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Quando se fala em conservadorismo, muito se menciona sobre o fato de o conservador ser alguém que supostamente deseja que seus valores morais sejam protegidos pela força da lei e impostos a toda a sociedade. Esse desejo pode existir, sim, entre alguns adeptos desse pensamento, mas é evidente que a força é, em realidade, desnecessária para a manutenção da moral. A não intervenção do ente estatal em questões morais é, na verdade, o melhor dos ambientes para a preservação das tradições, costumes e valores.

Primeiramente podemos trazer à tona uma classificação de Hans Kelsen à respeito da norma. Ao diferenciar um ordenamento estático de um dinâmico, cita como exemplo do primeiro o ordenamento moral, por ser um ordenamento que relaciona as normas entre si através do conteúdo, e não da forma. O conteúdo é certamente mais estático, já que alterações no mesmo podem trazer consequências muito mais profundas do que meras mudanças formais, que podem ser realizadas e desfeitas como passe de mágica, no peso de um decreto. A necessidade da não intervenção do Estado reside justamente no seguinte aspecto: a origem do conteúdo desse ordenamento moral.

A norma moral é uma norma com diversas fontes possíveis. Alguns argumentam que sua fonte exclusiva seria a razão, outros que seria a religião, e outros que seriam os costumes. Não há que se buscar pela exclusividade, mas sim reconhecer que há de cada um dos três grande contribuição para a formação do pensamento. Mesmo tendo em vista a importância dos três aspectos, vemos que os costumes e os hábitos possuem um peso diferenciado, já que reúnem elementos dos outros dois aspectos, e por outras vezes anulam aspectos dos mesmos. Para demonstrar, podemos analisar os três elementos.

Da razão: a razão é a habilidade humana de discernir, de procurar o verdadeiro e o falso. Através da razão buscamos as leis naturais, relações lógicas, relações de causa e efeito. Ela nos guia na busca pelo conhecimento. Quando vemos na moral um aparato que busca frear condutas viciadas, de julgar nossos vícios e paixões, temos que a mesma não realiza um julgamento sobre a veracidade de uma conduta, mas sim sobra a reprovabilidade da mesma. Não julgamos uma conduta, um vício ou uma paixão como verdadeira ou falsa, mas sim como justa ou injusta, reprovável ou não. A busca, aqui, não é dizer que a razão não contribui para a moral. Contribui, mas não é a fonte de seu conteúdo. A razão pode servir como filtro para as sentenças morais: juízo de reprovabilidade “A” é capaz de coibir a conduta “A'”? Poderia, então, evitar absurdos como tentar coibir a prostituição ao dizer que correr de costas é reprovável. Em resumo, a razão garantiria que se desvaloram condutas abstratas corretas de modo a coibir condutas concretas relacionadas às mesmas. Para coibir a prostituição, se reprovaria a banalização das relações sexuais (o que fatalmente levaria à comercialização das mesmas), por exemplo.

Da religião: A religião por muito tempo foi, sim, o único norte moral da civilização ocidental. Aliás, não só foi um norte moral como foi, também, praticamente a personificação do direito como um todo. Suas influências vão ainda além da moral: se encontram na lei e na própria formação do Estado Moderno. Foi, também, em tempos mais remotos, a filosofia de vida de populações inteiras, que seguiam vidas devotas, cujos costumes estavam diretamente ligados aos mandamentos divinos. A influência da religião na moral nunca desapareceu, mas foi secularizada: o conteúdo se manteve, mas as motivações passaram a ser alteradas. O roubo, por exemplo, deixa de ser considerado reprovável por ser um pecado, e passa a ser reprovável por violar um direito natural e inalienável à propriedade privada.

Dos costumes: Os hábitos por muito tempo foram estritamente definidos pela religião, mas ao longo dos tempos passou a ganhar contornos próprios, principalmente com a perda de prestígio da Igreja e a sedimentação do paradigma da liberdade individual e da ordem espontânea. Os hábitos possuem uma eficácia maior que os dois aspectos anteriores em estabelecer um conteúdo moral pelo fato de estarem ligados àquilo que é socialmente construído ao longo dos anos e passado de geração em geração. A reprovabilidade é mais cruel e repressiva na medida que mais pessoas realizam esse julgamento de maneira uníssona e passam a estranhar o comportamento diferenciado. Em um cenário em que grande parte da população adere a um determinado aspecto da tradição, todo aquele que o viola é imediatamente reprimido moralmente ou segregado. Esse elemento da tradição por muitas vezes não possui base racional ou religiosa, mas apenas habitual.

Essa repressão do meio social àqueles que viola seus preceitos morais faz com que as mudanças nesse sentido sejam extremamente lentas e graduais, coincidindo com uma mudança geral da mentalidade de todo um povo. O Estado, aqui, é desnecessário para coibir condutas imorais, já que a repressão espontânea da sociedade pode ser muito mais brutal mesmo que nenhuma agressão física seja realizada (é claro que não deve existir uma nova capitis deminutio, em que o Estado passa a permitir que o “imoral” perca a proteção de seus direitos básicos). Na verdade, na atualidade, o Estado age em sentido oposto: ele intervêm para que essas condutas sejam não só aceitas, mas também estabelecidas como um novo parâmetro moral. Ele exerce um papel contrário àquele que dizem que serviria aos conservadores. Ele massacra a moral vigente atendendo às reivindicações subversivas e passa a estabelecer uma moral totalmente nova e contrária às instituições existentes.

O Estado em pouco serve para manter a moral de um ponto de vista conservador. Ele é inimigo da mesma.