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A Civilização Ocidental como conhecemos possui três importantes pilares: a Moral Cristã, o Filosofia Clássica (Grega, principalmente) e o Direito Romano. Não uma simples combinação entre eles, já que a mescla entre eles gerou uma mudança considerável no entendimento dos três. Não cabe a esse artigo realizar uma profunda análise da formação ocidental (de que maneira se deu; quem sabe futuramente), mas olhar para o ponto em que o ocidente começou a se definir como aquele que conhecemos hoje. Esse momento foi o que, após um início tímido na medievalidade, resgatou a filosofia clássica e impregnou o pensamento com Humanismo e Racionalismo. Esse período foi o da renascença.

Durante a medievalidade, existia uma composição estável entre os governos seculares, herdeiros da cultura “bárbara” europeia, de um resquício do Império Romano e da ascensão do cristianismo. De maneira geral, o sistema era simples e claramente hierarquizado: o território era propriedade de um Rei, legitimado pela Igreja, e partes dessa propriedade eram delegadas a vassalos. Estes prestavam conta ao rei, e dividiam a terra entre os camponeses, que trabalhavam na terra e pagavam pesados tributos (parte da produção, e parte em dinheiro), divididos entre os aristocratas, o senhor das terras, o rei e a Igreja.

Mas um fenômeno começou a desestabilizar essa estrutura: O surgimento das cidades. Esse fenômeno permitiu que pessoas não ligadas à aristocracia começassem a enriquecer. O acontecimento pode ser explicado pelo fato de que as cidades permitiram um aumento populacional que aumentou a demanda por comida, aumentando seu preço e enriquecendo inclusive os camponeses. Isso fazia com que estes pudessem comprar os terrenos em que trabalhavam e não mais precisassem cumprir para com certas obrigações.

Como não mais eram protegidos por seus senhores feudais, passaram a migrar para os burgos (cidades). Isso causou o declínio do poder não apenas do Rei, mas também daqueles que mantinham uma forte relação com o mesmo. Resultou na diminuição do poder da Igreja, que controlava de forma agressiva aquilo que poderia ser ou não ensinado. Começou a ser resgatada, daí, a filosofia clássica, cuja interpretação era limitada pelos ensinamentos do clero, restritos aos monges (intelectuais da época). É claro que esse movimento gerou uma contrapartida, que resultou no movimento barroco, mas este é matéria de outro artigo.

1. Mudanças Religiosas

Se houve um grande ataque à Igreja Católica, maior que sua perda natural de influência resultante do surgimento das cidades, foi a Reforma Protestante. Martim Lutero, principal representante do movimento, posicionou-se, por motivos religiosos, políticos e sociais contra a Igreja Católica. O marco, aqui, foram as 95 teses de Lutero.

Os conflitos entre alguns reis e o Papa, a condenação pelos católicos da usura (o que deixava os burgueses desconfortáveis), o desejo de certos nobres de deixar de pagar os tributos papais foram algumas das motivações. Combateu também a avareza da Igreja, e a acusou de paganismo.

Martim Lutero, expoente da reforma protestante

2. Mudanças Estruturais

O surgimento das cidades fortaleceu o comércio com o Oriente e incentivou a migração de inúmeras pessoas. Isso alterou a relação entre oferta e demanda de alimentos, o que os encareceu e permitiu que os camponeses comprassem as terras em que trabalhavam. Livres de suas obrigações, mas ameaçados pela falta de proteção, passaram a migrar para as cidades, alterando cada vez mais a relação explicitada anteriormente. Fica claro o efeito bola de neve que isso causou, levando o feudalismo a um forte declínio na maioria das regiões, principalmente aquelas em que a reforma protestante foi bem sucedida.

A ascensão dos burgos afetaram gravemente a estrutura feudal

Exemplo de Feudo

3. Mudanças Econômicas

Como resultado das duas mudanças anteriores, uma alteração profunda nas relações econômicas aconteceu. Com o fortalecimento do protestantismo, que era dotado de certa característica determinista, auxiliou, juntamente com o surgimento das cidades, o capitalismo a aflorar. Essa análise foi realizada por Weber, em “Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. O capitalismo, com sua visão de meritocracia, era inerentemente incompatível com a noção de privilégios, vigente no sistema aristocrata feudal.

4. Mudanças Filosóficas

Aqui começam as mais determinantes mudanças para a evolução do pensamento e seu desencadeamento no período romântico (este marcado pelo pensamento iluminista). O resgate da filosofia clássica retirou Deus do centro das relações sociais e colocou o homem, criando uma filosofia humanista, antropocentrista, e em certa medida, já individualista (apesar de essa característica ser mais notada posteriormente). A filosofia clássica já era estudada na medievalidade, mas os estudos eram restritos aos escolásticos, e com uma influência mais platonista (Aristóteles foi um pouco, acredito que propositalmente, esquecido, sendo pouco lembrado por Tomás de Aquino), já que a filosofia platônica era mais compatível com a filosofia cristã. É claro que essa mudança se deu, primeiramente, de forma mais intensa nas cidades, já que a estratificação do modelo feudal ainda era justificada pela filosofia da Igreja, ainda dominante. Os principais nomes dessa mudança foram Francesco Petrarca, Dante Alighieri e Boccaccio. Apesar de tudo isso, o que prevaleceu foi um neoplatonismo.

Dante Alighieri

5. Movimentos Artísticos

O período renascentista ficou marcado pelo nascimento do classicismo, que era fortemente influenciado pela arte grega. As artes sofreram uma alteração de paradigma, tendo, em geral, um apelo maior ao rigor estético e sobriedade. Na literatura, Camões foi um grande representante. A música renascentista não se desenvolveu de imediato ao classicismo, mas criou a noção de contraponto, essencial na música barroca (curiosamente, o movimento de contrarreforma). Nesse momento começou a se moldar aquilo que conhecemos como a arte clássica ocidental, rigorosa esteticamente, e de forte apelo ideológico e filosófico. A arte deixou de glorificar apenas a Deus, e passou a contemplar aquilo que era construído pelo homem. A referência à religião ainda era dominante, mas outros temas passaram a ser abordados. Algumas obras ilustres, além das apresentadas abaixo, foram a Mona Lisa e A Última Ceia, ambas de Da Vinci.

Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli – Fica evidente a influência da mitologia antiga – romana no caso.

Escola de Atenas, de Rafael Sanzio

5. Ciência

A ciência, como a conhecemos, passou a existir e ser desenvolvida no renascimento. A intelectualidade, aqui, explodiu e causou grande furor principalmente na Igreja, já que acabava por ter sua visão contestada. O nome mais conhecido é do ilustre inventor Leonardo da Vinci: além de pintor, engenheiro, matemático, anatomista. Apesar de não ter se desenvolvido à maneira contemporânea, abriu espaço para que filósofos como Descartes desenvolvessem o método científico e dessem início à Revolução Científica.

O movimento renascentista abriu caminho para dois importantíssimos movimentos culturais e filosóficos: o barroco e o romântico. Serão abordados, respectivamente, nos próximos artigos.