Babilônia Política

Contribuição espontânea do nosso leitor Davi Caldas, em resposta ao artigo “A Esquerda e Direita no Mundo Contemporâneo” do nosso articulista Rodrigo Viana. O artigo original foi publicado no blog Mundo Analista. Para ler o artigo original, clique aqui.

Recomenda-se a leitura prévia dos artigos:

O presente artigo, “Babilônia Política”, de Davi Caldas, é portanto uma tréplica.

Há cerca de um mês publiquei um texto intitulado “Confusões clássicas sobre direita e esquerda” aqui no blog. O mesmo texto foi avaliado pelo site “Direitas Já” a pedido meu (o “Direitas” costuma a avaliar e postar textos de leitores) e postado por lá no dia 28 de fevereiro. Ironicamente, um dos administradores do próprio site, Rodrigo Viana, postou, no dia 6 de março, um texto intitulado “Esquerda e Direita no Mundo Contemporâneo”, onde expõe sua discordância com aquilo que eu disse em meu texto.

Digo “ironicamente” não pela discordância ter partido de um administrador do site, já que um site feito por várias pessoas pressupõe a pluralidade de idéias. Porém, a ironia está no fato de Rodrigo Viana se propor, em seu texto, a dizer que Esquerda e Direita são conceitos que não servem para definir muita coisa. Não é o que eu esperaria de uma pessoa que administra um site que leva em seu nome justamente um desses dois rótulos.

Mas, enfim, o texto de Rodrigo, embora bem escrito, me deu a impressão de que ele não entendeu muito bem os meus argumentos. Assim, me sinto na obrigação de tirar aqui algumas dúvidas e de responder a algumas objeções levantadas por ele. Eu o farei de maneira construtiva e educada, mas serei incisivo, ok?

As Cinco Mentalidades Contextuais
Logo no começo de sua postagem, Rodrigo Viana cita um texto de outro administrador do site, Renan Felipe, intitulado “As Cinco Mentalidades Políticas”.

Neste texto, Renan adota um modelo de classificação das ideologias políticas, no qual existem cinco mentalidades: Reacionária, Restauradora, Moderadora (conservadora), Reformadora e Revolucionária. Com base nesse modelo do administrador Renan Felipe, Rodrigo Viana afirma que em sua visão

o que se diz normalmente como Direita são correntes que estão em posições como “reacionária”, contrário a qualquer tipo mudança, e “moderada”, onde certas mudanças podem ser bem vindas, desde que não sejam abruptas. E Esquerda como “reformadora”, visando mudança significativa, porém de cunho pragmática, e “revolucionária”, mudança desde a raiz.

Observando esse trecho é possível averiguarmos que o entendimento de Rodrigo sobre o que é Direita e Esquerda tem algumas falhas pequenas, porém expressivas. Para começar, ele afirma que a mentalidade reformadora, que visa mudanças significativas e pragmáticas, é normalmente dita como Esquerda. Isso é questionável, porque depende muito do contexto político vivido pelo Estado.

O Brasil, por exemplo, vive há muito tempo num contexto de domínio ideológico esquerdista. Então, propostas direitistas como o fim de programas assistencialistas, a redução de impostos, a diminuição do Estado na economia e o investimento no setor privado em vez do público são, sem dúvida, propostas de mudanças muito significativas e de cunho bem mais pragmático (no bom sentido que essa palavra pode oferecer) do que o utopismo apregoado pelo nosso governo de esquerda.

Ou seja, nesse contexto, a mentalidade reformadora é a mentalidade de direita; e a esquerda, curiosamente, passa a ter a mentalidade reacionária, por querer manter tudo como está (ou até mesmo uma mentalidade conservadora, por não almejar mudanças muito bruscas no modo de governo atual, a fim de preservar o status quo).

Rodrigo também afirma que a mentalidade moderada (conservadora) é aquela que pode até aceitar algumas mudanças, desde que não sejam abruptas. Ora, mas essa definição só funciona quando pressupomos que aquilo que o moderado quer conservar ainda existe. Mas em um contexto onde toda a tradição e experiência que valiam à pena ser guardadas foram destruídas por um Estado autoritário, o conservador se transforma no agente que mais apregoa e luta pela mudança. Ele quer de volta os pilares da sociedade que foram derrubados pelo autoritarismo, o mais rápido possível; e talvez seja capaz até de utilizar a força bruta para tal (a depender do contexto). Um perfil bem semelhante ao de um revolucionário, não é mesmo?

Portanto, na realidade, é esse modelo das cinco mentalidades políticas que não diz muita coisa. Tais mentalidades me parecem um tanto contextuais e, por esse motivo, não servem para conceituar Direita e Esquerda, como faz o nosso amigo Rodrigo.

Rodrigo continua o texto, desenvolvendo o seu argumento de que Direita e Esquerda não são bons rótulos, já que muitas de suas ideologias se baseiam em mentalidades que, segundo sua visão, são tanto de Esquerda quanto de Direita. Tal ambigüidade, para Rodrigo, torna impossível saber à qual das duas tais ideologias pertencem, já que elas bebem em fontes opostas uma a outra. Ele diz:

O Liberalismo tanto bebe de fontes “moderadas” como “reformadoras”. Se considerarmos sua versão anárquica, o Anarco-capitalismo, estaria, também, apoiada numa posição “revolucionária” além das duas já herdadas do Liberalismo. São correntes que nem a Esquerda e nem a Direita possuem suporte para tal.

Esse exemplo sobre o liberalismo não diz absolutamente nada porque, como já mostrei, não faz sentido dizer que a mentalidade moderada é sempre de Direita e que a mentalidade reformadora é sempre de Esquerda. Moderação e Reforma, do modo como Rodrigo define, podem pertencer tanto à Direita como à Esquerda, dependendo de como se encontra a política do Estado. Essas mentalidades não definem o espectro político da ideologia. Em um Estado comunista, por exemplo, os “moderados” podem ser aqueles que querem a conservação do regime comunista, aceitando apenas pequenas mudanças de vez em quando. Nesse mesmo Estado, contudo, o “reformador” é aquele agente que deseja a substituição do sistema comunista por outro sistema. É uma questão puramente de contexto político.

Então, o fato do liberalismo clássico beber tanto em fontes moderadas como em fontes reformadoras, não significa que ele não possa ser definido como uma ideologia de Direita ou de Esquerda.

Quanto à corrente anarquista, seus adeptos podem ser tanto de Direita como de Esquerda, sem termos problema algum quanto à classificação [1]. Porque o anarquismo em si não pertence a nenhum dos lados. Ele é apenas a idealização de uma sociedade sem um governo e sem uma hierarquia estatal. E em uma sociedade assim, não há nem Esquerda, nem Direita, evidentemente.

Então, o que define se um anarquista é de Direita ou Esquerda não é o anarquismo em si, mas (1) como o anarquista acredita que essa sociedade funcionaria; (2) o que o anarquista considera empecilhos para a concretização dessa sociedade; (3) como o anarquista acha que esses empecilhos poderiam ser ultrapassados.

Embora haja algumas diferenças entre os anarquistas de Esquerda, em geral eles concordam que a sociedade anarquista funcionaria naturalmente sem problemas, porque o mal da sociedade não está no ser humano, mas nas instituições do Estado e, sobretudo, no próprio Estado. Isso já seria o suficiente para classificar um anarquista como sendo de Esquerda, já que o principal pilar da Esquerda é o otimismo antropológico.

Como o sonho de uma sociedade anarquista é um sonho muito distante é comum que os atuais anarquistas acabem se alinhando com marxistas. É sabido que marxistas e anarquistas tinham muita rivalidade na época de Marx, mas isso não anula o fato de que ambos tinham um objetivo final em comum: uma sociedade sem Estado. Por isso, o alinhamento é normal. Assim, anarquistas de Esquerda freqüentemente se tornam ferrenhos críticos do capitalismo, da burguesia, da religião e, claro, da Direita. Esses acabam sendo os seus principais inimigos.

E como destruir esses inimigos? Aqui, outra vez o alinhamento com marxistas e demais esquerdistas se torna proveitoso. Afinal, todos juntos vão “descer o cacete” em seus inimigos em comum. Tenho um colega anarquista, por exemplo, que adora ler a Carta Capital e o Observatório da Imprensa. Ele também segue páginas virtuais como “Che Brasuca”, “Direitistas Caricatos” e mais uma dúzia de páginas esquerdistas que criticam a direita, a burguesia, o capitalismo, a religião e as igrejas, tratando-os como a raiz de todos os males do mundo.

Já os anarquistas de Direita (Anarco-Capitalistas) são totalmente diferentes. Eles não acreditam que o ser humano é bom e que o mal da sociedade está em um fator ex-terno à espécie. Tendo como base o pessimismo antropológico, que é o principal pilar da Direita, esses anarquistas acham que o Estado é ruim porque, como o ser humano é inclinado ao mal, o Estado sempre será, de alguma maneira, opressor.

Liberais clássicos e conservadores burkeanos não discordam totalmente disso. O mundo não é bom mesmo e a luta do ser humano deve ser para torná-lo melhor e não perfeito. A diferença reside no fato de que o anarquista de Direita acredita que o Estado pode ser abolido sem que a sociedade se torne uma desordem. Isso porque, para o anarquista de Direita, instituições como tribunais, polícia, exércitos e bombeiros (com suas hierarquias internas) continuariam existindo, mas como empresas privadas e cada um podendo criar a sua, se quiser. A busca dos consumidores pelos melhores serviços iria garantir a melhoria na qualidade dos serviços que, por sua vez, garantiria a ordem da sociedade sem Estado. Utópico, por certo, mas baseado no pessimismo antropológico da Direita política.

Percebe-se, portanto, que dentre os inimigos do Anarco-Capitalismo não estão a burguesia, o capitalismo, o livre mercado, as políticas de Direita e a religião, como é o caso da maioria dos anarquistas de Esquerda. Os inimigos dos Anarco-Capitalistas são justamente o marxismo, a social-democracia e todas as ideologias que pretendem fortalecer o Estado ou lutar contra o livre mercado e o capitalismo.

Como destruir esses inimigos? Alinhando-se com liberais clássicos e conserva-dores burkeanos. É extremamente comum ver esse alinhamento. Porque por mais que existam grandes diferenças entre eles, há muito mais semelhanças. Portanto, não há (ou, pelo menos, eu não consigo ver) nenhuma dificuldade em se classificar um anarquista como sendo de Direita ou de Esquerda. Embora ambos não acreditem na manutenção do Estado, as diferenças entre eles são gritantes.

Compreendendo o processo histórico
Continuando o seu texto, Rodrigo mostra que não compreende bem o processo histórico da passagem entre a antiga política absolutista e nova política iluminista (da qual fazem parte, principalmente, o iluminismo britânico, que influenciou também os EUA e o iluminismo francês). Para Rodrigo, conservadores da antiga política caminham lado a lado com conservadores da nova política. Diz ele:

Outro erro comum é querer atribuir feições individualistas para a Direita e coletivistas para a Esquerda. Ora, isso não é coerente do ponto de vista teórico quanto histórico. A Direita clássica, em que tem o conservadorismo europeu como um de seus representantes, nunca almejou uma legítima posição individualista. Pelo contrário, foi um grande opositor, no passado, da igualdade jurídica entre indivíduos e até hoje se contorce ao ouvir discursos de abolição de privilégios consentidos a certos setores da sociedade.

O que Rodrigo Viana entende como “conservadorismo europeu” é, na verdade, o conservadorismo absolutista, uma mentalidade muito comum nos séculos XVIII e XIX, em pessoas que não se conformavam com a derrubada dos modelos absolutistas de governo. Essa mentalidade, evidentemente, sofreu algumas variações ao longo do tempo e não é mais tão comum. Porém, ainda há alguns desses conservadores que se baseiam em aspectos de um sistema que já foi derrubado há séculos.

Este tipo de conservador, conforme deixo claro em meu texto, não consegue se enquadrar no modelo de classificação Direita x Esquerda porque essa classificação não faz parte da antiga política. Falar em Direita e Esquerda em uma sociedade absolutista não só seria um anacronismo como não faria nenhum sentido lógico. Ou seja, um conservador absolutista não só não faz parte da Direita como também pensa de maneira diametralmente oposta a um conservador burkeano. Não se pode colocá-los lado a lado como se o conservadorismo de ambos fosse o mesmo.

E é de se ressaltar que a maioria dos que eram opositores da igualdade jurídica entre indivíduos e da abolição de privilégios de determinadas classes eram justamente os absolutistas. É certo que os primeiros direitistas também não eram tão respeitadores dos indivíduos como são hoje. Havia muita discriminação entranhada na sociedade. Mas isso era uma questão mais cultural e pessoal do que ideológica. Conforme o contexto foi mudando, os direitistas foram percebendo a verdadeira essência do individualismo.

Então, essa idéia de colocar liberais clássicos e conservadores burkeanos juntos com conservadores absolutistas, todos dentro da Direita, não é muito coerente. Quando se faz isso, aí realmente fica impossível de afirmar, por exemplo, que a Direita defende o individualismo e que a Esquerda defende o coletivismo. Afinal, absolutistas não são respeitadores do indivíduo, como os burkeanos e os liberais. Rodrigo continua:

Se havia intelectuais como Joseph de Maistre, Louis de Bonald e Donoso Cortés como defensores de um estado moralizador e, muitas vezes, autoritário, havia também Benjamin Disraeli como um representante legítimo do coletivismo e protecionismo. E bem sabemos que o resultado entre coletivismo e estado autoritário pode ser qualquer coisa, menos o da defesa pela autonomia individual.

Aqui Rodrigo Viana cita alguns exemplos para provar que nem todas as Direitas são individualistas. Não é nenhuma surpresa constatar que os três primeiros nomes cita-dos são de pensadores que foram extremamente simpáticos ao regime absolutista (o terceiro começou como um liberal clássico, mas desistiu por achar que o Estado deveria ser forte). Mais uma vez, não dá para chamar essas figuras de representantes do pensa-mento de Direita. Eles eram representantes da velha política.

Benjamin Disraeli era de Direita? Questionável isso. Ele podia até ter algumas características de um conservador de Direita, mas isso não significa muito. Não se pode classificar uma pessoa por algumas características apenas. É necessário ver o panorama geral. Por exemplo, um aluno que tirou cinco notas baixas em química é bom ou ruim nessa matéria? Depende. Se ele fez apenas cinco provas, é um aluno ruim, pois foi mal em todas as provas que fez; se fez dez ou doze, ele é mediano; se fez vinte ou trinta, então ele é bom e suas notas baixas foram apenas exceções. É uma questão numérica.

Do mesmo modo, alguém pode ter algumas (ou até muitas) características de um conservador de Direita, mas também ter um número semelhante de características que são próprias da Esquerda. Este indivíduo acaba, portanto, ficando no centro do espectro, o que o torna um centrista. Rodrigo continua:

A Direita é muito mais do que a visão política americana e Edmund Burke não é o único representante do Conservadorismo. Por isso mesmo que a Direita pode tanto estar mais próximo do individualismo (como a Antiga Direita americana) como do coletivismo (a tradicional Direita europeia).

O próprio Partido Conservador britânico, no período pré e pós-Segunda Guerra, é um exemplo desse socialismo de Direita.

Rodrigo continua fazendo confusão entre diferentes tipos de conservadorismo. É justo explicar aqui: quase todas (senão todas) as pessoas são conservadoras. Tanto as de Direita como as de Esquerda. Afinal, todos desejam conservar algo que acham positivo para sociedade. E naquilo que se deseja conservar, reformas são sempre leves, graduais e vistas até com ceticismo. No caso da Esquerda, por exemplo, temos aqueles que querem conservar o regime socialista cubano (que já tem mais de cinqüenta anos). Eles são conservadores socialistas de Esquerda, portanto.

Então, quando vamos falar de conservadorismo, é muito importante fazer distinção entre os diversos tipos de conservadorismo existentes. É isso que Rodrigo não faz em seu texto. Para ele só existe um tipo de conservadorismo, que engloba absolutistas, teocratas, burkeanos e nacionalistas. E para ele, todos esses formam a Direita. Não me admira que alguém com essa visão, ache inconsistente o rótulo de Direita.

Quanto a Burke, Rodrigo está certo ao dizer que ele não é o único representante do conservadorismo. Existem outros representantes, assim como também existem outros conservadorismos. O conservadorismo de Burke é também chamado de conservadorismo moderno e é invenção da nova política iluminista, da onde surgem também a Direita e a Esquerda. E a Direita se baseia justamente nesse conservadorismo, em oposição ao conservadorismo absolutista. Ficou claro?

Então, no fim das contas, a Direita que existe nos EUA é a mesma Direita que existe na Europa, pois a Direita nasceu baseada no liberalismo e no conservadorismo defendido por homens como Burke, Alexis de Tocqueville e Bastiat. E essa tal “Direita” clássica européia, coletivista e regressista, que Rodrigo menciona, na verdade, é a antiga política absolutista (não a Direita).

Quanto ao “socialismo de Direita”, isso não existe. Quando um partido político dito de Direita se rende ao socialismo, a conclusão a que devemos chegar não é a de que Direita e Esquerda são rótulos ineficientes, mas sim a de que aquele partido abriu mão de princípios direitistas e se moveu em direção à Esquerda. As definições de Direita e Esquerda continuam as mesmas, o que muda é a postura de partidos e de seus políticos.

E o mesmo exemplo serve para a Esquerda. Não são todas as correntes ditas esquerdistas que se opõem ao indivíduo. Mutualistas como Pierre-Joseph Proudhon e Benjamin Tucker defendiam medidas “socialistas” ao enfatizar o modo cooperativo e de ajuda mútua da sociedade, porém sem a perda da autonomia individual. Seria então estes anarquistas direitistas? Certamente que não. Ou melhor, existe algum tipo de corrente anarquista que seja adepto da Direita? Bom, só de haver uma ligação entre “anarquia” e “Direita” já demonstra o quão limitado é enxergar a política de modo binário.

Ora, como eu falei antes, se o anarquismo não pertence nem a Esquerda, nem a Direita, podendo ser tanto de um quanto de outro, então é perfeitamente plausível afirmar que um anarquista também pode ficar no meio do espectro. Por que não? Eu não trabalho com uma divisão binária. Para mim, uma pessoa pode ser de Esquerda, ou de Direita, ou de Centro, ou de Centro-Esquerda, ou de Centro-Direita. São cinco posições diferentes. Dá para enquadrar todo mundo em algum lugar (a exceção dos absolutistas, que não fazem parte desse esquema político moderno).

Compreendendo o meu paradigma
Chegando ao fim de seu texto, Rodrigo começa a mostrar que não entendeu nada do que escrevi na postagem “Confusões Clássicas sobre Direita e Esquerda”. Ele diz:

Bem sabemos que a Direita era composta por pessoas anti-revolucionárias e a Esquerda por pessoas favoráveis a mudança.

Não, cara, não! Foi exatamente essa confusão que eu tentei desfazer durante todo o meu texto. Direita e Esquerda são duas vertentes ideológicas que começaram a se desenvolver muito antes do advento da Revolução Francesa (embora não com esses nomes ainda). Duas vertentes que, embora desde o início tenham sido antagônicas, têm algo em comum: ambas surgiram como parte integrante da nova política iluminista, contrária à velha política absolutista.

O que surge na Revolução Francesa não são essas vertentes ideológicas, mas sim a idéia de se chamar políticos mais radicais de Esquerda e políticos mais conservadores de Direita. Entretanto, como tais definições são muito vagas e não conseguem definir uma linha de pensamento específica para cada termo, não demorou muito para que as duas palavrinhas começassem a ser utilizadas para nomear as duas vertentes das quais acabamos de falar. A vertente humanista passou a ser chamada de Esquerda e a vertente não-humanista passou a ser chamada de Direita. Só a partir daí, os termos Esquerda e Direita passaram a ter um significado fixo e concreto.

Pode-se perguntar aqui: “Mas não existem outras acepções das palavras Direita e Esquerda? Por que apenas uma delas pode estar correta?”. É uma ótima pergunta. Eu a respondi no outro texto, mas vou detalhá-la melhor agora. Existem quatro acepções que são possíveis:

  1. Direita = Absolutistas e Esquerda = Revolucionários;
  2. Direita = Conservadores e Esquerda = Radicais;
  3. Direita = Defensores do status quo e Esquerda = Defensores da mudança;
  4. Direita = Amiga da elite e Esquerda = Amiga dos oprimidos.

A primeira acepção é falha porque se você considera os absolutistas como sendo de Direita e os revolucionários anti-absolutistas como sendo de Esquerda, terá que dizer que a Direita e Esquerda sempre existiram, já que reis com poderes absolutos e pessoas contrárias a esses reis são bem anteriores a 1789. E se consideramos esta acepção, então nunca fez sentido chamar, por exemplo, Marx, Gramsci, Lênin, Stalin, Lula e Dilma de Esquerda, assim como também nunca fez sentido chamar Churchill, Reagan e Thatcher de Direita. São termos nulos para um contexto pós-absolutista.

Então, se alguém quer usar essa acepção, deve respeitar essas regras: parar de usar esses termos para nomear ideologias e movimentos dos últimos cento e cinqüenta anos de história e passar a usá-los para nomear ideologias e movimentos de todos os anos anteriores em que houve reis com poderes absolutos e revolucionários contrários ao absolutismo do rei. Bem, não conheço ninguém que tenha utilizado os termos dessa maneira. Nem mesmo os primeiros que os utilizaram.

A segunda acepção também é falha porque é contextual. Como já expliquei, ser conservador ou ser radical depende muito do contexto político. Burke talvez fosse um radical para os integrantes do partido Tory, mas era um conservador para os radicais da Revolução Francesa (tanto que é chamado o Pai do conservadorismo). Ora, se o mesmo cara é conservador (“Direita”) e radical (“Esquerda”), então essa acepção também não serve para definir coisa alguma. E terminologias que não definem nada, são inúteis.

A terceira acepção também é contextual e inútil. Se ser de Direita é ser defensor do status quo e ser de Esquerda é ser defensor da mudança, então Fidel Castro, Lula e o PT são de Direita atualmente, e Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino e o partido Republicano dos EUA são de extrema-esquerda até o momento atual (e no futuro pode mudar tudo de novo, pois é uma questão de contexto). Não preciso dizer mais nada, né?

Por fim, a quarta acepção, também não presta. Colocar a Direita como amiga da elite e a Esquerda como amiga dos oprimidos é criar uma visão maniqueísta da política e fazer com que creiamos que um lado sempre está certo e o outro sempre está errado, não importando o que façam. É evidente que essa visão é preconceituosa e, do ponto de vista histórico, totalmente falsa.

É interessante ressaltar que todas essas acepções, quando utilizadas por alguma pessoa, costumam ser misturadas com a acepção mais concreta e definidora das palavras Direita e Esquerda. Trocando em miúdos, o mesmo cara que afirma que Lula, Chávez, Fidel, Moralez e Kirchner são de Esquerda (acepção mais concreta), afirma que ser de Esquerda é ser anti-absolutista, radical, defensor da mudança e amigo dos oprimidos, em oposição a ser de Direita, que significa ser absolutista (ou, pelo menos, ter a mesma ideologia de um absolutista), ser conservador (o mesmo conservadorismo da época do absolutismo), defensor do status quo (mesmo que o status quo do contexto esteja sendo defendido pela esquerda) e ser amigo da elite (ainda que a elite seja de esquerda e você seja contra ela).

O leitor consegue ver a confusão? É uma mistura de várias acepções diferentes, falhas, inúteis e auto-excludentes, que são agregadas umas as outras com o intuito de fazer todo mundo acreditar que Direita é coisa de gente ruim e que Esquerda é coisa de caras legais. E tem um monte de ingênuo dos dois lados que acreditam.

Portanto, entendam: há uma confusão na definição do espectro político. Usa-se acepções diferentes todas juntas. Não pode. Usa-se definições contextuais e definições fixas juntas. Também não pode. Ou você entende Direita e Esquerda como palavras que definem vertentes específicas, anti-absolutistas (as duas), que ainda são válidas nos dias de hoje, ou você escolhe uma daquelas quatro acepções possíveis, que ou não definem nada ou já não servem para nada há mais de cento e cinqüenta anos.

Se você escolhe a primeira opção (vertentes específicas), não pode, por exemplo, dizer que os absolutistas eram de Direita, assim como liberais e burkeanos. Eles podiam ser de Direita espacialmente falando (sentavam-se nas cadeiras que ficavam à Direita do monarca), mas enxergando Direita e Esquerda no sentido de duas vertentes específicas válidas até hoje, você não pode fazer essa mistura. São dois sentidos diferentes.

Normalmente o que se fala é que havia absolutistas na Direita e socialistas e radicais na Esquerda, certo? Sim, porém há mais história a se contar. Não havia apenas socialistas e radicais na Esquerda do parlamento francês, mas liberais também. Frédéric Bastiat, um importante liberal clássico francês, sentou a esquerda dos absolutistas, se juntando a socialistas e anarquistas. Quer dizer então que o Liberalismo é uma corrente legitimamente esquerdista (ou seja, de viés reformador e revolucionário)? Não, quer dizer que ele era oposição à Antiga Ordem e que até mesmo nesta época a conotação Direita e Esquerda já nascera limitada.

Não, Rodrigo! Como eu falei, quando definimos Direita e Esquerda como duas vertentes que se opuseram ao absolutismo e que duram até hoje, os absolutistas, embora se assentassem na Direita, devem ser classificados apenas como absolutistas; e radicais, embora se assentassem na Esquerda, devem ser classificados como opositores do absolutismo, alguns desses de Esquerda e outros de Direita. Entende? Usando esta definição, a questão espacial se torna irrelevante (mesmo tendo servido de base para a adoção dos termos pelas duas novas vertentes posteriormente).

Então, sim, Bastiat, um liberal, estava do lado de anarquistas e socialistas. Isso não o faz um esquerdista, mas um iluminista de orientação direitista, opondo-se a velha política, ao lado de iluministas de orientação esquerdista que, apesar das diferenças para com os liberais, estavam juntos contra o absolutismo. Expliquei isso no outro texto. Não estou fazendo revisionismo histórico aqui. Apenas usando a acepção mais concreta das palavras Direita e Esquerda e não as misturando com outras acepções.

E que por isso enfatizo a feliz argumentação contida no texto Confusões Clássicas… em dizer que a Direita da época estava a defender não os “valores direitistas”, mas o absolutismo. E o mesmo raciocínio pode ser usado para a Esquerda da época, cada um defendendo as suas posições. Isso é um bom exemplo de que Direita e Esquerda também pode ser feita através das circunstâncias e do momento.

Não, eu não disse isso. O que eu disse foi que absolutistas não formam a Direita, se definimos a Direita como uma das vertentes da política iluminista, que existe até os dias de hoje. E, nesse sentido, é claro que absolutistas não estavam defendendo valores direitistas; eles não eram direitistas. Entretanto, se definimos Direita e Esquerda como termos da época, usados para definir quaisquer outras coisas e que não servem hoje ou cujos significados dependem do contexto político, então, esquece tudo o que falei. Só peço, mais uma vez, que não misture as duas coisas.

Indo em tempos mais atrás, porém atravessando o mar, podemos pegar o exemplo da Revolução Gloriosa inglesa. Antes mesmo de qualquer menção a Esquerda ou Direita, a Antiga Ordem era defendida pelo partido Tory e a oposição pelo partido Whig. De modo que os tories vinham de posições mais conservadoras e pró-absolutistas e os whigs de posições liberais e contrários ao absolutismo. E lembramos que um dos opositores, do qual possuía certo prestígio no partido Whig, era ninguém mais que Burke. Seria então o “pai do conservadorismo moderno” um esquerdista de sua época?

Isso tudo só prova o que eu falei. O que se tinha na Inglaterra da época não era um partido de Direita (Tory) e um partido de Esquerda (Whig). O que se tinha era um partido absolutista e um partido iluminista. Dentro do partido iluminista, é que havia os que eram de Direita e os que eram de Esquerda (os termos não existiam ainda, porém as vertentes sim). Burke era de Direita. E os absolutistas? Eram absolutistas. Só.

Outra questão importante a se analisar é a questão das correntes autoritárias. Se a Esquerda possui o Marxismo como forma maior de seu autoritarismo, não seria absurdo dizer que a Direita também tem a sua. É fato que o Fascismo e o Nacionalismo contém certos elementos ligados a Direita, principalmente do conservadorismo europeu. Posições como economia mista, anti-individualismo e nacionalismo são compartilhadas por autoritários de todo tipo. Longe de querer fazer uma análise sobre o Fascismo ou Nacionalismo, apenas relembro que a Direita “deu” contribuições, mesmo que de modo indireto e/ ou inconsciente, para as ideologias autoritárias.

Aqui Rodrigo apenas continua argumentando dentro de seu de raciocínio. Como ele mistura acepções diferentes das palavras Direita e Esquerda, e não faz distinção entre os diferentes tipos de conservadorismo, acredita que a Direita “deu” contribuições para nazistas e fascistas. Mas ainda que o nazismo e o fascismo tenham realmente uma idéia ou outra provenientes da Direita, isso não faz deles movimentos de Direita. Como já disse, não se pode classificar algo se baseando apenas em algumas características. É preciso ver o panorama geral.

Algo a mencionar seria a posição tomada pela Antiga Direita brasileira ao apoiar um golpe autoritário e anti-democrático no país, favorecendo os militares no poder. Dado que também não pretendo entrar no mérito utilitário quanto a isso. Deixo apenas como referência histórica.

Na real, o Brasil nunca teve um governo realmente de Direita. Pode ter tido um governante ou outro de Direita, mas uma andorinha só não faz verão. O que tivemos no Brasil foram governos de Esquerda, de Centro-Esquerda, de Centro e talvez, quem sabe, de Centro-Direita. A ditadura foi centrista (vou explicar mais abaixo). Ela se valeu de elementos tanto de Direita como de Esquerda.

A razão pela qual a ditadura militar do Brasil é vista como de Direita é que (1) ela adotou uma aparência de conservadorismo moral e religioso; (2) ela se posicionou contra o comunismo (e todo mundo que se posiciona contra o comunismo é taxado de direitista); (3) muitas pessoas que eram realmente de Direita apoiaram o golpe porque acreditaram mesmo que este era apenas uma defesa contra o comunismo e que, dentro em breve, a política do país iria voltar ao normal (ingenuidade mesmo); (4) os militares se consideravam (pelo menos se diziam) representantes da Direita. Mas, evidentemente, nada disso prova que essa ditadura foi de Direita.

Toda essa análise nos faz pensar em até que ponto é válido o uso desses termos já universalizados. Novamente, são termos imprecisos que podem gerar interpretações duvidosas, mas que pode ajudar algumas vezes. Não sou contra o seu uso, desde que seja empregado de forma correta e dentro do contexto. Contudo, o mais importante é saber que ele não deve ser usado como único recurso para uma análise política. Estamos nos século 21, vivendo em um novo milênio, e não no século 18. Acho que já deu pra perceber que a velha interpretação está mais do que ultrapassada.

Esse já é o final do texto de Rodrigo. Perceba que a conclusão dele é de que os termos Direita e Esquerda são imprecisos. Na verdade, não são. Imprecisos são termos como Reacionário, Moderado, Conservador, Reformador e Revolucionário. Imprecisas também são algumas acepções possíveis das palavras Esquerda e Direita, que, de modo errôneo, ainda são misturadas à acepção mais fixa e concreta que é comumente utilizada por todos. Também podemos dizer que são imprecisos os políticos e os partidos, porque se desviam de seus princípios muitas vezes. Porém, nenhuma dessas imprecisões altera o significado fixo e concreto dos termos Direita e Esquerda.

Enfim, sinceramente, a argumentação de Rodrigo não conseguiu me convencer quanto a pouca utilidade dos termos Direita e Esquerda. Creio que, se eles forem usados corretamente, sem misturas de diferentes acepções das duas palavras e primando por significados fixos e específicos, não vejo dificuldades na classificação.

A Questão do Centrismo e a classificação geral
Resta uma questão pendente. O que é centrismo? Não cheguei a definir com exatidão esse termo em nenhum texto meu. Eu já pretendia fazer isso há um bom tempo, mas até então não tinha percebido que era tão necessário.

Enfim, como eu falei, eu não vejo o espectro político como uma divisão binária, na qual só se pode ser de Esquerda ou de Direita. Pelo contrário, reconheço que entre os dois pólos existem muitos posicionamentos diferentes, alguns mais inclinados para a Esquerda, outros mais inclinados para a Direita e outros que, de fato, ficam exatamente no meio do espectro. Todos esses posicionamentos intermediários são o que chamo de Centrismo.

Isso não é novidade. Não fui eu que inventei a idéia. A diferença da minha visão de centrismo para a visão comum das pessoas é que não entendo que ser de Centro signifique “ser moderado”. Todo mundo acha que um governo, partido ou pessoa centrista é aquele que é meio capitalista, meio socialista; meio individualista, meio coletivista; meio livre mercado, meio interventor; e, claro, que não faz uso de violência e repressão, porque violência e repressão são coisas de extremistas, e o centrista não está no extremo de nada.

Mas essa definição não é lógica. É só raciocinar: se o centrista é centrista porque está no centro do espectro, entre um lado e outro, isso significa que ele adotou tanto idéias de Direita como idéias de Esquerda, em número semelhante. Por isso é que não dá para defini-lo em um dos lados. Moderação de idéias e moderação de violência nada tem a ver com ser de Centro.

Primeiro, porque a maioria das idéias de Direita e de Esquerda não pode ser adotada pela metade. Não se pode ser meio individualista e meio coletivista. Não se pode ser meio livre mercado e meio interventor. Não se pode ser meio pró-aborto e meio pró-vida. Não se pode ser meio a favor da legalização da venda de armas e meio contra a mesma. Você pode até ser moderado em cada uma dessas idéias, mas não pode adotar as duas, já que são excludentes.

Segundo, porque o espectro político não é um gráfico de violência e repressão nos diferentes regimes, no qual os extremos representam os regimes mais agressivos e violadores dos direitos humanos. Não! O espectro político é um gráfico de ideologias, no qual os extremos representam os regimes que adotaram um grande número de idéias do pólo em que estão e que seguem essas idéias com mais afinco. Assim, extremista não quer dizer violento e repressivo (a não ser sua idéia extremada implique em violência e repressão), tal como centrista não quer dizer moderado e democrático.

Ser centrista é seguir idéias de Direita e de Esquerda em número parecido, não importando quais sejam essas idéias. Todo mundo tem alguma idéia do pólo oposto que adota para si. Sou de Direita, mas concordo com uma coisa ou outra de Esquerda. Isso não muda em nada minha posição no espectro, pois a maioria esmagadora das idéias que sigo são de Direita. O mesmo serve para alguém de Esquerda que concorda com uma coisa ou outra de Direita. Isso é normal. Contudo, o centrista é aquele que concorda com muitas posturas da Direita e muitas posturas da Esquerda, o que o tira de ambos os pólos, deixando-o no centro.

Deve-se ressaltar ainda, que um centrista não tem um perfil definido. Justamente por ter idéias de ambos os pólos, há uma maior flexibilidade. Um centrista pode ser bem diferente de outro, em função disso. Um pode ser anticomunista, mas crer na intervenção estatal. Outro pode ser contra a legalização da venda de armas, mas a favor de um governo que intervenha pouco. Outro já pode ser a favor de um governo muito intervencionista, mas também a favor da legalização das armas. É claro que só essas características não definem se uma pessoa é de Centro. Entretanto, o que quero mostrar é que, diferentemente de esquerdistas e direitistas, os centristas formam um grupo muito mais amplo e heterogêneo.

Aí entra a questão das ditaduras centristas. O termo pode causar estranheza, mas por que não seria possível uma ditadura centrista? Se já vimos que centrismo nada tem a ver com moderação de violência, não faz sentido achar que há contradição entre esses dois termos. De fato, procurando por alguém que pensasse parecido comigo, encontrei um belo artigo do senhor Plínio Corrêa de Oliveira, intitulado “Ditatorialismo Publicitário Centrista” [2]. Embora, o artigo não tenha como objetivo principal definir o que é o centrismo político, ele lança uma tremenda luz sobre o tema. Diz a introdução do artigo:

A dignidade da abertura consiste na neutralidade. Com efeito, ela é o contrário da ditadura. E esta última não consiste em fechamento para todos, mas sim para um dos lados do tabuleiro político. Isto é, abertura para o lado em que se encontra o Poder, e fechamento para os que discordam do Poder. Não vem ao caso se a abertura é para a esquerda e o fechamento para a direita, ou vice-versa o contrário. Não é o colorido político do ditador que caracteriza a ditadura. E, por isto mesmo, a palavra ditadura se aplica tanto aos governos que fazem fechamento para a direita quanto aos que o fazem para a esquerda: “ditadura de direita”, “ditadura de esquerda” são expressões que se encontram a qualquer momento em todos os lábios, se lêem em todos os jornais e se ouvem em todos os rádios e televisões.

Reduzindo a essa clareza elementar e óbvia conceitos já tão conhecidos, tenho a intenção de levar ao último grau da evidência a relação entre neutralidade e abertura. Uma abertura não neutra – disfarce-se como se queira – não é senão uma ditadura. As correntes de pensamento e os órgãos de comunicação social favoráveis à abertura lucrariam muito tendo continuamente em vista esta verdade tão elementar.

Digo-o especialmente com referência a personalidades, emissoras e folhas que se ufanam de intitular-se centristas. Pois mais de uma vez violam a neutralidade “aberturista”, julgando que ficam a salvo da pecha de ditatoriais pelo simples fato de usarem a etiqueta de centrista. Como se uma ditadura centrista constituísse uma contradição nos termos.

A mais ligeira análise revela ser isto inexato. Se um governo, para executar seu programa centrista, praticasse um fechamento tanto para a direita quanto para a esquerda, ele apresentaria evidentemente a grande característica ditatorial, a qual consiste em trancar a voz dos discordantes.

E não se julgue que a hipótese de uma ditadura centrista constitua uma quimera, um simples ente de razão. Para prová-lo, cito um exemplo histórico característico. Em função da política interna da França de seu tempo, Napoleão foi essencialmente um centrista. A França estava então esquartejada em duas facções irredutíveis: os republicanos e os monarquistas partidários dos Bourbons. Instalado no poder, o Corso perseguiu e reduziu ao silêncio os líderes de uma e outra França. E, pela força bruta, impôs seu regime centrista, mescla violentamente contraditória de vulgaridade revolucionária e de aparato régio, justapostos pelas garras da águia imperial nimbada de glória militar. No tempo, era esta a forma praticável de centrismo. De centrismo ditatorial.

Embora, Plínio utilize as palavras Direita e Esquerda, neste artigo, como termos mais contextuais (como se Direita e Esquerda sempre fossem duas facções opostas entre si, em determinado contexto, não importando a ideologia que sigam), o artigo é maravilhoso. Ele mostra de maneira muito clara que (1) ser centrista é ter características tanto de Direita como de Esquerda e que (2) ser um ditador centrista é se fechar tanto para um lado como para o outro, afinal, quem não é de nenhum dos lados, não cumpre a agenda de ninguém.

Pois bem, é exatamente isso que o período ditatorial do Brasil fez. Ele procurou calar a voz da Esquerda, mas agiu como esquerdista ao fortalecer estatais e colocar o governo como gestor da vida individual e do progresso. Ele agiu como direitista ao criar uma cultura de conservadorismo moral-religioso e tentar abrir o mercado brasileiro para indústrias estrangeiras, mas rechaçou uma política mais direitista, que minimizasse a ação do governo na economia e na vida das pessoas, deixando o mercado mais livre e respeitando o individualismo.

Se tal regime foi de Centro-Direita ou de Centro-Esquerda, só uma análise mais profunda de suas diversas características pode nos dizer. Tenho para mim que em sua maior parte, a ditadura do Brasil foi de Centro-Esquerda, diferentemente da ditadura de Pinochet, no Chile, que pode ter sido de Centro-Direita (ou de Direita, talvez).

Quanto a outros representantes do Centro, podemos mencionar o ex-presidente FHC e seu partido, o PSDB. A Social-Democracia é originalmente de Esquerda (uma Esquerda moderada), mas, a depender do contexto, pode se deslocar para o Centro, tornando-se um governo de Centro-Esquerda (como no caso do PSDB mesmo). Entretanto, a Social-Democracia quase sempre é mais bem enquadrada na Esquerda.

O DEM é um partido de Centro que às vezes se desloca para Centro-Direita, por ter alguns integrantes com propostas liberais. Entretanto, o vício esquerdista do nosso país coopta este partido para Centro-Esquerda na maioria das vezes. Recentemente, seu deputado Rodrigo Maia se candidatou à prefeitura do Rio. Suas propostas não tinham nada que o diferisse de propostas do PSDB e PMDB (este último, também de Centro e Centro-Esquerda).

O PT é de Esquerda. Sempre foi. Sempre será. Mas, estando no poder, é muito difícil um partido, de Esquerda ou de Direita, não se deslocar ao menos um pouco em direção ao Centro. Primeiro, em função da pressão da oposição. Segundo, em função da necessidade de ser pragmático às vezes. E, por fim, por causa da mídia. A mídia é e sempre foi centrista. Porque tanto a visão extrema da Esquerda como a visão extrema da Direita são prejudiciais aos interesses das grandes empresas midiáticas. Nenhum grande empresário da mídia quer um governo comunista, porque sua empresa vai rodar. Mas também nenhum grande empresário da mídia quer um governo laissez-faire, pois a concorrência vai aumentar (e ela pode engolir sua empresa).

Com relação à política dos EUA, muitos costumam a dizer que lá não existe uma Direita e uma Esquerda; que o partido Republicano e o partido Democrata são ambos de Centro. Mas a verdade é que a luta entre Direita e Esquerda nos EUA é uma das mais visíveis do mundo. Os dois partidos são sim de Esquerda e Direita. Agora, é claro que no interior de cada partido existem políticos que são mais extremos e políticos que são mais centristas. Um político pode mudar para o pólo contrário, entrando em contradição com a ideologia do próprio partido. Mas isso, penso, é mais raro. Creio ser mais fácil passar do extremo de seu pólo para o Centro. E como a mídia é muito centrista, então é comum que, ao chegar ao poder, muitos políticos ajam de um modo parecido, embora de pólos opostos.

Por fim, o nacional socialismo alemão (nazismo), o fascismo italiano, fascismo espanhol (franquismo) e o populismo getulista no Brasil, não são de Direita. O nazismo é indubitavelmente de Esquerda, tanto por sua plataforma teórica, como pelo que fez na prática. O fascismo italiano teve diferentes fases. Como Mussolini era um político bem pragmático, podemos dizer que em alguns momentos sua política foi de Centro-Direita e em outros, de Esquerda. Contudo, o conjunto da obra não nos permite apontar o fascismo de Mussolini como um regime de Direita.

O franquismo, por zelar por uma aparência conservadora, no âmbito moral religioso, talvez tenha chegado a ser de Centro-Direita em alguns momentos. Mas dificilmente poderia ser chamado de regime de Direita, já que o fascismo não é um regime de Direita em sua essência. O populismo getulista, por fim, não só foi de Esquerda como é um dos melhores exemplos de como um ditador de Esquerda pode ser um exímio estrategista, conseguindo conter as tensões entre diversos grupos de interesse e manter uma imagem positiva com o povo. A política de Getúlio é uma coluna para ditadores como o falecido Hugo Chávez, Evo Moralez e Cristina Kirchner.

Conclusão
Esta postagem ficou maior do que eu gostaria que ficasse. E o pior é que alguns assuntos foram apenas pincelados, já que merecem postagens individuais. Mas creio que consegui mostrar um panorama geral de uma definição concreta, fixa, lógica e historicamente coerente de Direita e Esquerda. A idéia foi mostrar que existem acepções dos termos que são falhas, e que há mistura entre acepções diferentes, o que gera incoerências nas definições.

Não intentei provar que sei mais. Apenas desejei dar minha contribuição sobre um assunto que julgo interessante. Talvez eu tenha errado em algum ponto, mas busquei não me afastar da lógica. Por fim, não intentei ofender Rodrigo Viana e Felipe Renan, cujos textos acompanho e admiro. A discussão aqui visa somente uma livre, construtiva e saudável troca de idéias. Só isso.


Notas:
[1] Uma crítica possível e que não tratei no texto é a de que o anarquismo não pode ser de Direita porque seria muito incoerente colocar Anarco-Capitalistas e Conservadores direitistas lado a lado. De fato, um Anarco-Capitalista não pode ser um Conservador (e vice-versa), já que o conservador preza pelas instituições antigas e uma das instituições mais antigas do mundo é justamente o Estado, o qual o Anarco-Capitalista deseja tirar de cena. Entretanto, acredito que mesmo o Anarco-Capitalista não sendo Conservador, ele apresenta idéias conservadoras que estão entranhadas no liberalismo. Idéias como o pessimismo antropológico (que é base das religiões tradicionais, inclusive); o respeito à religião; a visão de que os seres humanos são diferentes e que, por isso, é normal haver diferença de resultados na vida; a responsabilização do indivíduo pelos seus atos; uma moral não-relativista; a valorização da coletividade espontânea; o direito de escolha; e até mesmo a valorização das instituições, já que, embora o Anarco-Capitalista queira acabar com o Estado, ele não se opõe às demais instituições, apenas quer que tudo passe a ser propriedade privada. Em vista disso, é plausível dizer que o Anarco-Capitalista não está tão distante do Conservador. Pelo menos, ele está mais perto do Conservador do que dos esquerdistas.

[2] Oliveira, Plínio Corrêa de. Ditatorialismo Publicitário Centrista. São Paulo: Folha de São Paulo (09/08/83). Presente no link abaixo:
http://www.pliniocorreadeoliveira.info/MAN_19830809_Ditatorialismopublicitariocentrista.htm

Leituras Recomendadas:
1. Ayan, Luciano. Reacionários e Conservadores de Esquerda?! Claro que sim! São Paulo: Blog do Luciano Ayan (2012). Presente no link abaixo:
http://lucianoayan.com/2012/09/27/reacionarios-e-conservadores-de-esquerda-claro-que-sim/
2. Ayan, Luciano. Será o Nazismo de extrema-direita? Not so fast, Junior… São Paulo: Blog do Luciano Ayan (2012). Presente no link abaixo:
http://lucianoayan.com/2012/07/15/sera-o-nazismo-de-extrema-direita-not-so-fast-junior/
3. Goldberg, Jonah. Fascismo de Esquerda. Editora Record, 2009.
4. Kuehnelt-Leddihn, Erik. Leftism Revisited. Regnery Pub, 1991 (Segunda Edição).
5. Gregor, Antony James. Marxism, Fascism and Totalitarianism: Chapters in the Intel-lectual History of Radicalism. Stanford University Press, 2008.<

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Autor: Davi Caldas

"Grita na rua a Sabedoria, nas praças, levanta a voz; do alto dos muros clama, à entrada das portas e nas cidades profere as suas palavras: 'Até quando, ó néscios, amareis a necedade? E vós, escarnecedores, desejareis o escárnio? E vós, loucos, aborrecereis o conhecimento? Atentai para a minha repreensão; eis que derramarei copiosamente o meu espírito e vos farei saber as minhas palavras. 'Mas porque clamei, e vós recusastes; porque estendi a mão, e não houve quem atendesse; antes, rejeitastes todo o meu conselho e não quisestes a minha repreensão; também eu me rirei na vossa desventura, e, em vindo o vosso terror, eu zombarei, em vindo o vosso terror como a tempestade, em vindo a vossa perdição como o redemoinho, quando vos chegar o aperto e a angústia. 'Então, me invocarão, mas eu não responderei; procurar-me-ão, porém não me hão de achar. Porquanto aborreceram o conhecimento e não preferiram o temor do Senhor; não quiseram o meu conselho e desprezaram toda a minha repreensão. Portanto, comerão do fruto do seu procedimento e dos seus próprios conselhos se fartarão. 'Os néscios são mortos por seu desvio, e aos loucos a sua impressão de bem- estar os leva à perdição. Mas o que me der ouvidos habitará seguro, tranquilo e sem temor do mal'" (Provérbios 1:20-33).

9 comentários em “Babilônia Política”

  1. Davi Caldas

    Não, eu não sou um administrador do Direitas Já, apenas um colaborador. A administração é do criador, Renan. Sobre a “ironia”, ela é simples: eu sou um liberal e, dado esta minha posição, eu não sou um direitista. Não enxergo o Liberalismo como corrente da Direita do modo teórico quanto do histórico. Comentei isso no meu artigo mas acho que não deixei muito claro. Por que eu colaboro em um blog direitista? Bem, porque o Liberalismo pode conter certas posições e valores que a Direita concorda. E como me identifico com tais valores, escrevo aqui. Apenas isso. Enfim.

    Antes de começar, digo aqui a raiz de todo o erro sistemático de sua análise: a questão da cosmovisão das vertentes do que seria a Direita e Esquerda. Pois bem, corretamente você acertou em dizer que o Pessimismo Antropológico é uma característica primária da Direita e o Otimismo Antropológico da Esquerda. Só que o Liberalismo NÃO FAZ PARTE da tradição pessimista mas da otimista. O Liberalismo foi a legítima e primeira Esquerda contra a então Direita. Vou explicar isso depois.

    O texto que coloquei do Renan serve apenas como apoio em enxergar diferentes disposições políticas. A significância dos termo usados no texto do Renan (reacionário, moderado, etc.) não são os mesmo do meu adotado. Por isso que explique cada um dos termos ao meu modo.
    É importante dizer que esse modelo de mentalidade do meu texto serve apenas pra visualizar questões referente a pré-disposição POLÍTICA de cada ideologia partindo de sua raiz. Não serve pra demonstrar questões referentes a filosofia, epistemologia, sociologia, nada. Ela nada mais é que a manifestação de como será o resultado partindo de seus princípios filosóficos de cada corrente.

    O seu exemplo sobre a questão socio-política brasileira não cabe aqui. E porque?
    Dado que vivemos num país de cultura bem esquerdizada, um conservador vai utilizar de métodos “reformadores” para implantar o seu modo de visão política. Mas essa “reforma” não pode, e não deve, ser vista como a “reforma” de um progressista. São de características basilares extremamente opostas. O conservador vai utilizar de métodos que retorne ao modo de vida antes tirado e a natureza de sua “reforma” não é pra mudança para algo novo, mas para o retorno do antigo. A sua reforma é de característica de REAÇÃO em retorno as raízes, aos fundamentos do princípio da sociedade.
    Nesse cenário político, tanto faz se uma reforma conservadora de reação seja moderada ou abrupta, desde que retorne às suas fundamentações teóricas. O que precisa ser entendido é que não é o tipo de ação em si, mas a ideia que possibilita tal ação. A ação por si só é vazia, o que diz é o corpo que caracteriza tal ação.
    Um grande exemplo disso foi a questão do Golpe Militar. Foi a Direita que, através de uma atitude radical, se levantou e implantou tal ação radical. Contudo a natureza dessa ação foi de reação e não de revolução contra as tradições e instituições vigentes.

    A “ambiguidade” que você diz não existe. Como liberal, eu claramente não pertenço a Direita. Como liberal, sou o opositor do Conservadorismo, a verdadeira Direita. Historicamente e teoricamente sou a Esquerda. Mas para uma apresentação de caráter didática nesta resposta, não me ponho na Esquerda para não confundir o Liberalismo com o Socialismo.

    No parágrafo onde você diz “Esse exemplo sobre o liberalismo não diz absolutamente nada porque, como já mostrei, não faz sentido dizer que a mentalidade moderada… ” já foi explicada em parágrafos anteriores.

    Anarquismo não é e nunca será de caráter direitista. Retomando a questão da cosmovisão da premissa de onde parte todo o erro de seu texto. Você não entendeu que o Liberalismo não é baseado no pessimismo, mas no Otimismo Antropológico.
    Entende porque o Liberalismo não é direitista? Liberalismo é fruto da visão moderna de como entender a sociedade politicamente. Ele está enraizado junto com o Socialismo no Iluminismo Francês. Eu comentei isso, de modo não tanto profundo no meu texto.
    Como agente transformador social, o Liberalismo é uma ideia revolucionária assim como o Socialismo. O Liberalismo é um destruidor daquilo que não se encaixa na razão. Tradições, quando postas a luz liberal, caem por terra quando colide com a razão. O Direito Divino dos monarcas foi isso.
    Como disse, tanto o Liberalismo quanto o Socialismo possuem em seu germe uma ação de mudança constante visando um futuro hipotético. Não existe um futuro hipotético para o conservador. Nisso, tanto o Liberalismo quanto o Socialismo seriam como “primos brigados” em contraste ao Conservadorismo. A grande diferença é que o otimismo dos dois possuem diferenças gritantes e, por isso, provocam resultados ímpares.
    Mas voltando ao Anarquismo, essa corrente é a contemplação revolucionária da ordem atual baseada no estado. Se o Liberalismo derrubou a Antiga Ordem absolutista através de suas ações transformadoras na raiz do pensamento anterior, o anarquismo vai ainda mais longe. Não há a menor possibilidade de existir um “anarquismo conservador” ou “anarquismo direitista”.

    Dado essa interpretação equivocada em por o Liberalismo como fruto do Pessimismo Antropológico, acho que não necessita de falar muita coisa sobre o resultado gerado. Apenas que vale observar que o Otimismo Antropológico do Liberalismo possui uma característica que o coloca bem distante do Otimismo Socialista: o reconhecimento de que o uso da razão é imperfeita. Por isso que a liberdade é importante em fazer com que a sociedade, pouco a pouco, se adapte a fenômenos de mudança social. A razão pura na sociedade está muito mais ligada ao Socialismo. Por isso que, mesmo que um liberal acredite na “barbárie intrínseca” do ser humano (não uso o termo ‘mal’ pois carrega valores dispares), há o fator da razão que o faz ter essa característica otimista. É a luz secular, racional que trás consigo um novo olhar para o mundo. De agir para mudar o ambiente em que vive para aumentar, cada vez mais, a “tão sonhada” liberdade. O Anarco-capitalismo é esse resultado em levar até as últimas consequências esse otimismo. E se tratando de um anarquista, ele quebra esse vínculo hobbesiano que existe fortemente no Conservadorismo.

    Continuando, sendo o Conservadorismo o opositor histórico do Liberalismo, anarco-capitalistas seguem a mesma regra contra conservadores. Não há diferença nisso. E partindo que o Liberalismo pode adotar facetas mais próximas da Direita ou Esquerda socialista, há linhagens de anarco-capitalistas ferrenhamente opositoras da Direita, tendo a Esquerda como sua aliada mais próxima.

    O que eu entendo sobre Conservadorismo Europeu é o atual pensamento conservador filhote direito dos Absolutistas. Como já disse, é importante entender não apenas as questões teóricas como históricas do cenário político europeu e americano. Vou fazer uma breve exposição disso.

    A Inglaterra sofreu uma divisão histórica através da Revolução Gloriosa. Tal revolução foi fundamental pra finalizar a Antiga Ordem absolutista/ feudal para a Nova Ordem da Democracia Liberal. Este acontecimento marcou as instituições políticas desse país para que nele viessem os primeiros grupos pró-liberdade e liberais.
    Os conservadores ingleses se dividiram entre os que defendiam restrições aos poderes dos monarcas e os que apregoavam sua manutenção. Dessa divisão, surgiu os conservadores estatistas e os conservadores pró-liberdade, além dos liberais.

    Outro ponto: foram as ideias dos conservadores pró-liberdade e dos liberais que fomentaram a visão de sociedade nos EUA. Vale ressaltar que os EUA nunca passou pelo feudalismo nem pelo absolutismo.

    Com a Europa Continental o processo histórico foi diferente. Nunca houve uma reformulação social como houve na Inglaterra. De modo que tais países saltaram do Absolutismo para a Democracia Liberal sem antes passar por reformas profundas de liberdade. Isso acarretou que as instituições europeias mudaram e se adequarem a Nova Ordem porém mantendo muito da sua estrutura social quando era na sociedade feudal. Isso foi quebrado em partes na Inglaterra e nos EUA, claro, tal fato é desconhecido.

    As instituições tradicionais da Europa continental continuaram sendo defendida pelos seus conservadores de modo estatista, corporativista e intervencionista dado que estes conservadores não absorveram realmente a ideia da liberdade. Não houve tal processo histórico. Isso é claramente percebido quando se analisa o Conservadorismo contemporâneo português, francês, alemão, espanhol e etc.
    Na Inglaterra houve essa ruptura e o pensamento conservador se dividiu numa propensão mais estatista e outra pró-liberdade e nos EUA apenas mantiveram a versão pró-liberdade.

    Entendido o processo histórico, cabe agora a analisar o âmago do Conservadorismo. Tanto a sua vertente mais coletivista e/ou estatista e mais individualista e/ ou pró-liberdade possuem as mesmas características em serem contrários a mudanças e modernismo, Pessimismo Antropológico, visão orgânica de sociedade, defesa rígida de um hierarquia através da ordem e tudo mais. Os absolutistas, direitistas da época, possuem todas essas características do qual passaram aos conservadores europeus atuais. A diferença é que suas visões políticas estão adequadas ao modelo político de Democracia Liberal.
    Por que os EUA possuem um Conservadorismo de caráter político diferente? Ora, porque a tradição conservadora americana é baseada na vertente pró-liberdade. Mas os dois são conservadores legítimos por conterem as mesmas características. A pré-disposição, o âmago entre as duas vertentes é a mesma.

    Uma correção: eu não coloco conservadores burkeanos juntos com liberais. Os dois possuem uma natureza completamente diferente já explicado no início.

    Sobre as citações de nomes conservadores da época da Antiga Ordem, já comentei nos parágrafos anteriores sobre esses conservadores. Não há diferença de natureza entre conservadores clássicos e atuais.

    Benjamin Disraeli foi um teórico dos mais importantes do Conservadorismo anglo-saxão, sendo, inclusive, o fundador do moderno Partido Conservador britânico. Sua linhagem conservadora refletia a visão dos antigos tories ingleses desde a época do Absolutismo, porém adequado ao modo de vida política da já instaurada Democracia Liberal.
    Algo que deve ser mencionado é que dado que a Inglaterra manteve muito de sua estrutura feudal com o fim da Antiga Ordem, mesmo com a Revolução Gloriosa, este tipo de conservador estatista tipicamente europeu se manteve e é forte na tradição britânica. O legado disraeliano continua vivo hoje tanto através da facção One Nation Conservative do Partido Conservador britânico quanto da grande influência para com os teóricos conservadores ingleses. Há absolutamente nada de “questionável” sobre seu direitismo.

    Você comete uma confusão gigantesca ao relativizar o pensamento conservador. Conservadorismo possui ideias e características próprias e distintas. Só há um tipo de conservador: o que está encaixado dentro dessa visão. Logo, não existe “conservador liberal” ou “conservador socialista”.
    E o simples ato de conservar, a ação, é vazia por si. O que caracteriza tal ação é a disposição em que ela se baseia. Se uma nação está dentro do cenário socialista e existe tais grupos que desejam a manutenção desse sistema, de forma alguma tais pessoas possa ser chamadas de conservadores. Isso não faz o menor sentido. Através de uma semântica se destrói toda a etimologia do termo.

    E onde estaria a inconsistência da Direita? Ora, nas questões políticas principalmente. O Conservadorismo é um só mas suas vertentes diferentes configuram inconsistências apenas superficialmente. Toda ideologia política sofre disso, é completamente natural. Há diferentes vertentes do Liberalismo mas todo convergem para uma única natureza.

    O Iluminismo Francês influenciou muito pouco o Conservadorismo burkeano justamente por conter aquilo que o Conservadorismo não apoia: o Otimismo Antropológico, sua visão secular e seu uso da razão, por exempo. O Iluminismo não criou a Direita, mas a Esquerda (utilizando a visão histórica e teórica de modo correto, o Liberalismo é parte legítimo do esquerdismo).
    Resultado: Burke é direitista mas Tocqueville e Bastiat não. Relembrando: Bastiat estava à esquerda dos conservadores. Um otimista, portanto, um destruidor da ordem social então vigente assim como socialistas e anarquistas.

    A proximidade da Direita americana na Europa, levando considerações históricas, seria o Conservadorismo pró-liberdade britânico. Tal grupo seria chamado de paleoconservadores dentro do cenário americano. Porém atualmente o a Direita americana mudou muito e a sua vertente neoconservadora está mais próxima da versão conservadora europeia estatista. Comentei sobre isso através dos processos históricos e teóricos em parágrafos atrás.

    O termo “socialismo de Direita” é apenas pra demonstrar o caráter coletivista que a Direita clássica possui. Não deve ser confundido com o socialismo dos utópicos ou marxistas, por exemplo. Suas naturezas estão em extremidade. Um utiliza o coletivismo para a manutenção do status quo, o outro, para a destruição do status quo.

    Anarquismo possui uma divisão principal: de caráter coletivista e individualista. É baseado nestes conceitos onde se nasce toda a teoria política. O único espectro onde essa teoria política, de caráter otimista, poderia estar estar é apenas na esquerda, independente de sua natureza coletivista ou individualista. Como disse, não existe anarquismo de direita.

    Comentando, quem nasceu no processo iluminista foi a Esquerda (incluindo o Liberalismo). A Direita é a que se manteve, apesar do Iluminismo, como oposição às reformas. Porém o Conservadorismo antecede a tais disputas. Sua visão de sociedade existia antes do Iluminismo e foi colocada a prova justamente por Iluministas. O que veio depois do Iluminismo foram meras divisões formais.
    Perceba que o Liberalismo só foi tachado de “direitista” por conta dos primeiros marxistas. Estes homens, utilizando de falsidade ideológica, colocaram todo o espectro anti-socialista como “direitista”. Antes disso não havia dúvidas de que o Liberalismo não fazia parte da Direita.

    Passando brevemente sobre tuas posições sobre diferentes formas de Direita X Esquerda, comento:

    O Absolutismo foi apenas uma teoria política da época adotada pelos conservadores absolutistas, direitistas da época. Teorias políticas mudam mas a natureza que dá corpo a essas políticas não. Então tais conservadores de ontem são os mesmo de hoje. Já disse isso anteriormente.

    Burke não era um radical, era um reformador tendo em base o pensamento que caracteriza um conservador. O Liberalismo e o Socialismo são ideologias revolucionárias, de mudança permanente. Contexto político muda mas não a natureza que dá corpo a seus resultados. Também já comentado.

    A Direita é o Status Quo em sentido de que esse status quo seja os valores tradicionais de base da sociedade. Se a sociedade já não possui tais valores, sua luta é para resgatar o status quo perdido e não manter, supondo, a estrutura atual já mudada.

    Dependendo do contexto, ter a Direita como defensora de elites faz parte da história da Direita. Foi a direita a defensora das elites feudais, clericais de ontem e da elite empresarial e de senhores de terras hoje. O conservadorismo brasileiro clássico, de épocas de nosso governo imperial, possuía muito disso. Mas justiça seja feita: não quer dizer que toda a Direita aprova tais coisas. Porém quem não aprova de modo algum tais questões são os tradicionais opositores do conservadorismo, os liberais e socialistas.

    Sobre em dizer que absolutistas não eram a Direita da época referente em ser contrários aos socialistas, liberais e anarquistas, isso já foi mencionando.

    Bastiat não era a Direita. Era um iluminista liberal sentado à esquerda do monarca. Bastiat não apenas confronta os valores políticos dos absolutistas como a natureza dos absolutistas que vinha do Conservadorismo. Também já comentado.

    No cenário da Revolução Gloriosa, Burke seria o centro. Entendendo que ele era opositor das políticas que compunham o absolutismo, a natureza do qual vinha suas ideias era semelhante aos absolutistas. Era o modo de aplicação, influenciado pelos liberais, que diferia sua posição baseada num tipo de utilitarismo. E os liberais eram a esquerda da época, a oposição até mesmo dos burkeanos, onde tinham a razão como principal instrumento.

    Eu não afirmei que o Fascismo era a Direita, embora eu reconheça a influência da mesma. Mas a verdade é que o Fascismo foi altamente influenciado pelo Conservadorismo alemão. Porém possui ideias distintas que se adéqua também a Esquerda. Como é uma ideologia autoritária, sua divisão entre esquerda e direita é quase que insolúvel. Estou com Nolan, nestes casos a melhor colocação é entre estatismo/ autoritarismo.

    No artigo, eu não disse que houve governo de Direita no Brasil. Disse que a fomentação do golpe foi indiscutivelmente da Direita. Os governos militares possuem claramente uma inclinação direitista porém há desvirtuações dada sua natureza positivista. É um híbrido entre a Direita e o revolucionário, coisa que também há no Fascismo.

    Sobre a imprecisão dos diversos termos “reformador”, “reacionário” e tal, já foi comentado.

    Para finalizar recomendo ler o ensaio “Direita e Esquerda, Perspectiva para a Liberdade” de Murray Rothbard que está disponível para baixar site do Instituto Mises. Esse pequeno livro contém a base para entender o conceito de Esquerda X Direita e Liberalismo, Socialismo e Conservadorismo que causa tanta confusão. Dá uma boa clareada.

    Na questão que toca o Conservadorismo e Absolutismo, recomendo trocar ideias com o Hassan, colaborador aqui do blog. De longe, ele é a melhor pessoa que tenho contato que possua uma bagagem para tirar suas dúvidas a cerca desses assuntos.

    Por fim, deixo o convite para me adicionar no Facebook para conversarmos mais. Clicando no link que leva o meu nome entre os colaboradores do blog, há o link para a minha página.

    Até mais.

    1. Ressaltando alguns pontos em que discordo do Rodrigo:
      1) O liberalismo não nasceu do otimismo antropológico iluminsta francês (por exemplo, o de Rousseau). É fruto do pensamento inglês de John Locke, de um iluminismo que é praticamente um século mais velho que o francês, tendo seu início em pessoas do cunho de Spinoza, Bayle, Newton e Voltaire. Locke, o seu fundador, tampouco era um racionalista: Locke era um empirista que seguiu a tradição de Francis Bacon. Se o pensamento de Locke é antropogicamente otimista ou pessimista, cabe a discussão. O próprio Rodrigo admite que os liberais não tem fé numa razão pura e perfeita, e isto por si só já demonstra que eles não são racionalistas. A razão é um instrumento de análise da realidade, que é captada através dos sentidos. É por isso que pós-modernismo e positivismo ético só são palatáveis para a esquerda, mas não para a direita (e consequentemente, não para o liberalismo da direita).

      Quanto ao caráter progressista do liberalismo, que é citado pelo Rodrigo como evidência de seu inicial esquerdismo, devo dizer que sim, que o liberalismo é de fato uma ideologia progressista. Porém, isto por si só não o torna uma ideologia de esquerda, uma vez que uma disposição política (progressismo, conservadorismo, reacionarismo, etc) por si só não determina a que espectro político uma determinada filosofia pertence. Um estalinista na Rússia contemporânea é um reacionário, ao passo que um estalinista nos EUA é um revolucionário e ambos são de esquerda, por exemplo.

      2) O Rodrigo afirma que o liberalismo não pode ser de direita porque é fruto da moderna visão de mundo que os iluministas trouxeram em contraposição ao antigo regime absolutista. O Davi demonstrou que tanto direita quanto esquerda são frutos da moderna visão de mundo dos iluministas, e que não fazem sentido em um regime absolutista. Não faz sentido, pra mim, falar em uma direita que existia antes da esquerda e vice-versa. Ou ambas sempre existiram na política, ou ambas surgem concomitantemente em um cenário político onde uma maior pluralidade (de dois) se tornou possível.

      3) É impossível negar teoricamente algo que já existe praticamente. O anarquismo de direita existe, mesmo que seja o de extrema-“direita” como é o caso do anarco-fascismo, do anarco-nacionalismo, do anarco-strasserismo, etc. O anarquismo, o minarquismo, o autoritarismo, o totalitarismo dizem respeito ao quanto de poder se cede ao Estado, mas não o projeto político que se pretende implantar através dele, apesar dele ou contra ele.

      4) Ao negar que a Direita tenha nascido do Iluminismo, Rodrigo parece assumir que o único Iluminismo que existe é o francês – este, sem dúvida, pai do pai do esquerdismo (Rousseau). Esquece também que quem influenciou o iluminismo americano foram as idéias dos ingleses e escoceses (existe Iluminismo Inglês e Iluminismo Escocês, também), principalmente John Locke, David Hume (influência de James Madison) e Thomas Paine – cujo apoio a Rev. Francesa ficou limitado aos moderados girondinos, prontamente massacrados pelos jacobinos.

      Deve-se ter em mente alguns fatores, como por exemplo, o fato de que o pensamento moderno e liberal nasceu na Inglaterra e não na França, o fato de que a Inglaterra teve a sua grande revolução liberal antes da França, que sentiu o peso de uma ditadura republicana também antes da França, o fato de que a Inglaterra . Tudo isso contribui para a formação de um liberalismo bem menos “otimista e racionalista” do que aquele que explodiu na França. Diferente do que houve na França, com a radical perseguição anticlerical, o protestantismo inglês levou a uma luta por maior liberdade religiosa – embora anticatólica no princípio. O próprio Burke foi um dos defensores da liberdade religiosa para os católicos, a serem incluídos no Act of Toleration de 1689. Isto em praticamente nada se assemelha com as religiões racionalistas/humanistas propostas pelos franceses, do qual Comte viria a ser um grande expoente posterior.

      5) Também parece esquecer que este mesmo suposto “pai da esquerda” caminhou de mãos dadas com o que ele chamou de direita: o absolutismo. O termo “déspota esclarecido” ou “déspota iluminado” não existe à toa: o Absolutismo serviu-se também do Iluminismo para impôr reformas bastante “progressistas” sob o jugo de pessoas como Frederico o Grande da Prússia, Catarina da Rússia e Marquês de Pombal. Isso torna o absolutismo de esquerda? Não, porque ele é anterior à esquerda. Isso torna o iluminismo de direita? Não, porque o absolutismo não é de direita. É uma frase de transição entre um mundo ‘monofásico’ absolutista e a nova política ‘bifásica’ e partidária com esquerda e direita. A explicação do Davi faz, realmente, muito mais sentido.

      1. Renan

        Sobre o Iluminismo Francês, eu acabei exaltando esse movimento, pondo muito em evidência e deixando de lado o movimento precursor mais importante de toda a filosofia liberal: o Iluminismo Escocês (tá, tem o inglês também rsrs). Corrigindo então a minha reposta, o Liberalismo está enraizado nesse iluminismo, e não no francês. Ele apenas tomou pra si certas ideias que o Iluminismo Francês ofereceu. Essa sua observação foi importante.

        Sobre a questão de Direita e Esquerda, ainda mantenho a minha posição de que o Liberalismo nunca foi e não pode ser a Direita. Exceto se o Conservadorismo for extinto do cenário político em todas as suas esferas, desde teórica até pratica. Nesse caso, como o Liberalismo é a ideologia política que está no meio do Conservadorismo e do Socialismo, se “tornaria” a Direita apenas por ocupar o lugar de uma. O que acredito que isso nunca acontecerá, é apenas um exemplo de imaginação.
        O Liberalismo foi uma voz de esperança que surgiu em um mundo de injustiça. Seu caráter progressista em visualizar um “mundo melhor” (palavras que dão pavor em conservadores) demonstra claramente o propósito revolucionário e, por assim dizer, utópico. Visando uma busca incessante pela liberdade individual e na defesa de um igualitarismo onde todos sejam tratados como qualquer outro. Não me surpreende que hoje o seu legado tenha ido tão longe ao ponto de renunciar até mesmo a existência da instituição chamada estado. Muito menos de que haja liberais tão radicais, ao ponto de ver nos socialistas libertários seus aliados, desprezando assim a aliança histórica com conservadores. Seria tudo isto um exemplo de Direita? Penso que não.
        Por muito tempo a Inglaterra foi dividida entre conservadores, liberais e socialistas e tendo cada um seus partidos de representação. E essa divisão clássica parece estar ressurgindo após o fim da Guerra Fria e de sua divisão bobinha entre “Capitalismo e Comunismo”. Os EUA parece ir bem para esse caminho.
        De fato, o surgimento entre Direita e Esquerda aparece após o surgimento de outras ideologias. Porém o que precisa ser notado é que a visão de mundo, antes do surgimento das ideologias da modernidade, era baseado no que se entende por Direita. Realmente não faz sentido dizer que existia a Direita sem ao menos ter existido a Esquerda. Mas a questão está, como eu disse, na pré-disposição da Direita que existiu até o surgimento do Liberalismo.

        Na questão de “anarquismo de Direita” estava me referindo sobre o anarquismo de cunho liberal e não de uma idéia anárquica tendo como fundamento o nacionalismo ou fascismo.

        Sobre o nascimento da Direita no Iluminismo, estava me referindo especificamente ao Iluminismo Francês. Mas essa questão não foi deixada de lado pois no meu 1o texto foi comentado que a Direita americana tradicional possui uma natureza muito diferente da Direita europeia. Mesmo que eu não tenha dito explicitamente que os movimentos Iluministas da Grã-Bretanha tenham influenciado a Direita americana.
        Novamente, a Direita europeia é fruto direto dos absolutistas e a americana dos reformadores ingleses. Reformadores estes que não abraçaram de todo o pensamento liberal. O que não quer dizer que tanto a Direita europeia quanto a americana não tenha similaridades, tem. A pré-disposição típica do Conservadorismo está calcada nas duas mas não no Liberalismo.

        Se os absolutistas eram a Direita em seu tempo e são os fundadores dessa vertente ideológica, por que eles não seriam de direitistas? O fato de defenderem políticas que soam antiquadas ao nosso tempo não desmerece as posições na época. Isso soa um tanto ilógico onde o próprio fundador de algo não possa ser considerado de tal grupo.
        Sobre influências, bem, o socialismo clássico, anterior à Marx, sempre bebeu de fontes liberais. David Ricardo, um liberal, “criou” uma vertente socialista de mercado chamada de “socialismo ricardiano”. Ora, influências vem e vão. O próprio conservadorismo moderno tem, e muito, da influência liberal e mesmo assim seu defensores não são liberais, mas conservadores. Não vejo nada de estranho no fato de absolutistas terem certas influências iluministas. O cerne do pensamento ainda era o mesmo.

        Tô falando demais, cara. Essa conversa rendeu mais do que eu esperava. =D

      2. Rodrigo
        É importante fazer esta divisão entre os Iluminismos, do contrário não se entende o que o Davi Caldas quer dizer. Se ele afirma que tanto Direita quanto Esquerda vieram do Iluminismo, não significa necessariamente que tenham vindo do mesmo Iluminismo. Eu afirmaria que a Direita vem de posições mistas do Iluminismo Inglês e do Iluminismo Escocês, empirista e adepto do governo natural, ao passo que as da Esquerda vem sobretudo do Iluminismo Francês, racionalista e crente em um Império da Razão (daí veio o positivismo). Entenderia-se a política dividida portanto em duas fases, uma absolutista (Governo Divino) e uma pós absolutista com dois matizes principais (Governo Natural e Império da Razão). Entende agora porque há uma cisão entre a Velha Política e a Nova Política? A Direita não pode ter “estado sempre lá”, um dia ter surgido a Esquerda e o que remanesceu da velha ordem ser chamado de Direita. Seria ilógico falar de uma sem a outra.

        Tanto o Conservadorismo quanto o Liberalismo partilham destas raízes comuns: o empirismo e a idéia de governo natural. Mesmo que o conservadorismo sofra algumas contaminações com teorias epistemológicas baseadas em revelação divina ou governo divino reminiscentes do período anterior, a sua base é aquela ali. As mesmas idéias que floresceram na Inglaterra criando a Direita não encontraram um cenário propício para tal na dividida sociedade francesa, como foi também o caso da Espanha e de Portugal (onde republicanos se associaram aos socialistas), mas encontram solo propício nos EUA onde, como você sabe, o feudalismo não pôs os pés.

        Sobre o anarquismo de direita, posso dizer que ele é a extensão da idéia direitista de governo natural. Plenamente compreensível, a meu ver, considerar vertentes anarquistas de direita se por anarquismo se entende a ausência de Estadouma vez que para a Direita a desigualdade e a hierarquia, de um modo ou outro, sempre existirão. As vertentes anarquistas de esquerda, pelo contrário, se baseiam no igualitarismo radical – única razão pela qual o Estado é um absurdo, para eles, é o fato de gerar desigualdade – e não na idéia de que os homens se submetem uns aos outros de livre espontânea vontade em um governo natural. Pelo contrário, os anarquistas de esquerda estão plenamente convencidos de que em um ambiente anárquico ninguém se submeterá nem por livre e espontânea vontade, e que se o fizer esta decisão será inválida.

        Sobre a distinção do Conservadorismo Continental para o Conservadorismo Inglês, vou relembrar a você que o segundo é filho pródigo do Iluminismo (inglês e escocês) “primitivo” de Locke e também do empirismo do mesmo John Locke. Se John Locke é o pai do liberalismo (tanto quanto é, até certo ponto, do Iluminismo inglês e do empirismo) e é sobre o pensamento dele que estão edificadas as bases intelectuais do conservadorismo (de Hume e Burke, por exemplo) – ceticismo político, empirismo, governo natural – não há como afirmar que estas duas linhas de pensamento estão diametralmente opostas ou tão distantes entre si que a primeira a surgir (liberalismo) deva ser considerada uma oposição aquilo que veio dela e depois dela (conservadorismo). O liberalismo não pode ter nascido como oposição ao conservadorismo porque o conservadorismo é posterior a ele. O liberalismo nasceu como oposição ao absolutismo, que é anterior tanto ao liberalismo quanto ao conservadorismo.

        Os absolutistas não poderiam ser “a direita de seu tempo” porque no seu tempo não havia nem direita nem esquerda, já que a contestação do absolutismo não era uma via política válida. Ou você obedecia o monarca ou você ia para o pelourinho, a roda do suplício, etc. Simplesmente não existia esta idéia de oposição política, organizada e legítima ao governo (fruto do pensamento de John Locke): a oposição era um crime equivalente ao da traição, do terrorismo, etc.

      3. Renan

        Apenas pra terminar esse assunto, digo que o Conservadorismo não é filho do Iluminismo que houve na Grã-Bretanha. Sofreu influências mas não é filho. O Conservadorismo inglês é fruto das ideias vindouras através de todas as suas experiências do passado. Por isso ele sequer é uma ideologia por que não vive de construções idealizadoras.
        O Conservadorismo se modernizou, tomou ideias novas sobre si mas ainda é o mesmo defensor do status quo de sempre. Se fosse filho direto desse iluminismo que existiu, não seria conservador mas liberal. As diferenças da natureza entre essas duas vertentes são gigantes e não se pode colocar como algo próximo. Não é.

        Diferente do Liberalismo, que é uma ideologia baseada numa filosofia racional, chegando ao ponto de renegar o passado quando este não se apoia em uma base moral. Liberalismo é revolucionário e não pensa duas vezes em por em prática suas ideias. Se agora a ideia é de destruição do estado, então que se ponha abaixo essa instituição. Dane-se o passado, dane-se as tradições. São as ações personificadas pelas ideias. Socialistas fazem isso também, porém do seu próprio jeito.
        Um liberal não defende a propriedade privada ou a liberdade individual por mera questão de utilitarismo que se observou e perpetuou com o tempo. Não, ele se apoia numa constatação baseada na razão.

        Além do mais, o Conservadorismo moderno inglês é ainda baseado nas prescrições de um dos maiores de seus nomes, que é Disraeli. E não há nada muito “iluminador” as ideias desse homem.

        Os whigs, influenciado por iluministas britânico, não nasceram “liberais”. Adotaram posições utilitárias, gradativas e visando acordos. E tais pessoas influenciaram e muito os conservadores modernos. Age visando uma filosofia.
        Totalmente diferente, liberais se baseiam em ideias. Sua ação é pra por em prática um princípio. É a filosofia que dá corpo as ações. Essa observação é importante, separar um do outro. Nem todo whig foi um liberal.

        É o Liberalismo que coloca o ser humano como ente mais sagrado através da ideia do Individualismo. É intocável esta premissa, ele é soberano. Não existe isso no Conservadorismo porque ele é cético sobre a natureza humana e da sociedade e não idealiza as coisas. Ele evita, quando não renega, racionalizações desse tipo. Por isso que nunca que um conservador irá utilizar da razão pra defender a autonomia individual de alguém cheirar sua cocaína, por exemplo. Ele tem pavor do que isso pode acontecer num futuro. Por isso eu não posso aceitar que o Liberalismo seja visto como algo próximo daquilo que ele sempre combateu, a permanência do status quo através da ideia de que “sempre foi assim”.

        Como eu já disse anteriormente, a simples ideia de se ter posto a Antiga Ordem não faz diferença entre os antigos conservadores com os novos, principalmente dos conservadores europeus que receberam pouca influência dos movimentos iluministas. A pré-disposição pessimista ao futuro das relações sociais ou da natureza humana é e sempre continuará a mesma. A derrocada do Absolutismo foi somente uma mera renovação política. A visão de manutenção do status quo pela manutenção da ordem é a mesma. E é natural que o Conservadorismo moderno tenha recebido influência liberal, como o igualitarismo do homem como pessoa. Embora um conservador relativize tal princípio.

        O absolutistas eram a direita do seu tempo enquanto IDEIA já existente. Não poderia ser chamado de “Direita” pelo simples fato de não haver oposição. Enquanto política prática, claro que não existia tais divisões até aparecerem os opositores.
        O Conservadorismo só veio a existir, de modo formal, quando apareceram as ideias progressistas (Liberalismo e Socialismo). Mas a PRÉ-DISPOSIÇÃO de ideias na manutenção do status quo, baseado no ceticismo típico de um pessimista, já existia há muito tempo. Então foi a partir da formalização das ideias progressistas que também se formalizou a ideia de manutenção do status quo. Aquilo que viria a formar a Direita já existia porém não de modo substancial. Isso só foi vir a tona a partir das ideias que surgiram da Era Moderna. Novamente, o Liberalismo e Socialismo.

      4. Renan

        “Apenas pra terminar esse assunto, digo que o Conservadorismo não é filho do Iluminismo que houve na Grã-Bretanha. Sofreu influências mas não é filho. O Conservadorismo inglês é fruto das ideias vindouras através de todas as suas experiências do passado. Por isso ele sequer é uma ideologia por que não vive de construções idealizadoras.
        O Conservadorismo se modernizou, tomou ideias novas sobre si mas ainda é o mesmo defensor do status quo de sempre.”
        Você sabe que isto é um espantalho. Conservadorismo como “defensor do status quo” é uma definição que só se adota contextualmente. Por exemplo, se há a proposta da reforma X, aqueles que são contra ela são chamados de conservadores não importa qual seja sua orientação ideológica e é neste sentido que os absolutistas são chamados de “conservadores” nos livros de História.

        “Se fosse filho direto desse iluminismo que existiu, não seria conservador mas liberal. As diferenças da natureza entre essas duas vertentes são gigantes e não se pode colocar como algo próximo. Não é.”
        Ele não necessitar ser O liberalismo só porque tem um ancestral comum. Não sou o meu irmão só porque nascemos da mesma mãe.

        “Diferente do Liberalismo, que é uma ideologia baseada numa filosofia racional, chegando ao ponto de renegar o passado quando este não se apoia em uma base moral. Liberalismo é revolucionário e não pensa duas vezes em por em prática suas ideias.”
        O liberalismo é fundado em uma filosofia empirista, não racionalista. É a mesma dos conservadores do cunho de Burke e Hume. O liberalismo racionalista e revolucionário de que você fala deve ser outro.

        “Se agora a ideia é de destruição do estado, então que se ponha abaixo essa instituição. Dane-se o passado, dane-se as tradições. São as ações personificadas pelas ideias. Socialistas fazem isso também, porém do seu próprio jeito.”
        Não só do seu próprio jeito. Os socialistas partem de princípios diferentes, usam meios diferentes e tem fins diferentes. Os libertários atuais são contra o Estado porque creem na ordem espontânea – descendente da teoria do direito natural – não porque acham que todo mundo deveria viver em igualdade substancial como índios na Amazônia.

        “Um liberal não defende a propriedade privada ou a liberdade individual por mera questão de utilitarismo que se observou e perpetuou com o tempo. Não, ele se apoia numa constatação baseada na razão.”
        Locke, o fundador do liberalismo, parte de um ponto de vista bastante distinto deste seu. Ele defende a propriedade privada e a liberdade individual porque são moralmente corretas e fundadas naquilo que acredita ser a forma natural de governo dos homens. Ele próprio ainda carrega alguns vícios religiosos em sua argumentação ao tentar derivar suas idéias de conceitos bíblicos mas, vá lá, consegue demonstrar muito bem os seus princípios de governo natural sem apelo a autoridade divina.

        “Os whigs, influenciado por iluministas britânico, não nasceram “liberais”. Adotaram posições utilitárias, gradativas e visando acordos. E tais pessoas influenciaram e muito os conservadores modernos. Age visando uma filosofia.
        Totalmente diferente, liberais se baseiam em ideias. Sua ação é pra por em prática um princípio. É a filosofia que dá corpo as ações. Essa observação é importante, separar um do outro. Nem todo whig foi um liberal.”
        Mas um dos princípios dos liberais é justamente o utilitarismo, Rodrigo.

        “É o Liberalismo que coloca o ser humano como ente mais sagrado através da ideia do Individualismo. É intocável esta premissa, ele é soberano. Não existe isso no Conservadorismo porque ele é cético sobre a natureza humana e da sociedade e não idealiza as coisas. Ele evita, quando não renega, racionalizações desse tipo. Por isso que nunca que um conservador irá utilizar da razão pra defender a autonomia individual de alguém cheirar sua cocaína, por exemplo. Ele tem pavor do que isso pode acontecer num futuro. Por isso eu não posso aceitar que o Liberalismo seja visto como algo próximo daquilo que ele sempre combateu, a permanência do status quo através da ideia de que “sempre foi assim”.”
        Você está esquecendo que o próprio fundador do liberalismo seria contra a liberdade de usar cocaína hoje, já que ele acreditava que o indivíduo não tinha o direito de atentar contra a própria vida. O liberalismo passou por muitas transformações ao longo do tempo para chegar ao que é hoje, e você está tratando ele como é hoje como se fosse o que ele era lá na época de sua fundação no século XVII. Locke, o seu fundador, não era um racionalista, não acreditava na soberania total do indivíduo sobre si a ponto de ter o direito de se matar e acreditava piamente na obrigação dos pais de sustentar os filhos e dos filhos de honrarem os pais (o que seria rejeitado por muitos libertários modernos). Por isso digo que você está esquecendo como estas duas correntes políticas nasceram.

        “Como eu já disse anteriormente, a simples ideia de se ter posto a Antiga Ordem não faz diferença entre os antigos conservadores com os novos, principalmente dos conservadores europeus que receberam pouca influência dos movimentos iluministas. A pré-disposição pessimista ao futuro das relações sociais ou da natureza humana é e sempre continuará a mesma. A derrocada do Absolutismo foi somente uma mera renovação política. A visão de manutenção do status quo pela manutenção da ordem é a mesma. E é natural que o Conservadorismo moderno tenha recebido influência liberal, como o igualitarismo do homem como pessoa. Embora um conservador relativize tal princípio.”
        O que eu entendo é que os resquícios da Antiga Ordem e do absolutismo podem ser encontrados tanto na Direita quanto na Esquerda porque, em princípio, não são característicos de nenhum deles. Não há como negar, por exemplo, que O Contrato Social do Rousseau sirva muito bem como defesa do Absolutismo enquanto os escritos de Burke podem ser usados para atacá-lo. Burke viu tanto banho de sangue gerado pelos absolutistas (Carlos I) e pelos republicanos radicais (Cromwell) que ficou tão cético quanto ao componente humano na política a ponto de parir o Conservadorismo.

        “O absolutistas eram a direita do seu tempo enquanto IDEIA já existente. Não poderia ser chamado de “Direita” pelo simples fato de não haver oposição. Enquanto política prática, claro que não existia tais divisões até aparecerem os opositores.”
        Sim, e é por isso mesmo que não eram de Direita. As idéias absolutistas não podem ser ligadas à Direita se o mesmo julgamento não for aplicado àquelas que foram incorporadas pela Esquerda. Do contrário, você estará adotando dois pesos distintos para a mesma medida – culpando a Direita por herdar resquícios do Absolutismo, mas isentando a Esquerda do mesmo defeito.

        “O Conservadorismo só veio a existir, de modo formal, quando apareceram as ideias progressistas (Liberalismo e Socialismo). Mas a PRÉ-DISPOSIÇÃO de ideias na manutenção do status quo, baseado no ceticismo típico de um pessimista, já existia há muito tempo. Então foi a partir da formalização das ideias progressistas que também se formalizou a ideia de manutenção do status quo. Aquilo que viria a formar a Direita já existia porém não de modo substancial. Isso só foi vir a tona a partir das ideias que surgiram da Era Moderna. Novamente, o Liberalismo e Socialismo.”
        O problema desta sua análise é que segundo este ponto de vista então toda a História da Política pré-Iluminismo se resume a Direita e Conservadorismo.

  2. Rodrigo, obrigado pelo comentário. Vou aceitar sua proposta de conversarmos pelo Facebook. Entendi os seus pontos. Mas ainda acredito que não deixei algumas coisas claras. Entre elas, a questão dos termos otimismo/pessimismo antropológico, que, por erro meu, confesso, utilizei como termos “guarda-chuva” para falar sobre outras característica mais específica que, na minha visão, distingue Direita e Esquerda.

    É isso.

    Abraços.

  3. Sobre a questão dos termos pessimismo/otimismo antropológico, só para constar aqui no comentário, é possível que minha definição também seja um pouco diferente da convencional. Como adotei os termos só por achá-los bonitos, não vou insistir em dar-lhes nova significação. Usarei, no lugar deles, os termos crença/descrença no homem, que são utilizados por alguns blogueiros e autores de livros. Eis a definição que uso:

    – Crença no Homem: É a crença de que o homem é capaz de se descorromper e, concomitantemente, construir um paraíso na terra (ou algo próximo a isso), no qual a sociedade não mais será egoísta e inclinada à barbárie. O crente no homem pode pensar que o mal é natural, mas que é possível o homem vencer suas contingências ou diminuir muito os efeitos das mesmas (uma espécie de “darwinismo moral”). Ou pode pensar da maneira mais clássica: que o mal é social, mas que podemos nos descorromper socialmente através da formação de uma nova sociedade que retire os elementos externos que nos tem corrompido. O crente no homem é um idealista e deseja mudar o homem para mudar o mundo.

    – Descrença no Homem: É o ceticismo em relação à capacidade do homem de se descorromper (seja socialmente ou naturalmente) e de construir um novo mundo, onde a sociedade não será mais egoísta e inclinada à barbárie. O descrente no homem pode até pensar que o mal é social e não natural, contudo, não alimenta esperanças ou idealiza um homem muito diferente do que é hoje. Suas propostas não são para mudar o mundo, mas para melhorá-lo na medida do possível. Ele é realista e pragmático. Não se esforça para mudar o homem, mas para melhorar a sociedade em que vive, partindo da premissa de que o homem é mal. Descreve a natureza do homem como ela é atualmente e tenta melhorar as coisas sem negá-la, ao contrário do crente no homem que nega a natureza atual do homem, tentando mudá-la para poder melhorar as coisas.

    Este é o conceito que gosto de usar. E é com ele que eu defino o que é Direita e o que é Esquerda. Para mim, Direita é uma vertente da política iluminista que descrê no homem; e a Esquerda é uma vertente da política iluminista que crê no homem. O que, porventura, não se enquadra nesses dois pólos ou é de centro ou não faz parte da política iluminista.

    Por uma questão de estética, resolvi chamar crença no homem de otimismo antropológico e descrença no homem de pessimismo antropológico. Não sei se realmente se encaixa. Acho que há diferenças nas definições. Seja como for, acredito que o crente no homem é otimista em relação ao ser humano e que o descrente é pessimista em relação ao mesmo.

    Por isso considerei em meus textos o liberalismo como sendo pessimista. Não me refiro ao pessimismo em relação a mudanças ou a melhoras, mas o pessimismo em relação à capacidade do ser humano de se descorromper e mudar o mundo. O otimismo do liberalismo é em relação à melhora da situação através do livre mercado e da liberdade individual. É como se o liberalismo dissesse: “Eu não posso mudar o que o homem é atualmente, mas posso melhorar as coisas mesmo com o homem assim”.

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