Democracia Ocidental

Certamente a democracia representativa, na maneira como se apresenta, é repleta de problemas. A cada dia que passa mais pessoas desiludem-se acerca da suposta perfeição desse sistema, que por muito tempo foi propagandeada. Há um descrédito quase que total no sistema, na representação exercida pelos políticos e na legitimidade dos mesmos. Se isso era um fenômeno que considerávamos exclusivo do Brasil, hoje o vemos ao redor do mundo inteiro. O que fazer então? Qual a solução? Devemos defender nossa democracia com todas as forças.

Há um certo pensamento se espalhando de que tudo se resolve na base da revolução, de se fazer tabula rasa da sociedade. De que nossa democracia tem problemas e por isso deve ser totalmente substituída por uma nova utopia. Não precisamos de outra: o próprio Estado Democrático de Direito se guia por uma, tentando conciliar a mais tradicional antítese de valores da modernidade, sendo eles a liberdade e a igualdade. Uma utopia já é mais do que o necessário.

Esse pensamento em muito se espalha pelos escândalos que vemos diariamente. Políticos usam de seus cargos apenas para seus próprios interesses e daqueles que estão em conluio com eles, a economia a esfarelar, serviços básicos não conseguem atender nem mesmo a poucos usuários que possam tentar usá-los (quem dirá toda a massa que deles necessita). É natural, diante disso, que haja descrença. Não há como culpar o cidadão pela frustração que sente perante a situação. Mas em certos momentos é necessário parar para refletir. O que há de bom? Quais as vantagens? Quais as alternativas?

Pode até ficar irritante, mas gosto de insistir na prudência. Esse é um valor quase que esquecido no ocidente, mas que está presente desde tempos imemoriais nas mais variadas culturas. A democracia representativa foi pensada para ser neutra, para ampliar a participação ao mesmo tempo que proporciona o tempo necessário para a pessoa se preocupar com suas necessidades materiais. Mais uma vez tenta o impossível, a utopia. É evidente que não existe neutralidade, bastando ver a promiscua relação entre o governo e alguns grandes empresários, que sugam a população. O segundo objetivo, então, é como dar uma procuração para alguém dizer o que quiser em seu nome, chamando isso de representação. Mas mesmo assim, essas duas utopias resultam em algo importantíssimo: mesmo que o arranjo se torne um sistema, mesmo que esse sistema não seja neutro, ele permite a existência do dissidente. É pouco, você pode pensar. Mas não.

O século XX foi, dentre outros vários rótulos, o século dos totalitarismos. Mas o fenômeno que declaro não ocorreu apenas nos Estados totalitários. Ocorreu de maneira generalizada em todos os países onde a Democracia foi relativizada. Os sistemas que se apresentaram como alternativa à democracia ocidental, via de regra, não aceitavam a mera existência não só da oposição, mas do ser que a exercia. Em outras palavras, o indivíduo insatisfeito, inconformado, não possuía o direito sequer de existir. E apenas nesse ponto, já vemos que nossa democracia é infinitamente superior ao que se apresentou, até hoje como alternativa.

Outro motivo, é que cada vez que rompemos com um paradigma iniciando a sociedade do zero descaracterizamos mais a civilização (apenas descaracterizamos pois mesmo quando se pretende reiniciar a civilização ela mantém muitos de seus traços), e vemos um ser cada vez mais sem referências morais e espirituais. O resultado é o ser cada vez mais materialista, que encara como solução à desmoralização iluminista da sociedade (justamente a ideologia que por pouco mais de dois séculos promoveu essa visão do homem) a mera distribuição de um pouco mais de pão. As bandeiras políticas se tornam patéticas: um grita que faz com seu pão o que quiser, e o outro que tem que dar pão igual pra todo mundo. E todos os problemas da humanidade passam a se resumir a isso, mesmo que diversos fatos atestem o contrário; atestem que, apesar de existirem problemas causados pelo material, existem problemas de outras ordens, de ordens superiores (o que é a indiferença senão um problema de ordem moral?).

Por isso é importante agir com calma e tranquilidade. A serenidade é importante nesse momento crítico, para que não venhamos a cair na lábia de um grande líder qualquer que venha a nos prometer o mundo. Não há como abraçar o mundo. Se temos à disposição um sistema com funcionamento razoável, precisamos apenas pensar como melhorá-lo dentro de nossas limitações. Como atrelá-lo às noções de justiça e como legitimar os nossos representantes desde a base. Não há como transformarmos a terra em um paraíso, mas podemos ao menos tentar torná-la tolerável, como diz Russel Kirk.

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Uma consideração sobre “Democracia Ocidental”

  1. Não comungo com ideologias políticas e nem acredito em um modelo econômico pronto, estratificado, imune às mudanças. São coisas de intelectuais, principalmente, de intelectuais de esquerda. A própria natureza nos ensina que tudo no universo é dotado de uma dinâmica cíclica. Tudo o que nele existe, matéria, vida e, principalmente, ideia, nasce, alcança o seu apogeu e desaparece ou morre, como forma de manifestação diversificada. Pode ser de uma coisa, de uma vida ou mesmo de uma ideia. Essa última, então, é de duração bem efêmera. É falso o conceito de que as ideias permanecem. Elas estão sujeitas às mesmas leis que regulam as outras manifestações antes referidas. Assim, as ideias são concebidas, alcançam o seu apogeu para, a seguir, por obsolescência, perder o seu encanto, o seu charme, digamos assim, e transmuda-se para outra modalidade de ideia. Tanto para pior, quanto para melhor. Depende muito de seu intérprete ou de seu executor ou de ambos, afinal.
    O ideal ou utopia marxista não vingou e nem vingará, jamais, por basear-se, ainda, em princípios concebidos por Karl Marx e Engels, há dois séculos atrás, na luta de classes, na luta do proletariado contra a burguesia, com a implantação final de um controle rígido e justo de uma sociedade igualitária dirigida pelos trabalhadores explorados pela indústria nascente, principalmente na Inglaterra.
    Acontece que os ideologistas não previram o espetacular desenvolvimento dos recursos tecnológicos e nem o retumbante fracasso de suas ideias ao serem colocadas em prática no mundo concreto, palpável e complexo da política de Estado. Ex: União Soviética e seus satélites do leste europeu, Camboja, Vietnã, Laos, a própria China, que adota regras capitalistas e Cuba, que começa caminhar no mesmo sentido.
    Esses regimes falharam e falharão sempre, porque tem como princípios o aniquilamento de tudo aquilo que é mais inerente ao ser humano: sua individualidade, sua capacidade empreendedora, seu direito à propriedade, seu modo único e ímpar de ser em prol de um coletivismo caolho, não natural, e embasado na falsa premissa de que todo homem é, por natureza, bom e controlado por um Estado burocrático, ineficiente e altamente interventor, seja na economia quanto na vida particular, nos interesses do cidadão e nos mais comezinhos dos seus atos.
    Estes fatos nos levam à conclusão de que até a liberdade é confiscada pelo Estado dito socialista.
    Por fim, dizer que o capitalismo é sinônimo de destruição de vidas ou é pura leviandade ou, no mínimo, desconhecimento dos massacres levados a efeito no século passado pelos regimes ditos socialistas de maneira geral contra aqueles que discordavam de suas políticas ideológicas. Assassinaram muitos milhões de pessoas em defesa de uma ideologia fracassada.
    A única coisa que prospera nesses regimes é o privilégio de pessoas da classe e do partido dominantes. O resto trabalha para mantê-los e sem direito a reclamar.
    A primeira coisa que um governo de viés socialista tenta de todo modo fazer é amordaçar a imprensa livre, aquela que mostra para todos a nudez dessa ideologia, porque eles têm consciência de que a imprensa é irmã indissociável da democracia e da liberdade.

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