Tags

, , , , , , , , , , , , , , , , ,

Artigo postado por Al Verdi em Que No Te Pisen, blog do movimento libertário argentino, representado pelo Partido Liberal Libertario. Traduzido e adaptado para o português do Brasil por Renan Felipe dos Santos. Para ler o artigo original, em espanhol, clique aqui.

Mitos e confusões a respeito de uma economia livre, ou seja, ausente de intervenção governamental, há para todos os gostos. Alguns são resultado da ignorância que existe em matéria econômica, por mais que muitos creiam tê-la muito clara, e outros são simplesmente mentiras difundidas por aqueles que se veriam prejudicados em uma economia livre. O caso da obsolescência programada fica no meio do caminho, em muitos casos é uma realidade que os produtos estão previstos para durar uma quantidade X de tempo, os materiais utilizados, os custos em geral, a expectativa de aparição de uma nova tecnologia, são todos fatores que influem no tempo em que um produto, que tem incorporada tecnologia, torne-se obsoleto. De qualquer forma, certos grupos (o Movimento Zeitgeist é um deles) geram certa aura conspiratória ao redor da obsolescência programada, e a consideram uma razão a mais para opor-se ao livre mercado.

O “Movimento Zeitgeist”, um dos que propoem a ideia conspiratória da “obsolescência programada”.

O argumento utilizado, por exemplo, por membros do Movimento Zeitgeist é mais ou menos assim:

Se denomina obsolescência programada a determinação, planificação ou programação do fim da vida útil de um produto ou serviço de modo que este se torne obsoleto, não funcional, inútil o inservível após um período de tempo calculado de antemão, pelo fabricante ou empresa de serviços, durante a fase de concepção de tal produto ou serviço. A obsolescência programada tem um potencial considerável e quantificável para beneficiar ao fabricante dado que o produto vai estragar em algum momento, obrigando ao consumidor que adquira outro produto novamente. O objetivo da obsolescência programada é o lucro econômico imediato, para o qual o cuidado e respeito ao ar, água, meio ambiente e por fim o ser humano, passa a um segundo plano de prioridades. Cada produto que se torna obsoleto, supõe contaminação. É um evidente problema do atual sistema de produção e econômico: não se ajusta em absoluto à harmonia e equilíbrio da natureza em que vivemos.

Em síntese, as empresas ganham milhões de dólares ao fabricar produtos que logo depois de determinado tempo indefectivelmente estragam, e nos obrigam a comprar novos produtos, que muitas vezes são iguais aos anteriores mas com um aspecto novo. Claro que não são os únicos, desde uma visão pouco mais acadêmica o economista John Kenneth Galbraith sustentava as mesmas idéias. É necessário terminar com este mito, e explicar porque estão equivocados os que sustentam estas teorias, muitas vezes em tom conspiranóico. Aproveitamos que sobre este tema se ocupou Lew Rockwell há alguns anos neste artigo, para esclarecer um pouco o assunto. Começa Rockwell assinalando que o raciocínio descrito anteriormente parte de pressupostos falsos:

Em primeiro lugar, o modelo supõe que os fabricantes são muito mais inteligentes que os consumidores, que são tratados como uma espécie de vítimas passivas dos poderosos interesses capitalistas. De fato, no mundo real, são os fabricantes que se queixam de que tem de manter-se em dia com os irritantes consumidores, que mudam constantemente, que buscam o barato, e que descartam os produtos e os trocam por outros por razões tão racionais como misteriosas.

Ou seja, como bem explica Mises em “Ação Humana”, o consumidor é o “rei do mercado” e são os fabricantes que devem adaptar-se a eles para sobreviver, não eles aos fabricantes.

Evolução dos celulares: a obsolescência como sinal de prosperidade.

Em segundo lugar, diz Rockwell:

O modelo parte da curiosa presunção de que os produtos deveriam durar o maior tempo possível. A realidade é que no mercado não existe uma preferência predefinida sobre quanto deveriam durar os produtos. Esta é uma característica do processo de produção que é manejada por completo pela demanda dos consumidores.

As velhas batedeiras, ferros e outros elementos que duravam décadas, é o que querem aqueles que veem por trás da obsolescência programada  uma conspiração dos grandes interesses corporativos ou algum inimigo grandiloquente similar. Rockwell responde:

Mas é este [o da obsolescência programada] um argumento contra o mercado ou é só um reflexo das preferências dos consumidores que preferem outras características (preço mais baixo, tecnologia mais nova, ou diferentes funções) mais que a longevidade do produto? Eu digo que é o último. Ao ter baixado o preço dos materiais, faz mais sentido substituir um produto que criar um que dure para sempre. Você quer uma batedeira de $500 que dure 30 anos ou uma de $80 que dura 5 anos? O que os consumidores preferirem é o que finalmente domina o mercado.

Claro que porque Lew Rockwell escreve isto não quer dizer que seja verdade. De qualquer forma temos um argumento mais convincente que nos assegura que são os consumidores os que decidem a duração dos produtos: a concorrência. Se realmente os consumidores valorizam mais a longevidade de um produto a outra característica, e estivessem dispostos a pagar o preço, um fabricante poderia oferecer um produto que resista décadas e décadas. A realidade contradiz essa tendência, em um mercado livre podemos conhecer qual é a preferência predominante simplesmente vendo que tipo de produto se oferece habitualmente.

Um processador de textos que, diferente do Word, passa de geração a geração, não requer atualizações, não tem vírus, e tem compatibilidade com todos os formatos. Querem?

Além disso, este tipo de argumentação contra a obsolescência programada tem certo tom elitista, segundo analisa Rockwell:

É comum que as pessoas hoje em dia olhem para uma parede oca ou algum artigo de plástico e diga: Que produtos baratos e de má qualidade! Antigamente, os fabricantes se preocupavam com a qualidade do que faziam, agora a ninguém importa e estamos rodeados de lixo! Bom, a verdade é que o que chamávamos de alta qualidade no passado não estava disponível para as massas na mesma medida que está hoje. Os carros durariam mais no passado mas menos gente podia ser dona de um do que se pode ser no mundo atual, e eram muito mais caros (em termos reais).

Por último, conclui Rockwell:

Pode chamar isto de obsolescência programada se quiser. Está programada pelos produtores porque os consumidores preferem melhoras a permanência, disponibilidade a longevidade, que possa ser substituído a que possa ser reparado, movimento e mudança a durabilidade. Não é um desperdício porque não existe uma norma eterna pela qual podemos medir e avaliar a racionalidade econômica por trás da utilização dos recursos na sociedade. Isto é algo que só pode ser determinado e julgado pelas pessoas que utilizam os recursos em um entorno de mercado.

Muitas vezes as características do mercado livre que  alguns podem perceber como negativas, em realidade, são características as quais se adequam os produtores pela necessidade de satisfazer a demanda de consumidores. O sentimento de que “antigamente era melhor” é somente uma idealização destes tempos passados, hoje vivemos em uma sociedade mais próspera, e com um acesso mais amplo a uma gama de produtos que nem sequer os reis de séculos anteriores imaginaram possuir, ainda que a durabilidade dos mesmos seja menor que há 50 anos.