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Parece que há uma tendência entre liberais “exaltados” e libertários a criticar a democracia. A profusão de artigos criticando a democracia (“ditadura da maioria”) é preocupante, porque denuncia a renúncia suicida a um terreno conquistado: se devemos a alguém a democracia moderna, é ao liberalismo. Sem homens como Constant, Tocqueville, Madison ou Locke, a democracia moderna simplesmente inexistiria. Ficaríamos restritos a monarquias absolutistas, feudos e tiranias aos moldes da república espartana.

Ceder este terreno é dar tiro no pé, entregar o ouro para o bandido, rasgar a camiseta da seleção em final de copa jogando contra a Argentina. Isto se torna especialmente perigoso no cenário atual, onde mesmo a extrema-esquerda se auto proclama “democrática”. Eis os motivos:

1 – A semântica é um campo de batalha
Não existem valores democráticos em si, porque democracia é somente um modelo de organização e participação política. Se votamos pela segregação dos judeus e a maioria aprova isso, não se pode dizer que a decisão foi “antidemocrática”.

Porém, por “democrático” o cidadão médio não entende um determinado modelo político e administrativo. O cidadão comum associa o adjetivo “democrático” a valores notoriamente liberais como a liberdade de expressão, a liberdade de culto, a liberdade de escolha, etc. É uma “palavra-gatilho” que desperta uma reação emocional, porque é associada com liberdades civis. Mesmo que a democracia não necessariamente implique em liberdade, ela costuma ser associada com ela. Como onde há fumaça há fogo, criticar a democracia acaba soando para os leigos, maioria esmagadora da população, como negação das liberdades civis e dos direitos políticos.

2 – A ditadura da maioria já foi refutada
Não há nada de novo no discurso pseudo-democrático das esquerdas. A noção de democracia invocada é o velho, batido, surrado conceito de soberania popular defendido por Rousseau e que é inspirado nas democracias e repúblicas da Antiguidade. Ou seja, é a definição mais reacionária possível de democracia, que é aquela dos antigos gregos e romanos: um modelo político dos tempos que era super democrático censurar tudo e privacidade inexistia, de quando democracia “participativa” significava 1/8 (um oitavo) da população decidindo contra qual cidade-estado fazer guerra enquanto os escravos trabalhavam no campo.

A noção de democracia da esquerda (“participativa”, “social”, “orgânica”) vem da época que a Pátria e o Estado eram parte da Religião. Foi revitalizada por utopistas, tal qual Rousseau, como um modelo a copiar na França após o sucesso da Revolução Francesa.  O seu fracasso e inaplicabilidade já foram explicados por Benjamin Constant e Alberdi. Ou seja, é cachorro morto. Não é necessário mais do que ler liberais clássicos para demonstrar que aquilo que a esquerda vem chamando democracia é um modelo obsoleto e que implica na total destruição das liberdades civis conquistadas ao longo de séculos.

3 – A Democracia como ela deve ser
Como já foi dito, as pessoas costumam associar à democracia as liberdades civis de expressão, culto, associação, etc. Isto porque as pessoas ainda associam o termo à democracia representativa e liberal, ao Estado de Direito. Elas dificilmente fazem associação direta com as utopias comunistas onde “todos” escravizam cada um, onde o Estado oprime ao máximo o indivíduo e interfere nos mais íntimos detalhes da vida “democraticamente”.

As pessoas valorizam mais as liberdades do que o poder em si, e por isso inferem acertadamente que democracia deve significar o respeito aos direitos e às liberdades do cidadão. Isto é uma conquista do liberalismo para ser mantida, não para ser jogada aos cães.


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