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Frequentemente debato com outros colaboradores aqui do blog, ou mesmo contatos meus no Facebook, sobre mentalidades ou disposições políticas e religião. Uma pergunta que quase sempre aparece é “pode um ateu ser conservador?” ou “pode um conservador ser ateu?”. É uma pergunta bastante pertinente, já que o conservadorismo é frequentemente associado, no Ocidente, ao Cristianismo.

conservadorismo darwiniano

 

Talvez não seja muito comum no Brasil, mas nos EUA encontra-se ateus com disposições conservadoras. Inclusive há ótimos blogs e sites sobre isso como o The Atheist Conservative, o Skeptical Conservatives, o Secular Right e o Secular Conservative. Enfim, encontra-se conteúdo para os curiosos de plantão.

No artigo de hoje tentarei esboçar o que seria um conservadorismo ateu ou agnóstico, quais seriam seus princípios e características básicas.

1. Realismo
Independente de como tenha surgido o Universo, sabemos que ele existe e sabemos que ele é ordenado. Sabemos que existe uma Realidade, uma Natureza, acessível aos sentidos do Homem, e que o Universo é ordenado de alguma forma. A regularidade das estações, do florescimento, da fisiologia, do tempo e da forma, são provas desta Ordem.

(Nota: Uma Ordem particular é o que chamarei de “Espírito”, e portanto o adjetivo “espiritual” se refere aqui a uma disposição característica das coisas. O Espírito – ordem e disposição das coisas – faz contraponto portanto ao Corpo – material, essência e composição das coisas.)

2. Racionalidade
O Homem é capaz de compreender, abstrair e sintetizar a Ordem do Universo, ou seja, é capaz de raciocinar. O Homem é o animal racional por excelência, ainda que seja limitado pelas condições naturais. A Racionalidade do homem implica que ele é capaz de perceber a Ordem e adequar meios aos fins, entender causas e consequências, relações cronológicas e analógicas, etc., mas não implica que ele sempre pondera sobre seus atos e que ele não possa agir por instinto ou repetição habitual.

3. Ciência e Tradição
A constância do Universo nos permite estudar o passado e estimar o futuro, e portanto acumular Conhecimento (Ciência), Experiência (Sabedoria) e Hábito (Tradição).

A Tradição ou Hábito é a Sabedoria cristalizada dos antepassados e não deve ser descartada sem ponderação. Se por um lado a Antiguidade não configura argumento que defenda a Tradição, a Modernidade também não é uma qualidade em si. O conservador prefere o testado ao não testado, o certo ao duvidoso, o possível ao imaginado, e portanto o ônus da prova recai sempre naquele que contesta o atual estado das coisas.

Uma Sociedade não é composta só pelos Homens. Ela é caracterizada pela sua forma, pela Ordem em que estão dispostos, pelo Espírito: uma cultura é caracterizada pelos seus conhecimentos, experiências e hábitos acumulados. O modo como vivem, as festas que celebram, os mitos que contam, etc., toda esta riqueza acumulada é o que forma uma cultura e portanto uma identidade coletiva e uma memória partilhada. Para manter uma Civilização, portanto, não basta assegurar a integridade física dos seus membros – o Corpo -, mas também a integridade espiritual, sua cultura.

4. Contrato Social
Uma sociedade é composta por seus membros vivos, mortos ou futuros. Os homens transmitem ao longo da vida a Ciência, a Sabedoria e a Tradição para os outros, e isto implica que os mortos tem participação no todo do Conhecimento, Experiência e Hábito acumulado pela Sociedade. Os vivos se encarregam de desenvolver e ampliar esta riqueza acumulada e legá-la para as futuras gerações, que por sua vez farão o mesmo, e assim numa sucessão infinita. Esta cooperação entre os que já se foram, os que estão entre nós os que ainda virão é o que se chama Contrato Social.

5. Conservação
O Progresso não deve ser um ídolo. Não se sacrifica o Corpo e o Espírito de uma Sociedade apenas para por à prova uma nova tecnologia ou ideologia. Mudanças só são positivas na medida em que sirvam ao propósito da conservação da Sociedade. Em detrimento de uma visão progressista da Sociedade, que postula uma melhora constante com a modernização, o conservador tem uma visão mais ‘darwinista’: a evolução é a adaptação da Sociedade ao meio para sua própria manutenção. Deve-se recusar qualquer forma de engenharia social, de eugenia, de recriação do Homem e da Sociedade “do zero”.

6. Ceticismo
Somos tributários de milênios de evolução civilizacional, e não estamos destinados a ser muito mais do que as gerações passadas ou muito menos do que as gerações futuras. Devemos fugir do idealismo e da utopia para evitar que, na tentativa de criar um Paraíso terreno, criemos um Inferno como tantas vezes ocorreu ao longo da História. O conservador é cético quanto ao Poder e não acredita em políticos reformadores e iluminados, déspotas esclarecidos, burocratas, tecnocratas, planejadores centrais, etc.

7. Laicidade
O Estado deve ser laico e manter-se separado das instituições religiosas (Igreja, Mesquita, Sinagoga, etc…). A Religião, aspecto Cultural e como tal parte da Tradição, é de responsabilidade da Sociedade e não do Estado. Assim como a Tradição e a Educação, a Religião deve estar fora do alcance do dirigismo estatal, livre para operar na Sociedade e sem o risco de ser transformada em ferramenta dos fins políticos, partidários ou ideológicos.

8. Sociedade Orgânica
O conservador é contrário aqueles que ditam que o Estado tem de formar os cidadãos. Os cidadãos é que tem de formar o Estado. Não é o Estado que tem de patrocinar a Cultura, mas a Cultura que tem de adentrar no Estado. Não é o Estado que tem de divulgar a Tradição, mas a Tradição que tem de penetrar o Estado.

Uma sociedade saudável só é possível quando os seus membros se responsabilizam pela manutenção de sua vida, educando a si e aos outros, enriquecendo a si e aos outros, cuidando de si e dos outros. Quando o Estado monopoliza em si as atribuições da Sociedade e as impõe de modo dirigista está substituindo o Espírito de uma sociedade natural e orgânica por uma reprodução mecânica e artificial que termina matando a Civilização.

9. Aristocracia Natural
É de se esperar que em qualquer sociedade as pessoas escolham seguir representantes e líderes. Líderes religiosos, chefes familiares, guias espirituais, mestres e professores, instrutores profissionais, empreendedores, etc., são parte de uma aristocracia natural baseada no talento e na autoridade legítima dos líderes e no consentimento e confiança dos liderados.

O conservador crê, portanto, que nunca uma sociedade será totalmente igualitária e que sempre haverá alguma forma de hierarquia. Este “governo dos virtuosos” – significado original da palavra Aristocracia – não deve ser confundido com a aristocracia de sangue (nobreza hereditária), mas ser entendido como um conjunto de organizações normais na sociedade, que se formam na busca por relações estáveis e de mútuo ganho, como ocorre nas relações familiares, nas associações sem fins lucrativos e nas empresas.

Antony Flew, Barry Goldwater, Henry Louis Mencken e Theodore Dalrymple são exemplos de homens que mantiveram posições conservadoras sem filiação religiosa.

Antony Flew, Barry Goldwater, Henry Louis Mencken e Theodore Dalrymple são exemplos de homens que mantiveram posições conservadoras sem filiação religiosa.

Creio que estes são os pontos principais. Embora uma pessoa possa se considerar ateísta ou agnóstica e conservadora e divergir em algum destes pontos, de modo geral todas elas concordarão que as mudanças na sociedade devem ser feitas de maneira lenta e gradual, e que há um governo natural, uma ordem espontânea entre os Homens que necessariamente os reúne em Sociedade. Não há dúvidas portanto de que um ateu pode ser conservador, ou que um conservador possa ser ateu.