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A confluência de duas linhas causais antagônicas — o esvaziamento ideológico da direita e o crescente e justo descontentamento popular com a esquerda — produziu um resultado singularmente exótico: por toda parle pululam protestos pontuais, baseados em interesses grupais ou em sentimentos subjetivos ofendidos (religiosos, em geral), sem nenhuma articulação ou consciência estratégica de conjunto. Em segundo lugar, esses protestos tendem a tomar a forma da luta parlamentar normal, que neutraliza até mesmo qualquer vitória parcial obtida, na medida em que legitima no mesmo ato o sistema hegemônico, ajudando-o a dar ares de democracia saudável ao que é, na verdade, um unipartidarismo muito mal camuflado. Os religiosos protestam contra o aborto e o gayzismo, os ruralistas contra o MST, os militares contra o desmantelamento das Forças Armadas, o pai de família contra a falta de segurança, os policiais contra a proteção aos bandidos, os arrozeiros contra as reservas indígenas crescentes, e assim por diante. Falta por toda parte a consciência de que por trás de todos esses males há uma só força agente: o Foro de São Paulo. Por isso é que não me entusiasmo muito por nenhuma dessas causas parcelares, todas elas justas em si mesmas porém ineficazes no quadro real das coisas.

Olavo de Carvalho