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Clipping do Blog do Rodrigo Constantino na Veja de 14/09/2013.

O liberal não precisa ser um libertino ou um bobalhão sem opinião

Tenho reparado, de uns tempos para cá, que muita gente anda confundindo alhos com bugalhos quando se trata de liberalismo. Pensam que ser liberal é ser um libertino do tipo “liberou geral” e “vale tudo”, e que o liberal não deve ter opiniões firmes e convicções sobre ética ou estética. Ou seja, seria um bobalhão completo.

Percebi isso, por exemplo, quando critiquei uma geração cada vez mais desesperada para aparecer que, usando como instrumento o próprio corpo, mutila-se de maneiras extravagantes. Tatuar o branco do olho de vermelho ou preto, tatuar coisas horrendas na testa, ou mesmo implantar um soco-inglês de silicone no punho, tudo isso deve ser visto como “normal”, segundo eles.

Criticar, expressar repulsa ou aversão ao ato, ou julgar do ponto de vista psicológico o fenômeno, não seriam atitudes adequadas para um liberal. De onde tiraram isso? Só pode ser efeito de um “libertarianismo” bem mal calibrado e pouco compreendido na cabeça dos mais jovens, filhos da era moderna e “escravos” do zeitgeist, onde a máxima número um é “jamais julgar o próximo” (a menos que seja um conservador, religioso cristão ou heterossexual assumido).

Ontem tive mais uma evidência dessa corrupção do termo liberal. Coloquei a seguinte mensagem em meu canal do Facebook:

Sou, digamos, obsoleto. Nunca entendi direito porque a turma da rave diz que o DJ vai “tocar”. Tocar o que? Qual instrumento? Ele solta o play, mexe em alguns controles de mixagem, e a bala faz o resto. Divertido? Isso é subjetivo, claro. Mas tocar? Não. Rock? Jamais!

E não é que teve gente perguntando que tipo de liberal eu era por conta disso? Perplexidade. Agora, para ser um liberal, não posso nem mesmo questionar o verbo associado ao ato? Disc Jockey, no meu tempo (e acho que não mudou muito), faz mixagem, seleciona batidas, usa várias músicas cantadas por outros, tudo isso, mas não toca instrumento algum! A menos que tocar na tecla play seja análogo a tocar bateria ou guitarra.

Ainda que tocasse, que raios isso tem a ver com o liberalismo? Percebem aonde a coisa chegou? Se você emite uma opinião, um julgamento, sobre alguma coisa estética, então, para algumas pessoas, você não está apto a ser visto como um liberal. O liberal, pensam eles, deve se abster de todo julgamento ético e estético. É um ser amorfo. Um bobalhão.

Repudia publicamente o programa “Esquenta”, da Regina Casé, por fazer glamourização da pobreza e pela qualidade musical, digamos, questionável? Então não é um liberal! Considera que não é “apenas diferente” ter uma filha prostituta ou médica? Seu conservador carola e moralista! E por aí vai.

Curiosamente, esses jovens não percebem que, ao suspender todo julgamento, porque as preferências são subjetivas e tudo vale, eles precisam aplaudir o sucesso de vendas Michael Moore também. Ora, ele vende pilantragem socialista no livre mercado. O povo escolhe. Vai condenar? Não é liberal! E eis que o liberal, agora, é fã do socialista embusteiro…

Considero um dos grandes males da modernidade, filhote da ditadura “velada” do politicamente correto, essa mania de ninguém mais poder julgar nada. Além de ela ser seletiva, pois continuam julgando sim, só que apenas um lado da moeda (podem xingar evangélicos à vontade, machões do estilo faroeste, conservadores religiosos etc), é uma mania fatal para a sociedade.

Afinal, é justamente julgando e separando o joio do trigo que podemos evoluir, criticar o lixo e enaltecer o diamante. Não são “apenas diferentes”.

Por fim, nada mais antiliberal do que querer calar a opinião, reprimir a crítica, censurar o julgamento alheio. Não é mesmo?