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Noam Chomsky é um linguista reconhecido também pelo seu ferrenho socialismo anárquico. Um de seus textos mais conhecidos e mais usados na web é o que descreve  as “dez estratégias de manipulação” supostamente usadas pela mídia para manter as pessoas na ignorância.

Porém, este texto é realmente muito mais útil para a perspectiva antiestatal do que antimidíatica (ou anticapitalista, antiliberal, antimercado, como queiram). E isto precisamente porque, ao contrário do que passa com a mídia independente, podemos fazer a ligação entre estas estratégias e casos reais do seu uso por políticos e governos. Vejamos:

1. A estratégia da distração. O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes.

Comentário: Do esporte à música passando pelo cinema, toda forma de distração é financiada e incentivada pelo Estado, que com isso ganha duas coisas: o fornecimento do “circo” que complementa o “pão” do populismo, e a criação de uma rede de artistas dependentes e defensores do financiamento de seu trabalho com o dinheiro público. Outra forma possível é o uso de veículos de mídia oficiais ou alinhados com o governo para propagar desinformação.

2. Criar problemas e depois oferecer soluções. Esse método também é denominado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público a fim de que este seja o mandante das medidas que desejam sejam aceitas. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o demandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade.

Comentário: O Estado emprega esta estratégia quando explora casos de homicídio – decorrentes de um desleixo com a segurança pública – para empurrar à população uma campanha de desarmamento, por exemplo. Um caso econômico real é sustentar empresas com verba pública, para então propor o salvamento das mesmas quando estão à beira da falência (claro, com superfaturamento e desvios inclusos no pacote). Outro é desvalorizar a moeda com inflação para depois propor congelamento de preços e juros. Um terceiro é deixar que disputas sobre terras fiquem cada vez mais sangrentas para então intervir com a força policial e expropriar os legítimos donos.

3. A estratégia da gradualidade. Para fazer com que uma medida inaceitável passe a ser aceita basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos.

Comentário: O Estado a emprega para aumentar o seu controle sobre a Economia como um todo e sobre a vida das pessoas, em particular. Por exemplo: primeiro ele cria agências reguladoras das empresas privadas, depois ele impõe parcerias público-privadas, depois ele estatiza as empresas privadas. Outro exemplo: primeiro ele proíbe armas “de uso restrito militar”, depois ele proíbe “carregadores com mais de dez tiros”, depois ele proíbe “o porte de arma em via pública” e por fim ele proíbe a posse de qualquer arma de fogo.

4. A estratégia de diferir. Outra maneira de forçar a aceitação de uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e desnecessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Logo, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isso dá mais tempo ao público para acostumar-se à ideia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

Comentário: Esta é a mais típica do governo. Nenhuma empresa privada quer sacrifícios, elas querem dinheiro. Quem pede sacrifícios é o governo: ele pede sacrifícios quando aumenta os impostos “provisoriamente” (em governês: por prazo indeterminado, talvez para sempre), ele pede sacrifícios quando proíbe ou restringe importações, ele pede sacrifícios quando desperdiça verba pública em prol de serviços públicos que nunca funcionam, ele pede sacrifícios quando obriga os homens a prestar serviço militar, ele pede sacrifícios em prol da segurança, em prol das finanças do Estado, em prol da igualdade material, em prol da ideologia vigente, etc.

5. Dirigir-se ao público como se fossem menores de idade. A maior parte da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade mental, como se o espectador fosse uma pessoa menor de idade ou portador de distúrbios mentais. Quanto mais tentem enganar o espectador, mais tendem a adotar um tom infantilizante. Por quê? “A alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, em razão da sugestionabilidade, então, provavelmente, ela terá uma resposta ou ração também desprovida de um sentido crítico (ver “Armas silenciosas para guerras tranquilas”)”.

Comentário: Esta é a linguagem padrão do governo quando quer fazer entender os objetivos alegados dos seus projetos. Ele nunca explicará a complexidade da economia de mercado ou da construção civil, ele simplesmente dirá “construiremos mais de X habitações populares”. Ele não explicará princípios jurídicos ou abordará a história do racismo institucional, ele simplesmente apelará à emoção quando estiver fazendo propaganda das cotas raciais. Tudo será muito simples: construiremos mais casas, escolas, hospitais, baixaremos preços e juros, basta que todos colaborem.

6. Utilizar o aspecto emocional mais do que a reflexão. Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional e, finalmente, ao sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de aceeso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos…

Comentário: Toda e qualquer campanha do governo emprega esta estratégia. Seja para o desarmamento, seja para controlar preços e juros, seja para criar mais benefícios trabalhistas, campanhas antidrogas ou programas assistencialistas. Não se apela jamais aos efeitos da proibição das drogas sobre o aumento da criminalidade, mas à triste doença que é o uso das drogas e seus efeitos sobre os viciados. Não se apresenta a relação entre porte de armas e segurança, apenas se mostram os casos esporádicos de massacres ou acidentes com armas.

7. Manter o público na ignorância e na mediocridade. Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais menos favorecidas deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que planeja entre as classes menos favorecidas e as classes mais favorecidas seja e permaneça impossível de alcançar (ver “Armas silenciosas para guerras tranquilas”).

Comentário: O governo emprega esta estratégia ao ocultar os princípios subjacentes aos programas de redistribuição de renda, por exemplo. Parte-se do princípio que tirar de um para dar a outro é sempre justo, e que a desigualdade por si configura uma forma de injustiça, que são premissas falsas. O mesmo se aplica ao imposto, ao serviço militar compulsório, às cotas raciais, aos privilégios políticos, ao protecionismo, etc.

8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade. Levar o público a crer que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto.

Comentário: Utilizada pelo Estado e pelas estruturas partidárias, através da impunidade, da popularização do “rouba mas faz”, da difusão da crença de que todos são igualmente corruptos e de que isso é normal e faz parte da vida política, que o que importa é usar isso a seu favor para obter “benefícios” aos mais necessitados. É reforçado pela “consciência de classe”: deve-se votar em alguém porque é pobre, porque é analfabeto, porque é “de origem humilde”, porque “não é doutor”.

9. Reforçar a autoculpabilidade. Fazer as pessoas acreditarem que são culpadas por sua própria desgraça, devido à pouca inteligência, por falta de capacidade ou de esforços. Assim, em vez de rebelar-se contra o sistema econômico, o indivíduo se auto-invalida e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição de sua ação. E sem ação, não há revolução!

Comentário: O Estado complementa suas campanhas anti-drogas fomentando a culpa entre usuários, familiares e claro, traficantes. O mesmo se aplica ao desarmamento quando se imputa ao “portador de arma” a culpa pela criminalidade, e não ao criminoso em si. Outros casos clássicos: negar a corrupção sistêmica na política e jogar a culpa no cidadão que “não vota consciente”, negar a falência do sistema público de educação jogando a culpa no colo dos pais dos alunos, negar a tirania do serviço militar compulsório jogando a culpa na “covardia” e “falta de patriotismo” da juventude.

10. Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem. No transcurso dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência geraram uma brecha crescente entre os conhecimentos do público e os possuídos e utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento e avançado do ser humano, tanto no aspecto físico quanto no psicológico. O sistema conseguiu conhecer melhor o indivíduo comum do que ele a si mesmo. Isso significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior do que o dos indivíduos sobre si mesmos.

Comentário: Quem quer saber onde você nasceu, quem são seus pais, onde você mora, quanto você ganha? Quem quer você registrado, rotulado, carimbado e numerado andando por aí com mil e um pedaços de papéis para “provar que você existe”? O Estado, é claro. É ele quem tem registrada cada compra que você faz, cada lugar em que você mora ou viaja, cada doença que você teve, cada vacina que você tomou, todas as suas notas na escola. Não bastasse isso, ele sabe o tipo de reação que certos estímulos provocam e é por isso mesmo que usa e abusa do populismo, do paternalismo, do assistencialismo, etc.

Concluindo, percebe-se facilmente que a acusação de Chomsky a empresas privadas, sobretudo nos setores de mídia e publicidade, é muito mais coerentemente aplicada a quem tem, de fato, o monopólio sobre o poder regulador que é aplicado aos meios de comunicação de massa.

Ao longo da História, políticos e partidos se apropriaram do poder monopolizador do Estado para, através da regulamentação, moldar as ferramentas de comunicação de massa ao seu próprio gosto, transformando-as em instrumento de propaganda personalista, ideológica ou partidária. Os meios incluem a doutrinação na Escola Pública, veiculação de propaganda oficial do Governo, censura da mídia de oposição, financiamento público de mídia alinhada com o governo, etc.