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por G. K. Chesterton. Cap. VII de Ortodoxia, tradução de Gustavo Corção.


Ora, é aqui que se situa o colapso ou a imensa estupidificação de nossa época. Misturamos duas coisas diferentes, duas coisas opostas. O progresso deveria significar a constante mudança que impomos ao mundo para afeiçoá-lo a uma definida visão: na verdade significa (hoje) uma constante mudança de visão. O progresso deveria significar o lento mas seguro aumento de justiça e piedade que trazemos aos homens: significa a mobilidade com que passamos a duvidar de que a piedade e a justiça sejam desejáveis. Uma página desvairada de algum sofista prussiano leva os homens a tais dúvidas. O progresso deveria significar nossa constante marcha em direção à Nova Jerusalém: na verdade significa que a Nova Jerusalém está sempre se afastando de nós. Não modificamos o real para adaptá-lo ao ideal; modificamos o ideal — é mais fácil.

Os exemplos meio doidos são às vezes os mais elucidativos. Imaginemos um homem que aspirasse a uma peculiar espécie de mundo: digamos um mundo azul. Ele não teria razão de se preocupar com a lentidão maior ou menor da tarefa. Poderia extenuar-se (sob todos os pontos-de-vista) até conseguir que tudo se tornasse azul. Viveria momentos heróicos ao dar os últimos retoques num tigre azul: teria sonhos feéricos como o de um luar azul. Mas se trabalhasse com firme determinação, nosso inspirado reformador legaria (sob seu ponto-de-vista) um mundo melhor, isto é, um mundo mais azul do que encontrara. Se em cada dia de trabalho trouxesse à sua cor favorita algumas folhas de grama, ele avançaria lentamente. mas se em cada dia modificasse sua cor favorita, então jamais avançaria. Sim, se depois de ler o último filósofo ele se pusesse a pintar tudo de vermelho ou de amarelo, seu trabalho seria perdido: só lhe restaria para mostrar aos pósteros alguns tigres azuis, errantes nas selvas, espécimes comprometedores de uma superada moda.

Esta é, exatamente, a posição do pensador moderno. Hão de dizer que dei um exemplo manifestamente absurdo, mas é isto, literalmente, o que os fatos da história recente nos mostram. As grandes e graves mudanças ocorridas em nossa civilização política pertenceram todas ao começo e não ao fim do século XIX, isto é, pertenceram à época do preto e do branco, em que os homens creram firmemente no Torismo, no Protestantismo, no Calvinismo e muitas vezes na Revolução.  E qualquer que fosse a crença, cada um se apegava à sua sem ceticismos. Houve uma época em que a Igreja oficial poderia cair, e em que a Câmara dos Lordes também quase tombou, porque os Radicais tiveram sabedoria bastante para serem constantes e consistentes, ou melhor, porque os Radicais tiveram a sabedoria de serem Conservadores. Na atmosfera  de nossos dias o Radicalismo não tem passado e tradição para ser capaz de derrubar qualquer coisa. Há boa parte de verdade na sugestão de Lord Hugh Cecil (feita num belo discurso) de que passou a era da mudança e estamos numa era de conservação e repouso. Mas Lord Hugh Cecil provavelmente ficaria muito penalizado (o que certamente acontece) se compreendesse que nossa época só é uma época de conservação por ser uma época de completa descrença. Se quisermos que as instituições permaneçam imutáveis façamos que as crenças se enfraqueçam rapidamente. Quanto mais se transtorna e se confunde a vida do espírito mais fica entregue a si mesmo o mecanismo da matéria. O resultado líquido de todas as nossas novidades políticas — Coletivismo, Tolstoísmo, Neo-feudalismo, Comunismo, Anarquia, Burocracia Científica — o melhor fruto de tudo isto está na consolidação da Monarquia e da Casa dos Lordes. O resultado líquido de todas as novas religiões está aí: a Igreja Anglicana continua oficial, sabe Deus até quando. Foi Carlos Marx, foram Nietzsche, Tolstói, Cunningham, Bernard Shaw e Auberon Herbert que uniram seus gigantescos ombros encurvados para sustentar o trono do Arcebispo da Cantuária.

Nós podemos dizer com plena convicção que o livre-pensamento é a melhor de todas as proteções contra a liberdade. Confeccionada no estilo da moda, a emancipação do espírito do escravo é o melhor preventivo da emancipação do escravo. Ensinem-no a se atormentar com a idéia de querer ser livre, e verão que ele não se libertará. Poderá o leitor dizer que ainda este exemplo é remoto ou exagerado, mas nem por isso é menos exatamente verdadeiro para todos os que cruzam conosco pelas ruas. É verdade que o escravo negro, sendo um bárbaro desenraizado, terá provavelmente ou uma inclinação humana para a fidelidade ou uma inclinação humana para a liberdade. Mas o homem que vemos todos os dias — o trabalhador da fábrica do Sr. Gradgrind, ou o pequeno funcionário nos escritórios do Sr. Gradgrind — esse está mentalmente fatigado demais para crer na liberdade. A literatura revolucionária o traz de rédeas curtas. Ele é amansado, e mantido em seu lugar por uma constante sucessão de desvairadas filosofias. É marxista num dia, Nietzscheano no outro dia, super-homem (provavelmente) no dia seguinte, e escravo todos os dias. A única coisa que sobrevive a todas as filosofias é a fábrica. O único beneficiário de todas aquelas filosofias é o Sr. Gradgrind, que terá todo o interesse em manter na sua casa comercial núcleos sempre abastecidos de literatura cética. E por falar nisto lembremos que o Sr. Gradgrind é famoso por seus donativos para bibliotecas. Ele prova seu descortino: sabe instintivamente que todos os livros modernos lhe são favoráveis.

Enquanto a visão do céu mudar todos os dias a visão da terra será exatamente a mesma. Nenhum ideal durará o bastante para ser realizado, ao menos em parte. O moderno jovem jamais mudará as estruturas que o cercam, porque ele mudará todos os dias o seu espírito.

Esta será então nossa primeira exigência a respeito do ideal que norteia o progresso: esse ideal deve ser fixado (ou não haverá progresso). Whistler tinha o costume de pintar vários esboços do seu modelo. Rasgava dez ou vinte retratos, mas isto para ele não tinha importância. Grave seria sua situação se ele erguesse os olhos vinte vezes, e em cada relance visse uma nova pessoa a posar placidamente para seu retrato. Por isso pouco importa, falando em termos relativos, o número de vezes em que a humanidade falhou na imitação de seu ideal, porque então todas essas falhas passadas serão frutuosas. O que importa, terrivelmente, é o número de vezes que a humanidade trocou por outro seu ideal, pois neste caso todos os velhos insucessos são infecundos.

Quando escrevia estas linhas, mais uma vez, como um homem que ouve o sino da Igreja dominar o tumulto da rua, senti que outra coisa entrava na discussão. E parecia-me dizer: “Meu ideal, ao menos, é fixo; porque foi fixado antes dos alicerces do mundo. Minha visão de perfeição certamente não pode ser mudada, porque seu nome é Éden. Posso mudar o lugar aonde quero ir, mas não posso alterar o lugar de onde vim. Para o ortodoxo haverá sempre um motivo de luta; porque no coração dos homens Deus foi colocado sob os pés de satã. No mundo do alto, um dia, o inferno rebelou-se contra o céu. Mas neste mundo o céu se rebela contra o inferno. Para o ortodoxo sempre haverá uma revolução, porque uma revolução é uma restauração. Em cada instante você pode marcar um ponto para a perfeição como jamais se viu homem fazer desde Adão. Nenhum invariável costume ou nenhuma evolução poderá fazer do bem original algo que não seja bom. Os homens poderão ter concubinas há mais tempo do que as vacas têm chifres: ainda assim elas não fazer parte de seu ser se constituem ocasião de pecado. Os homens viveram sob opressão pouco menos tempo do que vivem os peixes sob as águas; ainda assim isto não deveria permanecer, se a opressão é pecaminosa. A cadeia pode parecer tão natural para o escravo, ou o trottoir para a prostituta, como a pluma para o pássaro ou a toca para a raposa, e no entanto aquelas coisas não são naturais porque são pecados. Eu ergo minha lenda pré-histórica em desafio a toda a vossa história. Vossa visão não é apenas uma coisa estável: “ela é um fato”.

Detive-me a anotar a nova coincidência do cristianismo, e passei adiante, à necessidade seguinte de qualquer ideal de progresso. Algumas pessoas (como já notei) parecem acreditar num progresso automático e impessoal que seria inerente à natureza das coisas. Mas é óbvio que nenhuma atividade política pode ser encorajada por quem disser que o progresso é inevitável: esta idéia não nos daria nenhuma razão para o trabalho, ao contrário, nos dá uma razão para a preguiça. Se somos compelidos a melhorar tudo, não precisamos ter o mínimo zelo de perfeição. A pura doutrina do progresso é, de todas as razões, a melhor para não sermos progressistas. Mas não é sobre nenhum desses óbvios comentários que desejo chamar a primeira e principal atenção do leitor.

O ponto em que me detenho é o seguinte: se supomos que o aperfeiçoamento das coisas é natural, então esse aperfeiçoamento deve ser muito simples. Pode-se conceber o mundo trabalhando para uma determinada e simples consumação, mas não para um arranjo particular de numerosas qualidades. Voltemos àquele ideal de um progresso para o azul, e imaginemos a Natureza a se tornar dia a dia mais azul, por um processo tão simples que possa ser impessoal. Mas a Natureza não poderá fazer um quadro cuidadosamente composto de várias cores, a menos que a Natureza seja pessoal. Se o fim ao qual tende o universo é o das trevas absolutas ou o da luz sem penumbras, ele poderá advir tão lentamente ou tão inevitavelmente como a aurora ou o crepúsculo. Se porém o fim visado é o de um elaborado e artístico claro-escuro, então deve existir atrás dele uma idéia, humana ou divina. O mundo, pela simples ação do tempo, pode enegrecer como um velho quadro, ou branquear como uma roupa velha; mas se ele se torna uma elaborada composição artística de preto e branco, então atrás dele há um artista.

Se a distinção não é evidente, darei um exemplo ordinário. Constantemente nos falam os modernos humanitários de uma crença particularmente cósmica; emprego o termo humanitário no sentido comum que designa o homem que apóia as reivindicações de todas as criaturas contra as da humanidade. O termo sugere que, através das idades, nós nos tornamos cada vez mais humanos, ou melhor, sugere que um depois do outro, grupos ou categorias de seres, escravos, crianças, mulheres, vacas, ou o que mais queiram, têm sido gradualmente admitidos como objetos de piedade e justiça. Eles pensam que em tempos idos era julgado justo que um homem comesse o outro (o que não é verdade), mas não me ocupo aqui dessa história que é altamente anti-histórica. A antropofagia é um fato que exprime decadência e não primitivismo. É muito mais verossímil que os homens modernos venham a comer carne humana por afetação do que tenham os antigos comido por ignorância. Estou aqui apenas acompanhando os contornos de seus argumentos, que consistem em afirmar que os homens têm sido progressivamente mais carinhosos, primeiro com os cidadãos, depois com os escravos, depois com os animais e agora, presumivelmente, com as plantas. Eu agora acho que não devo assentar-me em cima de um homem; amanhã pensarei que não é bom assentar-me sobre um cavalo; e, ao que suponho, num futuro próximo terei escrúpulo de sentar-me numa cadeira. Este é o fio condutor do argumento. Desse argumento é possível dizer que ele pode ser expresso em termos de evolução ou inevitável progresso. Uma perpétua tendência de tocar cada vez menos nas coisas pode ser uma simples e inconsciente tendência animal, como a das espécies que produzem cada vez menos filhos.  Esse deslize pode ser realmente evolucionário, porque é estúpido. O darwinismo pode ser empregado para escorar duas éticas loucas, mas não pode servir de apoio a uma só moral sadia. O companheirismo ou a competição dos seres vivos podem-nos levar a uma desvairada crueldade, ou a um desvairado sentimentalismo, mas não podem nos incutir um sadio amor pelos animais. Com pressupostos evolucionistas você pode ser desumano, ou absurdamente humano, mas você não consegue ser humano. Se você e o tigre estão no mesmo nível, você terá razões para ser meigo com o tigre, ou terá motivos para ser feroz com o tigre. Não é fácil obter do tigre que ele o imite; mais expedito será você imitar o tigre. Em caso algum a evolução lhe dirá como deve você tratar razoavelmente um tigre, isto é, como admirar sua pele listrada evitando suas garras.

Quer você tratar um tigre razoavelmente? então é preciso retroceder até o jardim do Éden, porque o obstinado momento persiste: somente o Sobrenatural tem uma sadia visão da natureza. A essência de todo o panteísmo, do evolucionismo e da religião cósmica moderna está nesta proposição: a Natureza é nossa mãe. Infelizmente para você, todas as vezes que olhar a Natureza como mãe, descobrirá que ela é madrasta. O ponto principal do cristianismo é precisamente este: a Natureza não é nossa mãe, a Natureza é nossa irmã. Nós podemos nos orgulhar de sua beleza porque temos o mesmo pai, mas não podemos aceitar sua autoridade sobre nós. Devemos admirá-la, mas não imitá-la. E é isto que dá, ao típico prazer cristão nesta terra, um toque de estranha leveza que é quase uma frivolidade. A natureza era uma mãe solene para os adoradores de Isis e de Cybele. Foi mãe majestosa para Wordsworth e Emerson. Mas a Natureza não é solene nem majestosa para São Francisco de Assis ou para Jorge Herbert. Para São Francisco, a Natureza era irmã, e até irmãzinha: uma pobre pequena irmã dançarina de que se ria, e que amava.

Isto entretanto não é o nosso ponto principal, apenas tocamos nessas coisas para mostrar com que constância, apesar de serem acidentais, a mesma chave abre as mais pequenas portas. Nosso objetivo principal é o de mostrar que, admitida alguma tendência de aperfeiçoamento impessoal na Natureza, essa tendência só poderá visar a um simples triunfo. Alguém poderia imaginar alguma tendência automática da biologia a trabalhar para nos dotar de narizes cada vez maiores. Mas a questão é saber se nós precisamos possuir narizes cada vez maiores. Penso que não, e creio que todos nós diríamos aos seus respectivos narizes: “Tu irás até aqui, e não deverás ir mais longe, porque é aqui que deve se deter o teu orgulho”. Nós queremos um nariz de tal comprimento que dê ao rosto um aspecto condigno; mas nós não podemos imaginar uma tendência biológica a produzir faces condignas, porque essa face só é interessante por seu particular arranjo de olhos, nariz e boca, numa relação muito complexa entre esses elementos. A proporção não pode ser um deslize: resultará de um acidente ou de um designo. E o mesmo diríamos da moral humana e de sua relação com os humanitários e anti-humanitários. Pode-se conceber que cada vez menos nossas mãos toquem as coisas, até para guiar um cavalo ou colher uma flor. Seríamos eventualmente compelidos a não perturbar o espírito de um homem com a menor das objeções, e a não perturbar o sono dos pássaros com um simples pigarro. A suprema apoteose seria representada por um homem sentado e imóvel, sem ousar um gesto que incomodasse alguma mosca, e sem comer para não incomodar os micróbios. Inconscientemente poderíamos ser levados a um programa tão rudimentar? Do mesmo modo, e também inconscientemente, podemos evoluir no sentido oposto, ou na linha do desenvolvimento nietzscheano: um super-homem esmagando o super-homem anterior numa pirâmide de tiranos até que o universo inteiro seja por eles despedaçado por brincadeira. Mas é o caso de perguntar: queremos nós que o universo se despedace por brincadeira? Não nos parece claro que nossa esperança real seja feita de um arranjo e composição de duas coisas, uma certa dose de constrangimento e respeito, e uma certa dose de energia e autoridade? Se nossa vida deve ser um dia tão bela como um conto de fadas, devemos lembrar que toda a beleza do conto de fadas reside nesta condição: o príncipe tem uma admiração que se detém no exato ponto em que se tornaria medo. Se ele tiver medo do gigante será um homem acabado; mas também, se ele não tiver admiração diante do gigante anulada estará a possibilidade do conto de fadas. Tudo depende de ser ele, ao mesmo tempo, bastante humilde para poder admirar-se, e bastante altivo para aceitar o desafio. Assim também deve ser a nossa atitude diante do gigante que é o mundo: não deve ser uma progressiva delicadeza, nem um progressivo desprezo; antes deve compor-se de uma especial e justa proporção das duas coisas. Devemos sentir pelas coisas exteriores bastante respeito para nos compelir a pisar timidamente a grama de um jardim; mas também devemos ter o desdém suficiente para nos permitir, no momento certo, cuspir na direção das estrelas. Essas duas coisas, entretanto, (se queremos ser bons e felizes) devem andar combinadas, não em uma qualquer proporção mas numa proporção muito especial. A perfeita felicidade dos homens na terra (se algum dia existir) não será uma coisa chata e sólida, como a satisfação animal. Será um exato e perigoso equilíbrio como o de um romance desesperado. O homem deve ter bastante confiança em si para aceitar aventuras, e deve duvidar de si o bastante para alegrar-se nas aventuras.

Eis aqui, então, nosso segundo requisito para o ideal de progresso. Primeiro, ele deve ser fixado; segundo, ele deve ser composto. Se se trata de cumular as almas, não deve ser a simples vitória de uma coisa que engole tudo, amor ou orgulho, paz ou aventura; antes deve ser como um quadro definido e composto desses vários elementos nas melhores proporções. No momento não cuido de saber se tão excelente culminação esteja, pela ordem das coisas, ao alcance do homem. Quero apenas observar que esse ideal composto, fixado para nós, só pode existir e ser mantido por um espírito, porque somente um espírito poderá estabelecer as proporções exatas de uma perfeição composta. Se a beatificação do mundo é um mero trabalho natural, será então tão simples como a congelação do mundo, ou seu incêndio total. Mas se a beatificação do mundo não é obra de natureza, e sim obra de arte, então implica um artista. E aqui, mais uma vez, minha contemplação foi interrompida pela antiga voz que clama: “Eu poderia vos ter dito isto há muito tempo. Se algum progresso verdadeiro existe, só pode ser da espécie do meu: o progresso em direção à cidade perfeita, à cidade das virtudes e das dominações onde a justiça e a paz podem enfim se beijar. Uma força impessoal só vos levará a uma desolação de perfeita platitude, ou a um pico de perfeita altitude, mas somente um Deus pessoal poderá vos guiar (se na verdade estais sendo guiados) a uma cidade com ruas justas e proporções arquiteturais, uma cidade em que cada um de vós pode trazer a exata contribuição de uma cor predileta para a capa multicor de José”.

Pela segunda vez trouxe o Cristianismo a exata resposta ao que eu pedia. Eu tinha dito: “o ideal deve ser fixado”; e a Igreja respondeu: “assim é o meu, literalmente fixado e pré-existente a todas as coisas”. Disse eu então: “deve também ser artisticamente combinado, como uma pintura”; e então a Igreja respondeu-me: “Assim é o meu, qual uma pintura, e eu conheço quem a pintou”.

Passei então ao terceiro ponto, isto é, à terceira coisa exigida, a meu ver, por uma utopia ou por um objetivo de progresso. E esta é, das três a mais difícil de exprimir. Talvez possa dizer assim: nós precisamos de vigilância, mesmo na utopia, para não cairmos dela como caímos do Éden. Já observamos atrás que uma das razões oferecidas para ingresso no progressismo é a suposta tendência natural das coisas para o melhor. Mas a única razão real para ser progressista é, ao contrário, a tendência natural das coisas para o pior. A corrupção nas coisas é não somente o melhor argumento para ser progressista, como também é o único argumento contra a idéia de ser conservador. A teoria conservadora seria perfeita, absoluta e incontestável, sem esse simples fato. Todo o conservantismo é baseado na suposição de que as coisas permanecem o que são se as deixarmos entregues a si mesmas. Ora, você sabe a cada instante que não deve deixar as coisas como estão. Se deixa uma coisa sozinha, de fato a deixa exposta a uma torrente de mudanças. Se você deixa sozinho um poste pintado de branco, em breve espaço de tempo terá um poste enegrecido; e se faz questão que ele seja branco, então terá de pintá-lo de novo, ou melhor, terá de fazer, neste poste, uma revolução. Em suma, se você se apegou ao velho poste branco precisará ter sempre um novo poste branco. E isto que é verdade para coisas inanimadas, será também verdade, de um modo especial e terrível, para as coisas humanas. Uma vigilância quase desmedida e supernatural parece exigida a um simples cidadão em virtude da horrível rapidez com que envelhecem as instituições humanas.

No romance e no jornalismo é costume aludir aos homens que sofrem de velhas tiranias. Na verdade, porém, os homens sempre tiveram de suportar o peso das novas tiranias, de tiranias que vinte anos atrás eram liberdades públicas. A Inglaterra ficou louca de alegria quando teve a monarquia patriótica de Elizabeth, e depois (quase imediatamente depois) tornou-se louca de raiva quando caiu na armadilha da tirania de Carlos I. Também na França a monarquia tornou-se intolerável, não depois de ser tolerada mas depois de ser adorada. O filho de Luís o bem-amado foi Luís o guilhotinado. E assim também na Inglaterra, no século XIX, todos se entregaram a um industrial radical, tido por verdadeiro tribuno do povo, até o dia em que todos ouviram o socialista clamar que o dito industrial era um tirano que devorava o povo como quem come pão. E assim, mais uma vez, todos nós, até o derradeiro instante, pensamos que os jornais eram órgão da opinião pública. Recentemente alguns de nós perceberam, de repente, num sobressalto, que os jornais estão longe de ser o que pensavam. Por sua própria natureza são brinquedos de uns poucos ricos. Nós não temos a menor necessidade de nos rebelarmos contras as novidades. São os novos chefes, o capitalista ou o redator-chefe que realmente sustentam o mundo moderno. Não há perigo de que um rei moderno queira infringir a constituição; mais provavelmente ele a ignorará e governará ao seu abrigo sem tirar vantagem alguma de seu poder real. Mais provavelmente ele tirará vantagens de sua real impotência, e do fato de estar liberado da crítica e da publicidade. O rei é a mais privada das pessoas de nosso tempo. Ninguém terá de lutar contra um projeto de censura da imprensa. Não há necessidade disto porque a própria imprensa é censura.

Esta estonteante rapidez com que os sistemas populares se tornam opressores é o terceiro fato com o qual deverá a teoria perfeita se ajustar. Ela deve vigiar para que nenhum privilégio se torne um abuso, e para que nenhum direito exercido se transforme em injustiça. Neste ponto estou inteiramente com os revolucionários. Eles têm razão de sempre suspeitar das instituições humanas; eles têm toda a razão de não confiarem nos príncipes e nos demais filhos dos homens. O chefe escolhido como amigo do povo torna-se inimigo do povo; o jornal lançado para dizer a verdade existe agora para impedir que a verdade seja dita. Aqui, disse eu comigo mesmo, senti que afinal eu estava realmente ao lado dos revolucionários. E depois caí em mim e vi que estava mais uma vez ao lado dos ortodoxos.

O cristianismo mais uma vez falou e disse: “Eu sempre sustentei que os homens eram naturalmente retrógrados, que as virtudes humanas tendiam por sua natureza à ferrugem e ao mofo. Sempre disse que os seres humanos se tornam, por si sós, injustos, especialmente os felizes, e mais especialmente os orgulhosos e os prósperos. Esta eterna revolução ou esta suspeição sustentada por séculos e séculos, você (que é um vago moderno) a chama de doutrina do progresso. Se você fosse um filósofo, chama-la-ia, como o faço eu, doutrina do pecado original. Você pode chamá-la quantas vezes quiser, de marcha vanguardeira do cosmos; eu a chamo por seu nome — “A Queda”.