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Por Mario Vargas Llosa. Traduzido e adaptado para o português do Brasil por Renan Felipe dos SantosArtigo publicado originalmente no jornal La Nación em 7 de fevereiro de 2001. Para ler o artigo original em espanhol, clique aqui.

A fins do século XIX, nas candentes terras dos estados nordestinos de Sergipe e Bahia, no Brasil, teve lugar uma sublevação camponesa, liderada por um carismático pregador, o Apóstolo Ibiapina, contra o sistema métrico decimal. Os rebeldes, apelidados quebra-quilos, assaltavam as lojas e armazéns e destroçavam os novos pesos e medidas – as balanças, os quilos e os metros- adotados pela monarquia com o propósito de homologar o sistema brasileiro ao predominante no Ocidente e facilitar deste modo as transações comerciais do país com o resto do mundo. Este intento modernizador pareceu sacrílego ao Padre Ibiapina e muitos de seus partidários morreram e mataram tratando de impedí-lo.

A guerra de Canudos, que eclodiu poucos anos depois no interior da Bahia, contra o estabelecimento da República brasileira, foi também um heróico, trágico e absurdo empenho para deter a roda do tempo semeando cadáveres em seu caminho. As rebeliões dos quebra-quilos e dos jagunços, além de pitorescas e inusitadas, tem um poderoso conteúdo simbólico. Ambas formam parte de uma robusta tradição que, de um extremo a outro do continente, acompanhou a história da América Latina, e que, em vez de desaparecer, se acentuou a partir da emancipação: a troca do real pelo possível, em nome do imaginário e da quimera. Ninguém definiu melhor que o poeta peruano Augusto Lunel, nas primeiras linhas de seu Manifesto: ‘Estamos contra todas as leis, começando pela lei da gravidade’. Rechaçar a realidade, empenhar-se em sustituí-la pela ficção, negar a existência vivida em nome de outra, inventada, afirmar a superioridade do sonho sobre a vida objetiva, e orientar a conduta em função de tal premissa, é a mais antiga e a mais humana das atitudes, aquela que gerou as figuras políticas, militares, científicas, artísticas, mais chamativas e admiradas, os santos e os heróis, e, por acaso, o motor principal do progresso e da civilização. A literatura e as artes nasceram dela e são seu principal alimento, seu melhor combustível. Mas, ao mesmo tempo, se a negação da realidade transborda os confis do individual, do literário e do artístico, e contamina o coletivo e o político – o social, tudo o que esta postura entranha de idealista e generoso desaparece, é substituído pela confusão e o resultado é geralmente aquela catástrofe em que desembocaram todas as tentativas utópicas na história do mundo. Escolher o impossível – a perfeição, a obra prima, o absoluto – teve extraordinárias consequências no âmbito criativo, de Quixote à Guerra e Paz, da Capela Sistina à Guernica, de Don Giovanni de Mozart à segunda sinfonia de Mahler, mas querer modelar a sociedade desconhecendo as limitações, contradições e variedades do humano, como se homens e mulheres fossem uma argila dócil e manipulável capaz de ajustar-se a um protótipo abstrato, desenhado pela razão filosófica ou o dogma religioso com total desprezo pelas circunstâncias concretas, do aqui e do agora, contribuiu, mais que qualquer outro fator, a aumentar o sofrimento e a violência. Os vinte milhões de vítimas com que, só na União Soviética, se saldou a experiência da utopia comunista são o melhor exemplo dos riscos que correm aqueles, na esfera do social, apostam contra a realidade.

O inconformismo que significa viver em conflito com o possível e o real fez com que a vida latino-americana seja intensa, aventureira, imprevisível, cheia de cor e criatividade. Que diferença da bovina e sossegada Suíça, onde escrevo estas linhas! Recordo nestes dias atrozmente plácidos aquela feroz afirmação de Orson Welles a Joseph Cotten, em O Terceiro Homem, o filme de Carol Reed escrito por Graham Greene: ‘Em mil anos de história, os civilizados suíços só produziram o relógio cuco’ (ou algo assim). Na realidade, produziram também o fondue, um prato desprovido de imaginação, mas decoroso e provavelmente nutritivo. Com exceção de Guilherme Tell, que, aliás, nunca existiu e precisou ser inventado, duvido que jamais houve outro suíço que perpetrara esta sistemática negação da realidade que é o mais difundido costume latino-americano. Um costume graças ao qual tivemos um Borges, um García Márquez, um Neruda, um Vallejo, um Octavio Paz, um Lezama Lima, um Lam, um Matta, um Tamayo, e inventamos o tango, o mambo, os boleros, a salsa e tantos ritmos e canções que o mundo inteiro canta e dança. Entretanto, apesar de ter deixado atrás o subdesenvolvimento há tempo em matéria de criatividade artística -neste campo aliás somos imperialistas- a América Latina é, depois da África, a região do mundo onde há mais fome, atraso, desemprego, dependência, desigualdades econômicas e violência. E a pequena e bocejante Suíça é o país mais rico do mundo, com os mais altos níveis e qualidade de vida que ofereça um país de hoje a seus cidadãos (a todos, sem exceção) e a muitos milhares de imigrantes. Ainda que é sempre aventurado supor a existência de leis históricas, me atrevo a propor esta: o progresso social e econômico está em relação diretamente proporcional ao aborrecimento vital que significa acatar a realidade e inversamente proporcional à efervescência espiritual que resulta de insubordinar-se contra ela.

Os quebra-quilos de nossos dias são os milhares de jovens latino-americanos que, movidos por um nobre ideal, sem dúvida, acudiram a manifestar-se em Porto Alegre contra a globalização, um sistema tão irreversível em nossa época como o sistema métrico decimal quando os seguidores do Apóstolo Ibiapina declararam guerra aos metros e aos quilogramas. A globalização não é, por definição, nem boa nem má: é uma realidade de nosso tempo que resultou de uma soma de fatores, o desenvolvimento tecnológico e científico, o crescimento das empresas, dos capitais e dos mercados e a interdependência que isto foi criando entre as distintas nações do mundo. Grandes prejuízos e grandes benefícios podem resultar desta progressiva dissolução das barreiras que, antes, mantinham os países confinados em seus próprios territórios e, muitas vezes, em franco conflito com os demais. O bem e o mal que traz consigo a globalização depende, claro está, não dela mesma, mas de cada país. Alguns, como a Espanha na Europa ou Singapura na Ásia, a aproveitam esplendidamente, e o colossal desenvolvimento econômico que ambos experimentaram nos últimos vinte anos tem resultado em boa parte destes massivos investimentos estrangeiros que estes dois países tem sido capazes de atrair. Cito a ambos porque são dois exemplos excepcionais dos extraordinários benefícios que uma sociedade pode sacar da internacionalização da economia. (Singapura, uma cidade-estado de tamanho liliputiense, recebeu nos últimos cinco anos mais investimentos estrangeiros que todo o continente africano).

Por sua vez, não há dúvida alguma que a países como a Nigéria do defunto general Abacha, o Zaire do extinto Mobutu e ao Peru do prófugo Fujimori, a globalização lhes trouxe mais prejuízos que benefícios, porque os investimentos estrangeiros, em vez de contribuir ao desenvolvimento do país, serviram sobretudo para multiplicar a corrupção, enriquecer mais aos ricos e empobrecer mais aos pobres. Nove bilhões de dólares entraram nos cofres peruanos graças às privatizações efetuadas durante o regime ditatorial. Não resta dele um só centavo, e a dívida externa cresceu, desde o golpe de Estado de 1992, em cinco bilhões de dólares. Que magias, que milagres volatilizaram estas vertiginosas somas sem que delas sobrasse praticamente nada a estes vinte e cinco milhões de peruanos que vivem hoje a pior crise econômica de toda sua história, com recordes de desemprego, fome e marginalização? Ainda que parte importante delas tenha sido desperdiçada em operações populistas, e outra comprando armamento velho com faturas de novo, a verdade é que a maior parte do dinheiro foi pura e simplesmente roubada por esse bando de gângsteres que encabeçavam Fujimori e Montesinos e os quarenta ladrões à sua volta, e repousa, hoje, a salvo, nos abundantes paraísos fiscais do planeta. Pior ainda é a história do que ocorria na Nigéria nos tempos do general Abacha, que, como é sabido, exigia às transnacionais petrolíferas que abonassem diretamente os royalties que deviam ao país em suas contas privadas na Suíça, contas que, como as de Mobutu, chegam pelo visto à vertiginosa soma de uns dos bilhões de dólares. Frente a estes titãs, Vladimiro Montesinos, para o qual se calcula só um milhão de dólares roubados, é um pigmeu.

A conclusão que se pode tirar destes exemplos é bastante simples: os prejuízos da globalização se conjuram com a democracia. Nos países onde imperam a legalidade e a liberdade, ou seja, regras de jogo equitativas e transparentes, o respeito aos contratos, tribunais independentes e governantes representativos, submetidos a uma fiscalização política e ao escrutínio de uma imprensa livre, a globalização não é maldição, mas o contrário: uma maneira de queimar etapas na corrida do desenvolvimento. Por isto, nenhuma democracia sólida, do primeiro ou do terceiro mundo, protesta contra a internacionalização da economia; mas a celebra, como um instrumento eficaz para progredir. A abertura das fronteiras só é prejudicial aos países onde os sistemas autoritários se servem dela para multiplicar a corrupção, e onde a falta de leis justas e de liberdade de crítica permitem muitas vezes estas alianças mafiosas entre corporações e delinquentes políticos das quais os casos de um Abacha, um Mobutu e um Fujimori são típicos exemplos.

A lição que temos de tirar destes precedentes é a necessidade imprescindível de globalizar a democracia, não a de por fim à globalização. Mas a democracia tem grandes dificuldades para aclimatar-se em países relutantes, por tradição e por cultura, a aceitar a pobre realidade, o medíocre caminho do gradualismo, do possível, da transição e do compromisso, da coexistência na diversidade. Isto está bom para os férreos suíços, tão pragmáticos e realistas, não para nós, sonhadores absolutistas, intransigentes revolucionários, amantes da irrealidade dos terremotos sociais. Por isto, em vez de exigir mais globalização, lutar, por exemplo, para que os países desenvolvidos levantem medidas protecionistas que fechem seus mercados para os produtos agrícolas do terceiro mundo -uma injustiça flagrante-, peçamos menos. Ou seja, como o Padre Ibiapina, que a roda do tempo se detenha, retroceda, e nos leve de volta ao isolamento e à fragmentação nacionalista que encheu nossos países de famintos e miseráveis. Mas, isto sim, pletóricos de risco, aventura, novidades, boa música e excelentes artistas.