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C.S. Lewis, escritor e professor universitário, ateu por muitos anos, mas depois convertido, é conhecido principalmente pela série de livros As Crônicas de Nárnia. Apesar de seu sucesso, atualmente, se restringir à série anteriormente citada, principalmente pela adaptação ao cinema, Lewis foi também conhecido em parte de sua vida pela defesa dos valores cristãos e escritos não-ficcionais. Tratarei, em quatro artigos, sobre A Abolição do Homem, em que Lewis contrapõe a educação antiga à nova, destaca a necessidade de valores universais e, finalmente, chega à abolição do homem através da abolição dos valores. Cada um dos três primeiros artigos tratará sobre os capítulos individuais, e o quarto sobre o apêndice, em que o autor exemplifica o que chama de Tao. Começarei pelo Homens sem Peito.

Lewis

C.S. Lewis

Homens sem Peito

Lewis começa, nesse capítulo, falando sobre um livro que tem como objetivo ensinar a língua inglesa a crianças do ensino básico. Esse livro, em um exercício, conta uma conhecida história da visita de Coleridge a uma cachoeira. Chegando lá, se depara com dois turistas: Um deles diz que a cachoeira é sublime, outro diz que é bonita. Coleridge, mentalmente, concordou com o primeiro, discordando do segundo. O autor do livro didático, nesse momento, interpela dizendo que, na verdade, os turistas não teceram comentários sobre a cachoeira em si, mas sobre seus sentimentos em relação à cachoeira. Que, resumidamente, o que o turista quis dizer foi “Tenho sentimentos sublimes”.

Lewis aponta, aqui, uma contradição clara: se o turista considerava, de acordo apenas com seus sentimentos, que a cachoeira era sublime, seus sentimentos deveriam ser qualquer coisa abaixo de sublimes; humildes, quem sabe, destaca o autor. Mas aponta uma consequência mais grave, resultante de um entendimento que o aluno poderia tirar da história: Não existe algo bom em si, mas apenas em relação ao estado emocional momentâneo daquele que profere uma atribuição de valor qualquer. Chega, então, ao derradeiro lógico desse estranho raciocínio: Ao discordar de um sentimento que um dos turistas teve, seria equivalente ao caso de um deles dizer que sente-se mal, e Coleridge retrucar “Discordo, sinto-me muito bem”. Essa conclusão acerca da atribuição de valores permeia a educação atual.

Ao falar da educação, Lewis contrapõe a antiga à nova. A antiga tinha como objetivo abrir os olhos da pessoa para que perceba aquilo que é belo, bom, e aquilo que deve ser rejeitado. A nova procura vender, já pronta, uma visão de mundo, de acordo com o que alguns pretendem para a humanidade. Isso fica explícito no seguinte trecho:

Se eles optarem por esse caminho, a diferença entre a educação antiga e a nova será muito significativa. Enquanto a antiga promovia uma iniciação, a nova apenas “condiciona”. A antiga lidava com os alunos da mesma maneira que pássaros crescidos lidavam com os filhotes quando lhes ensinavam a voar; a nova lida com eles mais como o criador de aves lida com os jovens pássaros – fazendo deles alguma coisa com propósito que os próprios pássaros desconhecem. Em suma, a educação antiga era uma espécie de propagação – homens transmitindo a humanidade para outros homens; a nova é apenas propaganda.

Ao não mais saber pelo que é educado, o jovem tem seus valores tolhidos. E isso ocorre ao mesmo tempo em que a sociedade exige de seus integrantes esses mesmos valores. Lewis aponta a contradição em que acaba por incorrer a sociedade nesses moldes na seguinte passagem:

Mal podemos abrir um periódico sem topar com a afirmação de que nossa civilização precisa de mais ímpeto, ou dinamismo, ou auto-sacrifício, ou criatividade. Numa espécie de mórbida ingenuidade extirpamos o órgão e exigimos sua função. Produzimos homens sem peito e esperamos deles virtude e iniciativa. Caçoamos da honra e nos chocamos ao encontrar traidores entre nós. Castramos e ordenamos que os castrados sejam férteis.

Nesse primeiro capítulo, Lewis introduz também a noção de Tao, que apesar de ter origem no pensamento chinês, o autor utiliza para embarcar tudo aquilo que é verdadeiro, aquilo que é comum a todos. Um primeiro contato com esse termo é importante para entender o que se segue nos próximos capítulos. No Tao está aquilo que é correto e aquilo que não, independente do pensamento a que se recorra: platônico, cristão, aristotélico, oriental, estoico. A atribuição de um valor objetivo às coisas, ações. É importantíssimo para entender a defesa de valores universais, já que no Tao tudo está contido.

A Atualidade

A precariedade da nova educação, como dita por Lewis, é facilmente notada na atualidade. No Brasil, hoje, as pessoas tendem a sempre brigar pela melhora das estruturas que forneceriam a educação: investimento financeiro nas escolas, 10% do PIB para a educação, adiante. É impossível negar que a situação em que se encontram as escolas e universidades públicas é deplorável. Mas o maior dos problemas não se encontra aí. É possível fornecer uma boa educação mesmo sem cômodos.

O grande problema da educação atual está em seu modelo. O objetivo deixou de ser o de criar seres pensantes, indivíduos livres, motores de um crescimento não só econômico, mas também humano. Não é mais criar seres que, por onde passam, irradiam conhecimento e inspiram outros a conhecer e pensar, que transfiram seu conhecimento com naturalidade, em vários momentos da vida que não se restrinjam ao estudo ou à sala de aula. O objetivo hoje é massificar. Doutrinar.

Temos a democracia, hoje, como o melhor dos regimes: isso se enraizou em nossa cultura. Mas em seu Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, Pondé destaca um dos grandes reveses desse tipo de regime, o de que “o conhecimento foi substituído pela opinião pública”. Não venho com isso bradar pelo fim da democracia, mas o de apontar um problema real que apenas existe, sem a menor sombra de dúvidas, para que venhamos a o superar.

Olavo de Carvalho, apesar de controverso, disse algo que provavelmente deve ser um pensamento compartilhado por todos (talvez não, as pessoas costumam me surpreender nesse sentido): “Oferecer essa educação para meia dúzia de pessoas é um insulto. Para milhares, é um crime”.