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AUTOR: ALEXANDRE BORGES *

O choro do âncora da CNN Don Lemon ao comentar o discurso de Barack Obama sobre Treyvon Martin, ou o inacreditável Chris Matthews da MSNBC, pedindo desculpas “em nome da raça branca” pelo veredito que inocentou o hispânico George Zimmerman, foram os últimos e mais constrangedores capítulos da morte da presunção de inocência do jornalismo americano. E isso é uma boa notícia.

No último discurso de Obama comentando a absolvição de Zimmerman, o ex-ativista que tinha prometido unir o país e ser um presidente de uma sociedade “pós-racial”, disse que Trayvon poderia inclusive ser ele mesmo há 35 anos, o que deve ter feito o reverendo Martin Luther King Jr., que sonhava com uma nação que não julgasse pela cor, dar um salto triplo carpado no túmulo. Quando o presidente dos EUA tem um discurso mais próximo de Louis Farrakhan, Al Sharpton e Jesse Jackson do que de Martin Luther King em questões raciais, corra para as colinas.

Desde o dia em que ganhou as manchetes, Zimmerman foi usado como personagem involuntário de uma narrativa sórdida e totalmente fabricada pelo oportunismo político do presidente e do jornalismo militante, que viu no caso uma chance de empurrar uma agenda política e mudar o assunto da crise econômica do país em ano de eleição, mesmo que isso significasse transformar Zimmerman num novo Salman Rushdie, entregando a vida de um inocente para o abate.

A cobertura jornalística do caso nos EUA, bovinamente copiada por aqui, foi definida pelo analista Bill Whittle como “a mistura de fraude criminosa com negligência criminosa”. Segundo ele, “a avassaladora soma de evidências de que Zimmerman atirou em legítima defesa foi esquecida, já que a grande imprensa optou julgar e condenar o acusado em nome da criação de uma falsa narrativa de crime racial”. A reportagem da Folha de S. Paulo de 20/07/2013, assinada por Joana Cunha, diz que Zimmerman perseguiu Trayvon apenas pela sua aparência e que “o jovem de 17 anos estava desarmado, carregando apenas uma embalagem de balas e uma lata de chá.”

Antes que haja qualquer conclusão apressada, fica o registro: a justiça não disse que Zimmerman não matou Martin a sangue frio e com motivação racista, ela apenas se pronunciou dizendo que não há provas, testemunhos ou evidências suficientes para isso. O advogado de defesa Mark O’Mara, citando um dos dos pais fundadores, o ex-presidente John Adams, disse: “é mais importante [num sistema judicial] proteger os inocentes do que condenar os culpados, já que sempre haverá crimes e criminosos, mas quando o cidadão de bem achar que pode ser condenado mesmo não tendo cometido crimes e que tanto faz cumprir a lei ou não, tudo estará perdido.”

Contra a retórica política, vamos aos fatos, alguns deles apagados deliberadamente do noticiário:

  • Os tweets públicos de Trayvon Martin não eram de uma criança inocente, como retratado pelos jornais, mas de um adolescente brigão e usuário de drogas.
  • Martin era praticante de MMA e fã de lutas. Em seu perfil do twitter (@NO_LIMIT_NIGGA, que teve o conteúdo deletado após sua morte), disse uma vez querer vencer novamente um determinado oponente porque o derrotado não tinha “sangrado o suficiente”.
  • No armário de Martin na escola foram encontradas ferramentas para arrombamento como chaves-de-fenda e objetos possivelmente furtados em casas da região. Na sua mochila, jóias sem comprovação de origem.
  • Martin foi suspenso várias vezes da sala de aula por comportamento antissocial e violento. Num dos casos há relatos, ainda não confirmados, de que bateu num professor. No dia da sua morte, estava suspenso da escola por porte de drogas.
  • Com o corpo de Martin foram encontrados uma lata de Arizona Watermelon Fruit (e não de Ice Tea, como a imprensa insistiu) e Skittles, o que para os repórteres foi considerado prova de que era apenas uma criança inocente comprando guloseimas numa loja de conveniência. O que faltou reportar é que suco em lata e Skittles, misturados a um xarope contra tosse comum, criam uma droga barata e muito popular chamada “lean”.
  • Há tweets de Martin conversando com amigos sobre como fazer “lean” com, vejam que coincidência, Arizona Watermelon Fruit, xarope para tosse e Skittles.
  • A autópsia de Martin mostrou danos no fígado incompatíveis com um rapaz saudável de 17 anos, mas totalmente compatíveis com dependentes de “lean”. Foram encontrados vestígios de maconha no seu metabolismo também.
  • Segundo os especialistas, o uso de “lean” tem como efeito associado “comportamento excessivamente agressivo e paranoico”. Nada recomendável para um adolescente lutador de MMA, certo?

Já o “monstro branco assassino racista” George Zimmerman também teve sua cota de fatos apagados das reportagens:

  • Filho de uma peruana com um americano, foi criado lado a lado com duas outras crianças negras. A comunidade que vigiava era tudo menos um gueto de brancos, pelo contrário, era tão etnicamente diversa quanto possível.
  • Os vizinhos disseram à polícia que ele era amável, socializava com todos, e era o único que tinha o hábito de se apresentar aos novos moradores quando chegavam.
  • Quando um negro morador de rua foi agredido por um filho de policial da região, Zimmerman ficou tão revoltado que fez uma campanha pela prisão do rapaz, inclusive imprimindo folhetos e distribuindo entre os moradores, e não parou enquanto ele não foi processado pelo crime.
  • O FBI elaborou um parecer técnico do perfil de Zimmerman em que ele nunca deixou qualquer evidência de comportamento racista na vida.
  • De acordo com a simples análise das provas, Zimmerman não perseguiu Trayvon gratuitamente pela rua, como saiu na imprensa, nem que ele fugia assustado e foi morto covardemente. Trayvon (1,80m de altura, 17 anos e lutador) partiu para o confronto com Zimmerman (1,70m, 29 anos e obeso). Com seu treinamento de MMA, a briga seria nada menos que um massacre.
  • Zimmerman diz que gritou pedindo ajuda e foi encontrado muito machucado. Trayvon bateu muito em Zimmerman, além de ter jogado diversas vezes a cabeça de Zimmerman contra a calçada da rua, deixando cortes profundos e escoriações.
  • Os gritos chamaram a atenção de alguns moradores que abriram suas janelas a tempo de ver a briga, cena que poderia ser descrita como Trayvon por cima de Zimmerman caído no chão e apanhando no estilo “ground and pound”, aquele em que o lutador de MMA fica desferindo socos e cotoveladas no adversário caído, como aconteceu com Anderson Silva na sua última derrota. Some a isso o fato de Martin bater a cabeça de Zimmerman várias vezes na calçada e ter quebrado seu nariz.
  • Era tão claro que Zimmerman sofria risco de morrer espancado, e que atirou para se salvar, que a polícia se recusou a fichá-lo como assassino. Para os policiais que chegaram poucos minutos depois no local e que interrogaram Zimmerman e as testemunhas por horas e horas naquela noite, era evidentemente que se tratava de um caso de legítima defesa. A narrativa de assassinato frio com motivação racista só apareceu depois, quando a morte de Martin foi apropriada pelo oportunismo político em clima de vale tudo.

Não há a menor, a mais remota possibilidade, de que jornalistas experientes, em algumas das maiores empresas de comunicação do mundo, tenham deixado passar essas informações por mero descuido. Desde a escolha proposital de fotos de Martin criança e não as mais recentes, com feições incompatíveis com a narrativa, até os furiosos comentários dos analistas e apresentadores, é impossível alegar boa fé.

O que aparentemente aconteceu naquela noite, juntando o quebra-cabeça de fatos, versões, relatos e depoimentos:

  • George Zimmerman fazia a vigilância noturna da vizinhança, uma região perigosa e com um índice muito alto de arrombamentos e assaltos a casas.
  • Estava escuro, chovendo, e ele viu um sujeito não identificado sozinho, caminhando na rua e “checando” as casas.
  • Trayvon Martin estava na região visitando seu pai, divorciado da sua mãe desde que ele tinha 4 anos, por ter sido suspenso da escola por 10 dias. A suspensão foi motivada por terem encontrado drogas em sua mochila.
  • Zimmerman acha aquilo suspeito (quem não acharia?) e faz o certo, liga para a polícia e avisa o que está acontecendo. Diz na chamada que o possível assaltante parece drogado pela maneira como caminhava.
  • Ele tem uma conversa com a polícia ao telefone que em nada sugere um agressor sedento por matar, pelo contrário, ele vai relatando ao policial, numa ligação gravada, tudo que está acontecendo e o que ele pretende fazer. Isso soa como uma atitude de um justiceiro alucinado?
  • Zimmerman quer saber se o policial vai demorar a aparecer e recebe de volta o protocolar “está a caminho”. Depois, ainda dentro do carro, se assusta com Martin vindo na direção dele, e diz ao telefone que Martin está com a mão na cintura como se fosse sacar uma arma.
  • Ao ver Martin mudar de direção e correr, Zimmerman se irrita e diz para o atendente do 911: “esses babacas sempre conseguem fugir!”
  • Acreditando que o rapaz escaparia antes da chegada da polícia, vai atrás dele de carro. Zimmerman comunica à polícia que vai perseguir o suspeito e ouve “você não precisa fazer isso”. A própria acusação reconheceu que a instrução passada pela polícia foi ambígua, que ele deveria ter sido orientado claramente a não fazer isso.
  • Trayvon Martin está ao telefone com Rachel Jeantel, uma testemunha de acusação que, para muito, acabou virando um troféu para a defesa pelas contradições, atitude desrespeitosa e mentiras. Jenteal diz que aconselhou Martin a fugir, mas ele vê que Zimmerman sai do carro na direção dele e resolve então voltar e confrontar seu perseguidor. Jenteal diz que ouve Martin perguntar “por que você está me seguindo?” e ouve de volta “o que você está fazendo aqui?”
  • Começa a briga, Trayvon Martin espanca George Zimmerman. Na versão de Zimmerman, Martin grita “vou te matar” e tenta tirar a arma da sua cintura. Zimmerman, no chão, com Martin por cima, saca a arma primeiro e atira.

É razoável supor que Zimmerman achou que Martin era um ladrão de casas, drogado e pronto para cometer um crime. Chamou a polícia, que é o procedimento correto, e poderia ter parado por aí, mas resolveu ir atrás do suspeito, acreditando que escaparia antes da polícia aparecer. Trayvon notou que estava sendo perseguido e, em vez de ir embora, resolveu voltar e encarar o perseguidor. Duas decisões erradas que resultaram numa morte e num cadáver ambulante, marcado para morrer.

Se é para construir um perfil sobre Zimmerman, qual seria o retrato mais mais fiel, o do branco racista frio que matou uma pobre criança assustada ou do hispânico criado num ambiente multiétnico, participante ativo da comunidade, amigo dos vizinhos, que foi dragado para o centro de uma disputa política em que o que menos importava era a verdade?

Como disse o ex-senador Daniel Patrick Moynihan, “você tem direito a desenvolver uma opinião própria, não fatos próprios.” Ou, lembrando o temível Lavrentiy Beria, o mais conhecido e cruel genocida a serviço de Stálin, “escolha uma pessoa e eu invento um criminoso.” Zimmerman foi um criminoso inventado pela imprensa e absolvido pela justiça, mas não pelas ruas.

Quando um jornal escancara suas preferências político-partidárias, muitos se escandalizam, mas é preciso um dose cavalar de inocência para imaginar que elas não existem. Em vez de ficar em estado de negação, um mecanismo de defesa mental mapeado pela psicanálise, não é preferível exigir que os veículos abram de vez sua caixa preta ideológica e tenham uma relação mais honesta com o leitor? Qual veículo é mais transparente, um “The Telegraph” que se assume de direita e um “The Guardian” que se assume de esquerda, ou o The New York Times, o Washington Post, a CNN, ou a maioria dos veículos brasileiros, que fingem estar acima das ideologias?

George Zimmerman move um processo milionário contra a NBC pela edição delinquente que a emissora fez de seu telefonema para o 911, criando uma conversa racista que nunca houve. Na acusação, seus advogados disseram que a NBC fez “a mais velha forma de jornalismo marrom, que é manipular a fala de alguém para mudar o sentido do que disse”. E eles estão cobertos de razão, tanto que o cenário mais provável é que ganhe uma indenização milionária da emissora.

Zimmerman já teve seu julgamento no caso da morte de Trayvon, a despeito de toda a enorme pressão política e da imprensa. Agora é torcer para que tenha também a devida reparação causada pelo mau-caratismo militante e pela canalhice de políticos e ativistas, que mostram como uma falsa acusação de racismo é algo tão deplorável e danosa quanto o próprio racismo.

* DIRETOR DO INSTITUTO LIBERAL