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Nos últimos três meses estive um pouco distante do blog porque estava fora do Brasil. Desde maio até agosto estive na Colômbia. Em Bogotá, na maior parte do tempo, e visitando a cidade vizinha de Zipaquirá e também a região dos llanos (“pampas”) em Meta passando pelas cidades de Villavicencio, San Martín de los Llanos, Granada e San Juan de Arama. Descreverei aqui algumas das minhas impressões sobre o país e as regiões que visitei.

As pessoas

Aparência física
Os colombianos em geral tem uma aparência agradável que harmoniza traços europeus e ameríndios ou negros, tal e qual os brasileiros. Em geral nota-se a ancestralidade ameríndia no formato dos narizes e no formato do rosto, com queixo proeminente. É claro, há exceções, como pessoas negras ou ruivas. A mescla de asiáticos (japoneses, chineses) parece bastante rara.

A dentição da gente em geral é bem constituída e bonita, ao contrário de certos países mais ao sul que não citarei para não ofender amigos meus. As mulheres colombianas também são lindas, especialmente para quem gosta de morenas. Dizem que as “paisas” (antioquenhas, da região chamada Antioquia) são as mais bonitas do país (o equivalente das gaúchas no contexto brasileiro) mas não tive a oportunidade de comparar pra ter certeza. Estava contente com a minha bogotana.

Comportamento
Apesar dos bogotanos terem fama de ser pessoas frias com relação aos outros colombianos, fui muito bem recebido e em nenhum momento de minha estada na cidade de Bogotá fui maltratado nem por homem, nem por mulher, nem por criança, nem por adolescente, etc.

O que se nota, isto sim, é que em se tratando de lutar por um espaço dentro do transporte público da cidade (o Transmilenio), ser esmagado e levar empurrões parece algo implícito no contrato social para andar no “transmilleno” (“lleno” = cheio, lotado). Com respeito a este aspecto, os portoalegrenses parecem bem mais educados e ordenados para usufruir de um transporte público desordenado e os bogotanos desordenados demais para o seu avançado Transmilenio.

O modo de tratar as pessoas, pelo menos verbalmente, é bastante cortês. Na Colômbia é comum ouvir expressões que para o restante do mundo hispanófono já são obsoletas, desusadas e bregas como “su merced”, “con mucho gusto”, “a la orden”, “para servirle”, “que pena con usted”, etc. É hábito agradecer pela comida, seja a preparada pela mãe seja a preparada em um restaurante. Em galeterias (“surtidoras de aves”, “broasters”) não é descortês comer com as mãos. É descortês estender a roupa fora de casa: ela é estendida dentro de uma área de serviço. As pessoas tem o hábito de esperar que um assento recém desocupado no ônibus esfrie antes de sentar-se nele, não raramente “flutuando” sobre ele de um modo que para nós brasileiros parece bastante engraçado.

A comida

Para quem vem de uma região onde o consumo de carne assada é grande e praticamente parte da vida social (Argentina, Uruguai, Rio Grande do Sul), adaptar-se aos padrões de consumo de carne na Colômbia pode ser um tanto difícil. A carne mais consumida em Bogotá é a de frango e as galeterias são o estabelecimento comercial do setor alimentício mais abundantes na cidade, superando largamente os “asaderos” e “piqueteaderos”. A quantidade de carne bovina que se consome, portanto, é bem menor.

Outro aspecto que se nota de imediato é que os colombianos consomem muito carboidrato: em um único prato mesclar arroz, massa, batata, aipim (mandioca), plátano e arepa (um tipo de tapioca de milho) não parece absurdo como é para um brasileiro. São parte da dieta coisas não muito comuns para um brasileiro do sul: plátano e abacate salgado. As sopas são muito mais encorpadas do que as que estamos acostumados no Brasil e levam pedaços grandes de batata (quando não inteiras), milho, plátano e carne (costelas com osso e tudo).

Da esquerda para a direita: o ajiaco, o tamal e a bandeja paisa.

Recomendo que se prove o ajiaco, o tamal, a bandeija paisa, o cozido boiacense, a lechona e o ceviche. O ajiaco é uma sopa típica de Bogotá que leva carne de frango, três (3) tipos diferentes de batata (“criolla”, “pastusa” e “sabanera”), milho, alcaparras e guasca (picão branco ou botão de ouro no Brasil).

O tamal é uma massa de consistência mais ou menos gelatinosa feita a partir de milho e recheada com carne de frango, porco, toucinho, cebola, cenoura, milho e ervilha, tudo isto envolvido em folhas de plátano (igual a folha da bananeira).

A bandeija paisa é uma bomba calórica que parece uma a la minuta com esteróides: leva arroz, feijão antioquenho, chorizo (tipo de linguiça), ovo frito, carne moída e torresmo, tudo isto acompanhado, claro, de arepa e abacate.

O cocido boiacense também é uma grande mescla de ingredientes, todos cozidos em um mesmo molho (salsa criolla): carnes de porco, frango e gado, batatas, ervilhas, habas, milho, cubios, hibias, chuguas.

A lechona nada mais é que um leitão assado desfiado e mesclado com ervilhas, batatas, cebola e arroz, tudo isso com a pele do animal crocante e em seu formato original (ver foto).

O ceviche é um prato preparado a base de peixe ou camarão cozidos a frio em uma mistura ácida e cítrica que além de ser deliciosa deixa uma sensação de refrescância. É melhor que sushi: prove.

Da esquerda para a direita: cocido boyacense, lechona e ceviche.

O molho típico colombiano é a “salsa criolla” que acompanha muito bem a carne de frango e o grão-de-bico. Outro molho bastante exótico é o “suero costeño”, feito a base do queijo costenho e mesclando o azedo do queijo com o picante da pimenta.

Da esquerda para a direita: arepas, pan de arroz e achiras.

Por fim não se podem menosprezar as arepas, tão presentes no dia-a-dia colombiano, e que vem nas mais variadas formas e recheios quando vendidas nas ruas ou feitas em casa. Há pra todo gosto: com carne, com ovo, com queijo, com presunto, com frango, etc. Aliás, a comida de rua bogotana é muito variada e se pode comprar desde arepas e chorizos até pizzas passando por aveia em leite e a famosa lechona. Também se deve experimentar biscoitos típicos como as achiras e o pan de arroz.

A paisagem

Bogotá é uma cidade andina e por onde quer que você vá será agraciado com a visão de lindas montanhas. No centro e no bairro de La Candelaria se pode apreciar a beleza arquitetônica colonial e neoclássica. A fusão da madeira com a arquitetura em pedra e tijolo é algo bonito de se ver e que só é possível onde a umidade é baixa o suficiente para não danificar estas estruturas. Também há parques bem arborizados como o Simón Bolívar e o Mirador de Suba para quem gosta de apreciar a natureza. Vistas panorâmicas de tirar o fôlego podem ser obtidas em Monserrate e a partir do edifício Colpatria, o mais alto da cidade.

Uma vista de Monserrate.

Por outro lado, no departamento de Meta temos os “llanos”, ou seja, os campos planos próprios para a criação de gado. Aí também se pode apreciar a beleza do campo, mata nativa, lagoas e animais típicos americanos como o quero-quero, o tatu e o gavião.

O clima

Na região dos andes o clima é de montanha. Na média, a temperatura é mais baixa do que as que estamos acostumados no sul do Brasil mas nunca atinge os extremos de frio ou calor que experimentamos. Dificilmente a temperatura baixa dos 15 graus ou sobe acima dos 25 graus. No entanto, há uma oscilação de temperatura muito imprevisível ao longo do dia porque se há uma nuvem sobre a sua região então estará frio e pode chover, mas se não estiver então o sol chegará picante. Em Bogotá deve-se usar protetor solar e cachecol ao mesmo tempo, e ainda sair com guarda-chuva só para garantir.

Em Meta a coisa é diferente. Aí é “tierra caliente” e o clima faz juz ao nome pois é quente mesmo, como nos verões do Brasil. O “mormaço” chega a ser sufocante à noite e pode ser bastante incômodo na hora de dormir.

A Cultura
A Colômbia é bastante rica culturalmente e, como o Brasil, tem particularidades regionais que valem a pena presenciar. Em Medellin existe um festival das flores, em Barranquilla um animado carnaval. Seria impossível numerar as danças típicas de todo o país, mas me chamou atenção o joropo que é típico dos llanos e tem alguns traços similares com as danças gaúchas. A salsa também é bastante popular e em Cali se realiza um festival de grande importância mundial.

Com relação às artes visuais o artista mais famoso da Colômbia é Fernando Botero, conhecido pelos retratos rechonchudos da realidade seja nas pinturas ou nas esculturas. Por toda Bogotá também se apreciam grafites belos e coloridos, principalmente nas grandes avenidas.

flores-carnaval-salsa

Algumas manifestações culturais colombianas: a Feria de las Flores em Medellín, o Carnaval de Barranquilla e a Salsa Caleña.

O colombiano também me parece bem mais musical: ouve-se música em todo lugar. Nas lojas, os vendedores não se importam de adicionar seu toque musical pessoal. Os motoristas de ônibus também não se incomodam de submeter todos os passageiros a sessões de salsa, merengue ou vallenato. Menos raro ainda é que músicos “freelancers” subam nos ônibus para fazer mini-shows de rap, reggae ou música popular, o que não parece incomodar os passageiros.

Os estilos musicais mais populares são o reggaeton (equivalente latino do funk carioca), a salsa, o merengue e o vallenato.

Economia e Burocracia

A moeda colombiana é o peso colombiano, manejado normalmente em unidades de milhar (mil pesos seriam como um real e cem pesos seriam como dez centavos). O preço das coisas não costuma ser absurdamente caro como no Brasil. O combustível é mais barato, o estacionamento é mais barato, o serviço de transporte público é mais barato, o táxi é mais barato, a comida é mais barata e mesmo alguns eletrônicos são mais baratos. Há uma gama de produtos e serviços que estão disponíveis ali que não existem em muitas cidades brasileiras: caixas automáticos por todo lugar, lavadores de roupa, “bicitáxi”, oxigênio a domicílio, serviço de gás encanado, recarga telefônica em qualquer “camelô”.

A situação, no entanto, não é tão favorável para quem ganha um salário de colombiano que, além de não ser muito mais alto que o nosso, não é acompanhado de benefícios como o subsídio total de transporte ou vale-alimentação. Outro aspecto interessante de notar são as marcas nacionais de peso, como a rede de supermercados Éxito, os refrigerantes Postobon e Colombiana, a bebida malteada Pony Malta, os hambúrgueres El Corral, a cafeteria Juan Valdéz, os sorvetes CremHelado e BonIce, as mochilas Totto, as cervejas Águila e Poker e as marcas de roupa Patprimo e Arturo Calle.

O problema da Colômbia é a burocracia. São chatos para deixar você entrar e cobram (70 mil pesos) pra deixar você sair. Conseguir um visto de trabalho e cédula de identidade é um processo que custa centenas de milhares de pesos, meses de espera e incomodação. Desisti antes de tentar porque já sabia que não caberia no meu orçamento: tentarei na próxima vez.

Política

Na Colômbia, Política é coisa séria e dá morte. Diferente do Brasil, partidos fisiológicos são coisas recentes por aqui: na maior parte da história do país a política foi bipartidária (Conservador e Liberal eram os dois partidos legais) e a oposição de um partido ao outro sempre foi violenta, levanto muitas vezes ao estado de guerra civil. O lema da República Colombiana é o amálgama dos lemas dos dois partidos: Libertad y Orden (Liberdade e Ordem).

As bandeiras dos dois principais partidos históricos ainda em atividade na Colômbia: liberal e conservador.

Assim como nos EUA e na Inglaterra, o partido liberal colombiano foi virando à esquerda paulatinamente ao longo da sua História até chegar a um estado atual em que sua agenda política não tem nada de liberal além do nome. Portanto aqui, como nos EUA e na Inglaterra, o termo “liberal” pode ser interpretado como sinônimo de um esquerdista genérico. A Colômbia também é o único país da América Latina que ainda tem um Partido Conservador ativo, além de outros partidos de direita e centro-direita atuantes como o Partido Social de Unidad Nacional, o Partido de Integración Nacional e o Partido Cambio Radical. O atual presidente, Juan Manuel Santos, é do Partido Social de Unidad Nacional e é considerado um continuador do “uribismo”, ou seja, a política do ex-presidente Álvaro Uribe Vélez do Partido Primero Colombia também de centro-direita.

Conclusão
A Colômbia é um país muito rico em atrações turísticas, tem um povo cativante e seguramente agrada visitantes de gostos variados. Sua Economia vem despontando como uma das maiores da América do Sul e sua participação na Aliança do Pacífico e no tratado de livre-comércio com os EUA prometem acelerar o seu desenvolvimento e criar novas oportunidades de trabalho e investimento, apesar de sua burocracia ainda ser um entrave significativo. Se você quer fazer uma viagem enriquecedora a algum país latino-americano e está indeciso sobre aonde ir, a Colômbia é certamente uma ótima opção.


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