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Marcos Fava Neves é professor de planejamento estratégico e cadeias alimentares da FEA-RP da Universidade de São Paulo (USP). Autor de 25 livros publicados em oito países. É professor visitante internacional da Purdue University (Indiana, EUA) em 2013.

Caro leitor, se você ficou curioso com o título deste artigo “O Conto da Operação J.Dalton”, vou ajudá-lo a entender através de dois capítulos desse gênero literário. A inspiração para o conto vem dos batismos dados pela Polícia Federal brasileira para suas grandes operações, cada vez mais frequentes no Brasil.

O primeiro capítulo começa com um fato extraordinário, que tem o poder de provocar uma grande alegria. As exportações do agronegócio, em agosto, somaram US$ 10,17 bilhões, sendo quase 50% do total exportado pelo Brasil. Em 2013, as exportações do setor acumuladas já batem em US$ 70 bilhões, e o saldo em quase US$ 58 bilhões, 10% acima de 2012.

A renda do campo deve chegar a US$ 180 bilhões neste ano. Por isso, o agro é visto como o setor mais competitivo da economia verde-amarela, aonde quer que se vá, no mundo. Aqui nos EUA, onde vivo neste ano, causa grande respeito e também incômodo.

Até a presente data de 2013, a balança comercial brasileira apresenta o seu pior desempenho em décadas. Com exceção do agro, quase todas as demais exportações caíram, devido à deterioração da capacidade competitiva das empresas, fruto de pouquíssimas reformas estruturantes feitas pelo governo federal.

Já o segundo capítulo do conto provoca tristeza, ao contrário da alegria proporcionada pelo primeiro. Ele começa com a publicação “Instalada a Comissão da PEC Anti-Indígena”, divulgada pela respeitável organização não governamental Greenpeace, dona de batalha incessante pela preservação ambiental do planeta. A PEC visa disciplinar e ampliar o debate, além de determinar quais são os responsáveis na questão da demarcação de terras indígenas no País.

Para começar, causa estranheza esse tema na seara do Greenpeace. Ou seria Indianpeace? Da referida publicação, duas frases se destacam para esse capítulo: “se os representantes do agronegócio saírem vencedores nessa batalha, como saíram no Código Florestal, não serão apenas os indígenas que perderão, mas toda a sociedade brasileira…” A outra diz ser o agronegócio “o setor mais atrasado da economia brasileira”.

Com dois capítulos, nosso conto entrou em curto-circuito. De um lado, vemos fatos: o desempenho econômico medido por geração de renda, exportações competitivas, ganhos de mercado do agro e os outros setores caindo nas exportações. De outro lado, vem a opinião do Greenpeace que é o setor mais atrasado da economia, e seu crescimento leva à perda da sociedade brasileira. Quem estaria com problema de visão?

Estariam os setores ditos “modernos da economia”, gerando empregos, exportando por fora, por baixo do pano, em contrabando noturno? No conto acionamos a Policia Federal, que criativamente bolou a Operação J. Dalton. Depois de ampla investigação temos a triste notícia que a operação nada encontrou de crescimento e de exportações dos outros setor.

Porque a P.F. deu este nome à operação? O inglês John Dalton nasceu em 1766 e viveu até 1844. Cientista com diversas contribuições, principalmente na teoria atômica. Dalton tinha um problema na visão, que intensamente investigado, deu origem ao termo daltonismo. O portador tem dificuldade de ver, principalmente de confundir cores, como o verde e o vermelho. Tanto no semáforo quanto no desenvolvimento econômico, esta confusão de cores não é boa. Em ambos, o verde significa avançar e o vermelho, parar ou até retroceder.

Nosso conto deixa duas mensagens: o agro precisa agir coletivamente e com mais rigor com as organizações que são, injustificada e levianamente, ofensivas ao seu difícil trabalho diário. E como o crescimento do agro leva ao desenvolvimento econômico, social e ambiental, a sociedade brasileira precisa enxergar melhor e também reagir, pois enquanto o agro produz e gera renda, uma turma do contra fica todo o tempo criando contos sem fundamento.

Fonte: Marcos Fava Neves