Por que não eu?

Esse artigo foi escrito por Raduán Melo para o blog Atlas. Para ler o artigo em seu site original clique aqui.

Por que como país não somos tudo que poderíamos ser? Somos um país praticamente isolado de grandes catástrofes naturais (tornados, terremotos, maremotos…), temos também,  um tamanho continental e um povo pacífico. Ainda temos a maior floresta do mundo, reservas de água doce que causam inveja e para fechar ainda temos petróleo, minério de ferro e terras produtivas ociosas. Uau, somos fantásticos! Por que não somos, então?

Primeiramente, gostaria de realizar um exercício: lembre-se de como era o mundo em 1980 (se você não fosse vivo ainda, como eu, tente imaginar ou lembre-se de como tudo era nas suas primeiras lembranças) e como estamos agora, cerca de 30 anos depois. Muitas mudanças ocorreram, é praticamente imensurável a quantidade delas. Em todos os campos, na tecnologia, na medicina, nas relações políticas e sociais e em muitas outras áreas. Na verdade é difícil achar algo que tenha permanecido estático e imutável nesse tempo todo.

Para ilustrar ainda mais essas mudanças, imaginem como era enviar uma foto para algum parente que mora distante, em 1980. Primeiramente, você tinha que ter uma câmera fotográfica (algo que não era acessível a todos), depois teria que comprar um filme de fotos, para só então, com alguma sorte, bater uma foto com qualidade. Com alguma sorte, porque você não poderia ver logo após bater a foto se esta estava do seu agrado. Após tudo isso teria que despender mais recursos, pois seria necessário revelar a foto, para só então então ir aos correios remeter a foto até seu parente, sem antes, obviamente, pagar por esse envio. Hoje, grande parte das pessoas, batem quantas fotos desejarem em seu celular e, se esse possuir conexão com a internet, instantaneamente envia-se a foto para o destinatário. Hoje não é apenas mais simples, é mais barato, mais rápido, bem mais acessível a qualquer um e até, mais ecológico.

Os avanços tecnológicos dos últimos 30 anos propiciaram isso, em resumo, em nossas vidas somos mais produtivos! Fazemos tudo mais rápido, com menores custos e, como se não bastasse, como muita mais qualidade!

É nesse ponto que vem a grande surpresa: nós, Brasil, praticamente mantemos a produtividade (medida pelo quociente entre PIB e pessoal ocupado) que tínhamos em 1980. Ou seja, a riqueza gerada por um trabalhador brasileiro há 30 anos está nivelada a dos dias de hoje. Isso seria incrível, se não fosse a exata realidade de nosso país varonil que vemos todos os dias, mas insistimos em não enxergar.

Desde 1980, surfamos o aumento da população ativa e a grande quantidade de desempregados que tínhamos para crescermos nossa produção. Não melhoramos nossa maneira de fazer, apenas colocamos mais braços fazendo a mesma coisa. Se por um lado tiramos pessoas do desemprego, e isso é ótimo, por outro, chegamos (ou estamos perto) de um pleno emprego. E agora? Um trabalhador brasileiro, segundo o The Conference Board, é 5 vezes menos produtivo do que um americano, 3 vezes mais improdutivo do que seu par em Trinidad e Tobago (um conjunto de ilhas no Atlântico, que com certeza muito de nós não sabe, ao menos, sua localização no globo). Países vizinhos nossos como Peru, Colômbia  e Uruguai também nos colocam para trás no quesito “fazer mais com menos”.

Mas o que aconteceu? Porque desde 1980 não melhoramos, se tudo está muito  mais “fácil” do que antes? A resposta é, se existiu uma força tecnológica e científica que facilitaram nossa vida, existiu uma força contrária que fez com que o jogo ficasse no zero a zero, e continuássemos estacionados.

Essa força antagônica mostra-se presente em nossas crenças. Preferimos sempre o atalho e o mais fácil, preferimos infinitamente uma emenda que resolva por hoje do que o trabalho sério que resolveria de vez. Confiamos mais em papel assinado do que em palavra. Somos o país da burocracia, precisa-se, em média, de 119 dias para se abrir uma empresa no Brasil (na ex-socialista Rússia são 30 dias). Isso porque o futuro empresário tem que provar várias coisas e não o contrário (alguém ter que provar algo que o impeça de abrir uma empresa) e assim perdemos tempo de produção. Achamos que diferenciar determinada classe social ou, beneficiar uns, subjulgando o mérito de outros (reavivando o conceito falido de raça), resolverá nossos problemas educacionais, e assim jogamos na lata do lixo a meritocracia em nosso ambiente acadêmico. Ainda temos a plena convicção de que aumentar os impostos para a importação é uma medida que defende a economia do país, quando na verdade nada mais acontece do que tirar os ganhos do consumidor, que compraria mais barato, em prol de algumas empresas defendidas com essas decisões, e assim incentivamos a incompetência. Ainda pensamos que a principal razão de sermos pobres é alguém ser rico, e assim nos confortamos com a posição de injustiçados e explorados. Sem falar em nossas estradas e demais canais de escoamento produtivo que funcionam na beira do colapso e insistimos que isso deve ser monopólio do governo. Por fim, ainda acreditamos que outros são mais competentes para decidir o que é melhor para nós do que nós mesmos, e convivemos bem com um imposto que já responde por cerca de 40% de toda a produção do Brasil.

Não somos o que deveríamos ser por isso. Apesar de todo o advento tecnológico, estamos estagnados. Nosso insucesso não advém do sucesso de nenhum outro lugar, mas simplesmente da crença do que já vimos e revimos que não funciona.

Autor: Rafaela Santos Jacintho

"Posso não concordar com nem uma das palavras que me diz, mas lutarei até com minha vida se preciso for, para que tenhas o direito de dizê-las".

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