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Transcrição da segunda seção do Capítulo II do livro A Mentalidade Anticapitalista, de Ludwig von Mises.

Desde o início do movimento socialista e dos esforços para restaurar as políticas intervencionistas das eras pré-capitalistas, tanto o socialismo quanto o intervencionismo ficaram totalmente desacreditados aos olhos dos que entendem de teoria econômica. Mas as ideias dos revolucionários e dos reformadores encontraram respaldo junto à grande maioria de pessoas ignorantes levadas exclusivamente pelas fortes paixões humanas de inveja e de ódio.

A filosofia social do Iluminismo, que preparou o caminho para a efetivação do programa liberal — liberdade econômica, consumada na economia de mercado (capitalismo), e no seu corolário constitutivo, o governo representativo —, não propôs a extinção dos três velhos poderes: monarquia, aristocracia e Igreja. Os liberais europeus preconizavam a substituição do absolutismo real pela monarquia parlamentar, e não o estabelecimento de um governo republicano. Queriam abolir os privilégios dos aristocratas, mas não destituí-los de seus títulos, brasões e patrimônio. Lutavam para garantir a todos a liberdade de consciência e para terminar com a perseguição de dissidentes e hereges, mas também preocupavam-se em conceder a todas as Igrejas e seitas a mais perfeita liberdade para a consecução de seus objetivos espirituais. Assim, os três grandes poderes do ancien regime foram preservados. Podia-se esperar que príncipes, aristocratas e clérigos, que infatigavelmente declaravam seu conservadorismo, estivessem preparados para fazer oposição ao ataque socialista dirigido aos valores da civilização ocidental. Afinal de contas, os arautos do socialismo não esconderam que, sob o totalitarismo socialista, não sobrava lugar para o que eles chamaram de remanescentes da tirania, do privilégio e da superstição.

Entretanto, até nesses grupos privilegiados, o ressentimento e a inveja prevaleceram sobre o raciocínio isento. Praticamente eles ficaram de braços dados com os socialistas, desprezando o fato de o socialismo propor também o confisco de seus bens e o de não poder haver nenhuma liberdade religiosa sob um regime totalitário. O Hohenzollern na Alemanha inaugurou uma política que foi chamada por um observador norte-americano de socialismo monárquico[1]. Os autocráticos Romanovs da Rússia usaram o sindicalismo trabalhista como arma contra os esforços “burgueses” no sentido de estabelecer um governo representativo.[2]

Em todos os países europeus, os aristocratas virtualmente cooperaram com os inimigos do capitalismo. Por toda parte, eminentes teólogos tentaram desacreditar o sistema de livre empresa e, como consequência, apoiar tanto o socialismo quanto o intervencionismo radical. Alguns dos mais destacados líderes do protestantismo atual — Barth e Brunner na Suíça, Miebuhr e Tillich nos Estados Unidos, e o último arcebispo de Canterbury, William Temple — condenam abertamente o capitalismo e ainda atribuem às supostas falhas do capitalismo a responsabilidade por todos os excessos do bolchevismo russo.

É de se perguntar se Sir William Harcourt estava certo quando, há mais de 60 anos, proclamou: Agora somos todos socialistas. O fato é que hoje, governos, partidos políticos, professores e escritores, ateus militantes e teólogos cristãos são praticamente unânimes em rejeitar apaixonadamente a economia de mercado e em louvar os supostos benefícios da onipotência do estado. A geração presente está sendo educada num ambiente preso às ideias socialistas.

A influência da ideologia pró-socialista contribui para o modo como a opinião pública, quase sem exceção, explica as razões que induzem as pessoas a filiar-se aos partidos socialistas ou comunistas. Ao lidar com a política interna, supõe-se que “natural e necessariamente” os que não são ricos são favoráveis aos programas radicais — planejamento, socialismo, comunismo —, ao passo que apenas os ricos têm motivos para votar pela preservação da economia de mercado. Esta suposição dá como evidente a principal ideia socialista segundo a qual os interesses econômicos das massas são prejudicados pela ação do capitalismo, em proveito exclusivo dos “exploradores”, e que o socialismo elevará o padrão de vida do homem comum.

Contudo, as pessoas não desejam o socialismo porque sabem que o socialismo vai melhorar suas condições de vida, nem rejeitam o capitalismo porque sabem que é um sistema nocivo a seus interesses. São socialistas porque creem que o socialismo vai melhorar suas condições de vida e odeiam o capitalismo porque creem que ele as prejudica. São socialistas porque estão cegas pela inveja e pela ignorância. Recusam-se obstinadamente a estudar economia e desprezam a devastadora crítica que os economistas fazem ao planejamento socialista porque, a seus olhos, por ser uma teoria abstrata, a economia é simplesmente absurda. Fingem acreditar apenas na experiência. Mas também obstinadamente recusam-se a tomar conhecimento de negáveis fatos da experiência, como, por exemplo, que o padrão de vida do homem comum é incomparavelmente mais elevado na América capitalista do que no paraíso socialista soviético.

Ao lidar com a situação dos países economicamente atrasados, os indivíduos mostram o mesmo raciocínio errôneo. Acham que esses povos devem simpatizar “naturalmente” com o comunismo porque estão atingidos pela pobreza. É óbvio que as nações pobres querem livrar-se da penúria. Na busca de melhora das suas condições insatisfatórias, elas devem, portanto, adotar o sistema de organização econômica da sociedade que melhor atenda a esse objetivo; devem decidir a favor do capitalismo. Iludidas, porém, por hipotéticas ideias anticapitalistas, elas tornam-se favoráveis ao comunismo. De fato, é bem paradoxal que os líderes desses povos orientais, ao mesmo tempo em que invejam a prosperidade das nações ocidentais, rejeitam os métodos que trouxeram prosperidade ao ocidente e se deixam fascinar pelo comunismo russo que mantém pobres os russos e seus adeptos. E, mais paradoxal ainda, é o fato de os norte-americanos, que desfrutam dos produtos gerados pela empresa capitalista exaltarem o sistema soviético e considerarem perfeitamente “natural” que os países pobres da Ásia e da África prefiram o comunismo ao capitalismo.

As pessoas podem discordar quanto a saber se todos devem estudar economia a fundo. Mas uma coisa é certa. O homem que fala em público ou escreve sobre a oposição entre capitalismo e socialismo, sem estar bem familiarizado com tudo o que a economia tem a dizer sobre o assunto, não passa de um tagarela irresponsável.


Notas:

1 Cf. Elmer Roberts, Monarchical Socialism in Germany, New York, 1913
2 Cf. Mania Gordon, Workers Before and After Lenin, New York, 1941, pp. 30e seg.


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