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Venho, nesse artigo, mudar um pouco o foco de minhas últimas publicações no site e retornar ao que fazia mais no início: explorar concepções da filosofia política. Normalmente tenho como parâmetro o pensamento conservador e, dessa vez, apesar de analisar o paradigma liberal, não mudo o filtro: a análise do pensamento liberal, deixo claro desde já, será através dos olhos de um conservador. Tendo isso em vista, apresentarei duas possíveis consequências do viés liberal de tolerância sempre pautado na sociedade como a conhecemos, dispensando o excesso teórico e analisando resultados reais dessa neutralidade herdada dos iluministas.

Para entender essa neutralidade, acredito ser necessário voltarmos aos primórdios da filosofia como a conhecemos: Com Sócrates, buscando o melhor conceito; com Platão, buscando o absoluto; com Aristóteles, buscando o justo meio e a prudência. Então a filosofia se dividiu em diversos ramos, alguns continuando em sua busca por aquilo que é absoluto, outros negando a possibilidade de conhecer tal conceito, abrindo espaço para o relativismo, entre outros. O debate sempre existiu. Mas depois de algum tempo passou a ser praticamente unanimidade a impossibilidade de conhecermos aquilo que é absoluto, e a ética e a moral passaram a um subjetivismo excessivo. Chegamos ao ponto em que nem mesmo a vida, ideal supremo dos liberais, é um valor absoluto.

Com o iluminismo, principalmente Voltaire, foi sedimentado o ideal de tolerância. Tolerância não só ao comportamento diferente, mas às diferentes concepções do bem e do mal. Das diferentes morais e culturas. A tolerância é, certamente, uma virtude. Mas até que ponto?

Desde o advento do capitalismo, alguns filósofos procuraram diversas maneiras de destruí-lo, a começar pelos socialistas utópicos. Mas a primeira teoria a causar um impacto real no sistema vigente foi a de Marx e sua tese da exploração. Apesar de se sustentar sobre uma teoria de valor equivocada e uma lógica duvidosa, foi um verdadeiro arrasta-quarteirões. Desde então os socialistas buscaram diversas maneiras de induzir o trabalhador ocidental à revolução. As principais durante o século XX foram a Escola de Frankfurt, Gramsci, e suas teses sobre a desconstrução da cultura ocidental. Voltamos a eles depois.

Esses dois pensamentos me levam a conclusões divergentes à respeito dos efeitos da tolerância que passou a fazer parte do comportamento do ocidental. A primeira é de uma liquidez benéfica resultante dessa neutralidade. O ocidente liberal tem a liberdade como tão alto valor, que passou a encarar os movimentos de contra cultura de forma natural. E não só isso, passou a englobá-los e torná-los parte da própria cultura, de modo a tornar seus efeitos inofensivos. Mais ainda, passou a lucrar sobre esses movimentos. Um grande exemplo foi o movimento punk. Se ele começou como uma luta contra o capitalismo, logo apareceram os Sex Pistols justamente para ganhar dinheiro em cima dessa imagem. Pouco tempo depois os punks já estavam associados à cultura ocidental, principalmente como movimento artístico, através de sua música. Os hippies foram outro desses exemplos.

Por outro lado, existe a possibilidade de, ao tolerar e englobar cada vez mais culturas, mais concepções morais contraditórias (as considerando como apenas questões de foro íntimo), a cultura ocidental tornar-se autofágica. Após a superação das terríveis teorias racialistas, a antropologia se pôs a estudar outras culturas com o objetivo velado de criticar a ocidental. Passamos a entender as outras culturas, pregar o respeito a todas elas, menos à nossa própria. E toleramos esse comportamento dentro de nossa própria cultura. Um comportamento autodestrutivo que se instala sem resistências e corrói os princípios da civilização ocidental, um a um, a partir do momento que desconstrói a moral judaico-cristã (pilar da civilização ocidental) e como consequência relativiza valores que nos são basilares como a vida (através do aborto), a liberdade (através do paradigma da igualdade) e da propriedade (através da imposição das ideias socialistas). E o impacto que isso possui na democracia é visível: a democracia é usada para, ao invés de pacificar e conciliar os conflitos sociais, fomentar disputas de classe semelhante à que propôs Marx, mas baseada na moral e não na renda.

Dentre as duas, qual a mais provável? Vejo na segunda, infelizmente, um grande potencial vindo a confirmar a tese dos embusteiros de Frankfurt. Nesse ritmo, daqui algumas décadas, o socialismo será visível. Mas não através da revolução, mas sim porque a sociedade se degradará cada vez mais em conflitos dentro do próprio pensamento ocidental, que permitirá que os políticos socialistas, gradualmente, implantem seus pensamentos. Então, no fim, a tolerância Iluminista teria sido deturpada de modo a valer apenas para um dos lados, enquanto abarca cada vez um número maior de pensamentos morais contraditórios entre si que viriam a lutar através do sistema democrático e degradar a sociedade.