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POR RODRIGO VIANA

Recentemente foi publicado o artigo Confusões clássicas entre Direita e Esquerda no Direitas Já. Embora eu concorde com a maior parte do início do texto, confesso me distanciar muito do resultado final.
A começar, tenho como “Direita” e “Esquerda” rótulos que não dizem muitas coisas. Às vezes ajuda, na maioria das vezes não. São termos deveras vazios, de modo que não fica muito explícito o que o interlocutor está querendo dizer dado a pluralidade de ideias que se pode conter. Prefiro que se “dê nomes aos bois”. Tudo fica mais fácil de perceber de onde partiu a ideia e de onde se quer chegar. Por tais motivos, costumo não utilizar estes termos.

Algum leitor poderia pensar: “estaria o autor fugindo então do assunto? Seria ele mais um adepto do kassabismo”? Digo que não. A verdade é que não dá pra ser preciso quando um termo se propõe a ser de característica generalista. Até hoje não lembro de ter visto um texto que tenha se comprometido a determinar de modo exato o que é Direita e Esquerda e que não contenha certos deslizes. Contudo, há nuances que são mais determinantes em uma e menos em outra visão. Mas não chega a ser uma “lei”.

Destaco, então, o texto As cinco mentalidades políticas. Nele fica mais evidente ver em como se classifica as correntes políticas. Ao meu ver, o que se diz normalmente como Direita são correntes que estão em posições como “reacionária”, contrário a qualquer tipo mudança, e “moderada”, onde certas mudanças podem ser bem vindas, desde que não sejam abruptas. E Esquerda como “reformadora”, visando mudança significativa porém de cunho pragmática, e “revolucionária”, mudança desde a raiz.
Então o uso dos termos estaria certo e devidamente colocado para se guiar em qualquer ideologia? De jeito algum. O mundo moderno conta com tantas variações de correntes políticas que classificar todas nesse ou naquele grupo poderá resultar em demasiados pecados.

Conservadorismo, Socialismo e Liberalismo

Há correntes políticas que trafegam em posições “reacionárias” e “moderadas”, como o próprio Conservadorismo (Direita) e outras que simplesmente trafegam em posições “reformadoras” e “revolucionárias”, como o Socialismo (Esquerda). Mas para ver que há algo além, poderíamos colocar correntes políticas que podem trafegar entre posições intermediárias das já destacadas.
Peguemos o Liberalismo como exemplo. O Liberalismo tanto bebe de fontes “moderadas” como “reformadoras”. Se considerarmos sua versão anárquica, o Anarco-capitalismo, estaria, também, apoiada numa posição “revolucionária” além das duas já herdadas do Liberalismo. São correntes que nem a Esquerda e nem a Direita possuem suporte para tal. Tal divisão binária mostra o quão problemática é querer ver a política em apenas duas dimensões. Simplesmente não dá. Vale mencionar que posições internas do Liberalismo podem ter um caráter mais moderado e flertar com a Direita ou um caráter mais reformador e flertar com a Esquerda, mas sem perder sua identidade.

Dado que o Liberalismo e o Socialismo são correntes políticas surgidas no período da modernidade, é natural perceber que há certas posição parecidas entre os dois e isso é compreensível. O Iluminismo Francês, por exemplo, forneceu ferramentas para estas duas correntes. Porém a diferença está em como estas duas correntes utilizam tais ferramentas.
Outro exemplo. Tanto um liberal quanto um socialista possuem uma ação ativa na vida política da sociedade. O liberal deseja, cada vez mais, maximizar a liberdade individual porém sem utilizar de engenharia social para moldar o convívio social. Tal convívio é visto como referente aos grupos e indivíduos próprios e não ao resto da sociedade, cabendo cada um decidir seu próprio modo de vida. Com um socialista, sua ação é para que cada vez mais a igualdade social seja atingida entre as comunidades. Mesmo que para isso precise utilizar de engenharia social para chegar a seu objetivo, já que a liberdade não é o principal parâmetro. Com um conservador a questão é bem diferente. De um modo geral, ele não visa mudanças ou reformulações mas a permanência do existente. Como a ordem vem em primeiro lugar, a sociedade pode permanecer do jeito que estiver para que possíveis mudanças desestabilizadoras sejam evitadas. Por isso não existe uma ação ativa forte dentro do Conservadorismo como o que existe no Liberalismo ou no Socialismo (mas vale dizer que nem todos os conservadores são alheios a qualquer ação ativa, uma vez que burkeanos podem adotar certas medidas liberais).

Outro erro comum é querer atribuir feições individualistas para a Direita e coletivistas para a Esquerda. Ora, isso não é coerente do ponto de vista teórico quanto histórico. A Direita clássica, em que tem o conservadorismo europeu como um de seus representantes, nunca almejou uma legítima posição individualista. Pelo contrário, foi um grande opositor, no passado, da igualdade jurídica entre indivíduos e até hoje se contorce ao ouvir discursos de abolição de privilégios consentido a certos setores da sociedade.
Se havia intelectuais como Joseph de Maistre, Louis de Bonald e Donoso Cortés como defensores de um estado moralizador e, muitas vezes, autoritário, havia também Benjamin Disraeli como um representante legítimo do coletivismo e protecionismo[1]. E bem sabemos que o resultado entre coletivismo e estado autoritário pode ser qualquer coisa, menos o da defesa pela autonomia individual.

A Direita é muito mais do que a visão política americana e Edmund Burke não é o único representante do Conservadorismo. Por isso mesmo que a Direita pode tanto estar mais próximo do individualismo (como a Antiga Direita americana) como do coletivismo (a tradicional Direita europeia)[2][3].
O próprio Partido Conservador britânico, no período pré e pós-Segunda Guerra, é um exemplo desse socialismo de Direita[4].

E o mesmo exemplo serve para a Esquerda. Não são todas as correntes ditas esquerdistas que se opõem ao indivíduo. Mutualistas como Pierre-Joseph Proudhon e Benjamin Tucker[5] defendiam medidas “socialistas” ao enfatizar o modo cooperativo e de ajuda mútua da sociedade porém sem a perda da autonomia individual. Seria então estes anarquistas direitistas? Certamente que não. Ou melhor, existe algum tipo de corrente anarquista que seja adepto da Direita? Bom, só de haver uma ligação entre “anarquia” e “Direita” já demonstra o quão limitado é enxergar a política de modo binário.

Uma vez que essa divisão binária seja limitada e que certas correntes não se encaixam de modo satisfatório nos dois polos, como o Liberalismo, é importante analisar os diferentes pensamentos políticos e seus pensadores de acordo com suas fundamentações. Em outras palavras, não faz sentido dizer que Adam Smith ou John Locke foram importantes para a Direita. Não, estes pensadores foram importantes para o Liberalismo per se.

Foi a Direita quem se aproximou desses pensadores, de modo que isso não faz do Liberalismo uma corrente “direitista”. Assim, o Conservadorismo se aproximou do individualismo e do Liberalismo através da figura de Burke. Seria Burke um liberal clássico[6], dessa tradição libertária? Não, não seria. E podemos ir além. Dado que a economia de mercado foi melhor descrita por liberais e é sabido que mutualistas não se opõem ao mercado e que, inclusive, tem bebido das fontes do livre mercado, estaria então o Mutualismo dentro da tradição Liberal? Ora, com certeza não.

A questão histórica

Essa questão ainda pode se complicar mais quando analisada através da história, no período em que se originou a Direita e a Esquerda. Bem sabemos que a Direita era composta por pessoas anti-revolucionárias e a Esquerda por pessoas favoráveis a mudança. Normalmente o que se fala é que havia absolutistas na Direita e socialistas e radicais na Esquerda, certo? Sim, porém há mais história a se contar.
Não havia apenas socialistas e radicais na Esquerda do parlamento francês mas liberais também. Frédéric Bastiat, um importante liberal clássico francês, sentou a esquerda dos absolutistas, se juntando a socialistas e anarquistas[7]. Quer dizer então que o Liberalismo é uma corrente legitimamente esquerdista (ou seja, de viés reformador e revolucionário)? Não, quer dizer que ele era oposição à Antiga Ordem e que até mesmo nesta época a conotação Direita e Esquerda já nascera limitada. E que por isso enfatizo a feliz argumentação contida no texto Confusões Clássicas… em dizer que a Direita da época estava a defender não os “valores direitistas”, mas o absolutismo. E o mesmo raciocínio pode ser usado para a Esquerda da época, cada um defendendo as suas posições. Isso é um bom exemplo de que Direita e Esquerda também pode ser feita através das circunstâncias e do momento.

Indo em tempos mais atrás, porém atravessando o mar, podemos pegar o exemplo da Revolução Gloriosa inglesa. Antes mesmo de qualquer menção a Esquerda ou Direita, a Antiga Ordem era defendida pelo partido Tory e a oposição pelo partido Whig. De modo que os tories vinham de posições mais conservadoras e pró-absolutistas e os whigs de posições liberais e contrários ao absolutismo. E lembramos que um dos opositores, do qual possuía certo prestígio no partido Whig, era ninguém mais que Burke. Seria então o “pai do conservadorismo moderno” um esquerdista de sua época?

A questão do autoritarismo

Outra questão importante a se analisar é a questão das correntes autoritárias. Se a Esquerda possui o Marxismo como forma maior de seu autoritarismo, não seria absurdo dizer que a Direita também tem a sua. É fato que o Fascismo e o Nacionalismo contém certos elementos ligados a Direita, principalmente do conservadorismo europeu. Posições como economia mista, anti-individualismo e nacionalismo são compartilhadas por autoritários de todo tipo. Longe de querer fazer uma análise sobre o Fascismo ou Nacionalismo, apenas relembro que a Direita “deu” contribuições, mesmo que de modo indireto e/ ou inconsciente, para as ideologias autoritárias.
Algo a mencionar seria a posição tomada pela Antiga Direita brasileira ao apoiar um golpe autoritário e anti-democrático no país, favorecendo os militares no poder. Dado que também não pretendo entrar no mérito utilitário quanto a isso. Deixo apenas como referência histórica.

Conclusão

Toda essa análise nos faz pensar em até que ponto é válido o uso desses termos já universalizados. Novamente, são termos imprecisos que podem gerar interpretações duvidosas mas que pode ajudar algumas vezes. Não sou contra o seu uso, desde que seja empregado de forma correta e dentro do contexto. Contudo, o mais importante é saber que ele não deve ser usado como único recurso para uma análise política. Estamos nos século 21, vivendo em um novo milênio, e não no século 18. Acho que já deu pra perceber que a velha interpretação está mais do que ultrapassada. Uma alternativa sugerida, com uma resposta mais precisa e atual seria o gráfico criado por David Nolan.
Uma vez entendendo e respeitando que há correntes políticas que não se encaixam nesses dois pontos de vistas, só quem tem a ganhar será a sociedade por perceber que há muito mais opções de discursos além das ideias já tradicionalmente enraizadas. Basta apenas que certos grupos contidos nela reconheçam isso.

Notas:

[1] Benjamin Disraeli foi um importante político conservador britânico e um dos responsáveis pela base da fundação do Partido Conservador (o antigo Partido Tory). Dentre suas pontos de vistas, destaca-se uma forte defensa pelo nacionalismo e protecionismo. Renegava a visão da sociedade como um conjunto de indivíduos, como proferido por liberais. Sua visão coletivista se assemelhava a Marx, mas diferia na questão de que a manutenção das classes existentes seria benéfica para todos.
[2] Uma teoria do Socialismo e do Capitalismo, capítulo “O Socialismo do Conservadorismo” por H.H. Hoppe – Instituto Ludwig von Mises Brasil
[3] A posição “conservadora socialista” também pode ser encontrada no Brasil. Um exemplo disso pode ser visto em uma entrevista de Carlos Lacerda à extinta TV Tupi. Entre outras declarações, Lacerda defende uma posição de linha econômica estatista compartilhada pela esquerda, de modo que ele reconhece isso. Contrário a políticas liberalizantes, como as implementadas no governo Castelo Branco, Lacerda chega a dizer que “o Brasil fora entregue a grupo econômicos americanos”. – Entrevista com Carlos Lacerda
[4] A Party History – Conservative Party UK
[5] Esquerda Libertária: Anticapitalismo de livre mercado, o ideal desconhecido, por Sheldon Richman – A Esquerda Libertária
[6] Se o Conservadorismo abraçou muitas posições do Liberalismo, o contrário também é verdadeiro. O Liberalismo hayekiano é, talvez, o mais “conservador” das correntes liberais, dado a forte influência de Burke no pensamento de Hayek.
[7] É interessante verificar que mesmo sendo opositores, Bastiat e Proudhon estavam sentados do mesmo lado. E tal oposição de ideias pode ser verificado no famoso debate “The Bastiat-Proudhon debate on interest” acontecido entre estas duas importantes figuras libertárias.