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Por Alessandro Barreta Garcia. Contribuição espontânea enviada por e-mail. Publicado originalmente no blog do Movimento Aliança Cidadã. Para ler o artigo original, clique aqui.

Muito se escuta no senso comum, bem como em livros didáticos[1], que a Idade Média se traduziu em um período estático e educacionalmente restrito aos dogmas religiosos. Entretanto, já apresentamos inclusive que em elação a educação das mulheres, muitas das informações que recebemos são absolutamente refutáveis[2]. Quanto à imutabilidade da educação, nada é mais falso.

Dessa forma, e na contramão das ideologias alienantes, a Idade Média foi o período que mais contribuiu para a consolidação de um ideário educacional essencialmente racionalista, e não absolutista. Tal tipo de educação, não nos parece mais ser considerado importante, sobretudo, em países com os piores índices educacionais do planeta. Como exemplo o Brasil, pois, certamente nos falta a razão.

Uma das grandes bases de uma educação sólida e eficiente é seu caráter mais ou menos estático, imutável e estabilizador. Qualquer país com o mínimo de formação intelectual reconhece tal premissa. Os que não reconhecem são aqueles que não compartilham das melhores posições nos testes internacionais. Por isso, defendem o indefensável, contrariam a lógica, e apenas se afundam no mais triste tipo de educação, o progressista e irracional. Esse tipo já foi discutido anteriormente[3].

Afinal, que tipo de educação ocorria na Idade Média?

Com os chamados pais da Igreja, fase patrística dos já chamados padres, observamos aqueles que foram os primeiros a refletir, discutir e formalizar os dogmas, essa era a chamada fase inicial da Igreja. Tinham alguns deles o contato imediato com os apóstolos. Nessa época surgem as cartas por Clemente de Alexandria (primeiro grande educador cristão), as discussões dialéticas sobre as heresias dentro da Igreja, destacando Minúcio Félix e Santo Irineu, e ganhando seu caráter cientifico com Tertuliano, Clemente de Alexandria e Orígenes (defensor da educação das mulheres assim como São Jerônimo). Com o Édito de Milão em 313 por Constantino, o Cristianismo passou a se ampliar significativamente. A fase patrística se estendeu do séc. V ao séc. VIII. Essa era para Cambi (1999), a paideia cristã. Nesse período, uma série de embates dialéticos tomava conta do ambiente educacional, e certamente contribuíram muito para o desenvolvimento das técnicas de um bom debate. O fruto desse ambiente será certamente a escolástica.

Como bem nos lembra Woods Jr (2008):

Como educadora da Europa, a Igreja foi a única luz que sobreviveu às constantes invasões bárbaras dos séculos IV e V e, nos séculos IX e X, às mais devastadoras ondas de ataques, desta vez dos vikings, magiares, mulçumanos… (WOODS JR, 2008, p. 21-22).

A Igreja enquanto administradora, educadora e moralizadora da Idade Média, foi capital para a reconstrução e o aprimoramento do conhecimento, bem como da arte de civilizar. Nesse sentido, foram os mosteiros que legaram a nós os benefícios de uma civilização culta. O estudo se dava a partir do latim, literatura, gramática, dialética e retórica. Deve-se ainda aos beneditinos a organização final das sete artes liberais: gramática, dialética, retórica aritmética geometria, astronomia e música.

Observa-se entre os monges o ideal educacional disciplinado. Neste ideal, era possível ser copista, uma espécie de continuador das tradições, um herdeiro do conhecimento, pelo qual deveria possibilitar ao próximo o acúmulo e preservação da informação. Essa conservação foi inestimável, ou até inigualável. Ademais, o sistema de trocas e intercâmbio de cópias entre ordens era além de necessário, fundamental para conservar o legado histórico até aquele momento. Como legado, imprescindível até nossos dias.

Isto explica porque a educação sob uma perspectiva tradicional, rígida em alguns momentos, imutável sobre determinados aspectos e mais ou menos estável, é fundamento para uma transmissão sólida e eficaz dos conhecimentos. Já quando uma sociedade nega essa premissa, nega a racionalidade, e contrapõe-se a conservar conhecimentos acumulados ao longo da história, só há um resultado. E esse resultado o Brasil já conhece, pois, nos encontramos entre últimas colocações nos testes internacionais ou uma das piores posições do mundo no requisito educação. Como melhorar? Olhe para o passado. Conserve, melhore ou aprimore o que já foi bom. Sem conservar as coisas boas do passado, nenhum presente será sólido, justo e bom.


Referências:

CAMBI, F. História da pedagogia. Tradução: Álvaro Lorencini – São Paulo: Fundação Editora da UNESP (FEU), 1999.

WOODS JR., T E. Como a Igreja Católica construiu a Civilização Ocidental. Trad. Èlcio Carillo; rev. Emérico da Gama. – São Paulo: Quadrante, 2008.


Notas: