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Por Fernando Pessoa

Publicado originalmente na Revista de Comércio e Contabilidade, No. 3 (Março de 1926)

Este estudo é propriamente nosso. Não lhe fomos buscar os elementos a nenhum tratado. Não tivemos mestre para escrevê-lo. O conhecimento atento da história, e a análise firme dos factos que ela fornece, foi quanto nos foi preciso para a sua elaboração. Como não plagiamos, nem imitamos, nem sequer aceitamos criticamente, mas pensamos por nossa cabeça, visto que ela existe, achamos conveniente começar este artigo por dizer que ele é nosso, e que em nenhum ensaio ou tratado estranho se encontra o estudo que ele encerra, nem, portanto, os ensinamentos que desse estudo derivam. O seu a seu dono, mesmo quando sejamos nós o dono…

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A actividade social chamada comércio, por mal vista que esteja hoje pelos teoristas das sociedades impossíveis, é contudo um dos dois característicos distintivos das sociedades chamadas civilizadas. O outro característico distintivo é o que se denomina cultura. Entre o comércio e a cultura houve sempre uma relação íntima, ainda não bem explicada, mas observada por muitos. É, com efeito, notável que as sociedades que mais proeminentemente se destacaram na criação de valores culturais são as que mais proeminentemente se destacaram no exercício assíduo do comércio. Comercial, eminentemente comercial, foi Atenas. Comercial, eminentemente comercial, foi Florença.

A relação entre os dois fenómenos é ao mesmo tempo de paralelismo e de causa-efeito. Toda a vida é essencialmente relação, e a vida social, portanto, é essencialmente relação entre indivíduos, quando simples vida social; e entre povos, quando vida civilizacional. Ora, como os fenómenos da vida superior são de duas ordens – materiais e mentais –, devem ser materiais e mentais os fenómenos da vida superior civilizacional; e, como a vida é essencialmente relação, esses fenómenos devem ser relação. Como o comércio é, por sua natureza, uma interpenetração económica das sociedades, é no comércio que as relações materiais entre as sociedades atingem o seu máximo; e como a cultura é uma interpenetração artística e filosófica das sociedades, é na cultura que as relações mentais entre os povos conseguem o seu auge. Segue que uma sociedade com um alto grau de desenvolvimento material e mental, e, portanto, com um alto desenvolvimento da vida de relação, forçosamente será altamente comercial e altamente cultural paralelamente.

Comércio em Tlaxcala, México

Comércio em Tlaxcala, México (período pré-colombiano) – Note no centro o dentista azteca prestando seus serviços

Acresce, ainda, que o comércio é uma distribuição, centrífuga ou centrípeta, da produção material, ou indústria; e a cultura é uma distribuição, centrífuga ou centrípeta, da produção mental, ou arte. Os fenómenos são, pois, rigorosamente paralelos. E assim como, nos países de grande produção artística, a curiosidade pela arte alheia se desenvolve, pois que a criação artística própria não pode exercer-se sem interesse pela arte, e, portanto, também pela arte dos outros; assim também, num país de grande produção industrial, a necessidade de produtos alheios – que o próprio país ou não pode, ou não pode convenientemente, produzir – nasce do estímulo às necessidades internas que essa grande produção criou, depois de ter tido nelas origem.

Mas entre os dois fenómenos – comércio e cultura – há, também, uma relação de causa-efeito. A cultura, ao aperfeiçoar-se, tende para a universalidade, isto é, para não excluir da sua curiosidade elemento algum estranho. Quanto mais fácil for o contacto com elementos estranhos, tanto mais essa curiosidade se animará, e a cultura permanecerá viva. Ora, como o fenómeno material precede sempre o fenómeno mental, o meio mais seguro de se formarem contactos mentais é terem-se formado contactos materiais; e, como a cultura exige necessariamente um contacto demorado e pacífico, o contacto material que a estimule terá de ser demorado e pacífico – e é isto mesmo que, em contraposição à guerra, distingue a actividade social chamada comércio.

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O estabelecimento, um pouco demorado, desta analogia ou paridade entre o fenómeno cultural e o comercial não é uma espécie de digressão ou devaneio neste artigo […]. Visa, antes de mais nada, mostrar claramente a importância social do comércio, e mostrá-la àqueles mesmo que frequentemente a esquecem ou a negam. E como esses, em geral, são os que são ou se julgam pessoas de cultura, o argumento que se lhes opõe é tirado das próprias preocupações deles; responde-se-lhes na própria língua que falam, ou dizem falar.

Mas esta demonstração visa, também, estabelecer – para o que vamos expor o que nos parece terem sido, dentro da civilização europeia, os estádios de evolução do comércio – uma espécie de contraprova constante. Se comércio e cultura são actividades sociais necessariamente análogas e paralelas, deve haver uma analogia e um paralelismo entre os estádios da evolução comercial e os da evolução cultural. determinado, pois, um estádio da evolução do comércio, será fácil verificar se está bem determinado, verificando se lhe corresponde um estádio paralelo da evolução da cultura.

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Fernando Pessoa foi poeta, escritor e filosofo. Tendo também trabalhado nas áreas de jornalismo, empreendedorismo, comentarista político, tradutor, crítico literário e muitas outras, é reconhecido não apenas como um dos maiores poetas da língua portuguesa como da literatura mundial.