Tags

, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

O seguinte texto é uma reportagem que fiz semana passada para meu professor de Técnicas de Reportagem III, em minha faculdade de jornalismo. O leitor pode ler o mesmo texto no blog Mundo Analista, clicando aqui.

Antônio Gramsci, intelectual marxista italiano.

Ocorrida no último dia 27 de julho, no trajeto entre Copacabana e Ipanema, a chamada Marcha das Vadias reuniu cerca de 2 mil pessoas. Composta principalmente por integrantes do movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) e simpatizantes, o movimento protestou contra a vinda do Papa no Brasil, os dogmas da Igreja Católica e a favor da legalização do aborto. Esta foi a terceira edição carioca da Marcha, que teve seu início em uma manifestação no Canadá, em 2011, e se tornou um movimento internacional.

Embora não tenha havido nenhum tipo de violência física, o protesto chamou a atenção pelas performances polêmicas de algumas pessoas durante a marcha, como a utilização de roupas íntimas, o seminudismo, os brados de ofensas com apelo sexual contra o Papa e o uso de objetos de culto religioso para masturbação. A ideia central da marcha, segundo os participantes, seria a de lutar pelo Estado laico e contra a opressão dos dogmas conservadores e religiosos.

Esta mentalidade antirreligiosa tem se constituído um movimento crescente no Brasil e no mundo, encontrado adeptos em diversos setores da sociedade e criando uma cultura hostil aos religiosos e conservadores. Alguns exemplos ilustram isso. Em Abril de 2013, quatro ativistas seminuas do movimento Femen, invadiram um encontro da Conferência Episcopal da Bélgica que ocorria na Universidade Livre de Bruxelas e jogaram esguichos de água no Arcebispo André Joseph Leonard, em protesto contra o seu posicionamento em relação ao homossexualismo.

Em março de 2013, a direção da Florida Atlantic University, suspendeu o aluno Ryan Rotela, por ter se recusado a desempenhar a atividade proposta pelo professor Deandre Pooly à sua turma de pisar no nome de Jesus. Segundo o professor e a direção da universidade, a atividade se encontrava no material didático utilizado nas aulas e se baseava no livro “Comunicação Intercultural: Uma Abordagem Contextual. Edição 5”, que trata o exercício como o princípio de uma discussão: a importância dos símbolos na cultura.

Em dezembro de 2012, houve uma encenação da decapitação do Papa, no pátio da PUC, em que estudante com uma serra elétrica cortou a cabeça de um grande boneco representando o pontífice, sob a euforia de dezenas de outros estudantes. Também em dezembro do mesmo ano, o taxista Ezer Gomes de Barros foi levado à delegacia por ter se recusado a continuar transportando um casal homossexual que se beijava dentro do carro, algo que ele havia pedido ao casal que não fosse feito. Segundo o taxista, ele faria o mesmo pedido a um casal heterossexual. No entanto, o casal entendeu o pedido como discriminação.

Em agosto de 2012, uma palestra do membro da família real brasileira Dom Bertrand de Orleans e Bragança, na Unesp, Campus de França, foi impedida de se realizar no dia previsto em função de um grupo de estudantes que invadiu o evento, protestando com ameaças e ofensas contra a presença do príncipe, que é um dos representantes do movimento TFP (Tradição, Família e Propriedade).

Em março de 2012, a banda feminina de punk rock russa Pussy Riot invadiu um culto na catedral do Cristo Salvador, considerada a mais importante da igreja ortodoxa russa, e cantou a música “Punk Prayer” (“Prece punk”) no altar do templo. Em fevereiro do mesmo ano, o Conselho Federal de Psicologia do Brasil, ameaçou caçar a licença da psicóloga Marisa Lobo, em função da mesma externar suas opiniões cristãs com frequência. O Conselho chegou a solicitar a retirada de frases cristãs de suas redes virtuais.

Em junho de 2011, a americana Jessica Ahlquist, entrou na justiça para que a escola pública onde estudava retirasse uma oração de um mural, onde estava há 49 anos, fazendo parte da história da escola.

Tais atitudes desrespeitosas aos religiosos e conservadores não apenas têm sido cometidas por cada vez mais indivíduos, como tem recebido apoio de pessoas influentes da sociedade. Só para citar um exemplo, a banda russa Pussy Riot, que invadiu a catedral de Cristo Salvador, recebeu apoio da cantora Madonna, das bandas Green Day, Bjork e Red Hot Chili Peppers e até do primeiro-ministro russo Dmitri Medvedev, que acreditam que os membros da banda não deveriam ser presos pela invasão.

Segundo a equatoriana Amparo Medina, funcionária da ONU e ex-militante socialista, esse posicionamento antirreligioso é muito comum entre as esquerdas mais progressistas e radicais, sobretudo, as de cunho marxista. Na rede católica de televisão EWTN ela explica que “os grupos comunistas e socialistas sabem que a única instituição que pode romper as suas mentiras é a Igreja Católica. Então, a primeira coisa que buscam são argumentos que possam destruir a pouca fé que os católicos têm. Veja as notícias ou vá atrás desse sacerdote que não está vivendo a sua vida na graça com Deus… Publique-os e os lance na imprensa”. Ela ainda conclui que “é preciso omitir que no Equador, 60% das obras de ajuda às pessoas pobres estão nas mãos da Igreja, pois isso se silencia”.

O anticlericalismo sempre foi um dos principais pilares das esquerdas mais radicais. Para o socialismo marxista, a religião é uma ilusão, “o ópio do povo”, como afirmou Marx em seus escritos; um subproduto dos sistemas econômicos exploradores que têm se sucedido durante toda a história. E assim, por fazer parte do sistema que deve ser derrubado, a religião (sobretudo o cristianismo católico, que é maior instituição religiosa que existe) é encarada como um dos vários males a ser combatido para que o socialismo seja implantado.

O filósofo e escritor brasileiro Olavo de Carvalho ressalta a importância da chamada “revolução cultural” nesse processo de implantação do socialismo. Citando o ideólogo marxista Antônio Gramsci (1891-1937), famoso por ter elaborado o conceito de “intelectuais orgânicos” e lançado as bases para a revolução cultural comunista, ele afirma:

O conceito gramsciano de intelectual [orgânico] funda-se exclusivamente na sociologia das profissões e, por isto, é bem elástico: há lugar nele para os contadores, os meirinhos, os funcionários dos Correios, os locutores esportivos e o pessoal do show business. Toda essa gente ajuda a elaborar e difundir a ideologia de classe, e, como elaborar e difundir a ideologia de classe é a única tarefa intelectual que existe, uma vedette que sacuda as banhas num espetáculo de protesto pode ser bem mais intelectual do que um filósofo […].

Essa seria, portanto, a missão dos intelectuais orgânicos. Influenciados pelos intelectuais acadêmicos (os responsáveis por dar início à revolução), eles criariam um “senso comum” progressista e antirreligioso na população, não com pregações abertas e teoricamente complexas, mas de modo popular e acessível, a fim de moldar, de fato, a mentalidade do povo.
Olavo de Carvalho continua:

O senso comum não coincide com a ideologia de classe, e é precisamente aí que está o problema. Na maior parte das pessoas, o senso comum se compõe de uma sopa de elementos heteróclitos colhidos nas ideologias de várias classes. É por isto que, movido pelo senso comum, um homem pode agir de maneiras que, objetivamente, contrariam o seu interesse de classe, como por exemplo quando um proletário vai à missa. […] Aí é que entra a missão providencial dos intelectuais. […] reformando o senso comum, organizando-o para que se torne coerente com o interesse de classe respectivo, esclarecendo-o e difundindo-o para que fique cada vez mais consciente, para que, cada vez mais, o proletário viva, sinta e pense de acordo com os interesses objetivos da classe proletária e o burguês com os da classe burguesa.

Baseado nestas considerações, Olavo sustenta que a hostilidade que se tem visto desenvolver ao cristianismo e ao conservadorismo, bem como movimentos anticlericais, o que inclui a Marcha das Vadias, seria resultado direto da revolução cultural marxista idealizada por Gramsci.

O padre brasileiro Paulo Ricardo, ardoroso militante contra a revolução cultural marxista, concorda:

Tudo isso é fruto de um descaso histórico dos conservadores que permitiram que o marxismo cultural tomasse conta das universidades. Em qualquer curso universitário é possível constatar tal realidade através de um ódio frontal e fundamental ao cristianismo, aos valores cristãos e mais especificamente ao catolicismo tradicional.

O padre também afirma: “Os que pensam a revolução cultural sabem que seu trabalho deve ser feito de forma lenta, gradual, dando a impressão de naturalidade, ou seja, dando a impressão de que a sociedade caminha assim naturalmente”.

Para ambos os autores mencionados, a prova de que a revolução cultural marxista tem encontrado êxito se encontra em dois fatos: (1) a omissão dos religiosos e conservadores em relação às atitudes desrespeitosas que tem se desenvolvido e (2) o apoio (ou a condescendência) da mídia e da justiça em relação a essas atitudes. Os exemplos citados há pouco, também ilustram essas afirmações, sobretudo o da terceira edição carioca da Marcha das Vadias, que contou com atos obscenos e escárnio público de crença religiosa.

O Artigo 208 do Código Penal afirma: “Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso: Pena – detenção, de um mês a um ano, ou multa”. O artigo 233 diz: Praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto ou exposto ao público: Pena – detenção, de três meses a um ano, ou multa”. Não obstante, a marcha não se tornou alvo de grande protesto por parte dos religiosos, nem de divulgação por parte da grande mídia, tampouco de intervenções por parte da polícia. O estranho fenômeno, na explicação de Paulo Ricardo é que “o marxismo cultural, no Brasil, já conseguiu a hegemonia cultural e da mídia. Pela política da dominação de espaços, já dominaram a classe falante (jornalistas, cineastas, psicólogos, padres, juízes, políticos, escritores) que é formada no pensamento do marxismo cultural”. A tendência desse quadro é tornar a hostilidade aos religiosos e conservadores cada vez maior.