito que se torna inimputável a culpa sobre toda a direita ( ora sou um grande admirador da filosofia de Immanuel Kant, Adam Smith, Nicolau Maquiavel, até mesmo li o “Ação humana” do Von Mises, e pretendo uma hora ler um pdf de um dos escritos do Karl Popeer ), agora fica praticamente impossível desassociar “CERTAS ALAS DA DIREITA” ao nazifascismo devido ao materialismo histórico, e se você continua com a postura de que o apoio dos conservadores foi irrelevante a Hitler deveria ao menos aduzir dados acerca da sua afirmação, do contrário se torna mero reducionismo, reducionismo similar e tacanho a alguém que ainda defenda ditaduras Castristas, Maoistas, Chavistas etc…
        Terceiro; quanto a atribuição do atraso científico e tecnológico a Igreja/Estado e sua ligação com o conservadorismo político e filosófico é facilmente associável, logo a Igreja em seu apogeu político e cultural desenvolveu sua própria escola de filosofia, tendo alguns nomes de extrema relevância como Crussius, Thomás de Aquino, Santo Agostinho etc, além de pensadores posteriores que sofreram influência direta desse pensamento escolástico, tais como Kant, Schoupenhauer, Fichte, Burke, até mais recentes como Voegelin e Olavo de Carvalho, e se podermos fazer uma analogia daquilo que a Igreja fazia em quanto no poder, poderíamos facilmente constatar que suas ações enquanto Estado estão muito próximas do conservadorismo politico; manutenção da ordem tendo a hierarquia social sendo respeitada de acordo com leis vigentes, manutenção do latifúndio a seus proprietários (propriedade privada), preservação dos costumes e tradições ( sobre tudo as familiares e religiosas), além a aversão a qualquer manifestação que possa ser denominada subversiva entre outras minúcias.Quanto a dicotomia direita/esquerda se dada durante a revolução francesa, esta divisão apenas servia apenas para designar os locais onde os membros da Assembléia se sentavam ( Gerundinos á direita e Jacobinos á esquerda) contudo esta esquerda apresentada na revolução quando falava de igualdade, era a igualdade jurídica e uma participação popular efetiva na politica do pais ( Robespierre e os jacobinos se baseavam nos lemas da independência americana ” justiça, liberdade e fraternidade”,) . A justiça da qual os jacobinos defendiam não era a justiça social ( marca intrínseca de todo esquerdismo), mas sim a justiça jurídica assim como foi e é a justiça norte americana, e mesmo que hoje poderíamos dizer que os insurgentes da revolução francesa estavam mais próximos de idéias sociais democratas, é redundante sua influência nas reflexões de Marx, assim como foi a ideologia hegeliana e o pensamento iluminista, que marcou tanto os revolucionários franceses, quanto o marxismo, mais detalhes …

        http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Francesa

        Para finalizar , gostaria de mencionar ao prezado interlocutor, que de fato tenho ciência que nem todos os pensadores de direita são religiosos, a associação que fiz entre Hume e Marx, é que boa parte do pensamento ateu de Marx, vem do iluminismo do qual fazem parte o próprio Hume, Locke,Gibbon, Voltaire, Smith,Fergusson etc…,

        Gostaria de agradecer pelo espaço concedido para que expusesse meu pensamento, obrigado por replicar minhas posições referentes ao tema, e espero que leia esta tréplica e não pense que a fiz com o intuito de desmoralizar ou estimular desavenças, acredito que a democracia tem que ouvir todos os lados, para que depois se possa chegar a denominadores comuns. Grato!!!!

  4. Sr. Davi Caldas, explanação excelente ! Não sei o que foi melhor, se o texto original ou a réplica ao Sr. Francisco Robson… mas o todo é certamente um dos melhores textos que já li sobre Direita e Esquerda, Liberalismo e Conservadorismo.
    Parabéns, e espero que Deus o ajude a conservar seu bom trabalho!
    Abraços,

  5. Vou deixar aqui um adendo. Para aqueles que afirmam que o antimarxismo do fascismo comprova que este era de direita, falta-lhes estudar o processo de revisão pelo qual o fascismo passou entre o final do século XIX e o primeiro quarto do século XX. Neste período surgiram tanto a social-democracia (Bernstein, Luxemburgo) como o sindicalismo revolucionário (Sorel), ambos desde sempre considerados ideologias de esquerda. É deste último que vem o fascismo, após a síntese com o nacionalismo. O caminho é: marxismo, revisionismo, sindicalismo revolucionário, nacional-sindicalismo e finalmente fascismo italiano.

    O pensamento de Mussolini em específico passou por uma fase intermediária que se deu quando ele ainda estava no Partido Socialista Italiano, e portanto antes de aderir ao nacional-sindicalismo italiano e convertê-lo em fascismo. Nesta época, ele passou a opor-se radicalmente às ideias social-democratas e a infundir o pensamento de Nietzsche no socialismo italiano (daí seu antiigualitarismo). Sua expulsão do PSI só se deu por uma razão: Mussolini contrariou a decisão do partido de se opor à intervenção italiana na Primeira Guerra Mundial. É com a sua expulsão do partido que ele funda as fasci e as sementes do fascismo são lançadas.

    Em resumo, a esquerda da primeira metade do século XX não se resumia a comunistas e social-democratas, mas incluía os sindicalistas revolucionários e seus descendentes os nacional-sindicalistas e nacional-socialistas.

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