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Por Christopher Hitchens. Publicado originalmente na revista Vanity Fair. Conteúdo em inglês retirado do site Slate.com, traduzido e adaptado para o português do Brasil por Renan Felipe dos Santos. Para ler o artigo original, em inglês, clique aqui. Comentários por Renan Felipe dos Santos.

hezbolah

A tentativa de David Horowitz e seus aliados de lançar uma “Islamofascism Awareness Week” nos campi universitários americanos provocou uma série de reações distintas. Uma delas é o desafio à validade do termo em si. É bem típico, em círculos acadêmicos esquerdistas, fugir de qualquer comparação entre a ideologia fascista e a ideologia jihadista. Pessoas como Tony Judt me escrevem para dizer que fazer isto é simplista e anacrônico. E em alguns círculos midiáticos, outro tipo de relutância é verificável: Alan Colmes acha que não deveríamos sequer usar o termo Islâmico para designar a jihad, porque fazê-lo é arriscar incriminar uma religião inteira. Ele e outros não querem taxar o Islã mesmo nas suas formas mais extremas com uma palavra tão hediondo quanto fascismo. Finalmente, vi e ouvi que argumentam que o termo é injusto ou preconceituoso porque não é aplicado a nenhuma outra religião.

Bem, a última afirmação certamente não é verdadeira. Já foi muito comum, especialmente na esquerda, adjetivar a palavra fascismo com o termo clerical. Isto para reconhecer o fato inegável de que, da Espanha à Croácia passando pela Eslováquia, havia uma ligação direta entre entre o fascismo e a Igreja Católica Romana. Mais recentemente, Yeshayahu Leibowitz, editor da Encyclopaedia Hebraica, cunhou o termo Judeo-Nazi para descrever os colonos messiânicos que se mudaram para a Cisjordânia ocupada após 1967. Então, não há necessidade de autopiedade entre muçulmanos por estarem “sozinhos nesta”.

Comentário: Hitchens comete vários erros na sua afirmação. Primeiro: o fascismo croata institui o Catolicismo E o Islamismo como religiões oficiais da Croácia, mas a sua Igreja Católica era Nacional e portanto não-romana por definição. A Igreja Católica Croata não tem relação institucional oficial com a Igreja sediada em Roma. Em coerência com o costume de Igrejas baseadas em Estados-nação, o fascismo croata posteriormente instituiria a sua Igreja Ortodoxa Croata. A mais famosa divisão islâmica da SS, a Handschar, é croata. A Igreja Católica Eslovaca também era ortodoxa de matriz grega, e não romana. Talvez reste um pouco de razão nas suas acusações aos católicos espanhóis, que são historicamente mais próximos do franquismo por uma questão pragmática: os republicanos espanhóis, opositores do franquismo, eram radicalmente anticlericais e não exitaram em persegui-los durante a Guerra Civil. 

O termo Islamofascismo foi usado pela primeira vez em 1990 no jornal britânico Independent, do escritor escocês Malise Ruthven, que estava escrevendo sobre o modo como as ditaduras árabes tradicionais usavam apelos religiosos para permanecer no poder. Eu não sabia disso quando empreguei o termo “fascismo com uma face Islâmica” para descrever o ataque à sociedade civil em 11 de setembro de 2001 e para ridicularizar aqueles que apresentavam o ataque como um tipo de teologia da libertação em ação. “Fascismo com uma face Islâmica” evoca o duplo eco tanto de Alexander Dubcek e Susan Sontag (se me permitem), e em qualquer caso, não pode ser usado para propósitos polêmicos cotidianos, então fica a pergunta: Bin Ladenismo ou Salafismo, ou como quer que chamemos, tem alguma coisa em comum com fascismo?

Eu acho que sim. Os pontos mais óbvios de comparação seriam estes: ambos os movimentos são baseados no culto da violência homicida que exalta a morte e a destruição e despreza a atividade intelectual. (“Morte ao intelecto! Vida longa à morte!” como dizia energicamente o acólito do Gen. Francisco Franco, Gonzalo Queipo de Llano.) Ambos são hostis à modernidade (exceto quando se trata de buscar armas) e ambos são cruelmente nostálgicos por impérios passados e glórias perdidas. Ambos são obcecados por “humilhações” reais e imaginárias e sedentos de vingança. Ambos são cronicamente infectados com a toxina da paranóia anti-judaica (interessantemente, também seu irmão caçula, a paranóia anti-maçônica). Ambos são inclinados ao culto ao líder e a ênfase exclusiva no poder de um única grande livro. Ambos tem um forte compromisso com a repressão sexual —especialmente com a repressão de qualquer “desvio” sexual — e com as suas contrapartes a subordinação da mulher e o desprezo pelo feminino. Ambos desprezam a arte e a literatura como sintomas de degeneração e decadência; ambos queimam livros e destroem museus e tesouros.

Comentário: Resumindo, são antimodernistas e antiocidentalistas típicos. Este tipo de ideologia é magistralmente descrito no livro Ocidentalismo, de Avishai Margalit e Ian Buruma. Exemplos deste puritanismo antimodernista podem ser encontrados em qualquer vertente socialista ligada à religião.

Fascismo (e Nazismo) também tentaram falsificar o sucesso passado do movimento socialista usando apelos populistas e pseudo-socialistas. Tem sido muito interessante observar ultimamente o modo como a Al-Qaeda tem falsificado e reciclado a propaganda dos movimentos verdes e anti-globalistas.

Comentário: fascismo e nacional-socialismo não tentaram falsificar o socialismo internacionalista dos bolcheviques e social-democratas em ascensão no século XX, e portanto não são um tipo de “pseudo-socialismo”. Eles defenderam uma vertente nacionalista do socialismo que já se espalhava pela Europa desde o final do século XIX, e que foi fundamentada por socialistas do porte de Georges Sorel e Werner Sombart.

Não há uma congruência perfeita. Historicamente, o fascismo deu grande ênfase na glorificação do Estado-nação e da estrutura corporativa. Não há muito da estrutura corporativa no mundo muçulmano, onde as condições frequentemente se aproximam mais do feudalismo do que do capitalismo, mas o conglomerado empresarial de Bin Laden é, entre outras coisas, uma gigantesca corporação multinacional com algumas ligações no mercado de capitais. Com relação ao Estado-nação, a Al-Qaeda exige que países como Iraque e Arábia Saudita sejam dissolvidos em um grande e revivido califado, mas isto não tem pontos em comum com o esquema da “Grande Alemanha” ou com o sonho de Mussolini em reviver o Império Romano?

Comentário: Hitchens pisa na bola feio ao comparar o corporativismo fascista com a concepção moderna de corporação. O termo corporação dentro da ideologia fascista remonta ao uso pré-capitalista do termo e em geral descreve as corporações de ofício, associações socialistas de trabalhadores e produtores. Não tem relação com o conceito moderno que se faz do termo para descrever grandes empresas capitalistas: neste modelo de gestão não há um “proprietário” da empresa. Este é um modelo produtivo tipicamente pré-capitalista e portanto o lugar certo para se desenvolver é justamente em países cujo grau de desenvolvimento é comparável ao “feudalismo”. 

Tecnicamente, nenhuma forma do Islã prega a superioridade racial ou propõe uma raça mestra. Mas na prática, fanáticos islâmicos pregam um conceito fascista de “pureza” e “exclusividade” sobre o impuro e o kafir ou profano. Na propaganda contra o Hinduísmo e a Índia, por exemplo, pode-se ver algo muito próximo à intolerância. Em respeito aos judeus, é claro que os representam como uma raça inferior ou impura (motivo pelo qual muitos dos extremistas muçulmanos gostam do grão mufti de Jerusalém e sua proximidade a Hitler). Na tentativa de destruir o povo de Hazara no Afeganistão, que são etnicamente persas e religiosamente xiitas, havia também uma forte sugestão de “limpeza”. E, é claro, Bin Laden ameaçou usar a força contra forças de pacificação da ONU que ousassem interromper a campanha genocida contra os afro-muçulmanos levada a cabo por seus amiguinhos sudaneses em Darfur.

Isto torna permissível, me parece, mencionar os dois fenômenos concomitantemente e sugerir que eles constituem ameaças comparáveis à civilização e aos valores civilizados. Há um último ponto de comparação, um que é de certa forma encorajador. Ambos os sistemas totalitários de pensamento evidentemente sofrem de um desejo pela morte. Certamente não é um acidente que ambos enfatizem táticas suicidas e fins sacrificiais, uma vez que ambos prefeririam obviamente ver a destruição de suas sociedades do que firmar qualquer compromisso com infiéis ou diluir as suas próprias ortodoxias doutrinárias absolutas. Então, assim como temos um dever de opor e destruir estes e quaisquer outros movimentos totalitários similares, podemos ter certeza de que eles desempenharão um papel inconsciente na sua própria destruição, também.

Comentário: Nenhuma forma do Islã prega supremacismo racial como nenhuma forma do Cristianismo pregou supremacismo racial. O fascismo islamista não é islâmico como o fascismo catolicista não é católico. É uma doutrina política com uma pintura religiosa, mas que tem pouco da essência religiosa. Na Europa como no mundo árabe, a politização do anti-semitismo foi levada a cabo pelo nacional-socialismo e, se hoje ainda existe, é porque a sua influência permaneceu no tempo da Guerra Fria:  o fascismo islâmico não é um novo movimento político endêmico dos países árabes, ele é a continuação do nacional-socialismo que se instalou nesta região durante a Segunda Guerra Mundial. Basta pesquisar a origem do anti-semitismo em doutrinas como o ba’athismo (assadista ou saddamista) e o nasserismo para chegar a esta conclusão. Se você quer nomes de pessoas-chave neste processo, além do já mencionado grão-mufti de Jerusalém Haj Amin Al-Husseini, pesquise sobre os oficiais nazistas em atuação no pós-guerra Otto Erns Remer e Johan von Leers.


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