O que realmente é o capitalismo?

Texto publicado também no blog Mundo Analista. Para ler a publicação original, clique aqui.

Uma das maiores dificuldades que a direita tem para conseguir aceitação de suas idéias é que a maioria das pessoas não sabe o que é capitalismo. Falo por experiência própria. Pelo menos 95% das pessoas que conheço crêem que capitalismo é um sistema econômico cujas bases podem ser resumidas em três palavras: egoísmo, consumismo e materialismo (no sentido comercial da palavra). Essa é a definição mais popular que existe de capitalismo. Até aqueles que não sabem quase nada de política e economia conhecem essa definição. Todavia, qualquer pessoa que parar um pouquinho para refletir, verá que existe algo muito errado aqui: como é que uma doutrina econômica vai ser definida por posturas individuais?

Este é o “x” da questão. A definição popular de capitalismo na verdade não é a definição de uma doutrina econômica, mas sim de uma postura individual. Ser egoísta, consumista e materialista não depende de qual doutrina econômica você escolhe para seguir. Pode-se ser um comunista, mas só pensar em si mesmo e dar um enorme valor ao consumo e às coisas materiais. Não é porque o comunista acredita em uma economia igualitária que ele se tornará uma pessoa altruísta e desapegada dos bens materiais.

Imagine que um trabalhador se sinta injustiçado por trabalhar tanto e não ter direito de comprar uma Ferrari, tal como seu patrão. Ele pode se tornar um comunista apenas por querer comprar coisas boas como seu patrão. O fato de ele se unir a outros comunistas não implica em que ele seja um indivíduo de moral elevada que se importa profundamente com o sofrimento de cada trabalhador. O que o move é a vontade de ter algo que não pode ter. Ele se une aos outros por uma questão de identificação, mas pode muito bem ser uma pessoa extremamente insensível, egocêntrica e olho grande. Não é preciso ter um bom caráter para almejar igualdade econômica. Basta querer ter o que não pode ter.

Da mesma maneira, alguém pode concordar com uma economia capitalista, mas ser muito desapegado de bens materiais, comprar pouco, consumir só o que precisa, ser uma pessoa humanitária, ajudar aos necessitados e se importar de verdade com cada pessoa (boa parte dos padres católicos apresentam esse perfil, aliás). Pode-se, inclusive, ser um burguês que paga muito bem aos seus funcionários e que acredita de verdade em projetos beneficentes. Não vejo nenhuma contradição aqui.

Então, fica muito claro que a definição popular de capitalismo é falsa. Ela não descreve uma doutrina econômica, mas sim um conjunto de posturas individuais pouco louváveis, que uma pessoa pode ter independentemente de ser capitalista, comunista ou qualquer outra coisa. Mas de onde surgiu essa definição popular? Pasme o leitor, ela surgiu dos escritos de um intelectual: Karl Marx. Vamos entender.

Marx empregou a palavra capitalismo para descrever um sistema econômico que vinha se consolidando em sua época. Esse sistema pode ser chamado de liberalismo ou economia de livre mercado. Juntamente com seu amigo Engels, ele definiu esse sistema como uma doutrina que se baseava no lucro da classe burguesa (os donos dos meios de produção) em cima do trabalho da classe proletária (os donos da força de trabalho). O nome capitalismo vinha da palavra “capital”, que nos remete à dinheiro, investimento e lucro. Em outras palavras, capitalismo seria uma doutrina baseada no lucro exploratório de uma classe sobre outra.

A partir daí, fazendo uso de um extremo economicismo (isto é, a economia seria a responsável pelo modo como todas as coisas se dão: religião, cultura, hábitos…), Marx conclui que o sistema capitalista seria altamente egoísta e consumista. Em um capítulo de O Capital, ele e seu companheiro se dedicam inteiramente a falar sobre o Fetichismo da economia capitalista, que seria, grosso modo, a mentalidade gerada pelo sistema de fazer as pessoas terem vontade de comprar mais do que necessitam. A conclusão de Marx levou todos os marxistas posteriores a relacionarem, como ele, consumismo e egoísmo com o sistema capitalista.

Não é objetivo desse texto, analisar propriamente as idéias de Marx. Mas quero dizer que a definição de Marx está completamente errada. A definição correta de capitalismo, ou melhor, de liberalismo econômico (o termo adequado) é: uma doutrina que se baseia na liberdade do indivíduo de fazer coisas como comprar, vender, trabalhar para uma indústria, montar seu próprio negócio e concorrer comercialmente, sem que o governo intervenha nessas escolhas individuais (seja auxiliando ou prejudicando). Essa é a definição correta do sistema que Marx tentou descrever.

As idéias de exploração, egoísmo, materialismo comercial e consumismo não fazem parte da definição do sistema econômico de livre mercado. Tais posturas têm a ver com caráter individual, natureza humana, moral, ética, cultura, contexto e etc. Ver o capitalismo como um sistema que se baseia nessas posturas é confundir sistema com conduta pessoal.

Da parte da população leiga, isso é ingenuidade. Da parte das pessoas que realmente acreditam no marxismo, isso idiotice. Mas da parte dos estudiosos marxistas, isso é desonestidade mesmo. O estudioso marxista sabe que relacionar o capitalismo com o consumismo, egoísmo e exploração, por mais que tais condutas independam dos sistemas econômicos adotados, cria uma distorção enorme no entendimento do que seria uma economia de livre mercado. Diversas vezes ouvi pessoas dizendo: “Olha aí como o nosso governo beneficia os grandes empresários! Olha quantos escândalos envolvendo empresas privadas e governo! Bando de porcos capitalistas! Nosso governo é muito capitalista mesmo!”. Percebe a distorção? As pessoas acreditam que o capitalismo é culpado exatamente por aquilo que, na verdade, ele condena: a intervenção do governo.

Também ouço demais as pessoas dizendo: “É rapaz, vivemos em um mundo capitalista. As pessoas só pensam em comprar. Só pensam em bens materiais”. Ou mesmo: “Esse mundo é capitalista. Todo mundo só pensa em si mesmo. Não se tem amor ao próximo”. Uma mulher que compra dois mil pares de sapato ou um homem que troca de carro de seis em seis meses são considerados frutos do sistema capitalista. Um rico empresário que se recusa a ajudar necessitados é culpa do capitalismo. Ninguém diz que a culpa, na verdade, é toda do indivíduo. Ninguém diz que é ele que apresenta uma conduta deplorável em relação à oferta de produtos ou à riqueza. Ninguém lembra que é a pessoa que escolhe como ela irá agir. A culpa é do capitalismo. Porque é o capitalismo que é consumista e não as pessoas, segundo a lógica marxista.

O marxismo usa as idéias de fetiche da economia capitalista e de alienação do proletariado para provar que todos nós somos apenas marionetes de um sistema exploratório, sem opinião e sem direito de escolha. O marxismo tenta vender a idéia de que você não tem autonomia: se existem muitas empresas, muita variedade de produtos e muita propaganda, você, inevitavelmente se tornará consumista e egoísta. A não ser que aceite o comunismo e se empenhe em destruir o capitalismo. Porque é no sistema capitalista que reside o egoísmo, o consumismo e a exploração. Se você se opõe a ele, você se torna uma pessoa de bom caráter e seus pecados são justificados. Você aceitou o Santo Comunismo Cristo, todo-poderoso. É o que te salva. Os capitalistas, entretanto, são os ímpios. Estes deverão sofrer condenação por seu pecado “capital”.

O leitor percebe o truque? Uma simples definição errônea do sistema capitalista é o suficiente para que a economia de livre mercado seja considerada o grande mal do mundo. E por mais contraditório que seja, a definição errônea nos leva a acreditar que liberalismo econômico é tudo aquilo que não é comunismo. Não importa o quanto o governo intervenha na economia com regulamentações, burocracia, altíssimos impostos e parcerias com empresas privadas, nós continuamos a acreditar que isso é o mais puro capitalismo existente. O marxismo nos fez acreditar que qualquer sistema exploratório é capitalismo. Pode ser a economia menos livre do mundo, onde o governo intervém até nos preços dos alimentos: se há exploração, o sistema é capitalista.

Então, para tentar desfazer essa distorção na cabeça do leitor que aprendeu desde pequeno a pensar nesses moldes, ratifico: capitalismo não é sinônimo de exploração, consumismo e egoísmo. Capitalismo é liberalismo econômico. E liberalismo econômico é sinônimo de pouca burocracia para montar negócios, pouca regulamentação, ausência de empresas e/ou parcerias público-privadas, baixos impostos, livre concorrência entre as empresas privadas, poucos serviços públicos, poucos gastos públicos, enfim, pouca intervenção governamental. Isso é o capitalismo em seu estado mais puro. Quanto mais um governo se distancia desses padrões, menos capitalista ele se torna. Há índices que medem isso, como o índice de liberdade econômica, o índice de facilidade de se abrir negócios e etc.

Por fim, o leitor pode até não concordar com o sistema capitalista, achar que ele traz muitos problemas e entender que o governo precisa intervir (não é a minha opinião, mas eu respeito). Agora, o que é inconcebível é discordar do capitalismo sem entender o que ele, de fato, significa. O leitor acha ruim a exploração, o egoísmo, o consumismo e o apego aos bens materiais? Eu também. Mas isso não é uma discussão econômica. Se vamos discutir sobre capitalismo, então vamos discutir sobre livre mercado. Essa é a definição correta. O que passar disso, provém do maligno.

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Autor: Davi Caldas

"Grita na rua a Sabedoria, nas praças, levanta a voz; do alto dos muros clama, à entrada das portas e nas cidades profere as suas palavras: 'Até quando, ó néscios, amareis a necedade? E vós, escarnecedores, desejareis o escárnio? E vós, loucos, aborrecereis o conhecimento? Atentai para a minha repreensão; eis que derramarei copiosamente o meu espírito e vos farei saber as minhas palavras. 'Mas porque clamei, e vós recusastes; porque estendi a mão, e não houve quem atendesse; antes, rejeitastes todo o meu conselho e não quisestes a minha repreensão; também eu me rirei na vossa desventura, e, em vindo o vosso terror, eu zombarei, em vindo o vosso terror como a tempestade, em vindo a vossa perdição como o redemoinho, quando vos chegar o aperto e a angústia. 'Então, me invocarão, mas eu não responderei; procurar-me-ão, porém não me hão de achar. Porquanto aborreceram o conhecimento e não preferiram o temor do Senhor; não quiseram o meu conselho e desprezaram toda a minha repreensão. Portanto, comerão do fruto do seu procedimento e dos seus próprios conselhos se fartarão. 'Os néscios são mortos por seu desvio, e aos loucos a sua impressão de bem- estar os leva à perdição. Mas o que me der ouvidos habitará seguro, tranquilo e sem temor do mal'" (Provérbios 1:20-33).

3 comentários em “O que realmente é o capitalismo?”

  1. Sobre a definição de capitalismo que foi erradamente atribuída à Marx. Nas mais de 1000 páginas da obra O Capital, as palavras “consumismo” e “consumista” não aparecem no texto NENHUMA VEZ sequer. A palavra “egoísmo” aparece apenas 3 vezes, sendo uma delas em uma citação de terceiros. A palavra “egoísta” não está no texto nenhuma vez. Marx em nenhum momento do seu texto usa essas categorias para explicar o funcionamento do capitalismo e da lógica da mercadoria. E quanto a significado do termo “fetichismo da mercadoria”, ele não significa a vontade de comprar (a discussão do fetichismo está na última parte do capítulo 1). Quanto a acusação de emprego por Marx de “economicismo”: A intenção de Marx com a crítica da Economia Política clássica foi a superação de visões naturalizadoras e monetaristas acerca do capitalismo. Negando o economicismo, Marx contestou “o princípio da neutralidade da ciência positiva, que pretendia mostrar como as relações capitalistas estruturavam-se objetivamente, bem como de que forma operavam” (AMORIM, 2009, p.30). Para o filósofo alemão, a explicação das relações econômicas exige ir além da esfera econômica. Vou parar por aqui. Recomendo uma leitura do Marx, senão propagam-se ideias erradas sobre as concepções desse filósofo… Abraços, Rodrigo M. Marques

    1. Nas mais de 1000 páginas da obra O Capital, as palavras “consumismo” e “consumista” não aparecem no texto NENHUMA VEZ sequer. A palavra “egoísmo” aparece apenas 3 vezes, sendo uma delas em uma citação de terceiros. A palavra “egoísta” não está no texto nenhuma vez. Marx em nenhum momento do seu texto usa essas categorias para explicar o funcionamento do capitalismo e da lógica da mercadoria.

      Em nenhum momento eu afirmei que Marx usou “essas categorias para explicar o funcionamento do capitalismo e da lógica da mercadoria”. O que eu disse foi que Marx influenciou os socialistas posteriores a observarem o capitalismo como um sistema intimidante relacionado e baseado em consumismo e egoísmo. Isso é um fato.

      E quanto a significado do termo “fetichismo da mercadoria”, ele não significa a vontade de comprar (a discussão do fetichismo está na última parte do capítulo 1).

      Eu também não falei que o “fetichismo” significa a vontade de comprar. O que eu falei foi que o fetichismo pode ser entendido, à grosso modo, como “a mentalidade gerada pelo sistema de fazer as pessoas comprarem mais do eu necessitam”. Talvez eu tenha me expressado mal. Vou explicar.

      Marx era muito romântico quanto a questão do trabalho. Ele achava um absurdo, por exemplo, que um trabalhador fabricasse apenas uma pequena parte de um produto final, sem saber como se dá o restante da produção e sem ter noção do que sua parte representa em todo o processo.

      Da mesma maneira, ele ficava fulo com o fato de que as mercadorias não expressavam o valor do trabalho do proletário, mas adquiriam um valor próprio, independente do trabalho. Em outras palavras, a mercadoria se tornava tão importante, que suplantava a importância do trabalho de quem fez, criando uma inversão: a mercadoria ganhava vida, se humanizava e passava a controlar o destino dos homens, enquanto que os homens se desumanizavam e tornavam-se servos do que produziam. Isso era o fetichismo da mercadoria: ela ganhava uma importância e um poder (um feitiço mesmo) dentro do sistema capitalista.

      Ora, uma vez que seja verdade que a mercadoria ganha vida e valor próprios, enfeitiçando-nos e nos pondo sobre servidão, consumismo e egoísmo são dois sentimentos que tem tudo a ver com o tal fetichismo. Queremos comprar mais e mais porque a mercadoria assume um valor divino. Fechamos os olhos para as injustiças, porque o fetichismo não nos deixa entender o valor do trabalho. De fato, ancorado justamente nisso é que Adono, Horkheimer, Walter Benjamin e etc. criticaram a cultura capitalista.

      Quanto a acusação de emprego por Marx de “economicismo”: A intenção de Marx com a crítica da Economia Política clássica foi a superação de visões naturalizadoras e monetaristas acerca do capitalismo. Negando o economicismo, Marx contestou “o princípio da neutralidade da ciência positiva, que pretendia mostrar como as relações capitalistas estruturavam-se objetivamente, bem como de que forma operavam” (AMORIM, 2009, p.30).

      Usei a palavra “economicismo” para me referir ao fato de que Marx entendia todas as relações humanas como resultado das relações econômicas entre as classes. É a ideia de base-superestrutura (ou infraestrutura-superestrtura), no qual a base seria formada pela economia e a estrutura seria formada pelo direito, o Estado e as ideologias (religião, moral, cultura, artes, hábitos). Ou seja, tudo advinha da economia. Isso é muito claro na obra de Marx. Está intimamente conectado às suas principais ideias como a do materialismo histórico/dialético (em oposição ao idealismo).

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