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Fonte: Veja

ALEXANDRE BORGES *

A notícia da escolha de Ben Affleck como o próximo Batman repercutiu nas redes sociais como bebê foca apanhando com barra de ferro, fazendo a escolha de Ashton Kutcher como Steve Jobs parecer até correta. A reação negativa a mais essa derrapada de Hollyweird, a atual Hollywood, faz todo sentido.

Ben Affleck, além de um canastrão incorrigível, é uma opção inexplicável para viver o super-herói da direita. Ele é um militante radical de esquerda, como seu amigo Matt Damon, uma dupla que abraçou o ativismo político de corpo e alma. Sobre os últimos fracassos de Matt Damon, fiz um comentário recente que pode ser lido aqui. Sobre “Argo”, filme dirigido e estrelado por Affleck, comento neste artigo para o IL.

O escritor Andrew Klavan considera “Batman – The Dark Night Rises” o filme mais direitista de todos os tempos, ao menos na categoria blockbuster, e eu concordo. Minha leitura sobre as mensagens políticas do filme seguem abaixo. O caráter conservador e antirrevolucionário do roteiro é inquestionável, a quantidade de referências que reforçam a ideia não dão margem a dúvidas. Segue meu resumo da política em “Batman – The Dark Night Rises”:

  • A figura central é Bruce Wayne, um bilionário que não tem superpoderes. Seu dinheiro, sua inteligência, seu caráter incorruptível e seus valores morais são suas armas contra o mal.
  • O mal existe e ele precisa ser combatido sem relativizações. Não é um efeito da distribuição de renda, não é um problema social, muito menos é causado pela falta de vibradores, camisinhas e pílulas do dia seguinte nas escolas públicas. O mal é uma escolha.
  • Na trama, os problemas começam com as empresas de Bruce Wayne não dando lucro, o que tem consequências inesperadas e danosas para os necessitados. Crianças em orfanatos ajudados pela Wayne Enterprises enfrentam dificuldades e isso faz com que jovens sejam mandados às ruas e acabam em esgotos. É o lucro privado de Wayne que ajuda essas crianças, não o Estado. Sem lucro privado, sem filantropia, mais crianças abandonadas nas ruas.
  • O lado “do bem” é representado, além do bilionário moral, pela a polícia e pelas forças armadas do país, as forças da ordem, e não pelo prefeito e pelo presidente, políticos que fazem concessões demais ao populismo. O vilão é o estrangeiro antiamericano criado no deserto que quer fazer atentados terroristas e espalhar morte e terror nos EUA.
  • O vilão Bane vem de um ambiente quase idêntico a uma idéia que se tem do lugares como o Afeganistão, com suas cavernas e desertos, seus ditadores que ordenam castigos cruéis e torturas até para os próprios familiares.
  • A vilã principal (Miranda Tate/Talia al Ghul) usa como plano para destruir o ocidente um discurso pseudo-ambientalista, contra energia fóssil e a favor de fontes de energia sustentáveis, uma máscara politicamente correta para alguém com dinheiro e péssimas intenções. Al Gore não deve ter gostado dessa parte em especial.
  • Bane é o terrorista que quer espalhar o caos com bombas, mas enquanto o Coringa do filme anterior é um agente do caos isolado, Bane é ideológico e é um “mobilizador” das massas, um populista. Ele cria uma espécie de revolução jacobina misturada com Occupy Wall Street, “99% contra 1%”, que é de um didatismo sem igual sobre como nascem e o que são esses movimentos.
  • Bane começa sua revolução abrindo as portas da “Bastilha”, a prisão de Gotham. Os presos são chamados de oprimidos e convidados a se vingar dos opressores, como sempre as pessoas comuns usadas como bodes expiatórios.
  • Os revolucionários de Bane invadem ambientes luxuosos como faziam os jacobinos, criam tribunais de exceção como os jacobinos e dão sentenças sumárias como eles. E o primeiro a morrer é o rico que ajudou Bane, uma mensagem particularmente interessante. Ele implora que Bane interceda no momento do julgamento, achando que por ter dado dinheiro ao vilão antes da revolução salvaria seu pescoço, como todo rico inocente pensa ao dar dinheiro para revolucionários. Churchill dizia fazer isso é como alimentar o crocodilo achando que será devorado por último.
  • Os ocupantes da bolsa de valores são jovens barbudos com roupas sujas de universitários, quase copiados do Occupy da vida real; é o Occupy Gotham City.
  • Todo discurso de Bane é baseado em guerra de classes e ódio aos ricos. Ele se coloca como um libertador contra os opressores para que o povo tome conta da cidade. Ele finge que o povo terá o controle para dominar, como faz qualquer populista
  • Gotham estava em paz pela “Dent Act”, uma lei de exceção eficiente, feita pelos bons, bem intencionada, mas baseada numa justificativa falsa. O comissário Gordon pensa em contar a verdade sobre quem era Harvey Dent, mas fica em conflito porque sabe que a história funcionou para unir a cidade no combate ao crime: “metade dos criminosos de Gotham está na cadeia por causa dessa lei e a morte de Harvey não foi em vão”. É quase um recado de Nolan para seus amigos conservadores: “vocês estão certos em fazer o que for preciso para garantir a segurança, mas não usem justificativas falaciosas, vidas são salvas por conta do combate firme e sem tons de cinza contra o mal usando meias verdades vocês vão macular sua autoridade moral, em algum momento isso será usado contra vocês.”
  • Os inocentes úteis revolucionários, a serviço dos vilões, quebram a bolsa de valores, batem e matam os ricos, saqueiam suas casas, e o resultado é uma sociedade caótica e que está a caminho da destruição. Quem continua ajudando a população, mesmo que ela não saiba, é o rico altruísta Bruce Wayne.
  • Depois da eclosão do movimento revolucionário, Gotham vira uma ilha que ninguém pode entrar ou sair, aterrorizada, sem liberdade e dominada por um pervertido ideológico e assassino. Ou seja, Cuba.
  • A verdade sobre Harvey Dent cai nas mãos dos vilões e é usada para causar a desunião, dúvidas e divisões do lado dos bons. Gordon leva um puxão de orelha do jovem policial idealista, reforçando as críticas de Nolan.
  • A cena do estádio cheio para o jogo de futebol americano é o 11 de setembro. Uma criança cantando o hino num momento de pura inocência e beleza é inspirador, é o “american way of life”, algo que toca até Bane. Mas logo embaixo da “superfície”, do que o povo sabe ou vê, está o perigo. O preço da ignorância sobre o mal é a própria morte.
  • Bane manda as pessoas voltarem às suas casas e depois “assumir o controle da cidade”. Ele planeja destruir Gotham, mas antes quer dar uma sensação ao povo de que aquilo era um ato libertador. Bane declara publicamente que dá o detonador da bomba a um cidadão comum, mas é mentira, revolucionários não fazem isso, são sempre eles, os vilões, que estão no controle.
  • Os “cavaleiros das sombras” querem “reequilibrar o mundo” destruindo o ocidente como todo esquerdista antiamericano ou os que dizem defender o mundo “multipolar”. O grupo não é assaltante, é ideológico. Alfred diz sobre Bane: “ele não é um bandido comum, vejo crença nele”.
  • Bane diz ao cientista russo, em outro trecho revelador, que pelo bem dos filhos do próprio cientista seu plano tem que dar certo. Seu plano terrorista para destruir os EUA beneficiaria, veja só, a próxima geração de russos.
  • O presidente não negocia com terroristas, mas também não os confronta diretamente, e acaba aceitando os termos dos terroristas mesmo sem reconhecer isso publicamente, uma crítica mitigada ao poder constituído que não combate o terror com firmeza
  • Batman é finalmente convencido de que precisa fazer uma guerra para vencer o mal, o herói usa essa palavra literalmente. O Batman que não mata e não usa armas é coisa do passado, surge o cavaleiro que mata e faz guerras para combater o mal.
  • A Mulher-Gato tem sentimentos e dúvidas morais que acabam com sua ideia inicial sobre ser “Robin Hood” e ela se redime, inclusive casando com Batman no final. Ela é a americana revolucionária que, ao perceber no que dá se envolver com isso, cai na real e volta atrás, se juntado aos que defendem seu país.

Como o canastrão e esquerdista se sairá como Batman? Não é possível prever, mas o que não falta é motivo para ceticismo.

* DIRETOR DO INSTITUTO LIBERAL

Um miolo-mole de esquerda veste a capa do super-herói da direita. Mais uma prova de que Hollyweird enlouqueceu.