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por Bradley J. Birzer. Traduzido e adaptado para o português do Brasil por Renan Felipe dos Santos. Publicado originalmente no The American Conservative. Para ler o artigo original, em inglês, clique aqui.

Contempla-se o poder, a profundidade e a envergadura das mais finas mentes do século XVIII apenas com alguma trepidação e humildade. Ou ao menos, é o que deveria ser feito.

O estudo favorito dos grandes homens daquele tempo, o famoso editor do The Nation E.L. Godkin explicou em 1900, era a glorificação da pessoa contra o poder político. Em “oposição à teoria do direito divino, por reis ou demagogos, a doutrina dos direitos naturais se colocava. A Humanidade era exaltada acima das instituições humanas, o homem era posto acima do Estado, e a irmandade universal suplantava as idéias de poder e glória nacional.”

Mas o mundo mudou profundamente no século XIX. As teorias imensamente complexas de Friedrich Hegel, Charles Darwin, Karl Marx, Herbert Spencer, Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud desconstruíram o homem ocidental, quebrando-o em categorias, caixas, ânsias, desejos e pedaços. Os ideólogos do século XIX não só subverteram milhares de anos de idéias finamente afiadas, que datavam desde Sócrates, eles também providenciaram os meios pelos quais cercar, estrangular e sufocar o homem do ocidente.

O historiador inglês Christopher Dawson apresentou a mudança com surpreendente severidade:

A história do século XIX se desenvolveu sob a sombra da Revolução Francesa e as revoluções liberais nacionais que a seguiram. Um século de revolução política, econômica e social, um século de descoberta do mundo, conquista do mundo e exploração do mundo, foi também a era de ouro do capitalismo; e ainda assim viu a ascenção do socialismo e do comunismo e o seu ataque à fundação da sociedade capitalista. … Quando o século começou, Jefferson era o presidente dos Estados Unidos, e George III ainda era o rei da Inglaterra. Quando terminou, Lenin já estava planejando a Revolução Russa.

Naquele curto século, o homem e os homens foram da integridade aos pedaços.

Mas uma reminisciência sobreviveu na forma do liberalismo clássico e do conservadorismo. Cada um preservou muito do melhor do passado, argumentando em favor de uma pessoa individual complexa, ainda que inconoscível. As mentes mais afiadas destes filósofos salvadores floresceram no final do século XVIII e partilhavam de profundas origens celtas: Adam Smith (1723–1790), muitas vezes tido como o pai do liberalismo clássico, e Edmund Burke (1729–1797), mantendo a mesma posição dentro do conservadorismo moderno.

É possível ver Burke e Smith lutando na retaguarda ao fim de sua era, sintetizando e defendendo a melhor doutrina que cada um herdou – assim como Sócrates, Platão e Aristóteles vieram no fim da Atenas clássica; Cícero ao fim da República de Roma; Santo Agostinho ao fim do Império Romano ou Tomas Morus ao fim do que o acadêmico Stephen Smith chamou de primavera inglesa.

Rotular qualquer um deles, entretanto, é um desserviço ao seus brilhantismo e obscurece o fato importante que Smith e Burke eram amigos próximos e mesmo aliados próximos. Enraizados nas tradições intelectuais e espirituais do ocidente, cada um buscava entender as complexidades do homem não estreitando nosso entendimento ao mero biológico, econômico ou psicológico mas expandindo o homem a um ser completo e mesmo misterioso, cada pessoa sendo única e irrepetível no tempo ou no espaço.

Enquanto Smith poderia ser considerado um estóico com anseios cristãos, Burke era um cristão com um amor pelo estoicismo. James R. Otteson II da Yeshiva University produziu diversas obras excelentes que tornaram-se o padrão pelo qual todos os outros acadêmicos estudando Adam Smith, senão o século XVIII como um todo, devem ser medidos. Em seu volum de 2011 Adam Smith e em seu Adam Smith’s Marketplace of Life de 2002, Otteson não apenas revela a continuidade do pensamento de Smith ao longo de sua vida mas também explica a influência mútua de Burke sobre Smith e vice-versa. Do lado de Burke, talvez o mais importante acadêmico do último meio século tenha sido Peter J. Stanlis. Deve-se ler especialmente a sua obra Edmund Burke and the Natural Law. Otteson e Stanlis argumentam que enquanto Smith e Burke chegavam às mesmas conclusões, eles o fizeram por meios muito distintos: Smith confiava no utilitarismo do senso-comum, enquanto Burke buscava teorias tradicionais da lei natural.

Ocidente Cristão e Estóico

Para os estudados do século XVIII, educação significa “educação liberal”. Eles estudavam grego, latim e os grandes pensadores da Antiguidade. Outras formas de “educação” serviam meramente como treinamento. Esta formação intelectual permitiu que Smith e Burke vissem a si mesmos como membros em continuidade com as tradições do Ocidente desde os tempos pré-socráticos.

Ao longo de sua obra, Smith cita muitas autoridades, mas ele parece ter um especial encanto pelo pensamento estóico, incluindo os elementos deste encontrado no maior dos republicanos romanos, Cícero. Em uma famosa passagem do The Theory of Moral Sentiments, Smith faz uso de um discurso notavelmente estóico quando afirmou que não existe valor mais alto que o amor fraterno:

Daí decorre que sentir muito pelos outros e pouco por nós, que restringir o nosso egoísmo e satisfazer nossas afeições benevolentes, constitui a perfeição da natureza humana, e isto só pode produzir entre a humanidade a harmonia de sentimentos e paixões em que consiste toda sua graça e propriedade. Assim como amar ao próximo como amamos a nós mesmos é a lei maior da Cristandade, é também o maior preceito da natureza amar a nós mesmos assim como amamos nosso próximo, ou o que dá na mesma, como nosso próximo é capaz de amar-nos.

A maior autoridade para Smith parece não ter sido o Deus cristão. Ainda que nunca tenha expressado o ceticismo de seu amigo David Hume, também nunca proclamou ortodoxia. Em vez disso, Smith entendia o homem e a natureza em termos que só podem ser descritos como estóicos. A própria idéia pela qual Smith é melhor conhecido, “a mão invisível”, tem origens estóicas.

No primeiro volume de An Inquiry Into the Nature and Causes of the Wealth of Nations, Smith apresentou o que Otteson acredita ser a mais importante contribuição para nosso entendimento da pessoa individual:

… cada indivíduo necessariamente trabalha para aumentar a renda anual da sociedade o máximo que pode. De fato ele geralmente ou não pretende promover o interesse público ou não sabe o quanto está promovendo. Ao preferir apoiar a indústria doméstica à estrangeira, ele apenas busca a própria segurança; e ao dirigir esta indústria de maneira que seu produto possa ser de maior valor, ele pretende apenas o seu próprio ganho, e ele é, neste caso como em muitos outros, guiado por uma mão invisível a promover um fim que não era parte de sua intenção.

Ainda que a referência de Smith à “uma mão invisível” possa ser meramente uma alusão clássica, deve-se notar que o conceito deriva do entendimento estóico da Providência. Em sua primeira forma, é a “mão invísivel de Júpiter”, guiando gentilmente e mantendo a ordem no universo, engrenando a escolha pessoal às necessidades societais.

Em The Theory of Moral Sentiments, Smith expressou outro conceito chave do estoicismo. Cada pessoa desejava ser o cidadão de algo mais elevado que sua sociedade imediata: “O homem, de acordo com os estóicos, não deve considerar-se como algo separado e destacado, mas como um cidadão do mundo, um membro de uma vasta comunidade da natureza”, Smith escreveu. “Para o interesse desta grande comunidade, ele deve todo o tempo estar disposto a sacrificar o seu próprio interesse.”

Burke também recebeu uma educação liberal. Em seus escritos, começando por sua primeira obra filosófica, uma obra-prima da estética, o irlandês citou Aristóteles, os estóicos, Cícero e os escolásticos medievais com aprovação, concebendo suas próprias idéias de direito natural a partir de pensadores que vieram antes dele. Em uma passagem similar àquelas apresentadas por Smith anteriormente, Burke descrevia sua própria crença na ordem do cosmos e o papel do homem dentro dela:

Certo de que não escrevo para os discípulos da filosofia parisiense, posso assumir que o impressionante Autor do nosso ser é o Autor de nosso lugar na ordem da existência – e que, tendo nos disposto e guiado por uma tática divina, não de acordo com nossa vontade, mas de acordo com a Sua, nesta e por esta disposição Ele virtualmente nos submeteu a atuar conforme o lugar que nos foi reservado. Temos obrigações para com a humanidade, que não são consequentes de qualquer pacto voluntário especial. Elas surgem da relação do homem com o homem, e da relação do homem com Deus, as quais não são questão de escolha.

Ao contrário de seu amigo Smith, Burke era cristão em primeiro lugar, depois estóico. Seus pais criaram suas filhas como católicas romanas e seus filhos como anglicanos. Em uma carta privada, Burke elogiava tenuamente o estoicismo de Smith. “O estilo é vívido e elegante em todo lugar, e é, o que acho igualmente importante em uma obra deste tipo, bem variado”, notou Burke com relação a The Theory of Moral Sentiments. “É muitas vezes sublime também, particularmente naquela fina imagem da filosofia estóica no final da sua primeira parte, que é esmiuçada com tanta grandeza e pompa que se torna uma magnífica ilusão.”

Magnífica ilusão, certamente – uma que inspirou várias figuras como Santo Agustinho, Petrarca, Tomas Morus, e Russell Kirk. Burke felizmente considerou o livro de Smith mais próximo de uma pintura do que uma obra acadêmica.

Burke proclamava tão firmemente sua fé e seus princípios cristãos em praticamente todas as suas obras e discursos que aqueles que o estudam podem declará-lo, sem trepidação, um “estadista cristão”, como fez Russell Kirk em 1955. Smith nunca esclareceu se sua crença no estoicismo era uma “ilusão” ou não. Em vez disso, parecia ter uma fé em algum ponto entre aquele de Hume o de Burke, nem ortodoxo, nem herege, mas heterodoxo.

O cristão e o estóico não estavam tão separados. As duas mentes celtas descritas aqui rapidamente abraçaram o entendimento platônico, estoico, ciceriano, paulino e agostiniano da realidade além deste mundo, uma república maior do que qualquer confederação na Terra. Ainda que nossa república mortal escapasse entre nossos dedos, outra república mais real existiria além dos confins do tempo. Isto se deve à própria natureza do homem. Na tradição ocidental, Cícero explicou isto de maneira sucinta. Uma pessoa, ele escreveu, é

dotada pelo deus supremo com um grandioso status no momento de sua criação. Só ela, de todos os tipos e variedades de criaturas animadas, tem uma porção de razão e pensamento que a todos os outros falta. O que há, não só nos humanos, mas em todo o céu e a terra, mais divino que a razão? Quando ela amadurece e chega à perfeição, é chamada mais propriamente sabedoria … a razão forma a primeira ligação entre o homem e deus.

A forma da razão para Cícero é mais platônica e mística do que a razão de Rousseau ou Bentham – ou Jefferson, neste caso.

Uma vez que ele reconheceu os dos mundos – o mundo mais alto da razão, e o mais baixo do ser terreno – um homem se encontra “não preso por paredes humanas como cidadão de um ponto particular mas como cidadão do mundo todo como se fosse uma única cidade.” Sua cidadania muda do mundano para o transcendente, para o que os estóicos chamavam “cosmopolis”, o que Santo Agostinho chamou “A Cidade de Deus”, e o que Inkling Owen Barfield sabia ser “uma confederação da alma onde não há copyright.”

Poderíamos chamar esta visão elaborada de cosmos eterno como uma forma de Justiça ao menos como entendida pelos antigos. Bem definida, a virtude reside em cada homem saber seu lugar na ordem da existência, dando a cada pessoa o que lhe é devido. Em múltiplas conferências e livros, Smith afirmava que a Justiça é o maior objetivo do governo. Em sua conferência de 1762 Lectures on Jurisprudence, ele escreveu, “O primeiro e principal desígnio de todo sistema de governo é manter a justiça; impedir que os membros de uma sociedade violem a propriedade uns dos outros, ou confisquem o que não é seu.” Nada surpreendente, Burke concordou. A sociedade civil, afirmou muitas vezes, existia para promover a justiça na sociedade.

Para Smith e Burke a maior ameaça para a liberdade, a justiça e a ordem vinha daqueles que viriam a ser conhecidos como ideólogos. Provavelmente influenciado por Burke, como afirma Otteson, Smith combateu veementemente o “Homem do Sistema”, o candidato a tirano, convencido, de mente fechada, burocrata ou administrador de escola pública.

“Em meio a turbulência e desordem do tumulto, um certo espírito de sistema é capaz de misturar-se com o espírito público, que está fundado sobre o amor da humanidade, sobre um verdadeiro sentimento de solidariedade com as inconveniências e angústias a que alguns dos nossos companheiros cidadãos podem ser expostos “, Smith temia.

“O espírito de sistema toma a direção do mais gentil espírito público; sempre o anima, e frequentemente o inflama até a loucura do fanatismo”, continuou em sua revisão do Theory of Moral Sentiments, publicado antes da Revolução Francesa. “O homem de sistema, ao contrário, é apto a ser muito sábio em sua própria arrogância; e é frequentemente tão enamorado da suposta beleza de seu próprio plano ideal de governo que não consegue suportar o menor desvio de qualquer parte dele.”

Um homem verdadeiro, continua Smith algumas páginas depois, entendia que o único sistema concreto no universo era o “bom governo da grande república dos deuses e dos homens, de todos seres racionais e sensíveis.”

Para fazer justiça ao pensamento de Smith e Burke uma semelhança final deve ser notada. Ambos nutriam o desejo dos Old Whig (velhos whig) pela liberdade das colônias americanas. Muito do Wealth of Nations de Smith lidava com a descoberta e os recursos das Américas, notando, emparticular, as incríveis taxas de natalidade e crescimento econômico das colônias inglesas ao longo do Atlântico. Sua importância, Smith afirmava, nunca poderia ser exagerada.

Burke, como é bem lembrado, serviu como o maior defensor do caráter americano e das liberdades americanas em toda a Grã-Bretanha. De seu discurso de abertura no Parlamento contra o Stamp Act, uma petição rigorosa pela sua revogação, pelo fim do conflito, Burke lamentava a guerra de George III contra homens e mulheres que tão claramente – pelo menos para ele – defendiam noções muito próprias à tradição inglesa. Do começo das hostilidades na primavera de 1775, Burke encarou o conflito como uma guerra civil, nutrindo pequena esperança na restauração de um império pacífico. Simpatizou com a afirmação dos colonos de que o Parlamento estava inovando contra eles, privando-os de suas liberdades anglo-saxãs.

Estas coisas dependem de convenções reais ou pressupostas, da prática, do acidente, do humor ou gênio daqueles que governam ou são governados, e podem ser, como são, modificadas infinitamente”, escreveu em julho de 1775. “Nenhum limite jamais foi posto ao Parlamento com relação às Colônias … mas a razão e a natureza das coisas, e o crescimento das Colônias deve ter ensinado ao Parlamento a colocar limites no exercício do seu próprio poder.

Muitos ingleses, no poder ou não, menosprezaram o conflito na América do Norte, mas nenhum se colocaria contra o rei. Era, Burke disse, uma “loucura coletiva”. Burke fez festas e banquetes quando o rei declarou dias de abstinência para apoiar a guerra, e ele retirou-se do Parlamento por um tempo como forma de protesto. Talvez o mais surpreendente foi que, em um discurso ante a Câmara dos Comuns, Burke equiparou o rei, como chefe da Igreja Anglicana, com o rei dos anjos caídos.

Por que Mente Celta?

Mas porque “Mente Celta”? O que explica que uma das áreas mais remotas da Europa tenha produzido intelectos tão finos em tão pouco tempo?

Dos vários tão-chamados Iluminismos do século XVIII, o Iluminismo Escocês provou ser o menor de todos os outros. O Iluminismo Francês tentou trazer o homem de volta ao estado de natureza pelos ensinamentos de Rousseau e outros – acabar com a civilização para começar de novo – enquanto o Iluminismo Inglês promovia o bizarro e desumano cálculo de “dor e prazer” de Jeremy Bentham. O Iluminismo Americano consistia apenas de Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, Benjamin Rush, e uns poucos outros famosos excêntricos.

Apesar do ceticismo religioso do Iluminismo Escocês, os escoceses esperavam encontrar o “senso comum” das coisas, descobrir princípios universais do homem sem destruir as manifestações específicas das peculiaridades do homem. Nas colônias americanas, era possível encontrar alguns dos melhores proponentes do Iluminismo Escocês entre figuras como Charles Carroll, James Wilson e John Witherspoon. Talvez a resposta para os “por quês” e “comos” da Mente Celta seja muito simples. Dos Iluminismos europeus, somente a Mente Celta tentou engajar-se na tradição ocidental sem derrubá-la.

A Mente Celta reconheceu e estendeu a visão ocidental do homem. Não buscou, como os outros iluminismos, colocar o homem em uma caixa com este ou aquele rótulo. Mesmo no seu ceticismo, a Mente Celta adotou a humildade, não o ego. Se aqueles de nós que amam a ordem e a liberdade, sejamos conservadores ou libertários, fizéssemos o mesmo, poderíamos ter a chance de reclamar o terreno agora em posse dos herdeiros daqueles iluminismos mais baixos – os neoconservadores, os esquerdistas militantes, e suas legiões de corporativistas aliados alimentando o Leviatã em casa e o imperialismo sangrento no exterior.